Quem Somos N�s?                            Veja 20/12/2000
O mist�rio � saber o que cada um de n�s �. Europeus, negros e �ndios est�o na base gen�tica dos 170 milh�es de habitantes do pa�s

Todas as na��es e todas as pessoas manifestam curiosidade em rela��o a seus antepassados. Os brasileiros, mais que os habitantes de pa�ses de popula��o homog�nea, t�m interesse redobrado pelo assunto. H� um mist�rio e um problema na gera��o do povo brasileiro. O mist�rio � saber o que cada um de n�s �. Europeus, negros e �ndios est�o na base gen�tica dos 170 milh�es de habitantes do pa�s. Sabe-se hoje que mais de 60% dos que se julgam "brancos" t�m sangue �ndio ou negro correndo nas veias. O problema est� no fato de que essa mesti�agem influi na maneira como a popula��o se enxerga. Pelo tipo de beleza loura exibida em novelas da televis�o, an�ncios publicit�rios e passarelas da moda, o Brasil, ou a elite brasileira, parece envergonhar-se de sua mesti�agem. Sem diz�-lo explicitamente, anuncia uma suspeita aspira��o n�rdica. Alguns pensadores brasileiros chegaram a pregar o "branqueamento" da na��o por meio da imigra��o. Outros, mais generosos, enxergaram as virtudes que a miscigena��o propicia, mas a ra�a nunca foi um assunto neutro no Brasil. Individualmente, a pessoa interessada em retra�ar suas origens tem dificuldade para ir al�m dos av�s ou bisav�s. No plano nacional, a falta de clareza se repete. Somos majoritariamente mesti�os, sabemos, mas os censos populacionais pecam pela imprecis�o: branco, negro ou pardo s�o categorias cravadas com base na apar�ncia, no contexto social, na autopercep��o.

PAULO ZULU (PAULO CEZAR FAHLBUSCH PIRES)
Ancestralidade materna: �frica Subsaariana
Ancestralidade paterna: Europa
Ancestralidade gen�mica: africana (99,5%)

"N�o sabia, mas gostei. O apelido foi mais forte que o sobrenome", brinca o modelo. O sobrenome Fahlbusch de Paulo Zulu � de seu av� por parte de m�e, o alem�o Eugen Fahlbusch, que veio para o Brasil e casou-se com Maria do Carmo Andrade. Nascida em Muria�, Minas Gerais, Maria do Carmo � brasileir�ssima � dela, com certeza, vem a predomin�ncia africana nos genes de Zulu. "Fiquei surpresa com a africanidade de Paulo. Meu pai era daqueles alem�es 'puros', e eu puxei por ele", diz a m�e do modelo, Hannelore. Os av�s maternos do pai de Paulo Zulu eram portugueses.

A resposta sobre quem somos, mesmo contra a opini�o dos censos, est� sendo encontrada dentro de n�s mesmos. Um conjunto de pesquisas, comandadas pelo geneticista S�rgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), come�a a estabelecer com precis�o, do ponto de vista da gen�tica, quem s�o e de onde v�m os brasileiros. O estudo, tocado por dez cientistas e intitulado "Retrato molecular do Brasil", permite saber quem deu origem ao pai e � m�e de cada pessoa: se europeu, africano ou �ndio (veja como foi feita a pesquisa). A partir da�, projetando as amostragens, j� existem resultados fascinantes. Um exemplo: 97% dos brancos brasileiros t�m ancestrais europeus pelo lado da linhagem paterna. Nesse mesmo grupo, as linhagens maternas se abrem numa �rvore de tr�s ramos: 39% s�o europ�ias, 33% amer�ndias e 28% africanas. Ao todo, 61% dos brasileiros brancos t�m heran�a ind�gena ou africana em seu patrim�nio gen�tico, sempre pelo lado materno. Esses n�meros confirmam aquilo que j� se sabia de forma imprecisa. Os brancos, colonizadores ou imigrantes, tiveram filhos em larga escala com �ndias da terra ou africanas trazidas para o trabalho escravo. Vov� chegou aqui para fazer a Am�rica e pegou a vov� no la�o para satisfazer seus apetites carnais. Assim, de um ponto de vista antropol�gico, o brasileiro sofre de uma s�ndrome de bastardia, que se reflete em sua auto-imagem e na cultura que produz.

