Terra de Brasileirinhos                                              Veja 07/04/1999
Cientistas isolam o gene do nanismo em moradores da cidade de Itabaianinha, no interior de Sergipe

Geneticistas com grupo de encolhidos, mi�dos, reduzidos, gente pouca ou moderados: na cidade, nanismo � at� tipo de beleza

As crian�as de Itabaianinha, a 120 quil�metros de Aracaju, costumam ouvir uma vers�o local da hist�ria da Branca de Neve. Em Itabaianinha, a hero�na desmaia e � encontrada por sete "encolhidos". Ou, nas variantes mais eruditas, por sete "reduzidos". � assim que os moradores da cidade chamam os an�es � e n�o apenas os an�es dos contos de fadas. Itabaianinha tem intimidade com pessoas diminutas. H� pelo menos 200 anos, � comum ver um batalh�o delas andando pelas ladeiras da cidade. Hoje, existem 80 itabaianinhenses adultos com menos de 1,30 metro, �ndice assombroso para uma cidade de 32.000 habitantes. Carregando apelidos que at� lembram Dunga e Soneca, dos sete an�es, eles est�o por todo lado. Tem Loirinho, o an�o do bar, Z� Mi�do, da lanchonete, Toinho, do t�xi, Lerinho, do frete, Joaninha, do supermercado, Tot�, ex-vereador, Mundinho, da loja de telhas, Biata, da mercearia, Na�, o contador. Tem Purezinha, a piadista, Aninha, a risonha, Nanico, o menor de todos, Bagaceira, o mais feio, Ded�, a mais agitada, Pedrinho, o mais velho, Jacineide, a adolescente. E por a� vai. Depois de cinco anos de estudos, encontrou-se o motivo de tanta pequeneza � como dizem na cidade � ou da alta incid�ncia de nanismo, como preferem os especialistas. Cientistas da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, descobriram que eles t�m uma muta��o no fator liberador do horm�nio do crescimento, que fica no cromossomo 7.

Com a descoberta, os cientistas podem agora identificar dist�rbios do crescimento at� mesmo em fetos. "Esses estudos tamb�m ajudam no desenvolvimento de terapias gen�ticas para outras formas de nanismo", explica o endocrinologista Michael Levine, que liderou a pesquisa. Foi um trabalho demorado. Desde 1994, especialistas do Departamento de Endocrinologia da Universidade de S�o Paulo e da Universidade Federal de Sergipe vinham estudando a ocorr�ncia da anomalia na cidade. O Brasil tem, em m�dia, um an�o para cada 10.000 habitantes. O porcentual de Itabaianinha � 25 vezes superior. Em busca dos motivos, a geneticista Anita Herm�nia Oliveira de Souza, da equipe sergipana, transformou-se em genealogista. Embrenhou-se em um complicado levantamento acerca da ascend�ncia dos "amiudados" e seus parentes. Saiu da empreitada com um complexo diagrama familiar dos an�es, que remonta a oito gera��es. Convidados a ajudar nessa arqueologia, os cientistas da Johns Hopkins fizeram testes de DNA e identificaram a muta��o gen�tica. Agora, � poss�vel tra�ar a genealogia da defici�ncia.

� uma muta��o que apareceu em alguns ancestrais dos "apequenados" � em outra vari�vel do gloss�rio regional � e foi transmitida por causa de uma caracter�stica local: os casamentos consang��neos. Em Itabaianinha, a uni�o de primos com primos e tios com sobrinhos � um costume t�o arraigado quanto a cultura da laranja, a base econ�mica da regi�o. Boa parte da cidade leva o sobrenome Nascimento ou Oliveira de Jesus. � um incesto light, com explica��es geogr�ficas. A cidade tem 125 vilarejos rurais. Deles, dezessete s�o cercados por montanhas e por estradas dif�ceis, principalmente para uma popula��o que anda em carro�as. Segregadas, as pessoas casam entre si e v�o repassando a anomalia. O itabaianinhense da gema sempre h� de encontrar um an�o escondido em sua �rvore geneal�gica. "Encolhido, por aqui, � como Severino. Todo mundo tem um na fam�lia", filosofa Jo�o Nascimento da Cruz, o Loirinho, 54 anos, 1,24 metro, irm�o de duas an�s. Primo de dois Severino.

