| Salvos pela Palavra Veja 15/07/1998 Com B�blias nas m�os, disciplina rigorosa e solidariedade, as igrejas evang�licas invadem cadeias e redutos de drogas para converter e regenerar bandidos "Aleluia, irm�o. Que a paz do Senhor te acompanhe." Quem escuta a sauda��o do porteiro Jos� Carlos Greg�rio, um homem corpulento de modos gentis, em um edif�cio da Igreja Presbiteriana de Niter�i, n�o imagina que ele j� freq�entou as manchetes de jornais como bandido de grosso calibre. Nos anos 70 e 80, "Gordo", como Greg�rio era chamado, foi um dos mais temidos l�deres do Comando Vermelho, a organiza��o criminosa que domina o narcotr�fico nas cadeias e nos morros cariocas. Preso pela primeira vez em 1976 ap�s um assalto a banco, Gordo brincou de gato e rato com a pol�cia por mais de uma d�cada. Sua maior fa�anha foi humilhar toda a pol�cia do Rio de Janeiro, em 1985, quando pousou um helic�ptero a 500 metros da guarda do pres�dio C�ndido Mendes, na Ilha Grande, para resgatar o parceiro Jos� Carlos Encina, o "Escadinha", na fuga mais espetacular j� ocorrida numa cadeia brasileira. No �ltimo tiroteio em que se envolveu, em 1986, Gordo acabou baleado e preso. A foto dele, sentado no ch�o enquanto discutia com os policiais, foi publicada em todos os jornais. A fera estava presa. Entre pris�es e fugas, Gordo j� conseguiu descontar 23 anos da senten�a de 64 a que foi condenado, e hoje est� em regime semi-aberto. Convertido para a Igreja Presbiteriana em 1993, o bandido que fazia quest�o de se cercar de mocinhas bonitas e aventureiras agora se derrete apenas pela pr�pria mulher, Solange. Em vez dos autom�veis esportivos com os quais subia e descia os morros, agora anda em uma pac�fica perua Topic azul, comprada em suaves parcelas, com que faz servi�os extras de lota��o. O sal�rio mesmo, como porteiro, limita-se a 400 reais por m�s. "� a primeira vez na vida que tenho um emprego honesto com carteira assinada. Estou ralando", diz. Gordo era um fac�nora e hoje � um homem honesto. Foi salvo de uma "vida infernal", como gosta de dizer, gra�as � convers�o religiosa. Seria apenas um exc�ntrico, se o que aconteceu a ele n�o estivesse se repetindo em cada favela, quebrada ou ermo brasileiro, por for�a de uma milit�ncia evang�lica que consola e ampara os mais desesperados. A antrop�loga Regina Novaes, do Instituto Superior de Estudos da Religi�o, o Iser, detectou o fen�meno. Ap�s um estudo com 300 jovens da periferia do Rio, Regina descobriu que vem crescendo o n�mero de garotos pobres que se convertem ao protestantismo de tipo neopentecostal ou evang�lico, como forma de escapar �quela que � a maior for�a organizada nos locais em que eles moram: as quadrilhas de narcotraficantes. Habitantes de um mundo em que o emprego � escasso e as pol�ticas p�blicas quase n�o chegam, esses garotos encontram nas religi�es evang�licas um ambiente bem diverso da sisudez e do distanciamento que a Igreja Cat�lica sempre manteve com seus fi�is. Batida funk � Em vez de ritos contritos, as denomina��es protestantes que mais crescem fazem quest�o de celebrar cultos fren�ticos, n�o raro animados pela batida funk que os meninos de morro tanto conhecem, em geral em bailes em que se consome muita coca�na. As letras das m�sicas s�o adaptadas. Sai de foco a exalta��o � marginalidade para entrarem gl�rias e aleluias ao senhor Jesus. A anima��o � a mesma dos bail�es, s� que, em vez de guerras entre as "galeras" de jovens armados, o combate � contra o dem�nio. O crente n�o pode consumir drogas, e s� isso j� basta para afastar muitos da principal porta de entrada na criminalidade, a depend�ncia dos traficantes. H� outros fatores que explicam como os evang�licos, com suas B�blias surradas nas m�os, est�o corrigindo vidas tortas. Em vez do sacerdote cat�lico celibat�rio, recrutado ainda menino pelos semin�rios e cevado no isolamento dos mosteiros e conventos, os novos l�deres religiosos s�o cooptados no terreno