JOS� SARNEY (JOS� RIBAMAR FERREIRA DE ARAUJO COSTA)
Ancestralidade materna: �frica Central
Ancestralidade paterna: Europa, �sia e �frica
Ancestralidade gen�mica: europ�ia (99,999999%)

O senador � estudioso do assunto e sabe muita coisa sobre as origens de sua fam�lia. "O primeiro Ara�jo (antepassado do pai) que chegou ao Maranh�o foi Constantino de Ara�jo, em 1702. Ele veio de Arcos de Valdevez, no norte de Portugal, mas a fam�lia � oriunda da Gal�cia. Por parte de m�e, os ancestrais mais pr�ximos s�o portugueses tamb�m. Minha m�e � bisneta de Antonia de Vila�a, portuguesa de P�voa do Varzim, que chegou a Pernambuco em 1848. E neta de Tereza Belchior, uma cafuza (mistura de �ndio com negro)", explica.

Os resultados da segunda parte da pesquisa, que VEJA publica com exclusividade, avan�am mais nessa quantifica��o in�dita. Os pesquisadores desenvolveram um m�todo que permite estabelecer quanto de europeu (mais precisamente, euroasi�tico) e de africano tem cada brasileiro hoje. � a� que a miscigena��o, "signo sob o qual se formou a etnia brasileira", na defini��o do historiador Caio Prado J�nior, aflora por inteiro. Um brasileiro com todas as caracter�sticas externas de branco, mostra o estudo, pode ser portador do mesmo perfil gen�tico que um africano da gema. Da mesma forma, um brasileiro de pele escura pode ser geneticamente t�o branco quanto um descendente de europeus. "No Brasil, a rela��o da cor da pele com o conte�do gen�tico das pessoas � muito pobre", constata S�rgio Pena.

PAULO COELHO
Ancestralidade materna: Europa
Ancestralidade paterna: Europa
Ancestralidade gen�mica: europ�ia (99,999999%)

"Tudo europeu, que chato! Queria ter um pouco de negro, de �rabe, de judeu", lamentou. O pai e o av� de Paulo Coelho nasceram no Par�. A m�e de seu pai � do Rio Grande do Sul. Seus av�s maternos e sua m�e nasceram no Rio de Janeiro.
Ele n�o sabe mais detalhes sobre sua ascend�ncia, mas se diz muito frustrado com os resultados dos exames.


Para dar uma amostra, aleat�ria, do tipo de resultado auferido pelos m�todos de Pena e equipe, VEJA convidou quinze personalidades para se submeterem aos testes � que podem ser feitos por qualquer interessado no laborat�rio Gene, em Belo Horizonte, ao pre�o de 880 reais o "pacote". O procedimento � simples: basta recolher c�lulas da mucosa da boca com uma escovinha, exatamente como quem faz exames de DNA para comprova��o de paternidade. No final, os homens t�m direito a tr�s diplomas: um referenda a ancestralidade paterna, outro a materna e o terceiro atesta a ancestralidade gen�mica, ou seja, o tempero que predomina na salada gen�tica da pessoa hoje. No caso das mulheres, os diplomas s�o dois, pois ainda n�o � poss�vel definir o ancestral paterno original.

