| O Mito e a Ci�ncia na B�blia Veja 11/08/1999 Ao tentar decifrar os mist�rios da f�, cientistas fazem novas descobertas sobre o Santo Sud�rio A cena do sepultamento de Jesus: polens que s� existem em Jerusal�m A bot�nica lan�ou, na semana passada, um alento na f� das pessoas que acreditam no Santo Sud�rio, o len�ol de linho que teria servido de mortalha para Jesus Cristo. Pesquisadores israelenses anunciaram que a rel�quia cat�lica, conservada h� 400 anos na Catedral de Turim, na It�lia, � origin�ria de uma �poca anterior ao s�culo VIII e de uma regi�o vizinha a Jerusal�m � e n�o de tempos muito mais recentes, conforme conclus�o de uma pol�mica pesquisa anterior, que praticamente transformou a rel�quia numa pe�a fraudulenta. Chegaram a essa conclus�o ao analisar amostras de p�len de plantas encontradas no Sud�rio. S�o esp�cies que s� existem na regi�o em que Jesus viveu e foi morto. E mais: elas s� florescem na �poca da P�scoa, entre mar�o e abril. Uma delas teria sido usada na confec��o da coroa de espinhos de Jesus. "� luz de nossas descobertas, � muito prov�vel que o Sud�rio tenha vindo realmente da Terra Santa", disse Avinoam Danin, professor da Universidade Hebraica de Jerusal�m, durante o Congresso Internacional de Bot�nica, em Saint Louis, Estados Unidos. H� outra coincid�ncia intrigante. As mesmas esp�cies de p�len foram encontradas em outra rel�quia cat�lica, o chamado Sud�rio de Oviedo. Menos conhecido que a rel�quia de Turim, � um peda�o de tecido trazido de Jerusal�m no s�culo VIII e hoje exposto na Catedral de Oviedo, na Espanha. Acredita-se que seja o len�o com o qual Ver�nica enxugou o sangue e o suor de Jesus a caminho do Calv�rio. Todas essas novidades vieram adicionar novos ingredientes a um dos ramos mais populares e pol�micos da ci�ncia. S�o as pesquisas que envolvem personagens e eventos b�blicos. As hist�rias contadas na B�blia � ou, mais exatamente, em partes da B�blia � s�o artigo de f� para cerca de 3 bilh�es de crist�os, judeus e mu�ulmanos. Antes restritas �s discuss�es filos�ficas e teol�gicas, elas ganham um interesse cada vez maior de historiadores, arque�logos, ling�istas e outros estudiosos em diversos campos da ci�ncia. Novos estudos e descobertas arqueol�gicas est�o tentando separar fato de fic��o para explicar o que tem algum fundamento hist�rico, o que � mitologia e o que � ci�ncia nos relatos b�blicos. A cria��o do mundo nos afrescos de Michelangelo, na Capela Sistina: os sum�rios e os gregos contavam em sua mitologia hist�ria semelhante � vers�o b�blica desse evento A enchente universal � Tome-se o livro do G�nesis, que narra a cria��o do universo, o aparecimento da vida na Terra e a saga dos patriarcas do povo hebreu. Com pequenas varia��es, a frase "no princ�pio Deus criou o c�u e a terra" aparece na mitologia de culturas t�o diferentes como a dos sum�rios e dos babil�nios, dos zulus da �frica e dos �ndios da Am�rica. Outro exemplo � a hist�ria do dil�vio e da arca de No�. Segundo a narrativa b�blica, Deus resolveu castigar a humanidade pecadora com uma enchente universal. Mas preservou da cat�strofe o justo No�, sua fam�lia e os animais que ele conseguiu recolher na arca antes da inunda��o. Os sum�rios, povo contempor�neo dos hebreus, tinham uma lenda semelhante, em que No� ganhava o nome de Utnapishtim. A hist�ria est� contada na epop�ia de Gilgamesh, um suposto rei da Babil�nia que teria vivido em meados do terceiro mil�nio antes de Cristo. Neste ano dois cientistas