mesmo em que floresce a marginalidade. Os pastores falam a l�ngua do rebanho. Entendem seu sofrimento n�o por ouvir dizer ou porque estudaram. Sabem o que � n�o ter onde cair morto e sentir a sedu��o de ganhar muito dinheiro em pouco tempo, um milagre que, nesses lugares, s� o banditismo permite. Divididos em mais de 100 ramos em todo o pa�s, esses protestantes v�m salvando uma parcela da juventude dos desv�os da criminalidade porque se ap�iam em uma disciplina rigorosa. � uma influ�ncia t�o grande que a pesquisadora do Iser n�o hesita ao afirmar: "Hoje n�o se pode mais tratar de juventude e pol�ticas p�blicas de seguran�a e combate � criminalidade sem levar em conta as igrejas evang�licas". Os evang�licos est�o em toda parte. Ainda mais entre os pobres. Pesquisa do Iser mostra que 63% dos seguidores da Igreja Universal ganham menos de dois sal�rios m�nimos. Na Assembl�ia de Deus, 62% vivem com 260 reais por m�s. Formam um rebanho ordeiro, trabalhador e dedicado de 16 milh�es de almas, que tornam o Brasil o terceiro maior pa�s do mundo em n�mero de protestantes. Mas � na luta contra o crime e as drogas que eles come�am a ganhar uma batalha que aparentemente s� � pol�cia compete. O corpo e a alma de Wladimir Dias Franco, o Kell�, de 32 anos, s�o cheios de marcas. As do corpo permanecem. S�o dezenas de tatuagens do tempo sombrio que ele atravessou. Apesar da boa apar�ncia de garot�o, cabelos longos, fam�lia bem estruturada, aos 12 anos ele se iniciou nos cigarros de maconha. Passou para a coca�na e a vida come�ou a descer ladeira abaixo. As marcas chegaram � alma no momento em que ele come�ou a perder a luta contra as drogas. Quando j� vendia pequenas quantidades de maconha para sustentar a depend�ncia, em 1990, o rapaz entrou num templo evang�lico da cidade de Osasco, na Grande S�o Paulo, onde vive at� hoje. O pastor contava a par�bola do filho pr�digo, aquela em que um filho perdido retorna � casa do pai depois de vagar errante pelo mundo. Em meio a um choro convulsivo, Kell� decidiu que tinha chegado a hora de seu pr�prio retorno ao rebanho de Deus. Converteu-se. Passados oito anos, o ex-drogado est� casado com Marli, tem um filho de 4 anos e coordena na igreja evang�lica de Vila Iara o Departamento de Evangeliza��o, Assist�ncia e Integra��o Social, voltado para o acompanhamento e ajuda aos dependentes qu�micos. � uma trajet�ria bem comum entre os evang�licos. Pastores que s�o um testemunho vivo da trag�dia da depend�ncia qu�mica explicam como se livraram dela com o aux�lio da B�blia. Hoje, mais de 300 cl�nicas de recupera��o de dependentes de drogas e �lcool espalham-se pelo Brasil movidas pelo combust�vel da f�. Os �ndices de recupera��o que tais cl�nicas apresentam s�o semelhantes aos de centros de refer�ncia no setor, como os Alco�licos An�nimos, 60%. A regenera��o de Kell� tem os tr�s ingredientes nos quais se ap�ia o movimento evang�lico � o contato com uma for�a espiritual profunda, a cren�a de que a felicidade pode ser aqui e agora, e uma eficiente rede de solidariedade, que proporciona uma sensa��o de amparo, ref�gio, aceita��o. Logo ap�s decidir pela convers�o, Kell� conseguiu um emprego com uma pessoa da igreja. Isso n�o acontece por acaso. O evang�lico empres�rio prefere empregar irm�os de f� ou candidatos � convers�o. Editoras b�blicas, canais de televis�o, escolas, templos e bancos evang�licos s�o respons�veis por 600.000 empregos em todo o pa�s. "Eu agora sou um escravo de Cristo, esta � a minha liberdade", diz Kell�. "Nota de 100 d�lares" � Dispostos a retribuir tudo o que conseguiram da vida ap�s a convers�o, os evang�licos arrega�am as mangas e v�o � luta nos lugares mais distantes. O pastor Renato Mac, ex-chef�o do tr�fico de drogas no Rio de Janeiro, mora numa casa no bairro de Piedade, em Jaboat�o dos Guararapes, Pernambuco, com a mulher e duas filhas. Acorda �s 7 horas e reza durante uma hora inteira antes de seguir para