Alguns resultados eram rigorosamente previs�veis. Paola Maria Bourbon de Orleans e Bragan�a Sapieha, princesa descendente da fam�lia real brasileira pelo lado materno, cravou "europeu" em todas as categorias. Outros trouxeram surpresas irresist�veis. O modelo Paulo Cezar Fahlbusch Pires, apelidado na juventude de Zulu, numa brincadeira dos amigos surfistas com o bronzeado que adquiria sob o sol carioca, desmente os olhos verdes e os l�bios finos. Geneticamente, � africano. Melhor ainda, essa heran�a foi passada pela m�e de nome sonoramente germ�nico. Explica��o: Hannelore Fahlbusch � filha de alem�o com brasileira e essa av� de Paulo Zulu tem sua origem na �frica. Tem mais. Nas �ltimas gera��es, genes africanos freq�entaram com tal assiduidade a �rvore familiar do modelo que, hoje, sua seq��ncia gen�tica combina com as marcas t�picas da �frica Ocidental. J� Vicente Paulo da Silva, o l�der sindical Vicentinho, da Central �nica dos Trabalhadores, um "mulato t�pico", tem origem provavelmente moura por parte de pai. A m�e vem de tronco africano, mas nas gera��es mais recentes os genes euroasi�ticos sobressa�ram na fam�lia. Resultado: o perfil gen�tico de Vicentinho � predominantemente europeu, o que lhe d� direito a um "diploma de branco".

ANTONIO CARLOS MAGALH�ES
Ancestralidade materna: Europa Ocidental
Ancestralidade paterna: Europa
Ancestralidade gen�mica: europ�ia (99,999999%)
"J� sabia disso, embora, como bom baiano, desejasse uma pitada de mistura", diz o senador. A fam�lia do pai dele veio do norte de Portugal � os av�s eram portugueses. E a da m�e tamb�m tem origem europ�ia, "mas n�o sei precisar o lugar exato".

A salada brasileira � inesgot�vel. A �ndia Aigo, a jovem dan�arina que durante uma r�pida passagem pelo programa O+, da Rede Bandeirantes, teve a autodeclarada origem ind�gena apontada como golpe publicit�rio, agora pode provar: � descendente de �ndia, mesmo. Aigo (na carteira de identidade, Shirley Cristina Rocha) tem, portanto, direito de continuar a desfilar de cocar, peito nu e rebolado de pagodeira. Por sua vez, Susana Alves, a Tiazinha de lisa cabeleira de Iracema moderna, nunca pousou o p� na tribo. De ancestralidade materna africana, ela tem perfil europeu. Caso similar ao do ex-presidente Jos� Sarney, cujas ra�zes remotas por parte materna v�m da �frica, pelo lado paterno misturam os tr�s grandes troncos (europeu, asi�tico e africano) e, na mistura final, redundam tamb�m num "diploma de branco".

SUZANA ALVES
Ancestralidade materna: �frica Ocidental
Ancestralidade gen�mica: europ�ia (99,99%)
Os pais de Suzana s�o de Cajazeiras, no interior da Para�ba. "Fiquei muito surpresa. Nunca imaginei que minhas caracter�sticas fossem totalmente europ�ias. Se bem que sou muito branca. Minha pele � morena porque tomo muito sol desde os 13 anos. O teste me deixou curiosa por saber mais detalhes sobre minha ancestralidade."

A vis�o do Brasil como um "laborat�rio de ra�as" est� na base da forma��o nacional e mobilizou alguns dos mais importantes estudiosos no campo da sociologia e da antropologia. "Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando n�o na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do ind�gena e do negro", escreveu Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala. Freyre foi pioneiro na separa��o entre "ra�a" e "cultura" e tamb�m o primeiro a destacar a miscigena��o como ponto positivo. Em 500 anos de Hist�ria, o Brasil construiu no tr�pico um pa�s de cultura riqu�ssima, colorida por uma luz toda especial nas festas, na culin�ria, na m�sica. O Brasil est� entre as dez maiores economias do mundo, e seu povo, com todas as dificuldades pr�ticas trazidas por diferen�as de renda e de educa��o, aprende r�pido, exibe capacidade incomum de adaptar-se a novidades e de contornar o desastre. Essa � uma heran�a positiva que muitos pensadores da atualidade destacam. No passado, por�m, a corrente dominante da intelig�ncia nacional s� via defeitos naquilo que � uma de nossas virtudes.