americanos, William Ryan e Walter Pitman, publicaram um livro � O Dil�vio de No� � em que d�o uma explica��o geol�gica ao evento. Segundo dados levantados pelos dois ge�logos, por volta do ano 6000 a.C. uma barreira que dividia o Mar Mediterr�neo do Mar Negro se rompeu provocando uma inunda��o monstruosa na regi�o onde No� teria vivido. O Sacrif�cio de Isaac, por Caravaggio: os pesquisadores n�o encontraram refer�ncias que pudessem comprovar a exist�ncia de Abra�o, de seu filho ou dos patriarcas de Israel fora dos textos b�blicos A B�blia � o maior best-seller de todos os tempos. A cada ano s�o vendidos ou distribu�dos mais de 50 milh�es de c�pias em todo o mundo, traduzidas oficialmente para mais de 2.000 idiomas. S� no Brasil s�o 7 milh�es de livros vendidos anualmente. Mesmo que se deixe de lado a f�, os livros sagrados s�o dignos de aten��o, porque cont�m ineg�veis qualidades liter�rias e li��es de grande sabedoria. "A B�blia passa ensinamentos, propicia reflex�es, � o grande c�digo do pensamento e a matriz da literatura ocidental", diz o professor de hist�ria Hil�rio Franco J�nior, da Universidade de S�o Paulo, USP. Reais ou n�o, as hist�rias b�blicas s�o permeadas por regulamentos morais que moldaram de forma definitiva a civiliza��o ocidental. Boa parte deles � de leis do senso comum, sem as quais a esp�cie humana n�o conseguiria sobreviver. � o caso dos Dez Mandamentos, em que se diz que � proibido matar e roubar. Ou, ainda, no caso do Novo Testamento, de ensinamentos que pregam a paz e a solidariedade humana, como na frase de Cristo: "Amar�s ao pr�ximo como a ti mesmo". Judeus, crist�os e mu�ulmanos fundamentalistas n�o suportam a id�ia de que parte da B�blia possa ser fruto da imagina��o de seus autores. No outro extremo, ateus e materialistas n�o se cansam de procurar evid�ncias para provar que tudo que est� l� n�o passa de hist�ria da carochinha. Se fizessem algum esfor�o, as duas correntes poderiam concordar em alguma coisa. A ci�ncia costuma dar raz�o a ambas, pelo menos em parte. Evidentemente, h� muitos fatos que ultrapassam os limites da raz�o e n�o podem ser objeto de an�lise cient�fica. "A virgindade de Maria ou a ressurrei��o de Cristo n�o s�o demonstr�veis cientificamente nem comprov�veis historicamente", diz Ana Flora, uma americana residente no Brasil especialista em hist�ria do Novo Testamento. "Acredita-se neles por uma quest�o de f�." Outros relatos, no entanto, s�o pass�veis de investiga��o. � o caso do Sud�rio de Turim. Fraude medieval � O primeiro relato a respeito do tecido que envolveu o corpo de Cristo no sepulcro aparece no Evangelho de S�o Marcos. Ali, conta-se que um homem chamado Jos� de Arimat�ia desceu Jesus da cruz e o enrolou no len�ol de linho. Depois o colocou num sepulcro aberto na rocha. Por s�culos, o destino desse len�ol foi motivo de lenda e curiosidade. No s�culo XIV, a rel�quia foi finalmente encontrada. Ou, pelo menos, foi essa vers�o que circulou na �poca quando um cruzado chegou � Fran�a trazendo o peda�o de pano de 4,40 metros de comprimento por 1,20 de largura. Nele aparece a figura de um homem, com 1,77 metro de altura, peso aproximado de 70 quilos, cabelos compridos at� a altura dos ombros, que teria morrido com idade entre 30 e 35 anos � tudo conforme a descri��o de Jesus nos Evangelhos. Tamb�m h� manchas de sangue que coincidem com os ferimentos de Cristo: pregos nos pulsos e nos p�s, a perfura��o de uma lan�a na altura do peito e as marcas da coroa de