o Centro de Recupera��o de Drogados, no munic�pio de Vit�ria de Santo Ant�o, a 60 quil�metros do Recife. Geralmente passa o dia inteiro acompanhando a luta dos pacientes para se livrar das drogas e volta para casa � noite. Al�m dessa atividade, Renato � constantemente solicitado a dar palestras em igrejas e at� universidades para falar sobre a guinada de sua vida. Dos 13 aos 18 anos, ele tamb�m foi do ex�rcito dos bandidos. Comandou tr�s bocas-de-fumo no Rio e "cheirava coca�na com nota de 100 d�lares", lembra. � contradit�rio, mas uma grande vantagem que os evang�licos levam reside exatamente no fato de eles ainda serem minorit�rios na popula��o. A maioria de seus fi�is n�o vem de fam�lias protestantes. S�o convertidos. E a convers�o, para eles, est� longe de ser um encontro �ntimo com Deus. � um espet�culo, compartilhado pelo povo que se apinha nos templos, em geral casas humildes. Ponto de partida e divisor de �guas na vida de uma pessoa, a convers�o representa a liberta��o do dem�nio, que acreditam ser a fonte de todo o mal, e o reencontro do indiv�duo com sua natureza divina. A id�ia de que mis�ria, depend�ncia de drogas ou envolvimento com a criminalidade s�o fruto de uma for�a maligna que, uma vez expulsa, n�o deixa rastros na personalidade � fundamental. "� uma forma de reinventar a pr�pria trajet�ria de vida. � at� melhor do que Freud, porque com Freud voc� fica com a culpa", ironiza Regina Novaes. Ao deixar todas as culpas e erros para o passado, esses homens recome�am a vida como se estivessem novinhos em folha. "Limpos" ou "purificados", como eles gostam de dizer, acreditam que n�o t�m de aguardar a reden��o de al�m-t�mulo para ser felizes. � um discurso sob medida para penetrar no inferno das pris�es, apesar de n�o falar em direitos humanos. Talvez at� por causa disso. Diferentemente da prega��o cat�lica, por interm�dio da Pastoral Carcer�ria, os evang�licos n�o condicionam a salva��o a uma mudan�a na mentalidade da pol�cia ou da sociedade sobre como se deve tratar um preso. Para eles, a salva��o � individual. Nos pres�dios brasileiros, onde vivem 170.000 pessoas, multiplicam-se as cenas de batismo, em piscinas pl�sticas cheias de �gua. Somente na Casa de Deten��o de S�o Paulo, o maior pres�dio da Am�rica Latina, com 6.800 presos, j� s�o 1.600 almas que passaram para o ex�rcito da f�. O pres�dio da Papuda, em Bras�lia, tem 85% dos detentos convertidos. No Rio, os evang�licos calculam ter arrebanhado 30% dos detentos, o que representa 4.200 bandidos de B�blia nas m�os. Babel de religi�es � O mundo das penitenci�rias � um lugar de que s� se ouve falar quando h� massacres, rebeli�es ou fugas espetaculares. A imprensa do mundo inteiro noticiou o massacre de 111 presos na Casa de Deten��o de S�o Paulo, em 1992, durante uma invas�o da Pol�cia Militar. Depois disso, as �nica mudan�a foi que as celas voltaram a ficar abarrotadas. Mas, nesse per�odo, os evang�licos atuaram sem descanso na Casa de Deten��o � e seu trabalho faz diferen�a naquele ambiente degradante e desumano. S�o mais de 175 volunt�rios de nove denomina��es diferentes modificando a rotina e a vida de homens duplamente condenados. A Justi�a subtraiu-lhes a liberdade. A indiferen�a social deu a eles a companhia sempre presente da viol�ncia, das doen�as e da morte atr�s das grades da pris�o. Um levantamento do N�cleo de Estudos da Aids da USP revelou que 80% dos detentos est�o contaminados com o bacilo da tuberculose, e um em cada cinco � portador do v�rus da Aids. � esse ambiente s�rdido que todas as manh�s se transforma numa Babel de religi�es. Na Casa de Deten��o, alguns cultos chegam a reunir 200 pessoas. Ao inv�s do figurino cl�ssico de cadeia � bermud�o, chinelos e camiseta imunda �, o que se v� � um batalh�o de presos de barba feita, cabelo cortado bem rente, cal�as compridas e camisas de mangas longas. "Gl�ria, gl�ria, aleluia" vem primeiro. Depois, na hora da reza coletiva, o