� luz do contexto hist�rico e dos conhecimentos cient�ficos do passado, n�o � de espantar que o Brasil sempre tenha desejado ser branco � a cor do descobridor, do colonizador, enfim, da matriz europ�ia, na qual o pa�s queria espelhar-se. O �ndio da terra era o bugre, que precisava ser domado, catequizado, incorporado � for�a de trabalho ou, quando todas as alternativas falhavam, eliminado. O africano era trazido a ferros para a indignidade da escravid�o, um estigma permanente.

BENEDITA DA SILVA
Ancestralidade materna: �frica Ocidental
Ancestralidade gen�mica: africana (99,7%)
"Estive no Senegal e tive quase certeza de que n�s viemos de l�", conta Benedita. Ela lembra que sua bisav� materna dizia que os antepassados tinham vindo de Angola. Mas, do lado do pai, "muito alto, muito negro", o tipo, segundo ela, combina perfeitamente com o dos senegaleses que conheceu.


No s�culo XIX, as id�ias positivistas deram um verniz cient�fico ao anseio de brancura. Para que o pa�s progredisse e se firmasse no concerto das na��es, era necess�rio o "branqueamento da popula��o" � conceito sob o qual foram abertas as portas para a imigra��o europ�ia. Em 1911, Jo�o Batista Lacerda, diretor do Museu Nacional, deu at� uma data para que isso acontecesse: por volta de 2020, escreveu, n�o haveria mais negros no Brasil. Na d�cada seguinte, seu sucessor no museu, o m�dico e antrop�logo Edgard Roquette-Pinto, j� tinha uma vis�o mais avan�ada. Ele mediu e analisou militares de quart�is localizados nas cercanias da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, com equipamentos de medidas antropom�tricas (balan�as, r�guas especiais, escalas de tipos de cabelo e cor da pele) para demonstrar que o processo de miscigena��o n�o alterava as propor��es corporais nem a capacidade mental. Ou seja, os mesti�os n�o eram tipos degenerados � id�ia que causou pol�mica ao ser apresentada no Congresso Brasileiro de Eugenia de 1929.

 
AIGO (SHIRLEY CRISTINA ROCHA)
Ancestralidade materna: amer�ndia
Ancestralidade gen�mica: africana (58,4%)
"Este teste vai ser bom para calar a boca de todo mundo. Eu sou �ndia, mesmo. Sempre soube que minha av� por parte de m�e era �ndia. Fui � Funai, dei o nome dela (Aigo Enaldo) e eles a localizaram em uma tribo boror�. Minha av� nasceu e viveu com a tribo, engravidou de um negro, e minha m�e nasceu na tribo e morou na cidade. J� a fam�lia do meu pai � uma mistura de espanh�is com italianos, principalmente. Meu pai � mineiro e tem olhos verdes, mas a bisav� dele era negra."


N�o � preciso ser nenhum militante dos direitos dos negros para constatar que, com todas as mudan�as ocorridas desde ent�o, no Brasil a brancura da pele continua a trazer mais vantagens do ponto de vista social e econ�mico. � comum entre os brasileiros, quando se sentem suficientemente seguros, fazer brincadeiras sobre as origens familiares miscigenadas. Quando � conveniente passar uma imagem progressista ou emitir um bon mot em ambiente ilustrado, todo mundo tem uma "av� ca�ada no la�o" ou um "p� na cozinha" (o do presidente Fernando Henrique Cardoso n�o teve comprova��o ou desmentido, pois ele n�o quis fazer o teste proposto por VEJA). Na pr�tica, os mesti�os de sal�o s�o tratados como brancos.

