Cat�licos em Transe                             Veja 08/04/1998
Ricos e pobres, elegantes e desvalidos lotam as missas da Renova��o Carism�tica e mudam a cara da Igreja

Na tradicional Igreja Nossa Senhora do Brasil, h� duas gera��es freq�entada pela fina flor da sociedade cat�lica paulistana, 300 pessoas rezam alto, choram, batem palmas e cantam a plenos pulm�es. No palco improvisado no sal�o de festas, um jovem religioso esconjura o dem�nio, invoca os poderes do Esp�rito Santo e pede a Deus a "quebra de todo encantamento, amarra��o e maldi��o" que possa estar prejudicando a vida dos presentes. Parece um culto evang�lico da Igreja Universal do Reino de Deus. E algumas coisas nesse ritual cat�lico s�o de fato muito parecidas com uma reuni�o evang�lica. Outras, no entanto, s�o bem diferentes. Os fi�is da Igreja Nossa Senhora do Brasil pouco t�m em comum com a maior parte do p�blico que lota os galp�es da Universal na periferia das cidades, como � atestado pelo figurino predominante nessa cerim�nia cat�lica (tailleurs Escada e bolsas Gucci podem ser vistos a dist�ncia) e pelas esmeraldas expostas nos dedos erguidos em prece � reluzentes como o sobrenome de suas donas: Simonsen, Vidigal, Cabrera e Papa, entre outros.

A elite brasileira, autodeclarada apost�lica e romana h� cinco s�culos, sucumbe aos encantos da Renova��o Carism�tica, movimento que pretende "reenergizar" a f� cat�lica por meio do exerc�cio de dons carism�ticos como da cura, do milagre e da profecia, e do culto ao Esp�rito Santo e � Virgem Maria. No Rio de Janeiro, o movimento ganhou a simpatia de socialites do quilate de Carmem Mayrink Veiga e Gisella Amaral. Em Belo Horizonte, Zilda Couto e �ngela Gutierrez, de fam�lias de empres�rios da constru��o, engordam o rebanho dos convertidos. Ter�o de p�rola nas m�os, a nata do PIB brasileiro se rende � gritaria do discurso pentecostal da Renova��o, que j� pode ser ouvido at� na capela do Pal�cio da Alvorada, resid�ncia do presidente Fernando Henrique Cardoso, onde funcion�rios carism�ticos se re�nem todas as ter�as-feiras para rezar. S� Bras�lia tem hoje 10.000 fi�is, muitos da elite local. �urea Caixeta de Oliveira, por exemplo, aderiu ao movimento h� dois anos. Seu marido, Joaquim Constantino de Oliveira, � dono da maior frota de �nibus do mundo, com 13% dos 10.800 ve�culos que circulam em S�o Paulo. �urea, de 63 anos, diz que encontrou no movimento for�as para enfrentar a solid�o que sentiu depois que seus sete filhos cresceram. "Busquei nos carism�ticos uma forma de preencher o vazio da casa."

Eis o mist�rio da f�. Essas fi�is que erguem os bra�os e imploram pela b�n��o divina t�m dinheiro para pagar qualquer psicanalista do pa�s. S�o mulheres que poderiam relaxar do stress da vida moderna viajando para um para�so da Polin�sia. Em vez disso, preferem submeter-se ao ritual pacificador do div� religioso. Os pedidos, em voz alta, deixariam escandalizados os representantes da Teologia da Liberta��o, pelo materialismo que evocam. "Um dia, estava com minha nora gr�vida, no farol, e surgiram dois ladr�es. Rezei para o Esp�rito Santo e n�o levaram nem o meu Breitling (rel�gio avaliado em at� 30.000 d�lares)", conta a carism�tica Cristina Simonsen. Carmem Mayrink Veiga � outro exemplo do que as missas da Renova��o t�m provocado na elite cat�lica. A socialite carioca, que se diz "simpatizante" do movimento, consultou os melhores m�dicos para descobrir a causa de uma doen�a na perna. "Depois de distribuir um milheiro de santinhos, consegui levantar-me de meu leito. Foi a� que vi que n�o basta ter dinheiro, � preciso f�", diz.

