| O Tibete � Aqui Veja 14/04/1999 Com apelo pop e um l�der boa-pra�a, o budismo tibetano tem plat�ia Cristiane Torloni confere em Curitiba a mensagem do l�der budista tibetano: "Prazer da vida, sem pecado e sem culpa" Santo de casa n�o faz milagre, mas os de fora operam prod�gios. Do presidente Fernando Henrique Cardoso � cantora Baby do Brasil (ex-Consuelo), do senador Antonio Carlos Magalh�es at� a atriz Mait� Proen�a, reverente a ponto de mimosear o visitante com um beijo nas m�os, um monge budista vindo do outro lado do planeta angariou na semana passada as simpatias de um diversificado espectro de admiradores. Est� certo que o monge � o dalai-lama, l�der pol�tico e espiritual do Tibete, venerado por seus fi�is como uma das encarna��es do pr�prio Buda. E que o dalai-lama � uma verdadeira fera das rela��es p�blicas, capaz de transformar uma causa melancolicamente perdida � a independ�ncia do Tibete, anexado pela China � e uma religi�o enigm�tica em bandeiras de estrelas de Hollywood, militantes pacifistas e amantes dos mist�rios do Oriente. O segredo do sucesso do dalai em plagas brasileiras, onde religi�es tradicionais e seitas variadas disputam a unha novos fi�is, est� na mensagem, docemente adaptada aos ouvidos ocidentais atormentados pela realidade da vida numa sociedade tecnol�gica e competitiva. Para sensibilidades previamente amaciadas pelos ventos m�sticos da chamada nova era, o pacote filos�fico do budismo tibetano cai como uma luva. � a religi�o do pacifismo, da ecologia, do autoconhecimento. Nada muito diferente dos manuais de auto-ajuda que proliferam no mundo materialista. Como encanto adicional, ao contr�rio das outras vertentes do budismo, mais abstratas e inalcan��veis, oferece o charme da causa pol�tica sem nuances: a defesa dos espiritualizados tibetanos contra os malvados comunistas chineses. O dalai-lama faz jus ao que se espera de um pr�mio Nobel da Paz e de um deus vivo. � uma figura sorridente, um monge de fala macia, confort�vel em seu manto cor de vinho e p�s descal�os. Vive exilado na �ndia, de onde parte para turn�s mundiais dignas de um popstar. Lama ga�cho � Quando o dalai-lama veio ao pa�s pela primeira vez, para a Eco 92, era apenas um simp�tico mas ex�tico visitante. De l� para c�, pipocaram centros de estudo do budismo tibetano pa�s afora. A organiza��o Chagdud Gonpa, por exemplo, ergueu centros em treze cidades, do interior do Rio Grande do Sul a Salvador. At� um mestre tibetano da gema, Chagdud Tulku Rinpoche, resolveu morar na serra ga�cha, onde construiu o primeiro templo sul-americano de arquitetura fiel ao modelo himalaio. Na cidade de S�o Paulo, o centro Odsal Ling tinha quinze freq�entadores em 1995, quando a lama (mestre) americana rebatizada com o instigante nome de Tsering Everest assumiu os ensinamentos. Hoje tem quatro vezes mais. Baby do Brasil, a decana do esoterismo no show business: "O dalai-lama � pop porque ele ama a paz. Woodstock j� dizia isso" Com seu coquetel filos�fico adapt�vel aos mais variados prop�sitos, o budismo tibetano concentrou seu proselitismo num p�blico especial�ssimo � figurinhas carimbadas do show business, o que potencializa seu marketing. Em Hollywood, seus mestres-de-cerim�nias v�o do bonit�o Richard Gere ao brutamontes Steven Seagal. Em Curitiba, na semana passada, renderam homenagem ao dalai-lama Gilberto Gil, Rita Lee e Elba Ramalho, que cantaram de gra�a para o mestre. Gil endossa a populariza��o do budismo tibetano: "A vulgariza��o � a pr�pria ess�ncia do proselitismo religioso. A B�blia, por exemplo, diminui a ess�ncia de Cristo. Escreveu, materializou; saiu do esp�rito, chegou ao corpo. � melhor que seja assim, � mais democr�tico". Captou a mensagem? Bem, mais dif�cil ainda � entender os preceitos do budismo tibetano, vertente m�stica da religi�o, repleta de dem�nios e seres fantasmag�ricos, que exige dos seguidores de f� uma vida inteira de ora��es, estudo de textos herm�ticos e ren�ncia ao mundo dos sentidos � incluindo-se a� o sexo �, considerado a porta de todo o sofrimento. Coisa, enfim, para iniciados, n�o gente como a atriz Christiane Torloni, uma das estrelas da plat�ia de cerca de 1.000 pessoas que suaram em bicas durante as palestras do mestre na �pera de Arame. "O budismo fala do prazer da vida, sem pecado, sem culpa", acredita. Decana do esoterismo, a cantora Baby do Brasil deu uma for�a. "O dalai-lama � pop porque ele ama a paz. Woodstock j� dizia isso", resumiu a ex-tel�rica, ex-c�smica e andarilha da trilha de Santiago de Compostela. Longe dos altos papos, o budismo tibetano, como qualquer outra religi�o, vem sendo experimentado no Brasil como solu��o para quest�es bastante prosaicas. "S�o muitos os que nos procuram com problemas com o marido ou a mulher, ou com conflitos no emprego", diz o lama Padma Samten, ex-professor de f�sica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que foi viver de donativos num centro de estudos na cidade de Viam�o, em torno do qual orbita uma centena de pessoas. Isso o dalai-lama n�o resolve. Bom de rela��es p�blicas, ele encontrou no Brasil, por�m, um parceiro ideal para contornar o carma do qual nunca se livra: os protestos da China contra pa�ses que lhe abrem as portas. Pressionado pela Embaixada da China, pa�s com o qual o Brasil mant�m um com�rcio f�rtil, o Itamaraty recomendou ao presidente que n�o recebesse o santo monge. Fernando Henrique levitou sobre a constrangedora situa��o com seu apurado senso de marketing. Reuniu-se com o l�der tibetano na casa do presidente do Senado, Antonio Carlos Magalh�es. Proibiu fotos e c�maras, mas fez quest�o de que a imprensa soubesse do encontro com anteced�ncia. |
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