FERNANDA TAKAI
Ancestralidade materna: Europa
Ancestralidade gen�mica: euroasi�tica (99,9999%)
"Confirmou tudo o que eu sabia.
Nasci na Serra do Navio, no Amap�. Minha m�e � alagoana, filha de portugu�s e de uma cabocla de Alagoas. J� meu pai, paulista, � filho de pai e m�e japoneses." Fernanda diz que agora pode mostrar o resultado dos testes para quem pensa que Takai � s� um nome art�stico. "V�o ter de parar de falar que eu sou japonesa do Paraguai, falsificada", brinca.
BMG Brasil

A palavra ra�a em seu sentido atual apareceu na literatura cient�fica em 1775, empregada pelo alem�o Johann Friedrich Blumenbach, um dos fundadores da antropologia, para designar grupamentos populacionais diferentes baseados em conceitos inspirados nas teorias evolucionistas. As abomina��es praticadas em nome dessas diferen�as em pleno s�culo XX no cora��o da civiliza��o europ�ia foram t�o traumatizantes que o assunto deixou de ser estudado por algum tempo. As pesquisas gen�ticas das �ltimas d�cadas pulverizam o pr�prio conceito de ra�a (veja reportagem). O trabalho realizado pelo italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza com 2.000 tribos e comunidades ind�genas de v�rias regi�es do mundo comprovou que as ra�as s�o formidavelmente id�nticas, em termos de conte�do gen�tico. "A cor dos olhos e da pele, as propor��es corporais e os tipos de cabelo s�o vernizes passados sobre uma estrutura biol�gica id�ntica", definiu Cavalli-Sforza. "Os estudos gen�micos v�m destruindo completamente a no��o de ra�a", ecoa S�rgio Danilo Pena. "Do ponto de vista gen�mico, elas n�o existem."

Reside a� uma das contradi��es mais instigantes desse ramo da ci�ncia. Ao mesmo tempo que o conceito de ra�a � fulminado, os geneticistas descobrem cada vez mais os chamados "marcadores" da hist�ria gen�tica dos indiv�duos. Na Alemanha nazista, estudiosos de respeito desenvolveram v�rias dezenas de medi��es para tentar determinar com precis�o quem era "ariano", quem era de "ra�a inferior". Era falsa ci�ncia, e muitos milhares de pessoas se salvaram gra�as a isso. Mas hoje a ci�ncia verdadeira j� pode localizar, entre outros grupos, o marcador gen�tico dos judeus (exames feitos em amostras de DNA de um neto e uma sobrinha de Gilberto Freyre indicaram uma linhagem judaica no ramo paterno). D� para imaginar o que teria acontecido se isso j� existisse seis d�cadas atr�s?

As pesquisas de Pena e equipe sobre o "retrato molecular" dos brasileiros n�o mudam o panorama das rela��es raciais no pa�s. O racismo e as diferen�as sociais entre os diversos tons de pele da popula��o brasileira n�o v�o melhorar nem piorar por causa do levantamento gen�tico, embora haja militantes do movimento pelos direitos dos negros que acreditem nessa �ltima hip�tese. "O mito da democracia racial ganhou um simulacro de suporte cient�fico", criticou o especialista em cultura negra Athayde Motta em artigo recente sobre o estudo dos geneticistas. A pesquisa obviamente n�o trata de democracia racial. Ela emprega a gen�tica para comprovar cientificamente e quantificar os n�veis de miscigena��o que as ci�ncias sociais j� haviam esquadrinhado. O resultado pode ser usado para coonestar o teatro da cordialidade racial, como receia Motta, ou para que os interessados saibam um pouco mais de onde vieram. Pensar no que isso significa pode ajudar a definir para onde ir�o.

