Um Bilh�o Nesta Semana                    Veja 11/08/1999
Pa�s de miser�veis, a �ndia atinge um n�mero absurdo de habitantes, s� inferior ao da China

Como o ufanismo tem raz�es que a pr�pria raz�o desconhece, a �ndia n�o esconde o orgulho de abrigar a segunda maior popula��o do mundo. O nascimento do bilion�simo indiano, uma marca que vem sendo aguardada h� anos, deve acontecer nos pr�ximos dias, a tempo das comemora��es dos 52 anos de independ�ncia, no s�bado. Saborear por antecipa��o o dia em que sua popula��o ultrapassar� a da China tornou-se um esporte nacional indiano, embora isso s� deva ocorrer daqui a quatro d�cadas. A China, com um territ�rio tr�s vezes maior que o da �ndia, rompeu a barreira do bilh�o em 1980 e hoje tem 1,27 bilh�o de habitantes. Os indianos comemoram, mas n�o h� nada de bom na explos�o demogr�fica em um pa�s paup�rrimo. S�o tr�s chances contra uma de que o an�nimo mas esperad�ssimo beb� nas�a numa fam�lia de miser�veis, cres�a sem teto nem escola e morra sem vint�m. S� um quarto da popula��o indiana goza o privil�gio de se enquadrar nos padr�es locais de classe m�dia, tremendamente mais modestos do que os aceitos nos Estados Unidos, na Europa e at� mesmo no Brasil.

O fato de a �ndia ter chegado a 1 bilh�o de habitantes, a uma taxa de crescimento anual de 1,6%, soa um alarme a respeito das dimens�es reais dos piores males do mundo. Com 2,5% da �rea do planeta, a �ndia re�ne quase 17% da popula��o planet�ria. S�o 304 pessoas por quil�metro quadrado, uma aberra��o. Numa cidade como Bombaim, com seus 18 milh�es de habitantes, grande parte da popula��o se empilha nas ruas. Nelas se vive e dorme do nascimento � morte, excrementos humanos se espalham ao ar livre e campeiam as doen�as e os alimentos contaminados. Mantendo-se a tend�ncia atual, Bombaim chegar� em quinze anos � marca dos 27 milh�es de pessoas, uma concentra��o de miser�veis in�dita na Hist�ria da humanidade.

Neste exato momento, mais de 300 milh�es de indianos vivem em estado de priva��o absoluta e perto de 500 milh�es (metade da popula��o) n�o sabem ler nem escrever. O panorama da educa��o b�sica pode ser, na realidade, muito pior: como � h�bito nos pa�ses pobres, a parca habilidade de conseguir apenas assinar o pr�prio nome j� d� ao cidad�o o t�tulo de alfabetizado. Para se ter uma id�ia do descalabro da situa��o, at� um pa�s africano rec�m-sa�do do caos da guerra civil, Ruanda, tem uma porcentagem menos dram�tica de analfabetos: 39%. A reputa��o da �ndia torna-se ainda mais vergonhosa quando se lembra que sucessivos governos v�m abrindo generosamente os cofres para o desenvolvimento de um arsenal at�mico que s� simboliza arrog�ncia e a �ndole beligerante em rela��o aos vizinhos, em especial o Paquist�o.

Caldeir�o de tens�es � "Tudo na �ndia � superlativo", diz Joseph Chamie, chefe da divis�o populacional da Organiza��o das Na��es Unidas, ONU, que trabalhou como assistente social volunt�rio no pa�s trinta anos atr�s. A pobreza � t�o grande e vis�vel por todo canto que se inclui entre as atra��es tur�sticas, ao lado das lend�rias belezas arquitet�nicas e naturais do pa�s. H� centenas de idiomas e dialetos, num caldeir�o de tens�es �tnicas e regionais. A religi�o hindu�sta, seguida por mais de 80% dos indianos, venera uma mir�ade de deuses e baseia-se num sistema de divis�o da sociedade em milhares de castas, numa hierarquiza��o labir�ntica que desafia a implanta��o de pol�ticas sociais. Que esse pa�s tenha conseguido manter-se unido e democr�tico em seus 52 anos de independ�ncia � virtualmente um milagre, a ser creditado aos pr�prios indianos. Para compensar os desequil�brios estimulados pela religi�o, a Constitui��o garante cotas de representa��o aos membros das castas inferiores, de tal forma que a �ndia � talvez o �nico pa�s do mundo em que os pobres se sentem mais estimulados a comparecer �s urnas do que os ricos.