espinhos na cabe�a. Todas essas coincid�ncias contribu�ram para tornar o Sud�rio a mais importante rel�quia cat�lica, embora a Igreja oficialmente nunca se tenha pronunciado a respeito de sua autenticidade. A descoberta anunciada pelos cientistas israelenses na semana passada contradiz estudos feitos por uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos, da Su��a e da Inglaterra e divulgados em 1988. Eles usaram testes de Carbono 14 � t�cnica utilizada para medir a idade de materiais antigos � para concluir que o tecido de linho teria sido fabricado entre 1260 e 1390. O estudo levava a crer que o manto seria uma fraude produzida na Idade M�dia para estimular a f� dos cat�licos. De l� para c�, pelo menos outras duas pesquisas contestaram essas conclus�es. O que era at� ent�o apenas um objeto de culto e venera��o por parte dos cat�licos se tornou motivo de excita��o e controv�rsia nos laborat�rios. Obviamente, as pessoas que acreditam na morte e na ressurrei��o de Cristo n�o necessitam de comprova��o cient�fica alguma para refor�ar a sua f�. A ressurrei��o � um dogma e, como tal, dispensa argumentos racionais. H� pelo menos 100 anos, no entanto, ci�ncia e religi�o vivem uma curiosa rela��o de ambig�idade. Os religiosos fingem n�o precisar da ci�ncia e os cientistas fingem n�o acreditar na religi�o. Mas uns n�o conseguem ignorar os outros. "O Santo Sud�rio � objeto de devo��o de cat�licos e crist�os", disse na semana passada o porta-voz Steve Mamanella, da arquidiocese de Saint Louis, nos Estados Unidos. "Esperamos que as �ltimas descobertas sirvam para solidificar essa cren�a." Mois�s e a Puni��o dos Rebeldes, de Botticelli: o �xodo, a saga do povo hebreu vagando durante quarenta anos pelo deserto na fuga do dom�nio do fara�, n�o mereceu nenhum registro nos anais da Hist�ria do Egito Gra�as a essa curiosidade de m�o dupla, a B�blia tornou-se um importante campo de investiga��o cient�fica. Um dos recursos usados pelos cientistas � confrontar os relatos b�blicos com fontes n�o b�blicas. Nesse caso, existem coincid�ncias instigantes. Os historiadores romanos Pl�nio e Fl�vio Josefo, que trataram da rebeli�o dos judeus contra o imp�rio romano no in�cio da era crist�, fazem refer�ncia �s prega��es de um homem chamado Jesus, que dizia ser o Cristo, pela Palestina. � preciso entender o contexto em que isso acontecia. Naquela �poca, a Palestina estava ocupada pelos romanos. Os judeus esperavam ansiosamente pelo messias, o salvador que os lideraria numa guerra santa contra o opressor. Alguns especialistas acreditam que Jesus fosse um desses muitos rebeldes pol�ticos que percorreriam a regi�o. Era tamb�m um tempo em que se vivia em clima de intenso fervor apocal�ptico, como mostram os chamados Manuscritos do Mar Morto. Encontrados numa gruta �s margens do Mar Morto em 1947, eles cont�m 600 manuscritos e milhares de fragmentos de relatos em pergaminho, nos quais se anuncia a vinda do messias para breve. Acredita-se que boa parte desses textos foi escrita entre os s�culos III e I d.C. Davi Vitorioso, de Nicolas Poussin: � pouco prov�vel que o duelo contra Golias tenha ocorrido realmente, mas manuscritos da �poca se referem � "Casa de Davi" e ao "Rei de Israel" A hist�ria de Davi � Fora da B�blia, n�o existe nenhuma prova de que o menino Davi tenha duelado e vencido o gigante Golias, mas sua exist�ncia como rei de Israel j� foi comprovada com os achados da arqueologia. No fim do s�culo passado, um pastor anglicano encontrou