| Casablanca Tropical Veja 07/02/2001 Documentos in�ditos revelam que o Rio foi centro mundial de espi�es na II Guerra Hitler com tropa alem� e, � direita, material apreendido em r�dio clandestina montada por alem�es no Brasil: pa�s era estrat�gico para as comunica��es atrav�s do Atl�ntico In�cio dos anos 40. O cen�rio � o Cabaret 1900, bar instalado em um antigo casar�o. � administrado por um intelectual homossexual e uma italiana expatriada, casada com um oficial da resist�ncia francesa. O lugar � freq�entado por diplomatas ingleses e americanos, franceses da Resist�ncia, republicanos espanh�is fugidos da persegui��o franquista, homens de neg�cios, mulheres bonitas e muitos, muitos espi�es. No bairro vizinho fica o Caf� Hamburgo, cujo dono � alem�o. Os freq�entadores do Hamburgo s�o diplomatas alem�es e italianos, empres�rios com neg�cios nesses pa�ses e, novamente, espi�es. Mais do que se ocupar com m�sica, bebida e mulheres, os clientes habituais desses bares est�o interessados em trocar impress�es sobre a guerra, passar informa��es sobre a chegada de navios inimigos aos portos, trocar correspond�ncia cifrada, marcar encontros e ficar com o radar ligado a tudo o que se passa por ali. Panfleto de contrapropaganda inglesa mostra a Am�rica do Sul como v�tima potencial da amea�a nazista: guerra pelo apoio da opini�o p�blica A cena acima poderia ser ambientada em qualquer cidade europ�ia durante os primeiros anos da II Guerra Mundial. No entanto, essa febril movimenta��o se dava a milhares de quil�metros do epicentro do conflito. Mais precisamente, na bo�mia zona da Lapa e no vizinho bairro da Gl�ria, no cora��o do Rio de Janeiro, ent�o capital de um Brasil cujo governo ainda titubeava em decidir qual lado apoiar na guerra. Apesar da dist�ncia do campo de batalha, entre 1939 e 1945 o Brasil esteve muito mais envolvido com a guerra do que comumente se sup�e. Por sua posi��o estrat�gica no fornecimento de mat�rias-primas e nas comunica��es atrav�s do Atl�ntico, o pa�s foi alvo de uma feroz disputa entre os aliados e os pa�ses do Eixo. Documentos in�ditos descobertos por VEJA no Arquivo P�blico do Rio de Janeiro revelam que o Brasil, durante a guerra, transformou-se em palco da espionagem internacional. Mais: mostram tamb�m pormenores do jogo de press�es e intrigas que a ditadura Vargas sofreu das pot�ncias envolvidas no conflito para sair da neutralidade. Get�lio Vargas Durante duas semanas, VEJA compulsou cerca de 3.000 documentos, guardados em 24 pastas. O material inclui cartas trocadas entre embaixadas e seus governos, documentos apreendidos com espi�es dos dois lados, planos de sabotagem, detalhes sobre r�dios clandestinas, indiscri��es cometidas por amantes de alguns senhores da alta burocracia das na��es em guerra e acusa��es secretas a integrantes do c�rculo do presidente Get�lio Vargas. Esse ac�mulo de informa��es foi poss�vel gra�as a um inacreditavelmente diligente servi�o secreto tupiniquim. Os agentes do major Filinto M�ller, o temido chefe de Pol�cia do Estado Novo, acompanharam, passo a passo, a partir de 1939, toda a movimenta��o estrangeira no pa�s. Seus relatos foram incorporados ao acervo do Departamento da Ordem Pol�tica e Social (Dops), hoje em poder do Arquivo P�blico fluminense. Ainda que se possa e se deva relativizar algumas an�lises e dedu��es desses arapongas, � ineg�vel a import�ncia desse farto material, que ajuda a desnudar o conturbado clima da �poca. A��o radical � At� agora, apenas a espionagem alem� no pa�s havia sido tornada p�blica e dissecada pelos pesquisadores. "Estes documentos v�o ajudar a reescrever a hist�ria do Brasil", afirma a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de S�o Paulo (USP), uma das maiores estudiosas da era Vargas. Um exemplo do que ela diz � o relat�rio de um agente secreto brasileiro infiltrado na Embaixada da Inglaterra. O documento revela a proposta inglesa de desestabilizar o governo Vargas como forma de for��-lo a se decidir pelo apoio aos aliados. Datado de 1� de maio de 1941 (veja documento), narra uma reuni�o mantida na v�spera entre o adido naval brit�nico, D. Pullen, o embaixador da Inglaterra, Jeoffrey Knox, e um diplomata americano. Nesse encontro, diz Pullen, com toda a emp�fia colonialista brit�nica: "A germanofilia dos oficiais que servem no Minist�rio da Guerra se explica por diversos fatores. Um dos principais � a incapacidade intelectual do ministro