A �ndia fornece hoje um retrato sob lente de aumento dos males que afligem todas as regi�es semiperif�ricas do planeta � na��es populosas, maculadas por inaceit�veis �ndices de mis�ria, mas com grandes investimentos em setores considerados estrat�gicos do ponto de vista econ�mico ou militar. S�o pa�ses que se sentem no direito de ocupar um lugar entre os grandes do mundo. Nos tempos de Guerra Fria, a �ndia se beneficiou da ajuda sovi�tica, embora se vangloriasse de independ�ncia pol�tica, liderando o hoje semidefunto Movimento dos Pa�ses N�o Alinhados, que chegou a encantar as divis�es diplom�ticas brasileiras. Os indianos sempre se mostraram valentes nas revolu��es pol�ticas. Conquistaram a independ�ncia com a f�rmula mais improv�vel, a n�o viol�ncia pregada pelo l�der espiritual Mahatma Gandhi. Mudan�as econ�micas e sociais, no entanto, n�o parecem exercer o mesmo fasc�nio sobre o pa�s. Desde o in�cio, os governantes se inspiraram no socialismo para implantar mecanismos de desest�mulo � iniciativa individual. A pol�tica formulada pelo primeiro governante indiano, Jawaharlal Nehru, perpetrou-se dinasticamente, com sua filha Indira Gandhi e o filho desta, Rajiv. M�e e filho foram assassinados.

A rigor, a independ�ncia geopol�tica indiana traduziu-se em quatro d�cadas de isolamento, mantidas gra�as a um contexto internacional relativamente prop�cio e ao nacionalismo arraigado na popula��o. Em nome da auto-sufici�ncia, a �ndia investiu na ind�stria pesada, na substitui��o de importa��es e na forma��o de respeit�veis cientistas, a ponto de figurar na seleta lista de pa�ses ganhadores do Pr�mio Nobel. Seu n�mero de Ph.Ds. s� � inferior ao dos Estados Unidos. Os indianos fabricam foguetes e sat�lites, porta-avi�es e m�sseis at�micos, e dominam a inform�tica. Embora o isolamento tenha resultado numa economia engessada e sem agilidade, a parcela da popula��o miser�vel caiu de metade nos anos 50 para um ter�o nos anos 90. O �ndice de natalidade, no entanto, cresceu a passos muito mais largos. Em n�meros absolutos, a pobreza � maior e mais perniciosa nos dias de hoje. Dois mil beb�s morrem diariamante de desidrata��o, cerca de 70% das mulheres gr�vidas sofrem de anemia, dando � luz crian�as desnutridas, e doen�as controladas ou extintas em boa parte do mundo, como mal�ria, tifo, c�lera e lepra, ainda se proliferam e matam por toda a �ndia. Pelo menos 300 milh�es de indianos sofrem de tuberculose.

Trag�dia ferrovi�ria � Embora a �ndia tenha sido o primeiro pa�s fora da Europa a adotar pol�ticas oficiais de contracep��o, nem a popula��o nem os pol�ticos atuais d�o a devida import�ncia � gravidade de sua escalada demogr�fica. O governo indiano argumenta que uma democracia, autodefinida como a maior do mundo, n�o pode interferir brutalmente na vida das pessoas para impedir que se reproduzam, o que uma ditadura como a China consegue facilmente, punindo casais que t�m mais de um filho e realizando abortos for�ados. O argumento � inatac�vel, mas n�o se pode negar que, por raz�es culturais, os indianos toleram excessivamente a conviv�ncia com a mis�ria e o desconforto. E os pol�ticos, mesmo os mais esclarecidos, temem perder votos se insistirem com muita �nfase no controle da natalidade. Um exemplo claro de quanto a vida e a dignidade humanas correm mais riscos na �ndia do que seria admiss�vel foi o acidente de trem ocorrido segunda-feira passada em Gaisal, no nordeste do pa�s. Quase 300 mortos foram recolhidos das ferragens at� as buscas serem encerradas para permitir a reabertura do tr�fego, tr�s dias depois. Nunca se saber� ao certo quantas pessoas de fato morreram. Na �ndia n�o existe o conceito de lota��o esgotada. As pessoas embarcam em trens e viajam longas dist�ncias em p�, sem espa�o para se mover. Algumas se penduram nas portas abertas, outras se equilibram no teto.

Para compor o quadro tipicamente terceiro-mundista, h� sempre quem lucre, e muito, com a mis�ria alheia. Onde existem pol�ticos e funcion�rios p�blicos na �ndia, h� filas de desvalidos esperando migalhas, favores e, quando poss�vel, pagando propinas. Numa economia at� hoje fortemente estatizada (apesar das t�midas medidas liberalizantes adotadas depois que o comunismo faliu e o apoio sovi�tico foi por �gua abaixo), tudo se afunila na burocracia. Mesmo nos Estados mais ricos, a sa�de e a educa��o p�blica n�o atendem a padr�es m�nimos internacionais. Subs�dios destinados a ajudar os pobres acabam nas m�os dos ricos. Ironicamente, os inchados poderes estatais n�o t�m for�a suficiente para prover os servi�os p�blicos mais b�sicos. Quanto mais pobres h�, menos impostos o governo arrecada, e o resultado � a fal�ncia total. Numa regi�o castigada pela fome no Estado de Orissa, fam�lias que teriam o direito a receber 10 quilos de cereais subsidiados acabam ficando com apenas 4, depois que burocratas e atravessadores surrupiam suas cotas.