Uma viagem �s ra�zes da �rvore geneal�gica

A equipe de dez pesquisadores coordenada pelo geneticista S�rgio Danilo Pena est� realizando seus estudos h� tr�s anos. A primeira etapa consistiu em listar grupos de varia��es gen�ticas peculiares de europeus, africanos e amer�ndios e compar�-los com as seq��ncias gen�ticas t�picas de uma amostra de 247 brasileiros brancos, homens e mulheres n�o aparentados, de quatro regi�es do Brasil: Sul, Sudeste, Norte e Nordeste. O objetivo era descobrir qual a ancestralidade paterna (a proced�ncia do homem primitivo que, h� milhares de anos, deu origem � linhagem gen�tica de cada pessoa por parte de pai) e a ancestralidade materna (idem, do lado da m�e) predominantes entre os brasileiros. De cada pessoa pesquisada, os cientistas da UFMG isolaram fatores gen�ticos passados de pai e m�e para filho e filha durante s�culos, praticamente sem mudan�as. Um desses fatores � o cromossomo Y, velho conhecido das aulas de biologia, que o pai transmite para a prole masculina. Como mulher n�o tem Y, sua ancestralidade paterna ainda n�o pode ser identificada � um irm�o ou um primo pelo lado do pai podem suprir isso. Outro � o chamado DNA mitocondrial, um pequeno fragmento do c�digo gen�tico. O DNA mitocondrial n�o tra�a a linhagem paterna, mas, no caso da materna, pode ser rastreado em marcha � r�, at� o come�o dos tempos, em ambos os sexos.

Por come�o dos tempos entenda-se um exemplar masculino de aproximadamente 80.000 anos e outro feminino mais antigo, com cerca de 150.000, descobertos na �frica: o Ad�o e a Eva dos seres humanos atuais. Nos �ltimos vinte anos, pesquisadores em diversas partes do mundo se dedicaram a comparar o mapa gen�tico de popula��es, distinguindo certos tra�os entre eles. Foi assim que surgiram os "marcadores" da ancestralidade gen�tica. Comparando os DNAs a sua disposi��o com esses marcadores, a equipe de S�rgio Pena encaixa cada pessoa em seu grupo de origem.

Os marcadores do cromossomo Y mapeados at� agora abrangem povos e regi�es da �frica negra abaixo do Saara, da �frica do Norte e �reas em volta do Mediterr�neo, Europa e de ind�genas das Am�ricas. As conclus�es dos pesquisadores de Minas Gerais sobre as origens dos brasileiros baseiam-se nas informa��es proporcionadas por esses marcadores e cruzadas com o que j� se sabe sobre a hist�ria das migra��es. Elas s�o razoavelmente precisas em rela��o a locais e refer�ncias gen�ticas, e menos exatas em rela��o a tempo, sobretudo pelo ritmo lento (no m�nimo 3.000 anos) com que uma "marca" distintiva se fixa na seq��ncia de genes de um agrupamento humano. Feitos todos os c�lculos e compara��es, o "Retrato molecular do Brasil" mostrou que, no grupo pesquisado, a esmagadora maioria � 97% � prov�m de um tronco paterno europeu. J� o tronco materno variou: 39% europeu, 33% amer�ndio, 28% africano.


A humanidade passo a passo

A gen�tica confirmou teorias sobre o lugar onde surgiram os primeiros homens e tra�ou as rotas de
povoamento do mundo

As an�lises da popula��o brasileira feitas pela equipe do geneticista S�rgio Danilo Pena s�o parte de um esfor�o cient�fico internacional destinado a entender a origem do homem com base em exames gen�ticos. Gra�as a esse esfor�o, cientistas podem dizer com razo�vel grau de precis�o por onde andaram os antepassados da humanidade centenas de milhares de anos atr�s, mesmo em regi�es nas quais n�o sobrou sequer um �nico peda�o de osso ou uma pedra lascada para contar a hist�ria. Foi examinando os genes das pessoas vivas atualmente que pesquisadores de universidades americanas e europ�ias descobriram recentemente que 95% de toda a popula��o masculina da Europa, no esplendor de sua diversidade �tnica atual, descende de apenas dez homens, tatarav�s gen�ticos que chegaram ao continente entre 40.000 anos e 25.000 anos, vindos da �sia e do Oriente M�dio.

