Prazer Sagrado
Al�m de seu conte�do religioso, a B�blia cont�m boa literatura e � matriz de diversos g�neros
Veja 25/02/1998

Livro sagrado de crist�os e judeus, best-seller desde a inven��o da imprensa por Gutenberg, em torno de 1440, a B�blia � presen�a obrigat�ria em milh�es de casas ao redor do mundo. Na maioria das vezes, por�m, l� est� ela, recoberta com uma fina camada de poeira. A n�o ser nas aguerridas hostes evang�licas, l�-se pouqu�ssimo a B�blia. Por que se enredar na doutrina, numa �poca em que o sentimento religioso virou artigo sup�rfluo? As Escrituras, no entanto, podem ser lidas de uma maneira completamente diferente da do padre, rabino ou pastor, o que talvez estimule o leitor a retir�-las de seu descanso eterno no fundo da estante. Nelas est�o contidas as matrizes de g�neros liter�rios. H� uma esp�cie de "conto de fadas" (o livro de Ester), um dos primeiros volumes de cr�tica social da hist�ria da humanidade (Am�s), s�tiras (como Jonas) e at� textos com elementos er�ticos (C�ntico dos C�nticos). Examinar a B�blia como literatura foi o que fizeram o americano Robert Alter e o ingl�s Frank Kermode, dois dos mais renomados cr�ticos da atualidade, organizadores do Guia Liter�rio da B�blia (tradu��o de Raul Fiker; Editora Unesp; 725 p�ginas; 60 reais). Colet�nea de ensaios de 24 autores, o livro � desigual. �s vezes excessivamente t�cnico, pode dar ao leitor a sensa��o de que atravessa o Deserto do Sinai, mas � ineg�vel que se sai dele com uma nova vis�o sobre a B�blia.

Uma pergunta que algu�m interessado na abordagem liter�ria da B�blia provavelmente far� �: qual vers�o ler? As b�blias protestantes n�o s�o iguais �s cat�licas, contendo nove livros a menos. Al�m disso, h� a diab�lica quest�o das tradu��es. Como se sabe, os originais b�blicos s�o em hebraico, aramaico e grego antigo. O primeiro mil�nio da era crist� leu sobretudo o texto em latim conhecido como Vulgata, feita por S�o Jer�nimo no final do s�culo IV. Depois, com a Reforma, come�aram a surgir vers�es nas l�nguas vern�culas, do alem�o ao portugu�s. No s�culo XX, finalmente, proliferaram empreitadas  uma verdadeira babel de tradu��es, das puramente eruditas �quelas de ambi��o art�stica, como as do poeta brasileiro Haroldo de Campos para o G�nesis, J� ou Eclesiastes. Advertindo que a escolha n�o � teol�gica, mas est�tica, os autores do Guia usam como refer�ncia a B�blia protestante inglesa conhecida como Vers�o do Rei James, por ter sido publicada em 1611 por determina��o do soberano ingl�s. O equivalente em portugu�s desse livro pode ser encontrado na tradu��o do portugu�s Jo�o Ferreira de Almeida, tamb�m do s�culo XVII. O leitor brasileiro pode encontr�-la em tr�s vers�es, todas da Sociedade B�blica: a antiga, a corrigida e a atualizada. Uma boa alternativa � a Tradu��o Ecum�nica da B�blia, belo trabalho erudito publicado pela Editora Loyola.

Pecado  O Guia sugere, como j� se disse, que a B�blia � a grande matriz da literatura ocidental, mas peca ao n�o incluir um ensaio geral sobre essa heran�a. Afinal, n�o � dif�cil perceber a poderosa influ�ncia do texto b�blico quando o alem�o Thomas Mann emprega magistralmente as t�cnicas do romance moderno para recontar a hist�ria de Jos�, personagem do G�nesis, em Jos� e Seus Irm�os. Outro exemplo � Moby-Dick, de Herman Melville: a famosa hist�ria do confronto entre o capit�o Ahab e a baleia branca certamente faz eco a aspectos da hist�ria de Jonas. O Guia est� salpicado, aqui e ali, de men��es a escritores modernos. Mas quem quiser intui��es realmente inspiradas sobre esse tema far� melhor procurando o cr�tico americano Harold Bloom, em particular o Livro de J e Abaixo as Verdades Sagradas.

Num dos ensaios mais curiosos do Guia, Jack M. Sasson, professor da Universidade da Carolina do Norte, mostra como o narrador do livro de Ester, que faz parte da B�blia Hebraica (a parte do livro que os crist�os chamam de Velho Testamento), lan�a m�o das mais extraordin�rias artimanhas da arte ficcional para contar sua hist�ria. Nas descri��es exuberantes (bastante at�picas na B�blia, em geral lac�nica), o texto pode at� ser comparado �s hist�rias pag�s das Mil e Uma Noites, a famosa colet�nea de contos �rabes. � o caso da seq��ncia que mostra como donzelas eram preparadas para ser entregues ao rei Assuero: depois de seis meses mergulhadas em �leo de mirra, elas passavam outros tantos dias sendo banhadas em perfumes. Enquanto isso, no modo de tratar as situa��es e personagens, chega a lembrar os contos de fadas: os vil�es t�m destinos brutais, a hero�na ador�vel ganha a afei��o de todos e o monarca ap�tico � manipulado como um t�tere.

