Doutor Fritz Enriquece                        Veja 03/12/1997
M�dicos examinam Doutor Fritz e descobrem o engenheiro Rubens, cada vez mais rico

O imenso galp�o, onde funcionava um curtume, no suburban�ssimo bairro da Penha no Rio de Janeiro, abriga uma legi�o de milhares de esperan�osos. S�o os seguidores do Doutor Fritz, "pacientes" de um engenheiro que delira ser possu�do pelo esp�rito de um "m�dico alem�o" que morreu na I Guerra Mundial e que hoje espalharia curas milagrosas pelo Brasil. Rubens Farias J�nior, 45 anos, delira mas n�o � louco, pois ganha um belo dinheiro fingindo-se de m�dico. � segunda-feira. Cerca de 1.400 pessoas aguardam a cura, sentadas  em cadeiras alugadas, por 2 reais, depois de j� terem pago 15 reais pelo ingresso. Rubens garante que quem n�o pode n�o paga e que os mais ricos �s vezes pagam mais  na forma de doa��o. Quanto isso significa � segredo s� compartilhado nos c�us por Fritz e na terra por Rubens e Rita, sua mulher, uma pedagoga loura, bonita e simp�tica, o bra�o direito.

Se todos pagassem o pre�o m�nimo, apenas em um dia a bilheteria teria recolhido perto de 21.000 reais de ingresso e outros 2.800 reais pelas cadeiras. Num m�s, seriam 523.000 reais. Num ano, 6 milh�es de reais. Farias herdou o Doutor Fritz do m�dium mineiro Z� Arig�, que morreu h� 26 anos, em acidente de carro. Rubens mant�m uma obra social que distribui 300 cestas b�sicas de 20 quilos diariamente entre os pobres, o que custa no mercado 8.000 reais em m�dia. Doutor Fritz alimenta a todos, mas quem alimenta Rubens? "Minha mulher, Rita, � corretora de im�veis e ajuda. N�o vou negar que a funda��o me d� dinheiro para que eu possa viver direito. Tenho um confort�vel apartamento na Barra da Tijuca, um flat em S�o Paulo, dois carros e n�o tenho problemas financeiros nem em pesadelo."

Com brinquinho de ouro em forma de meia-lua na orelha esquerda, cabelos curtos no auge da moda, �culos redondos tamb�m de figurino, avental sobre a cal�a jeans, Farias se posta no centro do imenso galp�o e as filas come�am a serpentear � sua volta. As mazelas s�o ditas ao p� do ouvido, e o m�dico encarnado, com o gesto r�pido de um prestidigitador, finge que aplica uma inje��o na regi�o lesada  olho, pesco�o, bra�o, joelho, seja l� onde for. A subst�ncia na seringa � uma mistura de aguarr�s, iodo e �gua destilada. "Quase nunca enfio a agulha", conta o engenheiro, revelando seu truque para enganar os pacientes. "� mais uma quest�o de auto-sugest�o, trabalho como os m�dicos da medicina tradicional fazem quando prescrevem um placebo, ao perceber ser mais mental do que f�sico o mal do paciente." Pelo sim, pelo n�o, de quando em vez Rubens-Fritz atira numa bacia hospitalar seringas usadas para ser recicladas e pega uma nova.

Marteladas  "Fritz � uma entidade extremamente poderosa", cr� o general Metton Gadelha, introdutor do ex-presidente da Rep�blica Jo�o Figueiredo na esfera do m�dium. Para o dermatologista Ramon Blanco, primeiro-secret�rio do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro, "Rubens n�o passa de um farsante, caso de pol�cia". De Bras�lia, o m�dico Ant�nio Henrique Pedrosa, presidente do Conselho Federal de Medicina, fustiga: "Isso � charlatanismo da pior esp�cie". Rubens Farias reconhece que o que faz n�o tem amparo jur�dico. "� pr�tica ilegal da medicina?", pergunta. E responde: "�, n�o h� d�vida, sou engenheiro eletr�nico". Apesar disso, seu p�tio lota cada vez mais, e Rubens Farias n�o tem m�os para atender pacientes nem mesmo trabalhando quinze horas di�rias. O ex-t�cnico da sele��o brasileira Tel� Santana busca al�vio para uma isquemia.

Do arsenal de truques usados pelo m�dium, al�m da inje��o de mentirinha constam outros. O m�dico Rodrigo Gavina da Cruz, cirurgi�o tor�cico do Hospital Souza Aguiar e do Hospital da Pol�cia Militar, ambos no Rio de Janeiro, assistiu  a convite de VEJA  a meia d�zia de cirurgias lombares e 100 consultas e tratamentos diversos. Gavina flagrou a esperteza: "Rubens, nas cirurgias de h�rnia de disco, na realidade, realiza uma opera��o sugestiva. Em todas, seus instrumentos n�o ultrapassaram a fronteira da musculatura paravertebral". Na primeira, por exemplo, a incis�o foi vertical, com extens�o de 5 cent�metros e profundidade de 2 ou 3 cent�metros. Nessa regi�o, Doutor Fritz afirmou ter detectado a h�rnia. Pediu uma tesoura, usou-a fechada como um escopo. Posicionou a ponta sobre a musculatura logo acima do processo espinhoso da v�rtebra e bateu com for�a. Era impressionante, e s� isso. A m�o esquerda segurava a tesoura entre os dedos, absorvendo 90% do impacto. Ou seja, "as marteladas" que deixavam os circunstantes de boca aberta n�o tinham outro efeito que n�o o sonoro.

O m�dico de verdade, Rodrigo Gavina, viu Doutor Fritz "aplicando inje��es na aura" de todos os pacientes. "Para incr�dulos como eu, a atitude era de um curandeiro." Depois de embolsar o dinheiro dos pacientes, em muitos casos o m�dium os aconselhava a simplesmente seguir as prescri��es ouvidas na �ltima vez que haviam passado num consult�rio tradicional. Esse foi o caso de um rapaz com um grande tumor �sseo, a quem fora aconselhada como �nica solu��o a quimioterapia. Descrente da medicina tradicional, o doente procurava rem�dio com o Doutor Fritz. Rubens informou que o tumor � inoper�vel e que a quimioterapia era a melhor alternativa. O rapaz ficou na mesma.

Dor incontrol�vel  Numa �nica visita, o doutor Gavina conseguiu explica��o para quase todos os truques de Rubens, menos para a incr�vel analgesia dos pacientes. N�o entendeu tamb�m por que eles n�o pioram, j� que as incis�es n�o resultam em infec��es. "Um corte feito por qualquer cirurgi�o, mesmo nos planos cir�rgicos superficiais, certamente produziria dor incontrol�vel, que poderia levar a situa��es dr�sticas como um desmaio", diz o m�dico.

Rubens faz mist�rio sobre como opera��es realizadas sem nenhuma assepsia n�o resultam em infec��es perigosas. "Eu n�o sei. O fato � que Doutor Fritz realizou at� agora 13.000 opera��es, com 0% de complica��o." J� � s�bado. Tr�s horas da madrugada. Rubens-Fritz perdeu 1,5 quilo ao longo de um dia inteiro de trabalho. Vai para casa. Aguarda-o um mocot� com arroz, feij�o, dois ovos, salada de alface e meia jarra de suco. Afinal, todo Fritz tem seu momento de Rubens.
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