Rel�quia � Vista                                Veja 25/03/1998
Primeira exposi��o do Sud�rio ap�s vinte anos dever� atrair 10 milh�es de fi�is � It�lia

No c�rculo, a imagem tridimensional que a Nasa obteve ao analisar um recorte do Sud�rio

Depois de demonstrar sua for�a pol�tica com a visita do papa Jo�o Paulo II a Cuba, no in�cio do ano, a Igreja Cat�lica anuncia para o pr�ximo m�s a prova de que tamb�m � forte no terreno da f�. Guardado em uma pequena caixa de prata nos �ltimos vinte anos, o Santo Sud�rio, um tecido de linho com a imagem de um homem torturado que se sup�e ser Jesus Cristo morto, estar� novamente em exposi��o entre 18 de abril e 14 de junho em Turim, na It�lia. A rel�quia estar� protegida por uma caixa de vidro de 2 cent�metros de espessura e cada fiel ter� menos de um minuto para observ�-la. Nada disso, por�m, dever� arrefecer o �mpeto cat�lico, e a arquidiocese italiana espera receber 10 milh�es de peregrinos de todo o mundo. Se a cifra se confirmar, ser� o maior evento cat�lico dos �ltimos anos. O santu�rio de Lourdes, na Fran�a, recebe em m�dia 5 milh�es de peregrinos por ano. Aparecida, no interior de S�o Paulo, � visitada por 7 milh�es de fi�is. Na �ltima exposi��o, em 1978, o Sud�rio atraiu 3,5 milh�es de pessoas.

A for�a religiosa do Santo Sud�rio est� na imagem impressa sobre o tecido de linho, prova suprema da ressurrei��o para milh�es de cat�licos. Trata-se do corpo de um homem de aproximadamente 1,81 metro de altura e 81 quilos, que guarda semelhan�as impressionantes com a descri��o da imagem de Jesus na B�blia. Na d�cada de 30, o cirurgi�o franc�s Pierre Barbet ajudou a sedimentar a m�stica em torno do objeto. Barbet descobriu que as chagas vis�veis no Sud�rio s�o t�picas de uma v�tima de crucifica��o nos tempos de Cristo. Constatou, por exemplo, que os polegares do homem do Sud�rio n�o est�o registrados na imagem porque o cravo preso sobre o pulso puxa o dedo para o meio da palma da m�o. O homem do Sud�rio tamb�m tem uma perfura��o semelhante � ponta de uma lan�a no lado direito do peito, repetindo o que os Evangelhos descrevem sobre a crucifica��o.

A presen�a de milh�es de fi�is em Turim ser� tamb�m a demonstra��o mais eloq�ente de que a f� quase sempre suplanta a raz�o. Em 1988, uma pesquisa realizada por tr�s centros de pesquisa, na Inglaterra, Su��a e Estados Unidos, sob a coordena��o da Universidade do Arizona, revelou que o tecido do Sud�rio teria sido fabricado entre os anos de 1260 e 1390, em plena Idade M�dia, o que colocaria sua m�stica por terra. A pesquisa utilizou a t�cnica de contagem dos �tomos de carbono 14, usada para definir a idade de achados arqueol�gicos. Ao longo dos anos, o carbono 14 vai se transformando em carbono 12, cuja estrutura � mais est�vel. Portanto, quanto mais antiga a pe�a menos mol�culas de carbono 14 ser�o encontradas. A revela��o teve repercuss�o mundial e o Vaticano admitiu a origem medieval do manto.

Decorridos dez anos, pairam d�vidas sobre a veracidade dos resultados do estudo cient�fico de 1988. Uma pesquisa comandada por dois professores da Universidade de San Antonio, no Texas, revelou que a pe�a estava infestada de fungos e bact�rias ricos em carbono 14. Quando tomaram conhecimento dessa novidade, os professores respons�veis pela pesquisa de data��o na Universidade do Arizona apressaram-se em admitir que o tecido pode ser mais antigo do que se supunha porque a alta taxa de concentra��o de carbono 14 nas bact�rias pode ter inflacionado a contagem dos �tomos, levando � conclus�o, eventualmente equivocada, de que o Sud�rio seria mais recente do que o tempo em que Jesus viveu.

Fogo � Um sem-n�mero de perguntas sem resposta faz do Sud�rio uma das maiores inc�gnitas a desafiar a ci�ncia. Descartada a hip�tese de que a imagem tenha sido produzida pelo corpo de Jesus, n�o h� explica��o para o processo de forma��o do desenho no len�ol, j� que n�o se encontraram res�duos de tinta no tecido. "O teste das fibras sobre as quais est� impressa a imagem revela um espectro de radia��o semelhante a fogo, mas totalmente desconhecida pela f�sica atual", diz Walter Dem�trio Gonzales, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Essa radia��o gravou sobre uma das faces do tecido, sem traspass�-lo, uma figura tridimensional, detectada por um computador da Nasa. O tra�ado da imagem tamb�m � curioso. Considerando a hip�tese de que se trata de um desenho, suas caracter�sticas contradizem a tese da origem medieval. A t�cnica de sombreado, usada para dar volume � imagem, com a altern�ncia de tons claros e escuros, apareceu apenas no Renascimento, cerca de 200 anos mais tarde.

Rel�quias como o Santo Sud�rio s�o um elemento muito popular na tradi��o cat�lica desde o s�culo IV, tornando-se em alguns momentos mais importantes do que a eucaristia. Hoje, o culto ao len�ol ganha for�a porque � cada vez mais forte a rejei��o das formas institucionais de religiosidade, como as missas, em favor de uma volta ao que os especialistas chamam de "sagrado selvagem". "S�o as experi�ncias b�sicas, espont�neas, naturais, n�o contaminadas pela civiliza��o moderna", diz o padre e te�logo Alberto Antoniazzi. O Sud�rio dispensa a intermedia��o de um religioso para que os cat�licos tenham contato direto com o divino. Sua for�a reside na cren�a de que ali est� a representa��o concreta e palp�vel de que Cristo viveu, morreu e ressuscitou. N�o h� alimento igual para a f�.
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