"Edir Macedo" � A conquista das colun�veis � apenas um aspecto do fen�meno carism�tico. Elas s�o, por assim dizer, a parte borbulhante da hist�ria. Mas o pov�o tamb�m aderiu. Segundo a contabilidade dos l�deres carism�ticos, o movimento conta com 8 milh�es de seguidores no pa�s. A Renova��o nasceu em 1967, nos Estados Unidos, e chegou ao Brasil em 1971, pelas m�os do padre jesu�ta Eduardo Dougherty. L�, inspirou-se nos televangelistas. Aqui, manteve fonte muito semelhante, como admite uma das estrelas da Renova��o em S�o Paulo, o padre Marcelo Rossi: "Foi o bispo Edir Macedo quem nos despertou. Ele nos acendeu". A Confer�ncia Nacional dos Bispos do Brasil, um celeiro de religiosos ligados � esquerda da Igreja, j� est� conformada com o crescimento dos carism�ticos. Existe at� uma ponte entre a entidade e o movimento, o arcebispo de Palmas, dom Alberto Taveira Corr�a, assistente nacional da Renova��o h� quatro anos. A CNBB rendeu-se � evid�ncia. Os carism�ticos est�o sacudindo a poeira do catolicismo.

A Igreja passou toda a d�cada de 80 num dilema. O polon�s Karol Wojtyla, Jo�o Paulo II, sempre deixou clara sua insatisfa��o com o discurso esquerdista que os cl�rigos cat�licos adotaram em pa�ses como o Brasil, sob a bandeira da "op��o preferencial pelos pobres". O "padre de passeata", segundo a imagem impag�vel do dramaturgo Nelson Rodrigues, apoiou invas�es de terra, estimulou o crescimento do PT, e at� freiras se sentiram � vontade para fazer a defesa apaixonada da legaliza��o do aborto. Com a redemocratiza��o do pa�s, as comunidades eclesiais de base, onde essa corrente se abrigava, sofreram esvaziamento total. Os ricos e remediados continuaram se dizendo cat�licos, e s� se dizendo, enquanto os pobres lan�avam-se nas redes de religi�es evang�licas, como a do bispo Edir Macedo, que forma mestres em comunica��o aptos a promover missas fren�ticas e formid�veis espet�culos de cura.

Agora recorrendo a m�todos parecidos, os carism�ticos cat�licos j� t�m do que se gabar. Em novembro passado, o padre Rossi, 30 anos, reuniu 70.000 fi�is em megamissa no Est�dio do Morumbi, em S�o Paulo. Ex-professor de educa��o f�sica, ele manipula met�foras com a mesma destreza com que levantava pesos. "Quem j� viu a eletricidade? Ningu�m viu, mas ela existe. � como Deus. N�s n�o vemos, mas Ele � real", explica, did�tico. Ordenado h� apenas tr�s anos, o padre vem fazendo tanto sucesso com sua performance eletrizante e suas missas ao som de guitarras que h� dois meses foi obrigado a trocar a igreja acanhada onde recebia os fi�is no bairro de Santo Amaro por um lugar maior. Padre Rossi agora reza com sua multid�o de 4.000 fi�is num galp�o conhecido como Gonzag�o, que no passado era usado para noitadas de forr�.

J� seria um grande feito, mesmo se comparado aos cultos da dissid�ncia protestante. Afinal, a Igreja Cat�lica, depois de um per�odo de retra��o e des�nimo de seus seguidores, est� outra vez reunindo multid�es extasiadas ao p� do altar. A Renova��o Carism�tica fica, por�m, mais garbosa quando se pensa que ela vem conseguindo um milagre nem sonhado pelos evang�licos: trazer os ricos de volta �s igrejas. O chamariz � forte e atende pelo nome de pragmatismo carism�tico. Ao contr�rio do catolicismo tradicional, em que se reza pela vida eterna, aqui o que se pede, entre transes e apelos ao Esp�rito Santo, � qualidade de vida na terra mesmo. Ao mesmo tempo em que pregam a necessidade do perd�o e do testemunho, os padres da Renova��o falam em "prosperidade" e "bem-estar". Agora, Deus n�o s� � a favor do patrim�nio como zela por ele. A socialite mineira e carism�tica Zilda Couto, casada com o propriet�rio da construtora Emig, em Belo Horizonte, � testemunha disso: "H� um ano, muitos dos meus im�veis estavam desalugados. Orei para que a situa��o melhorasse e foi incr�vel: dois meses depois, eles estavam todos ocupados", afirma.