Tirada sarc�stica  Quem considera a B�blia um livro sisudo se surpreender� ao descobrir que nela h� muitos elementos de humor. O livro de Jonas � um exemplo acabado disso. Ao contar a hist�ria do profeta que foi engolido por uma baleia, o narrador utiliza in�meros elementos do g�nero sat�rico, como perip�cias de viagem e "mal-entendidos" (n�o somente de Jonas com Deus, mas tamb�m com a tripula��o do navio que o transporta). Outras formas de humor, como ironia e sarcasmo, tamb�m est�o espalhadas pela B�blia. Um bom caso est� em Isa�as. "Porei minha argola nas tuas narinas e um freio nos teus l�bios e te farei retornar pelo caminho pelo qual vieste." No contexto, essa tirada sarc�stica � empregada pelo profeta para zombar do rei ass�rio Senaqueribe, uma verdadeira mula no seu entender.

A poesia certamente � um tema � parte, que merece aten��o especial. Uma caracter�stica liter�ria que parece diferenciar a B�blia de outras narrativas da antiguidade � seu recurso a uma prosa muito particular, minimalista, que avan�a r�pida e em frases curtas. A poesia, no entanto, tamb�m tinha um papel de destaque: ela n�o s� pontua a maioria dos livros b�blicos como ainda, nos casos em que salta para primeiro plano (Salmos, Prov�rbios, C�ntico dos C�nticos, J�), pode atingir maravilhosos efeitos. Assim, o C�ntico dos C�nticos � uma soberba medita��o sobre o amor, n�o somente abstrato, mas tamb�m carnal. Para o poeta do livro, explorar o corpo � explorar todas as rela��es humanas, o mundo e a natureza. S�o usadas v�rias met�foras desconcertantes e �s vezes quase surrealistas, como quando se fala dos dentes da amada como "um rebanho tosquiado, subindo ap�s o banho, cada ovelha com seus g�meos, nenhuma delas sem cria". E J�, considerado por muitos o mais bem escrito livro da B�blia, � uma sublime reflex�o sobre a exist�ncia humana, com passagens de tirar o f�lego como o "Discurso da Tempestade", no qual J� � censurado por reclamar de seus sofrimentos: "Onde voc� estava quando eu criei o mundo?", pergunta Deus ao homem.

A B�blia continua a ser um milagre da comunica��o universal. Em 1996, as Sociedades B�blicas Unidas distribu�ram, no mundo inteiro, 19,3 milh�es de exemplares do livro. Considerando que diversas editoras independentes tamb�m publicam b�blias, pode-se supor com tranq�ilidade que as cifras foram ainda maiores. Os totais de 1997 n�o ficam atr�s. No Brasil, entre vers�es cat�licas e evang�licas, foram 6,9 milh�es de exemplares. Na China, surpresa: pelo menos 2,7 milh�es de volumes entraram em circula��o. Como notou o famoso tradutor franc�s Andr� Chouraqui, se um autor anunciasse hoje que uma obra sua percorreria tr�s mil�nios, seria traduzida em 2.167 l�nguas e inspiraria seitas e religi�es, iria imediatamente para o hosp�cio. N�o � � toa, portanto, que de tempos a tempos algum charlat�o ou sensacionalista decide aproveitar-se das Escrituras. O caso mais recente � o de Michael Drosnin, que em O C�digo da B�blia afirmou ter encontrado a chave para prever cat�strofes com a ajuda do livro e de um computador. Anos-luz distantes desse tipo de falcatrua, Frank Kermode, Robert Alter e seus colaboradores desejam apenas restaurar a B�blia como o "Grande C�digo" de nossa cultura  para usar a express�o do poeta ingl�s William Blake. Que assim seja.


Tecnologia B�blica

A B�blia oferece li��es de f� para os crist�os e judeus, mas se procurarmos bem em suas p�ginas � poss�vel encontrar um manual completo da tecnologia usada durante a idade do bronze, do ferro e do Imp�rio Romano. Com efeito, suas hist�rias cont�m detalhes sobre obras como a torre de Babel, o templo de Herodes e as carruagens eg�pcias, onde madeira, metal e pedra calc�ria lhes deram resist�ncia e durabilidade. Seus criadores tamb�m contam, e habilidades que inclu�am estat�stica e mec�nica se combinam com as condi��es clim�ticas da regi�o para desenvolver inven��es que ultrapassam os cinco mil anos.
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