Eurico Gaspar Dutra". Inconformado com a indefini��o de Vargas, o diplomata brit�nico prop�e uma a��o radical contra o Brasil: o boicote econ�mico, por meio da redu��o dr�stica das importa��es de mercadorias brasileiras e do fornecimento de �leo combust�vel e mat�rias-primas para a ind�stria nacional. Uma a��o que tinha um objetivo �bvio � "trazer descontentamento, desemprego e rea��o social". Pullen, no entanto, acreditava que esse programa s� teria �xito se fosse executado com a colabora��o dos Estados Unidos. Uma carta com as considera��es de Pullen seguiu no dia seguinte para a Inglaterra, com c�pia para a embaixada americana no Brasil. As press�es dos Estados Unidos foram intensas, mas o pa�s tinha uma forma mais sedutora de agir. Fazia acordos de coopera��o, liberava empr�stimos e tocava num ponto fraco do governo brasileiro: enviava informa��es sobre comunistas na Am�rica do Sul. Filinto M�ller, chefe de pol�cia N�o se sabe se as propostas do adido naval tiveram alguma influ�ncia sobre o comportamento do governo de Winston Churchill em rela��o ao Brasil. Mas o relato obtido por VEJA exp�e com tintas fortes o ambiente pouco amig�vel entre a embaixada brit�nica e o Brasil desde o in�cio do conflito, em 1939. Os brit�nicos estavam convencidos de que a ditadura Vargas cevava uma profunda simpatia pelos nazistas. Em seus relat�rios pouco diplom�ticos, batiam asperamente nos integrantes do governo. Chamam a aten��o os ataques ao chanceler Oswaldo Aranha, que costumava ser identificado como defensor da causa dos aliados. Os ingleses, por�m, n�o viam a coisa dessa forma. Eles o acusam at� de favorecer o com�rcio com a Alemanha e obter vultosos lucros com essas opera��es (veja documento). � claro que � sempre prudente n�o abra�ar as opini�es de diplomatas como se fossem inatac�veis t�buas da lei. Mais uma vez, por�m, o que importa � perceber o ambiente de animosidade, desconfian�a e intriga reinante. A crise entre os dois pa�ses chegou a seu �pice no final de 1939, quando a esquadra brit�nica interceptou os navios brasileiros Itap� e Siqueira Campos, apreendendo toda a carga. Em seu relat�rio ao Dops, o araponga infiltrado na embaixada conta que os brit�nicos n�o estavam preocupados com a rea��o brasileira. A justificativa para o ataque foi que a bordo do Itap� havia tripulantes de navios alem�es munidos de documentos falsos fornecidos por autoridades policiais e consulares brasileiras. A ira dos brit�nicos sobre a cabe�a de Oswaldo Aranha s� come�ou a se dissipar no final de 1941, um pouco antes de o Brasil romper com os pa�ses do Eixo, o que aconteceu em janeiro de 1942. Um dossi� de 8 de agosto de 1941 descreve uma conversa entre o chanceler e funcion�rios da embaixada brit�nica na qual ele empenha sua palavra no apoio brasileiro aos aliados. Caso contr�rio, Aranha romperia com o governo Vargas. Acirrada vigil�ncia � Embora o Brasil se tenha decidido pelos aliados, n�o � novidade a inclina��o de diversos integrantes da ditadura Vargas pelas id�ias nazistas. Essa certeza hist�rica � refor�ada por um documento do arquivo sobre um epis�dio emblem�tico: em 1941, o Brasil recusou-se a receber judeus alem�es refugiados de guerra que chegaram ao Porto do Rio de Janeiro a bordo do navio cargueiro japon�s Uruguai Maru. "Conhe�o outras a��es semelhantes, mas esse era um epis�dio desconhecido at� hoje", diz a historiadora Maria Luiza, que est� escrevendo um livro sobre a disposi��o anti-semita do governo Vargas. Mas, ao mesmo tempo em que refor�am a tese da tend�ncia german�fila do governo brasileiro, os documentos revelam que essa simpatia n�o reduziu a acirrada vigil�ncia dos agentes brasileiros sobre alem�es, japoneses e italianos. Eles foram sistematicamente vigiados desde 1939. Suas a��es eram acompanhadas de perto pelos brasileiros, que desbarataram v�rios esconderijos de r�dios clandestinas montadas por espi�es daqueles pa�ses. O r�dio era fundamental para as comunica��es com navios de guerra e submarinos que navegavam pelo Atl�ntico. Carlo Zampari, um espi�o italiano preso pelo servi�o secreto brasileiro, admitiu, ap�s intenso interrogat�rio, que fora enviado ao Brasil em 1941, pela armada italiana, para montar uma rede de r�dio que informasse sobre a movimenta��o de navios inimigos. Impressiona tamb�m a revela��o de que a presen�a alem� no Brasil n�o se restringiu � espionagem. Foi intensa a a��o de sabotagem dos nazistas, acentuada a