No dia 12 de mar�o, em reuni�o de ora��o realizada no sal�o de festas da Igreja Nossa Senhora do Brasil, em S�o Paulo, o padre carism�tico Jorge Hermes falou para 300 fi�is, grande parte dos quais era aguardada do lado de fora por motoristas a bordo de Mercedes e BMW. Com express�es capazes de arrepiar os ouvidos mais ortodoxos, ele conclamou os presentes a levantar os bra�os, pedindo que Jesus quebrasse as "maldi��es lan�adas" contra eles e curasse todo "c�ncer, Aids, fal�ncias � sim, fal�ncias! �, problemas hormonais e digestivos" que os estivessem molestando. Emocionados, os fi�is repetiam cada frase. Na periferia das capitais, o estilo � o mesmo. Muda, por�m, o objeto de refer�ncia. Entre os pobres, o que se levanta � carteira de trabalho no momento da b�n��o. No bairro sofisticado, o que se ergue s�o carteiras de couro recheadas de notas gra�das.

Missa na butique � A estrutura do movimento carism�tico tem por base os grupos de ora��o. Sessenta mil em todo o Brasil, eles nasceram em S�o Paulo e rapidamente se espalharam para o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em 1984, j� estavam presentes na maioria dos Estados, principalmente os do Nordeste. S�o formados em sua maioria por mulheres que se re�nem nos sal�es das igrejas para rezar o ter�o e ler a B�blia, sob a orienta��o de um p�roco n�o necessariamente presente. Nos bairros ricos do pa�s, a rotina � um pouco diferente: cada grupo tem seu padre preferido � e a maior parte dos religiosos aceita de bom grado fazer o que hoje j� se tornou uma coqueluche na agenda da elite: as reuni�es e missas priv�es, celebradas nas mans�es das carism�ticas ou mesmo em suas butiques.

A rec�m-convertida empres�ria Gisela Savioli costuma organizar missas no interior da Gioli/Escada, representa��o da griffe alem� de pr�t-�-porter de luxo. Instalada em um pr�dio p�s-moderno em S�o Paulo, a butique sofre periodicamente uma metamorfose: a sala onde se re�nem as mais abonadas consumidoras da cidade se transforma em igreja. As prateleiras que abrigam tailleurs de at� 1.700 reais viram altar. Os cerca de 100 participantes da missa s�o informados do evento por meio de convites impressos em papel apergaminhado, com a recomenda��o RSVP (r�pondez s'il vous pla�t). Nas celebra��es, os convidados pedem curas e agradecem gra�as muitas vezes assumidamente pr�ticas, como a que diz ter recebido a empres�ria e carism�tica de Curitiba Angela Guerra, mulher do ex-ministro e atual prefeito de Pato Branco (PR), Alceni Guerra: "Estava num v�o turbulento e meu filho n�o conseguia dormir. Rezei com as m�os sobre a cabe�a dele e ele s� acordou quando o avi�o aterrissou".

O padre Fernando Altemeyer, do Vicariato de Comunica��o da Arquidiocese de S�o Paulo e bra�o direito de dom Paulo Evaristo Arns, diz n�o ter nada contra os carism�ticos. Mas faz suas ressalvas: "Eles s�o bem-vindos, mas o padre Rossi n�o". Para o padre Altemeyer, o astro emergente da Renova��o "est� produzindo uma outra igreja, um catolicismo med�ocre. Nem s� de aleluia vive o homem", acusa. Equivalente carioca do padre Rossi, o padre Jos� Luiz Jansen Mello, ou padre Zeca, discorda: acha que � de aleluia, sim, e de vitalidade que vive a f�. Ex-garot�o da Zona Sul arrebatado das areias do Arpoador pelos carism�ticos, ele vem fazendo sucesso entre o p�blico jovem com sua linguagem de disc-j�quei: "Deus � dez", proclama o padre surfista, que, em mar�o, lotou com 8.000 almas a Praia de Ipanema no 1� Encontro Gospel Cat�lico do Rio. "A f� n�o precisa ser taciturna. A Igreja tradicional, como estava, distanciou-se dos fi�is", afirma.

Se padres como Zeca e Rossi est�o longe de ser considerados unanimidade na Igreja Cat�lica, o fato n�o parece preocupar nem um pouco os c�rebros da Renova��o. Indiferentes aos bombardeios da ala esquerdista, eles seguem pensando alto. No livro ...E Sereis Minhas Testemunhas � Ofensiva Nacional (veja quadro ao lado), de 1993, o movimento declara suas metas para o futuro. A principal delas � participar da maioria das dioceses nacionais � j� foi atingida. Hoje, a Renova��o est� presente em 95% das cerca de 300 dioceses do pa�s, se n�o representada por um p�roco, pelo menos na forma de grupos de ora��o.