em Dhiban, na Jord�nia, uma pedra com inscri��es em que o rei Mesha, de Moab, relata seus feitos guerreiros contra o "Rei de Israel" e a "Casa de Davi". Mesha, que teria reinado na pequena Moab no s�culo IX a.C., tem seu nome citado pelo Livro dos Reis, um dos livros do Antigo Testamento. Davi � mencionado em outra pedra encontrada em Tel Dan, no norte de Israel, em 1993. Gra�as �s escava��es, hoje j� n�o se tem nenhuma d�vida a respeito da exist�ncia real de algumas figuras b�blicas. Em 1990, arque�logos acharam no bairro judeu da cidade velha de Jerusal�m um ossu�rio em que se lia a inscri��o "Jos�, filho de Caif�s". � a primeira evid�ncia arqueol�gica a respeito do sumo sacerdote Caif�s, que, segundo os evangelhos, presidiu o julgamento de Jesus no sin�drio judeu. Tamb�m n�o h� d�vidas a respeito de Pilatos, o governante romano que teria lavado as m�os diante da condena��o de Jesus. Em 1961, escava��es na regi�o de Cesar�ia revelaram fragmentos de uma placa indicando que o edif�cio tinha sido dedicado a "Pontius Pilatus, prefeito da Jud�ia". Muitos relatos continuam sem explica��o. At� hoje n�o surgiram sinais arqueol�gicos da c�lebre batalha de Jeric�, em que os judeus comandados por Josu� teriam iniciado a conquista de Cana�, a Terra Prometida. Pela descri��o b�blica, a batalha contra os cananeus foi t�o demorada que, a pedido de Josu�, Deus fez o sol parar e prolongou o dia at� que os judeus conquistassem a vit�ria. Pelo que se conhece hoje de astronomia, a hist�ria � absurda. Ainda que se d� um desconto no caso do sol, ao verificar se realmente houve a batalha, os cientistas descobriram que na �poca em que aconteceram os fatos narrados, o s�culo XIII a.C., Jeric� simplesmente n�o existia. Israel Filkenstein, da Universidade de Tel Aviv, sustenta que a ocupa��o da Terra Prometida ocorreu de forma gradual, durante um longo per�odo, envolvendo povos vindos de diferentes regi�es, inclusive do Egito, de onde trouxeram a id�ia do monote�smo. "Eles s� tiveram de lutar quando se uniram para formar Israel." Natividade, de Gentile da Fabriano: pesquisadores americanos conclu�ram que o �nico detalhe da descri��o do natal de Jesus contida nos Evangelhos que merece credibilidade � o nome da m�e do menino, Maria Da mesma forma, Abra�o, o patriarca fundador do povo judeu, passou pela Terra sem deixar vest�gios. Tanto ele como seu filho Isaac e todos os patriarcas s� ganham corpo e figura nas p�ginas da B�blia. O que n�o significa que n�o existiram. Todas as refer�ncias sociais, econ�micas e pol�ticas que comp�em o ambiente em que eles viveram coincidem com as circunst�ncias hist�ricas da �poca. O caso mais chocante de falta de registro � o da hist�ria de Mois�s e do �xodo, a fuga de 40.000 israelitas dos dom�nios do fara� do Egito, na qual vagaram pelo deserto durante quarenta anos. Entre 1967 e 1982, per�odo em que Israel ocupou o Deserto do Sinai ap�s a Guerra dos Seis Dias, contra o Egito, arque�logos vasculharam a regi�o em busca de sinais do acampamento de Mois�s e sua gente. Nada foi encontrado. Nem os documentos e registros eg�pcios da �poca dos fara�s fazem men��o a Mois�s e aos 40.000 escravos em fuga. Acontecimentos miraculosos e extraordin�rios como as pragas do Egito ou o desaparecimento do Ex�rcito eg�pcio tragado pelo Mar Vermelho tamb�m n�o receberam nenhuma men��o. Alguns historiadores acreditam que n�o � de estranhar tal indiferen�a. "O Egito era a pot�ncia militar e econ�mica da �poca, e Israel, um