partir do rompimento brasileiro com os pa�ses do Eixo. Um dos documentos mais estarrecedores � a confiss�o do chefe do servi�o de sabotagem alem� na Am�rica do Sul, o engenheiro Georg Blass, conhecido pelo codinome de "doutor Braun". Durante anos, Braun foi procurado pelos servi�os secretos de todo o continente, at� ser preso no Brasil em 1943. Submetido a dez horas di�rias de interrogat�rio, durante oito dias, Braun capitulou. Acabou confessando at� um ousado � e frustrado � plano dos alem�es de explodir a Usina de Cubat�o. Se tivesse dado certo, as cidades de Santos e S�o Paulo ficariam sem luz por mais de um ano, dada a impossibilidade de importar os equipamentos necess�rios para refazer a obra. Braun revelou planos de sabotagem alem�es a navios, ind�strias e avi�es, al�m de ter denunciado seus colegas. Em 1945, 47 espi�es alem�es estavam presos no Brasil. Em outubro de 1941, o servi�o secreto brit�nico resolveu prejudicar as opera��es brasileiras da principal companhia de avia��o da It�lia, a Linhas A�reas Transcontinental Italiana (Lati). Pelos avi�es da Lati voavam espi�es alem�es e italianos com documentos falsos e tamb�m eram despachados informes confidenciais nas malas de bordo dos tripulantes. Para acabar com a farra, os ingleses forjaram um assalto � casa do presidente da Lati, comandante Vicenzzo Coppola. Ao investigar o assalto, a pol�cia brasileira encontrou c�pia de uma carta que teria sido enviada por Coppola a um certo comandante F. Pietro, na It�lia, de conte�do ofensivo ao presidente Vargas, tratado como "gorducho", e aos brasileiros, descritos como "macacos". A carta � falsa, � claro � propunha que se desse dinheiro aos integralistas para que eles derrubassem Vargas. Pouco depois, a Lati foi proibida de operar no Brasil (veja documentos). Ao ser obrigado a deixar o pa�s ap�s o rompimento de rela��es do Brasil com a It�lia, Coppola protagonizou outra hist�ria mirabolante. Escondeu na casa de sua amante, na Praia do Flamengo, todo o dinheiro e documentos da companhia que seriam expropriados pelo governo brasileiro. A mo�a, Alice Morais Ivanovitz, com medo de ser descoberta, entregou o dinheiro ao ex-namorado, um juiz que vivia alcoolizado. O juiz torrou boa parte da dinheirama italiana com jogo e bebidas, num epis�dio dos mais saborosos do acervo do Arquivo P�blico do Rio de Janeiro. N�o faltavam a essa cr�nica de guerra casos relacionados � resist�ncia francesa. Inocentes ch�s e "salas de costura" organizados por senhoras da sociedade carioca arrecadavam fundos para a resist�ncia, comandada pelo general Charles de Gaulle, ent�o exilado na Inglaterra. Nessas reuni�es eram passadas instru��es do comando de De Gaulle para os membros da Resist�ncia no Brasil, colocadas em insuspeitas caixas de costura. Tamanha precau��o se explica. Nessa �poca, a ditadura Vargas reprimia organiza��es estrangeiras. Em 1941, os integrantes da resist�ncia que se reuniam numa sala de um pr�dio na Pra�a Tiradentes, no centro do Rio, foram presos por descumprir a lei. Os franceses, por�m, n�o se davam por vencidos e espalhavam cartazes conclamando � resist�ncia. Os ingleses distribu�am secretamente material de contrapropaganda em que um Hitler furioso apregoava o dom�nio do Brasil e dos brasileiros pelo III Reich. Na outra ponta do ringue, os nazistas espalhavam cartilhas e cartas mimeografadas revelando os horrores do imperialismo brit�nico. Mas nem tudo era guerra. Os espi�es internacionais tamb�m protagonizaram grandes hist�rias de amor. Um dos mais importantes chefes da espionagem alem�, Niels Christian Christensen, ao ser preso, acabou entregando v�rios segredos em troca da garantia de que poderia ver sua namorada, a brasileira Ol�via Batista Pereira. O historiador Andr� Campos, da Universidade Federal Fluminense (UFF), considera que os arquivos agora descobertos ser�o uma mina de ouro para pesquisadores. Embora relativize a exatid�o de informa��es fornecidas por arapongas, ele afirma que esse conjunto de documentos redimensiona a complexidade da rede de espionagem montada no pa�s durante a II Guerra. Essa papelada mostra que o Rio de Janeiro do in�cio dos anos 40 poderia perfeitamente servir de cen�rio para Ingrid Bergman e Humphrey Bogart viverem o maior cl�ssico de amor e espionagem de guerra da hist�ria do cinema. O Rio foi uma esp�cie de Casablanca latino-americana e ningu�m sabia. |
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