Muitos dos religiosos carism�ticos n�o foram treinados na Renova��o: s�o egressos do catolicismo tradicional. � o caso do padre Xavier Sa�z de Ibarra, 70 anos. H� um ano, ele decidiu aliar-se ao movimento. "Antes, eu dizia: 'O Senhor esteja convosco', e ningu�m respondia. Hoje, eles gritam: 'Ele est� no meio de n�s!'." Para Tereza Nunes, mulher do empres�rio de constru��o do Recife Humberto Nunes, a grande atra��o das missas carism�ticas � o fato de elas mostrarem "um Deus que n�o � raivoso ou vingativo. � amoroso. E as celebra��es s�o pura alegria". Nas missas do padre Xavier na Nossa Senhora do Brasil, os fi�is batem palmas e erguem os bra�os, ainda que o sacerdote diga que s� carrega mesmo na anima��o quando est� na pr�pria par�quia, a S�o Crist�v�o, no centro de S�o Paulo. L�, ele promove, mensalmente, missas que chama "de cura e liberta��o". Diz que, entre os contemplados pelo poder do Esp�rito Santo, est� a primeira-dama do Estado, Lila Covas. "Ela tinha um problema s�rio que comprometeu o movimento de um dos joelhos. Com a for�a de Jesus, n�s a curamos. Dona Lila deu seu testemunho do p�lpito, ao lado do governador M�rio Covas. Os dois choravam", conta o p�roco. Lila Covas recusou-se a falar sobre o assunto.

O Amor do Pai � O fato de a Renova��o poder aproveitar-se do contingente e, principalmente, da infra-estrutura da Igreja Cat�lica para crescer s� traz vantagens: em vez de se preocupar em erguer edif�cios pr�prios, como t�m de fazer os evang�licos, ela usa os j� existentes. Enquanto isso, trata de se capitalizar. Os esfor�os nesse sentido est�o concentrados na Associa��o Senhor Jesus, o bunker comercial da Renova��o, cujo patrim�nio est� avaliado em 15 milh�es de d�lares. Boa parte dessa cifra pode ser atribu�da ao empenho do incans�vel presidente da entidade, o padre Eduardo Dougherty. Fil�sofo e te�logo com cursos de administra��o e marketing em Dallas, no Texas, ele chegou ao Brasil na d�cada de 70. Na bagagem, trouxe o fervor cat�lico de Nova Orleans, cidade da Louisiana onde nasceu, e o know-how de telepastores famosos, como Jimmy Swagaart, l�der de um rebanho de 3 milh�es de fi�is. Com a disciplina de um monge e a obsess�o de um executivo, Dougherty fundou a Renova��o e foi pavimentando seu caminho.

A associa��o que montou em Valinhos, a 70 quil�metros de S�o Paulo, ocupa um terreno de 75.000 metros quadrados e tem 95 funcion�rios, tudo mantido com a contribui��o de fi�is. � l� que se fabrica a linha de produtos do movimento. A entidade produz anualmente 130.000 discos, 40.000 partituras e cerca de 6.000 B�blias, al�m de uma dezena de filmes. Para isso, conta com quatro est�dios de grava��o e at� uma cidade cenogr�fica com r�plicas dos templos de Jerusal�m. A loca��o serve para filmar miniss�ries, como O Amor do Pai, que est� sendo dublada para o espanhol para ser distribu�da pela Am�rica Latina. Por enquanto, as novelas carism�ticas s�o transmitidas no pa�s por 42 emissoras de TV. "O que se faz aqui � alta tecnologia com a for�a do Esp�rito Santo. Se Jesus estivesse vivo, estaria usando a TV para evangelizar", afirma o padre Dougherty, quase parafraseando o bispo Edir Macedo.

Em seus 2.000 anos de exist�ncia, a Igreja Cat�lica j� foi acossada por imperadores hostis, hordas de b�rbaros, cimitarras de maometanos. Venceu. J� enfrentou dissid�ncias mendicantes e fan�ticas. Venceu. J� entrou em guerras religiosas contra protestantes e venceu. Especialista na pr�pria perpetua��o, ela tamb�m escandalizou quando aboliu o latim das missas. Os cultos barulhentos dos carism�ticos podem ferir ouvidos sens�veis. Um padre de batina paramentado com sobrepeliz e... cantando pagode, como Ant�nio Maria, que d� shows na RedeVida, a emissora de TV cat�lica, pode invocar saudade de �pocas mais eruditas. Mas, ao que tudo indica, a Santa Madre, de novo, faz a op��o pela sobreviv�ncia.
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