pa�s sem express�o. Um fato como esse, determinante para os judeus, poderia perfeitamente passar despercebido pelos eg�pcios", diz o historiador Hil�rio Franco J�nior. Falar de mitologia na B�blia pode parecer blasf�mia para os fundamentalistas, mas n�o assusta te�logos esclarecidos. "N�o se pode confundir mito com quimera", diz Domingos Zamagna, professor de hist�ria e tradutor da B�blia para o portugu�s. "A mitologia est� ligada �s profundezas da alma humana. Todas as civiliza��es t�m sua mitologia. Os seres humanos sempre recorreram aos mitos para se comunicar e tentar entender a realidade." A arte se valeu do mito em todos os tempos e cria ela pr�pria sua mitologia. O que seria o mundo da comunica��o de massa, do espet�culo, do show business moderno sem o mito? "Ningu�m discute que a Odiss�ia, de Homero, seja uma obra mitol�gica, mesmo sabendo que ela tem aspectos hist�ricos comprovados. Ent�o, por que n�o podemos admitir os aspectos mitol�gicos da B�blia?", pergunta o historiador Hil�rio Franco J�nior. As dificuldades para entender a B�blia e estabelecer o que � realidade hist�rica e o que � fic��o decorrem das peculiaridades dessa obra liter�ria incompar�vel. A hist�ria da B�blia � complexa e cheia de controv�rsias. Acredita-se que os autores dos textos b�blicos foram muitos. � prov�vel que os relatos tenham sido escritos aos poucos, no decorrer dos s�culos, por autores diversos que acrescentaram, cortaram e revisaram os escritos existentes. Os tradicionalistas dizem que os cinco primeiros livros foram escritos diretamente por Mois�s, sob inspira��o divina. Os liberais t�m certeza apenas a respeito das Cartas aos Romanos, aos G�latas e aos Cor�ntios, do Novo Testamento da B�blia crist�. Foram escritas pelo ap�stolo Paulo. Quanto aos outros autores, h� muitas d�vidas. Alguns, como os profetas Jeremias ou Isa�as, podem ter dado uma contribui��o maior nos livros que levam seus nomes, mas seriam na verdade os mestres e fundadores de uma linha de pensamento que ficou expressa e compilada em relatos posteriores. "Na antiguidade era comum atribuir textos �s celebridades da �poca", explica Zamagna. "Na verdade, os textos b�blicos eram cria��es coletivas que iam sendo compostas e alteradas durante um longo per�odo." Pele de cabra � A incerteza a respeito da originalidade dos textos b�blicos decorre de dois fatores. O primeiro � que n�o se tem certeza a respeito da fidelidade aos fatos por parte de quem os escreveu. Al�m disso, tamb�m os copistas, encarregados de reproduzir os livros num tempo em que ainda n�o havia tipografia, cometiam erros, nem sempre involunt�rios. � poss�vel que, dependendo dos valores da �poca, do clima pol�tico e religioso, cortassem ou acrescentassem trechos para satisfazer a ordem vigente. O papel s� surgiu no Ocidente no s�culo VII d.C. At� essa �poca, a escrita era feita em tabletes de argila, pedra, pergaminho de pele de cabra ou papiro, uma fibra vegetal. Uma das dificuldades para entender os textos b�blicos � a l�ngua. A B�blia foi escrita em hebraico em sua maior parte e tamb�m em aramaico. O hebraico b�blico tem uma peculiaridade. � escrito sem vogais, o que torna ainda mais complicada sua interpreta��o. Mesmo quando se trata do Novo Testamento, a parte mais recente da B�blia crist�, h� diverg�ncias. Os Evangelhos, a principal fonte para reconstituir a vida de Cristo, foram escritos pelo menos quarenta anos ap�s sua morte. Lucas e Marcos n�o conviveram com Jesus e escreveram a partir