Guerra Santa �s Mulheres                 Veja 05/08/1998
Com o fim das �ltimas escolas para meninas, o regime fan�tico do Afeganist�o volta aos costumes medievais

�s v�speras do s�culo XXI e com o mundo todo mergulhado no abra�o da globaliza��o, o Afeganist�o � um lugar com a desesperadora peculiaridade de ter dado um salto para tr�s. Desde que tomou a capital, Cabul, menos de dois anos atr�s, a mil�cia Taliban � uma for�a guerrilheira nascida nos semin�rios isl�micos e que controla dois ter�os do pa�s � transformou em lei uma vers�o severa, tacanha e radical da sharia, o conjunto de leis e regras de comportamento prescritos para os mu�ulmanos. Imp�s um r�gido c�digo de vestu�rio, proibiu raspar a barba, m�sica, cinema, televis�o, antenas parab�licas, jogos de cartas, criar p�ssaros e soltar pipa. Nada, contudo, � mais sufocante que a situa��o das mulheres.

A partir da adolesc�ncia, elas n�o podem nem falar com homens, exceto parentes pr�ximos. S�o impedidas de trabalhar e estudar. S� saem � rua por motivo justificado, assim mesmo acompanhadas de um parente e cobertas da cabe�a aos p�s pelo burqa, o manto que envolve o corpo todo � um pequeno c�rculo, � altura dos olhos e do nariz, permite a vis�o atrav�s de uma tela, protegida por tecido mais fino. Patrulhas do Minist�rio da Propaga��o da Virtude e de Combate ao V�cio percorrem as ruas, de chicote em punho, atr�s de um pecaminoso p� sem meia dentro da sand�lia. Os talibans lutam em duas frentes � contra mil�cias rivais no norte e contra o pecado no restante do pa�s. A islamiza��o do pa�s, contudo, parece mais uma guerra �s mulheres.

Um pa�s atrasad�ssimo numa regi�o montanhosa do Centro-Oeste da �sia, o Afeganist�o nunca foi uma sociedade igualit�ria para os sexos. Apenas 1% das meninas chegava � universidade em 1979, quando a Uni�o Sovi�tica invadiu o pa�s para ajudar um presidente comunista e o transformou num ponto de tens�o da Guerra Fria. O Taliban v� o trabalho feminino como uma arma na conspira��o ocidental contra o Isl� e, duas semanas atr�s, fechou as �ltimas dez escolas para meninas (eram, na realidade, classes improvisadas em casas particulares). S� as m�dicas continuam em atividade, pois um homem n�o poderia atender pacientes do sexo oposto. Os princ�pios da sharia s�o aplicados em outros pa�ses, como a Ar�bia Saudita e o Ir�, mas o rigor primitivo dos afeg�os escandaliza at� os aiatol�s de Teer�. Depois de dezessete anos de guerra civil, a mil�cia fan�tica trouxe certa ordem e paz para Cabul, mas o pre�o tem sido terr�vel. Tr�s semanas atr�s, com a expuls�o das ag�ncias humanit�rias internacionais, fechou-se a �ltima porta ao exterior. Vestidas em seus burqas, s� resta �s afeg�s olhar o mundo por uma fresta de luz.

O direito de ser devota
No mundo mu�ulmano, onde a regra � impor �s mulheres severos c�digos de conduta, a Turquia vive na contram�o. L�, o governo est� �s voltas com manifesta��es semanais, que chegam a reunir 3000 universit�rias diante da Universidade de Istambul, pelo direito de cobrir os cabelos segundo o figurino das mu�ulmanas devotas. A liberdade de vestimentas est� longe de ser um assunto banal no pa�s. Quando fundou a atual Turquia nos escombros do Imp�rio Otomano, em 1923, Mustafa Kemal, o Ataturk, separou radicalmente a mesquita do Estado. Entre as medidas que imp�s para tentar criar um pa�s moderno e laico est�o as roupas ocidentais e o alfabeto latino. O v�u, compuls�rio no regime teocr�tico dos sult�es, foi banido do servi�o p�blico e das escolas. O Ex�rcito e o governo querem manter essas inova��es a todo custo, mas a maioria da popula��o prefere viver segundo costumes tradicionais. O uso do v�u ressurgiu com toda for�a na �ltima d�cada, acompanhando a efervesc�ncia isl�mica no Oriente M�dio. Em 1995, um partido fundamentalista chegou a ganhar as elei��es e governou por mais de um ano, at� ser cassado pela Suprema Corte. O dilema tem certa ironia: liberdade para as turcas inclui o direito de cobrir a cabe�a.
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