que se ouve � um alarido de vozes, cada uma fazendo a pr�pria invoca��o a Deus. Ent�o, mais cantoria. A roupa para ir ao culto � passada, os t�nis e sand�lias s�o trocados por um sapato social, mesmo que surrado. "T�nis � coisa de malandro", explica o pastor da Assembl�ia de Deus Ot�vio dos Santos, de 28 anos, condenado a 31 anos por homic�dio, dos quais j� cumpriu oito. Com os benef�cios de redu��o da pena, ele deve deixar a cadeia ainda neste ano. Ao sair, vai continuar trabalhando para a igreja. Para quem acredita que a convers�o � apenas uma forma de tentar iludir a Justi�a e conseguir remiss�o da pena por bom comportamento, o exemplo do preso Roberto Carlos Brito � eloq�ente. Ele entrou na cadeia em 1982, com apenas 20 anos. Condenado a dezesseis anos por homic�dio, cumprindo pena na Casa de Deten��o de S�o Paulo, Brito n�o podia ver um in�cio de rebeli�o que logo se envolvia. "Eu fui da turma dos barras-pesadas mesmo", diz com a voz pausada. As penas por outros crimes na pris�o foram aumentando, e ele acredita que deva ficar mais uns dez anos no xadrez. Converteu-se no ano passado e mora numa cela evang�lica, onde reina o sil�ncio e a organiza��o. Sem apoio de psic�logos, sem interna��o em cl�nica especializada, ele abandonou o crack e a coca�na. Abrigo seguro � Uma passagem de um dos hinos mais populares, o Foi na Cruz, arranca exclama��es exaltadas dos detentos: Mas um dia senti meu pecado e vi/sobre mim a espada da lei./ Apressado, fugi e em Jesus me escondi/ E abrigo seguro nele achei. Quem est� fora do inferno que � uma cadeia pode pensar que o "abrigo seguro" de Jesus seja metaf�sico. N�o �. As alas particulares s�o a maior conquista dos evang�licos nas pris�es. Em dois pavilh�es da Casa de Deten��o de S�o Paulo, eles j� se apossaram de dois andares inteiros, num total de quarenta celas vizinhas, s� freq�entadas por irm�os de f�. Nelas, n�o h� viol�ncia sexual, imund�cie, assassinatos ou brigas. O�sis de paz em meio ao horror que se esconde atr�s dos muros da cadeia, atraem por isso a aten��o de outros presos. Mas n�o entra nesse setor quem quer. Os mission�rios obrigam os candidatos a cumprir uma esp�cie de quarentena religiosa, que reprova os falsos crentes. � uma prova de fogo, porque exige dos homens a virtude de santos quando eles ainda est�o na �rea comum, expostos a toda a viol�ncia da pris�o. Os que passam pelo teste s�o admitidos nas alas como h�spedes. Durante um m�s, submetem-se � rotina de leituras, ora��es, culto e trabalho em oficinas. S� os que conseguem convencer que realmente t�m voca��o para servo de Cristo obt�m permiss�o para continuar. O processo � monitorado pelos mais antigos, com o aval da dire��o do pres�dio. O "irm�o" que for pego desobedecendo �s normas � imediatamente expulso da ala, e volta ao limbo que � o restante da cadeia. Quem entra para o ex�rcito da f� nas cadeias passa a ser vigiado n�o s� pelo carcereiro mas tamb�m pelos outros evang�licos. "Essas alas evang�licas funcionam muito bem. O contato com irm�os de f� faz o preso ficar mais d�cil, mais disciplinado. Ele aceita melhor as regras da casa", explica Hertz Andrade, coordenador do sistema penitenci�rio do Distrito Federal. Mas mesmo em Estados que n�o t�m essa pol�tica informal de cria��o de setores evang�licos nas cadeias, como o Paran�, o Rio Grande do Sul, a Bahia e Pernambuco, os crentes acabam ficando juntos. Como a maioria dos convertidos tem bom comportamento, eles ficam separados em alas reservadas aos presos de baixa periculosidade e acabam beneficiados nas avalia��es de progress�o de regime (fechado, semi-aberto e aberto) e de pena (condicional). Segundo o superintendente do Sistema Penitenci�rio de Pernambuco, Am�rico de Oliveira, normalmente a recupera��o dos convertidos � vis�vel e r�pida. Os evang�licos passam o dia envolvidos em pequenos servi�os de mec�nica e marcenaria, al�m de assumir cargos burocr�ticos nos pres�dios. Nat�lia