Missa sem Tambor                            Veja 01/07/1998
Afastamento de bispo negro em Salvador acirra a pol�mica sobre o sincretismo na Bahia

''Combato o sincretismo. Com a liberdade de cren�a que existe no Brasil, cada um tem de seguir sua f�, sem misturas"
DOM LUCAS   

"O �dio, a intoler�ncia e a exclus�o n�o podem estar presentes nas rela��es da Igreja com
o culto africano"
DOM G�LIO

Na Bahia, o sincretismo religioso sempre foi um assunto delicado para as autoridades eclesi�sticas. � uma heran�a antiga, ainda do tempo da escravid�o. Proibidos pelos senhores de engenho de praticar o candombl�, os escravos desenvolveram uma forma de religiosidade na qual os s�mbolos e rituais afros se misturaram aos cat�licos, e vice-versa. Como resultado, hoje � comum encontrar nos terreiros de candombl� imagens de santos com nomes de orix�s, da mesma forma que o atabaque e o berimbau se incorporaram �s festividades cat�licas. Com grau maior ou menor de toler�ncia, durante s�culos a hierarquia cat�lica conviveu com essa mistura. Nas �ltimas semanas, por�m, a quest�o ganhou contornos de crise. O motivo foi a decis�o do cardeal-arcebispo de Salvador, dom Lucas Moreira Neves, de transferir para uma regional distante da capital baiana o primeiro bispo negro a ocupar um cargo importante na Igreja Cat�lica local. Dom G�lio Fel�cio, 48 anos, ga�cho de Lajeado, fora nomeado pelo Vaticano bispo-auxiliar da arquidiocese no in�cio do ano. Antes mesmo de esquentar a cadeira foi transferido para a cidade de Cruz das Almas, a 160 quil�metros de Salvador. A comunidade negra ficou ofendida porque dom G�lio, al�m de negro, v� com naturalidade o sincretismo. Dom Lucas, ao contr�rio, op�e-se a ele.

"Para entender a Bahia � preciso entender a dualidade religiosa", reclama Alb�rico Paiva Pereira, mestre de novi�os da Irmandade de Nossa Senhora do Ros�rio dos Pretos, fundada por escravos e negros libertos no in�cio do s�culo XVIII. "As pessoas aqui acreditam sinceramente, e com a mesma for�a, em Jesus, nos santos cat�licos e nos orix�s." Pereira �, ele pr�prio, um bom exemplo dessa dualidade. Membro de uma irmandade cat�lica, em seu peito convivem, sob uma camiseta com a estampa de Zumbi dos Palmares, uma guia de Xang� (colar de contas que, no candombl�, invoca a prote��o dos orix�s) e um crucifixo. Dom Lucas, por seu lado, detesta esse tipo de combina��o. "Vou continuar combatendo o sincretismo", tem afirmado em entrevistas recentes. "Quando as religi�es afro-brasileiras eram perseguidas e proscritas, ainda havia sentido. Agora, com a liberdade total de cren�a no Brasil, cada um tem de seguir sua f�, sem misturas."

Curioso � que existem l�deres do candombl� que concordam com o cardeal. "N�o podemos mais esconder nossa f� sob os altares dos brancos. O sincretismo n�o tem mais lugar", diz o antrop�logo Jaime Sodr�, og�, do terreiro Il� Ax� Op� Afonj�, um dos mais tradicionais de Salvador. Ele reconhece, no entanto, que hoje a realidade religiosa de Salvador � mais complexa do que a simples venera��o a Santa B�rbara como fachada para o culto a Ians�, ou a rever�ncia ao Senhor do Bonfim como disfarce ao culto a Oxal�. "Realmente, boa parte dos baianos tem f� nas entidades das duas religi�es", diz. Uma prova de que a mistura entre ritos afros e catolicismo talvez j� n�o possa ser desfeita est� no censo do IBGE. Embora Salvador seja uma cidade que se veste de branco �s sextas-feiras, em rever�ncia a Oxal�, onde a cada esquina se trope�a num eb� (oferenda) e quase todos sabem qual � seu "santo de cabe�a" (orix� protetor), no �ltimo censo apenas 0,1% dos baianos se declararam adeptos do candombl� (veja quadro acima). A porcentagem � menor do que na maioria dos outros Estados e s� se iguala � do Paran� e � de Sergipe. No Rio de Janeiro, quase 2% da popula��o diz seguir o candombl�. Na Bahia, ao contr�rio, a imensa maioria da popula��o se declara cat�lica. At� M�e Menininha do Gantois, a mais famosa m�e-de-santo baiana, dizia ser cat�lica.

Dom G�lio � militante de longa data das pastorais de negros. Cumpriu dois mandatos como presidente do Instituto Mariama, institui��o que re�ne padres, bispos e di�conos negros e se dedica a estudar a espiritualidade afro-brasileira. Para ele, o sincretismo � um assunto que deve ser estudado e tolerado pela Igreja Cat�lica. "Existe profunda identidade entre a f� cat�lica e o candombl�", afirma o bispo. "O culto aos antepassados, feito no candombl�, � similar � cren�a na vida eterna dos crist�os. Os mitos da cria��o do mundo da Na��o Nag� s�o muito semelhantes aos do livro do G�nese, na B�blia. Por isso, o sincretismo � uma realidade que desafia a a��o pastoral. Nunca o �dio, a intoler�ncia e a exclus�o podem estar presentes nas rela��es da Igreja com o culto africano."

Festa afro � Dom Lucas vai numa dire��o oposta. Desde que chegou a Salvador, em 1987, o cardeal, que tamb�m � presidente da Confer�ncia Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, tenta p�r ordem na casa afastando os elementos do candombl� que se incorporaram ao ritual cat�lico. Por ordem dele, a lavagem da Igreja do Bonfim, uma festa carregada de simbologia afro, passou a ser feita apenas nas escadarias. O adro da igreja foi fechado �s baianas com seus jarros de �gua de cheiro. Em 1993, ele proibiu a missa comemorativa dos vinte anos do bloco Il� Aiy� porque os c�nticos seriam acompanhados por instrumentos de percuss�o africanos. Em Cachoeira, no Rec�ncavo Baiano, a tradicional Irmandade da Boa Morte, fundada por mulheres negras h� 200 anos, deixou de ser tolerada por padres leais ao arcebispo.

Nesse clima, � compreens�vel que a rea��o ao afastamento de dom G�lio tenha sido grande, dentro e fora da pr�pria Igreja. "N�o posso afirmar que dom G�lio foi afastado por suas id�ias a respeito do sincretismo, mas acho estranho o fato de ele ser o �nico bispo auxiliar que atuar� fora do centro pol�tico-decis�rio da arquidiocese", reclama Alfredo D�rea, p�roco da igreja do Ros�rio dos Pretos. Enquanto a pol�mica aumenta, os dois principais envolvidos evitam coment�-la. Publicamente, dom G�lio n�o reclamou da transfer�ncia para a regional de Cruz das Almas. Suas declara��es, ao contr�rio, foram bastante cuidadosas at� agora. "Ouvi as especula��es e creio que os afrodescendentes est�o frustrados", afirma o bispo. "H� o entusiasmo do povo negro pelo irm�o de ra�a numa posi��o de destaque. Afinal, os negros cat�licos s�o muitos, mas s�o poucos os bispos negros, embora haja muitos padres negros com qualifica��o para ser bispos."
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