de depoimentos de terceiros. No caso de Jo�o e Mateus, os ap�stolos aos quais s�o atribu�dos os outros dois Evangelhos, existem d�vidas de que tenham sido eles mesmos que escreveram a obra. Comparando os quatro Evangelhos e tamb�m o Evangelho ap�crifo de S�o Tom�, estudiosos americanos chegaram � conclus�o de que apenas 18% das palavras atribu�das a Jesus poderiam realmente ter sido ditas por ele. At� agora, as d�vidas dos cientistas a respeito dos relatos b�blicos s�o infinitamente maiores do que as certezas. � o que acontece com o Santo Sud�rio, alvo de pesquisas freq�entemente contradit�rias e inconclusivas. Provavelmente muitas dessas d�vidas nunca ter�o uma resposta definitiva � luz da raz�o e da l�gica. Para milh�es e milh�es de judeus, crist�os e mu�ulmanos devotos, isso pouco importa. Para eles, a f� na inspira��o divina dos textos que consideram sagrados � muito mais confi�vel do que qualquer evid�ncia desenterrada pelos arque�logos. � por isso que ci�ncia e f� s�o coisas diferentes. Os cientistas baseiam suas teorias em informa��es concretas, resultantes de experi�ncias e fatos comprovados. Os crentes retiram suas certezas de uma subst�ncia muito mais et�rea � a convic��o de que algo existe e � verdadeiro porque foi revelado pelo pr�prio Deus. Os ca�adores de rel�quias Quando o pastor Juma Mohammed saiu para procurar uma cabra desgarrada naquela tarde de abril de 1947, n�o sabia que estava �s portas de uma das mais preciosas descobertas arqueol�gicas do s�culo. Dentro de uma caverna e de outras dez da regi�o, em Qumran, �s margens do Mar Morto, recolheu-se mais tarde a maior e mais antiga cole��o de textos b�blicos conhecidos. Eram mais de 900 rolos inteiros ou fragmentos de pergaminho com quase todos os livros do Antigo Testamento, datados do ano 225 a.C. ao ano 70 d.C. Esse tesouro, que cont�m tamb�m documentos dos ess�nios, a seita judaica que provavelmente redigiu e guardou os manuscritos, continua sendo interpretado e traduzido por uma equipe internacional de especialistas. A curiosidade cient�fica em torno da B�blia acabou por transformar o territ�rio de Israel no maior s�tio arqueol�gico do mundo. Nem mesmo no Egito h� tantas pesquisas em andamento. A Autoridade de Antiguidades Israelense, minist�rio encarregado de administrar o patrim�nio de antiguidades do pa�s, tem cadastrados 14.000 locais de interesse arqueol�gico num territ�rio de 22.000 quil�metros quadrados, o equivalente � �rea de Sergipe, o menor Estado brasileiro. Desses, 6.000 j� est�o sendo escavados, em alguns casos por cientistas e arque�logos, mas em grande parte por curiosos em busca de algum tesouro perdido. As pesquisas arqueol�gicas na Terra Santa come�aram em meados do s�culo passado. O primeiro explorador a empregar m�todos cient�ficos na busca de documentos hist�ricos foi o americano Edward Robinson, que esteve na Palestina entre 1837 e 1852 identificando centenas de lugares sagrados. A arqueologia b�blica tomou novo impulso em 1920 com a chegada � regi�o de William Foxwell Albright, professor de hebraico na Universidade Johns Hopkins. Apesar de toda essa riqueza arqueol�gica, as rel�quias do per�odo b�blico nem sempre foram bem preservadas. A reconstru��o de uma cidade quase sempre implicava a destrui��o dos vest�gios de cidades preexistentes. Em Jerusal�m, os escavadores encontraram v�rias camadas arqueol�gicas correspondentes �s sucessivas reedifica��es da cidade. |
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