ainda fuma � O que os evang�licos fazem, seja nas favelas mais violentas, seja nas celas �midas dos pres�dios, � lan�ar apenas um feixe de esperan�a quando geralmente n�o h� mais ningu�m nem para uma conversa. Eles ainda s�o a exce��o num ambiente deteriorado. Mas come�aram a promover alguma mudan�a nesses lugares antes mesmo que o mundo externo � pol�cia, Justi�a, Estado, sociedade � se comovesse e tomasse a decis�o de interferir. Nem sempre � um caso de m�o �nica. O paranaense Jos� Fortunato da Silva, conhecido como "Nat�lia" nas ruas de Curitiba, onde se prostitu�a, fumava maconha e cheirava coca, se converteu em 1996 � igreja Paz e Amor. Chegou a deixar de fazer programas, mas as visitas � igreja come�aram a rarear. N�o conseguiu ainda se livrar da maconha. "Tem de ter muita for�a de vontade e mesmo assim n�o � f�cil", lamenta. Os desesperados t�m-se revelado um material humano capaz de renascer dos piores abismos. � nessa cren�a que est� a for�a dos evang�licos. Uma for�a que salva vidas. Marcos Bezerra fez fama nos morros do Rio, no final dos anos 80. Gerente do tr�fico de coca�na, liderou um ex�rcito de trinta homens armados de pistolas autom�ticas. "Matar, roubar e destruir era natural. Ningu�m podia vacilar", conta o ex-bandido, que ficou conhecido no mundo do crime como "Marcos Maluco" pela ousadia com que invadia morros inimigos para tomar bocas de fumo. Do bando, doze j� morreram, oito pagam pelos crimes atr�s das grades e o restante desapareceu. O mais prov�vel, avalia Marcos, � que tenham sido eliminados nas guerras de quadrilhas. Ele, que era o l�der do bando e estava sempre com o nariz sangrando por causa do consumo exagerado de coca�na, � hoje mission�rio da Assembl�ia de Deus. Marcos mora com a mulher e os dois filhos numa confort�vel casa de dois dormit�rios em S�o Paulo. A renda da fam�lia, 1.000 reais ao m�s, ele obt�m comprando roupas de pequenas confec��es e revendendo-as para lojas. Sempre com um terno impecavelmente alinhado, celular � m�o, circula em seu Voyage pelas principais igrejas da cidade, contando o inferno que foi sua vida at� se converter, em 1992. Sobrevivente, foi a f� que o salvou. PMs de Cristo O fen�meno das convers�es n�o se limita ao universo dos bandidos. Na outra ponta do mundo da viol�ncia est� surgindo uma legi�o de convertidos que se apega � B�blia e ao Evangelho para enfrentar a criminalidade � s�o os policiais militares. Em 24 Estados brasileiros j� existem associa��es de PMs evang�licos. A for�a do movimento foi constatada neste m�s, no 1� Congresso Nacional de Militares Evang�licos. Mais de 300 homens da Marinha, do Ex�rcito, da Aeron�utica e de �rg�os de seguran�a se encontraram em S�o Paulo para discutir os caminhos da evangeliza��o em um tempo de viol�ncia e aumento da criminalidade. "S� h� uma forma de enfrentar a viol�ncia. � com Deus no cora��o", diz o coronel da reserva da PM Odilon Gonzaga, diretor da Associa��o dos Policiais Militares Evang�licos de S�o Paulo. A estimativa � de que 10% dos 80.000 policiais tenham passado para o batalh�o de Cristo. Antes de entrar em uma viatura, � comum esses policiais lerem a B�blia e clamarem por prote��o divina. "Temos v�rios policiais que foram matadores e hoje est�o convertidos", frisa Odilon. "Um PM evang�lico trata melhor a popula��o e tem mais cuidado antes de se envolver em corrup��o. Motivo? � pecado ser mau. � pecado ser corrupto." Pecado ou n�o, um dos casos mais clamorosos de abuso de autoridade e viol�ncia por parte de policiais militares, o da Favela Naval, em Diadema, foi protagonizado pelo PM evang�lico Ot�vio Louren�o Gambra, o "Rambo". Nos dias 3, 5 e 7 de mar�o do ano passado, "Rambo" comandou uma gangue de policiais que se aproveitou da farda para torturar, extorquir, roubar e matar. Como em todos os setores, a religi�o d� a orienta��o. Obedecer fica a crit�rio de cada um. |
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