No decorrer do s�culo que se encerra, pesquisadores de todo o mundo correram para a �frica atr�s de evid�ncias que comprovassem as teorias de que o homem descende de homin�deos aparentados aos macacos, conforme proposto por Charles Darwin, em 1872, no livro Os Antepassados do Homem. Encontraram dezenas de f�sseis de seres com tra�os meio humanos e meio s�mios, transformados pela imprensa e pelos pr�prios cientistas em celebridades instant�neas com nomes como �Menino de Taung� ou �Lucy�. Aprendeu-se muito com as escava��es, mas a confus�o sobre datas permaneceu. Nos �ltimos vinte anos, a gen�tica ajudou a colocar um pouco de ordem na confusa mensagem deixada pelos f�sseis. Existem ainda brechas enormes nas pesquisas. Combinando-se, por�m, o que sabem os cientistas ca�adores de ossos e os especialistas em DNA, obt�m-se um cen�rio mais claro. � quase consenso entre os estudiosos de hoje que a humanidade atual inteira descende de um grupo bem pequeno de indiv�duos (dez homens e dezoito mulheres, na conta de um dos cientistas) que viveu na �frica mais de 150.000 anos atr�s. Foram os primeiros Homo sapiens, homens anatomicamente modernos que, de banho tomado e roupa limpa, n�o causariam espanto num metr� ou em fila de supermercado.

Al�m de identificar os descendentes mais pr�ximos de nossos antepassados, os genes contam hist�rias de momentos terr�veis da humanidade. �O padr�o de nossos genes demonstra que em diversos momentos a humanidade quase foi varrida do mapa�, diz Christopher Wills, bi�logo evolucionista da Universidade da Calif�rnia, em San Diego. O primeiro deles ocorreu h� cerca de 70.000 anos, quando os seres humanos tentaram aventurar-se pela primeira vez fora da �frica em busca de outros territ�rios. Nessa �poca, a popula��o de Homo sapiens chegava a aproximadamente 50.000 pessoas e parte do grupo deambulou rumo ao norte. Instalaram-se inicialmente no Oriente M�dio. Surpreendidos por uma glacia��o, eles n�o conseguiram permanecer na regi�o. Tentaram voltar. Poucos conseguiram. Esse incidente provocou pela primeira vez o efeito que os geneticistas chamam de �gargalo de garrafa�: uma mortandade que transforma grupos numerosos em um punhado de indiv�duos. Cont�nuos per�odos de glacia��o submeteram a humanidade ainda na inf�ncia a provas terr�veis. Sobreviveram apenas os mais fortes em cada uma dessas foi�adas coletivas. �O fen�meno da elimina��o em massa de pessoas � semelhante em natureza � eclos�o da epidemia de Aids na �frica, s� que muitas vezes mais potente�, afirma Luigi Luca Cavalli-Sforza, professor da Universidade Stanford.

Parece m�gica o fato de os cientistas serem capazes de localizar a regi�o onde viveram antepassados dos homens e mulheres de hoje? Parece. Mas � ci�ncia, e das boas. Dois fatores ajudam a entender melhor essa viagem no tempo. O primeiro e mais importante � a constata��o darwinista de que todo ser vivo tem um antepassado. Encadeados, eles formam o que se chama de linhagem. Charles Darwin dizia que sua teoria evolucionista poderia ser descartada totalmente se algu�m lhe apresentasse um �nico ser vivo ou f�ssil que n�o tivesse tido um antepassado. Obviamente, ningu�m foi capaz de levar ao sisudo cientista ingl�s um ser vivo produzido por gera��o espont�nea que n�o pertencesse a nenhuma linhagem. Mais tarde, os neodarwinistas aprimoraram a teoria do mestre ao determinar que os �rg�os igualmente tiveram antepassados. Ou seja, os olhos, o cora��o ou o f�gado dos seres vivos de hoje foram precedidos por proto-olhos, protocora��es, e da� por diante. N�o t�o desenvolvidos nem t�o especializados, esses proto-�rg�os deram vida aos ancestrais do homem e dos animais. Numa etapa ainda mais elaborada da mesma teoria da evolu��o, os cientistas provaram que n�o s� os seres vivos e seus �rg�os tiveram predecessores, mas tamb�m cada c�lula e mol�cula org�nica do corpo pode ter sua linhagem tra�ada por dezenas e at� centenas de milhares de anos atr�s.