Tais mazelas cr�nicas, em dimens�es menores, s�o velhas conhecidas dos latino-americanos. Se, num passe de m�gica, no entanto, a popula��o do Brasil dobrasse de um dia para o outro, mesmo assim haveria mais espa�o e mais recursos para a sobreviv�ncia de todos, e a renda per capita ainda estaria acima do �ndice indiano. A cada tr�s anos, a popula��o mundial ganha um refor�o equivalente ao n�mero de habitantes dos Estados Unidos, 280 milh�es. E 98% desse crescimento ocorre nos pa�ses pobres. Ao contr�rio do otimismo predominante �s v�speras da entrada deste s�culo, quando a popula��o do planeta era de pouco mais de 1,5 bilh�o, �s v�speras do ano 2000 a quest�o demogr�fica cerca-se de preocupa��es sombrias. Prev�-se que em outubro nascer� o ser humano n�mero 6 bilh�es, o dobro da popula��o mundial em 1960. No mesmo per�odo, a disparidade na renda per capita entre os 20% mais ricos do mundo e os 20% mais pobres saiu de 30 para 1 e foi parar em 78 para 1. A conclus�o mais �bvia � de que, ao virar o mil�nio, o mundo ser� um abrigo cada vez mais desconfort�vel para a maioria de seus habitantes, com tend�ncia a piorar.

Escolhendo o futuro � H� mais de uma atenuante para esse quadro pessimista. Antes de mais nada, tradicionalmente as previs�es catastr�ficas na �rea demogr�fica acabam caindo por terra, a come�ar por uma das mais c�lebres, feita no s�culo XVIII pelo ingl�s Thomas Malthus. Segundo ele, a popula��o mundial cresceria a uma raz�o maior do que a produ��o de alimentos, e a humanidade sucumbiria � fome. Em termos num�ricos, a tend�ncia foi exatamente oposta. A gera��o de riquezas ultrapassou todas as expectativas. Outro aspecto positivo, freq�entemente subestimado, constitui talvez a mais importante conquista do s�culo XX: os espetaculares avan�os cient�ficos tornaram a exist�ncia humana melhor e mais longa. Entre 1950 e 1998, a expectativa de vida m�dia nos pa�ses menos desenvolvidos deu um salto ol�mpico de 40 para 63 anos de idade. Isso quer dizer que o mundo n�o vai conseguir dar conta de tanta gente? Tamb�m n�o. Os �ndices globais de natalidade caem a n�veis surpreendentes. H� anos a ONU reduz suas proje��es sobre o crescimento da popula��o mundial. J� se chegou a prever que o planeta teria 12 bilh�es de habitantes no ano 2021. A estimativa mais aceita hoje � de 8 bilh�es.

Descartadas as possibilidades de uma hecatombe descontrolada, o grande desafio das pr�ximas d�cadas ser� encontrar f�rmulas de reverter os danos ao meio ambiente, as disparidades econ�micas e a fal�ncia dos grandes centros urbanos. "� propor��o que a popula��o aumenta, tamb�m se avolumam as escolhas dif�ceis", diz o dem�grafo americano Joel E. Cohen, para quem ainda cabe muito mais gente no planeta. "O limite depende apenas do tipo de futuro que queremos para nossos filhos." Na depend�ncia das escolhas feitas nos pr�ximos anos, a ONU trabalha com proje��es para o ano 2150 com n�meros globais t�o d�spares quanto 3,6 bilh�es de habitantes e 27 bilh�es (veja quadro), por exemplo. N�o h� nada de intrinsecamente alarmante no fato de a Terra ter chegado a 6 bilh�es de habitantes. Os atuais recursos dar�o conta de at� 8 bilh�es, segundo Cohen. O desafio do s�culo XXI para dem�grafos, economistas, pol�ticos e organismos internacionais n�o ser� a superpovoa��o do planeta, mas a tend�ncia de multiplica��o da mis�ria, quase que por in�rcia. De 470 milh�es de habitantes em 1980, a popula��o da �frica chegou a 763 milh�es em 1998. Segundo as proje��es da ONU, o fustigado continente dever� abrigar 2 bilh�es no ano 2050. Ser� o dobro da popula��o atual da �ndia, mas sem uma fagulha sequer da import�ncia pol�tica, econ�mica e militar do pa�s de Gandhi. N�o h� nada a se comemorar na multiplica��o da mis�ria.
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