H� casos de lamban�a gen�tica que ajudam a demonstrar os caminhos da defici�ncia do horm�nio de crescimento, a nomenclatura politicamente correta da anomalia. A dona de casa Maria Idalina de Jesus, a dona Maroca, de 72 anos, � a matriarca de uma esp�cie de cl� dos "amiudados". Ela tem 1,68 metro e casou com um primo distante, mais alto que ela, por�m sobrinho e irm�o de an�es. Os dois montaram uma usina de "gente pouca", mais um sin�nimo corrente por l�. O casal teve vinte filhos. Entre eles, oito s�o an�es. Cinco casaram com pessoas altas e tiveram filhos com estaturas normais. No entanto um deles, Jos� Erisvaldo, o Tintim, casou com uma "pequeninha". Teve seis filhos, entre os quais tr�s nanicos. "Dizem que a gente � tudo recessivo. Mas, desse neg�cio de recess�o, s� entendo mesmo a dos pre�os", diz uma das filhas an�s do casal, Maria Jos� do Nascimento, a Ded�, 1,25 metro e tr�s filhos normais. Como mostram os livros de biologia, isso quer dizer que uma pessoa s� nascer� com o nanismo registrado em Itabaianinha se receber um gene com muta��o do pai e da m�e. Se herdar apenas um gene, n�o ser� nanica, mas poder� transmitir a defici�ncia. As pessoas afetadas t�m desenvolvimento normal at� por volta dos 10 anos. Nessa idade, param de crescer. Por isso, possuem vozes infantilizadas e membros em propor��es regulares com o corpo. N�o carregam atrofias, como aqueles famosos an�es de circo, geralmente v�timas de problemas glandulares. "Somos gente normal. S� que resumidas", define Josefa da Fonseca, a Pureza, 1,16 metro.

Os moradores de Itabaianinha receberam as descobertas dos cientistas com pouco interesse. Em alguns casos, at� com desd�m. "Os cientistas levam nosso sangue para descobrir o que a gente sempre soube: que a semente de an�o � eterna. Grande coisa ...", resmunga Ana Francisca de Jesus, a Aninha, 68 anos, 1,20 metro. � um racioc�nio l�gico, se visto pelo �ngulo da cidade. No software itabaianinhense, nascer "amiudado" � como ser vesgo ou ter orelhas de abano. N�o � absolutamente normal, mas tamb�m n�o � totalmente anormal.

A cidade faz piadas com seus nanicos e chega a tra�ar planos mirabolantes jamais concretizados, como a cria��o de uma certa Pousada dos Encolhidos, uma estalagem onde os h�spedes seriam atendidos por nanicos uniformizados. Mas, como prova de que no final das contas n�o s�o tratados como seres bizarros, os "rebaixados" casam � na maioria das vezes com pessoas de estatura normal �, t�m filhos e trabalham. Sobre as agruras da vida, os que moram nas ro�as reclamam da dureza do trabalho. Os da cidade falam da escassez de mercado de trabalho. S�o as mesmas queixas do resto da popula��o. � um problema econ�mico, n�o de estatura.

Enquanto esmiu�avam a muta��o, os cientistas das universidades de S�o Paulo e Federal de Sergipe passaram a ministrar horm�nios aos an�es mais novos para faz�-los retomar o crescimento. Desde o in�cio do tratamento, dezenove "moderados" tomaram aplica��es di�rias de um medicamento chamado Norditropin. "A inje��o d�i, mas espicha", comemora Ediv�nia da Fonseca Lima, 18 anos, que cresceu 14 cent�metros em tr�s anos. Por causa do pre�o das ampolas � 2.500 reais por m�s, por pessoa �, apenas nove crian�as tomam o horm�nio atualmente, bancadas pela Universidade Federal de Sergipe. H�, no entanto, pessoas que simplesmente desistiram de crescer. Haroldo Jesus do Nascimento, 23 anos, 1,30 metro, o Z� Mi�do, � um Peter Pan sergipano. Por quase dois anos, submeteu-se �s inje��es e cresceu 15 cent�metros. Achou o tratamento uma amola��o e desistiu. "Nasci an�o e n�o vou deixar de ser nunca. Est� em mim", explica. Mais uma vez, faz sentido, na l�gica de uma cidade onde ser an�o, ora bolas, n�o tem tantas implica��es al�m de usar sapatos infantis e subir em bancos para utilizar os orelh�es. Existem, inclusive, os apologistas do nanismo. Um deles � Jos� Raimundo dos Santos, o Tot�, 38 anos e 1,28 metro. Ex-vereador, ele defende a perman�ncia dos an�es em seu tamanho exato. Durante anos, sonhou em ter filhos nanicos. Cortejou Joana Nascimento da Cruz, 1,05 metro, a Joaninha do Supermercado. Foi rejeitado e desistiu. Casou-se com Rosiney Nascimento, 1,58 metro, filha, sobrinha e prima de an�es. E dona de uma prefer�ncia confessa por nanicos. "Acho lindo. Se tivesse um filho an�o, n�o deixaria tomar horm�nio. Nanismo n�o � doen�a, � tipo de beleza", conclui ela.
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