O segundo e decisivo fator que d� grande dose de certeza aos cientistas em suas afirma��es sobre a linhagem passada da humanidade � tamb�m um aprimoramento da teoria darwinista. O g�nio de Charles Darwin foi descobrir que popula��es geneticamente id�nticas quando isoladas em habitats distantes e mantidas sem contato por milhares de anos podem diferenciar-se a tal ponto que se transformavam em esp�cies diferentes. Foi essa a famosa descoberta de Darwin nas ilhas do Pac�fico. Esp�cies de p�ssaros id�nticos separados, n�o se sabe bem por que, em habitantes das ilhas e habitantes do continente foram aos poucos se tornando distintas.

Os sucessores de Darwin destrincharam esse processo. Descobriram exatamente o que se passa no DNA (mol�cula desconhecida nos tempos de Darwin) quando as esp�cies se diferenciam. Melhor ainda: descobriram com que velocidade esse fen�meno ocorre. Eles decifraram o mecanismo do que chamaram de �rel�gio biol�gico�. E o que se pode ler nesse rel�gio? Bem, ele informa que popula��es humanas id�nticas mantidas separadas por pelo menos 3.000 anos come�am a se diferenciar em uma das estruturas de seu cora��o gen�tico, o DNA. Essa distin��o � chamada de �marca�. S�o diferen�as pequenas, at� porque as popula��es humanas s�o extremamente m�veis e soci�veis, de modo que apenas raramente se obteve isolamento completo entre elas por um per�odo prolongado. Portanto, o processo produziu na humanidade apenas ra�as diferentes e n�o esp�cies distintas. Somos todos humanos, seja qual for a ra�a.

Um terceiro e importante fator de certeza para os cientistas dedicados a tra�ar a caminhada do homem pelas eras passadas � o fato de que as popula��es pr�-hist�ricas eram rarefeitas. � cr�vel portanto que bilh�es de seres humanos hoje descendam de pouqu�ssimos ancestrais. Os cientistas calculam que toda a humanidade, todos os seres que poderiam ser chamados de Homo sapiens h� cerca de 100.000 anos, n�o seria suficiente para encher as arquibancadas de um est�dio do tamanho do Maracan�. �ramos apenas 50.000 quando empreendemos a caminhada triunfal do ber�o africano para dominar o planeta. ��ramos poucos, famintos e com certeza de pele negra, quando sa�mos da �frica�, diz Donald Johanson, o famoso paleantrop�logo americano descobridor do f�ssil �Lucy�, um homin�deo de 3,2 milh�es de anos.

Quantos �ramos depois que nossos antepassados colonizaram as terras europ�ias? Em 5 000 anos de vida na Europa, a humanidade chegou a 400.000 seres. �As condi��es naturais eram as mais prop�cias poss�veis. A Europa oferecia centenas de plantas comest�veis contra meia d�zia na �frica. Al�m disso, os perigos naturais eram infinitamente menores. N�o havia animais selvagens como em outras regi�es�, diz o americano Jared Diamond, autor do livro Armas, Germes e A�o, que tenta explicar as diferentes taxas de progresso dos povos pela prodigalidade ou hostilidade dos ambientes naturais onde foram assentar-se. Nos primeiros s�culos do cristianismo, a humanidade chegou a 250 milh�es de almas. S� cresceria geometricamente ap�s a inven��o das vacinas, dos antibi�ticos e a populariza��o do sanitarismo. Somos vigorosos 6 bilh�es hoje, mas � bom deixar o orgulho de lado e lembrar que fomos pouqu�ssimos e fr�geis no passado. Um passado que os cientistas est�o decifrando cada vez com maior clareza.
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