As Bruxas Paulistas Veja 13/10/1999 Documentos mostram como a Igreja saiu � ca�a de feiticeiras em S�o Paulo no s�culo XVIII
"Seja remetido este sum�rio por duas vias ao Tribunal do Santo Of�cio da cidade de Lisboa na forma do estilo de cuja entrega se pedir� recibo que ser� remetido a este ju�zo. S�o Paulo, 18 de mar�o de 1750."
P�scoa era uma escrava paulistana que usava pedacinhos de unha, fios de cabelo e excrementos humanos para enfeiti�ar e matar. Depois de fazer um pacto com o dem�nio, ela tornou-se uma esp�cie de serial killer do s�culo XVIII, matando cinco pessoas. Essa hist�ria fant�stica consta dos autos da investiga��o sobre seus crimes, da qual a Justi�a Eclesi�stica de S�o Paulo se ocupou durante dez meses. Finalmente, em 30 de julho de 1750, o juiz assinou a senten�a: o caso deveria ser encaminhado � Inquisi��o, em Portugal. O destino de P�scoa nas m�os do Santo Of�cio, que costumava condenar bruxas � morte na fogueira, ainda � um mist�rio. Processos rec�m-redescobertos nos arquivos da arquidiocese mostram que entre 1749 e 1771 nove mulheres (P�scoa entre elas) e quatro homens foram acusados de feiti�aria em S�o Paulo. Salvos de um inc�ndio e esquecidos por d�cadas dentro de um ba� de metal, esses documentos in�ditos revelam epis�dios sombrios e pouco estudados da Hist�ria nacional: a ca�a �s bruxas conduzida pela Igreja Cat�lica h� mais de 200 anos. "Trata-se de uma descoberta revolucion�ria", diz a historiadora Mary Del Priore, professora de hist�ria do Brasil colonial na Universidade de S�o Paulo, USP. "Essa documenta��o serve para iluminar um territ�rio que ainda continua nas sombras."
Os treze processos por feiti�aria, manuscritos em delicada fibra de pano e carcomidos pelo tempo, mostram como as autoridades eclesi�sticas brasileiras seguiam � risca a cartilha da Inquisi��o portuguesa. Do s�culo XVI ao XVIII, o Tribunal do Santo Of�cio puniu com severidade qualquer suspeita de desvio em rela��o � doutrina cat�lica, incluindo a� a magia. Nunca chegou a se estabelecer na col�nia brasileira e seus enviados especiais � os Visitadores � s� estiveram nas capitanias pr�speras como Bahia, Pernambuco e Gr�o-Par�. Em S�o Paulo, na �poca um pobre aglomerado de sessenta ruas contornadas pelo Rio Tamanduate� e seu afluente, o Anhangaba�, a ca�a �s bruxas ficou por conta do clero local. Num processo aberto em 1767, Isabel Pedrosa de Alvarenga, moradora de Santo Amaro, foi acusada por um dos espi�es da Igreja (chamados de "familiares do Santo Of�cio") de dispor de um saco de coisas abomin�veis para exercer atividades diab�licas. Umbigos de crian�as, bicos de p�ssaros, cabelos e panos ensopados em sangue eram o tesouro desta mulher que vivia de esmolas e jamais admitiu ser uma bruxa. As acusadas eram normalmente pobres coitadas como Isabel, mais preocupadas com o sustento do dia-a-dia do que em prejudicar algu�m. Eram parteiras, lavadeiras de mortos, benzedeiras, curandeiras e adivinhas � t�picas profiss�es femininas da �poca. "O pr�prio saber feminino era visto como bruxaria", diz a historiadora Eliana Rea Goldschmidt, do Centro de Estudos de Demografia Hist�rica da Am�rica Latina da Universidade de S�o Paulo. A primeira leitura dos documentos � de dif�cil compreens�o devido ao portugu�s arcaico e � deteriora��o do papel � foi feita pela historiadora a pedido de VEJA.
As regras do Arcebispado da Bahia, editadas em 1707 numa tentativa pioneira de adequar as diretrizes cat�licas � col�nia tropical, puniam os praticantes de magia com multas, excomunh�o e degredo na �frica. A defini��o de magia era vaga e podia incluir qualquer acontecimento incomum. Em 1749, por exemplo, a C�ria paulista enviou a Portugal os autos de acusa��o contra Patr�cio Bicudo da Silva, colono de Santana de Parna�ba. O que tinha sido apurado contra ele era a estranheza de "trazer consigo cobras vivas nas m�os sem receber les�o alguma". Num processo arquivado na C�ria, de 1771, Leonor de Siqueira e Moraes e sua filha, Ana Francisca, foram acusadas de usar "l�quido menstrual" para transformar Manoel Jos� Barreto, marido de Ana, num "pateta".
O ex�lio no Brasil foi pena comum imposta �s feiticeiras portuguesas. Isso encheu a col�nia de benzedeiras e milagreiras. Apesar da quantidade de autos-de-f� em Lisboa, as cerim�nias em que se queimavam hereges, a ca�a �s bruxas foi mais branda em Portugal do que em outros pa�ses europeus, como a Alemanha. Todo o continente vivia assombrado por bruxarias. No auge da ca�a �s bruxas, entre 1450 e 1700, estima-se que 20.000 pessoas foram queimadas vivas. A conclus�o dos processos encontrados no Arquivo da C�ria Metropolitana de S�o Paulo pode estar nas montanhas de papel armazenadas na Torre do Tombo, que guarda os documentos coloniais em Lisboa. Ou em lugar nenhum. Se P�scoa ou outras bruxas paulistas arderam nas fogueiras �, por enquanto, uma pergunta sem resposta.
As j�ias do arquivo
O Arquivo da C�ria Metropolitana de S�o Paulo � um tesouro hist�rico conhecido por poucos. Protegidos do p� em estantes de cedro, 9 000 processos c�veis e criminais permitem rara olhada na intimidade da vida cotidiana em S�o Paulo, sul de Minas e Paran� entre 1632 e 1856. Em meio a 10 milh�es de registros de batizados, aparece o de Maria Izabel de Alc�ntara Brasileira, em 24 de maio de 1831. Sup�e o historiador Jair Mongelli, chefe do arquivo, que se trata da filha ileg�tima de dom Pedro I e Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos. "O nome est� grifado", nota. H� tamb�m processos de adult�rios, concubinatos, sacril�gios, sodomia, sexo com animais e at� mesmo de promessas de casamento n�o cumpridas. Preso em 1765, um certo Manoel Rodrigues Jord�o justificou a dispensa de Joana Machado de Siqueira alegando que a mo�a n�o tinha dentes, dinheiro ou formosura. Um fiel da par�quia de Guarulhos, hoje munic�pio da Grande S�o Paulo, foi acusado de ter ouvido missa "vestido de mulher" em 1744. No decorrer do processo, descobriu-se que "o menor" Joaquim Jos� n�o tivera a inten��o de se passar por travesti. T�o pobre que n�o tinha o que vestir, ele improvisou com roupas de suas irm�s. Acabou absolvido. |