A Saga da Imigra��o �rabe                          Veja 04/10/2000
Os primeiros imigrantes libaneses e s�rios queriam fazer fortuna e voltar. Ficaram, trabalharam duro, investiram na educa��o dos filhos. Criaram gera��es de doutores e uma tradi��o de participa��o na pol�tica

Salim, Ibrahim, Fuad, Abrah�o, Jamil, Nagib, Habib, Tufik, Salom�o, Chafic. Na vida de quase todo brasileiro "da gema" h� um brasileiro com um nome assim � "turco", como se diz at� hoje, mais por h�bito do que por preconceito. Tem o dono da venda, o dono da f�brica, o pol�tico, o m�dico, o pai do amigo, o vizinho. Estima-se que os descendentes de libaneses e s�rios somem 7 milh�es de pessoas. S�o 4% da popula��o brasileira, mas est�o em todo canto. A Embaixada do L�bano no Brasil garante que h� pelo menos um representante da col�nia em cada um dos mais de 5.000 munic�pios do pa�s. Marcam presen�a em todas as esferas da vida nacional (veja) e em determinados nichos ganham um destaque especial. Na pol�tica e na medicina, a prolifera��o de sobrenomes �rabes � t�o intensa que chega a ser intrigante.

Alguns exemplos: no Congresso Nacional, inst�ncia m�xima da pol�tica, dos 513 deputados, 38 t�m origem libanesa ou s�ria, entre eles o presidente da C�mara, Michel Temer; dos 81 senadores, Pedro Simon, Paulo Ganem Souto, Artur da T�vola, Ramez Tebet e Romeu Tuma t�m sangue �rabe correndo nas veias. Na conta final, s�o quase 8% dos parlamentares. Na cidade de S�o Paulo, onde 20% dos vereadores s�o da col�nia, dos cinco candidatos no pelot�o de frente das pesquisas para a prefeitura, tr�s t�m sobrenome �rabe: Paulo Maluf (liban�s), Romeu Tuma (s�rio) e Geraldo Alckmin (ascend�ncia distante). Em Mato Grosso do Sul, a contagem dos pol�ticos de origem libanesa e s�ria � ainda mais impressionante. Eles s�o 37% dos deputados federais, 21% dos deputados estaduais e quase 30% dos vereadores da capital, Campo Grande.
 
A trajet�ria de grande parte dos imigrantes libaneses e s�rios segue a trilha mascate, dono de loja de varejo, atacadista e depois, para os com mais sorte, ind�stria. Em busca de freguesia, eles se espalharam por todos os rinc�es do pa�s. No ciclo da borracha, foram para a Amaz�nia. At� aos garimpeiros foram oferecer seus produtos 

"Nossa representa��o na pol�tica chega a ser um exagero", dramatiza o senador Pedro Simon, ga�cho filho de libaneses que emigraram por volta de 1920. "� de longe a maior col�nia no Congresso." Os n�meros das grandes ondas de emigra��o que chegaram ao Brasil endossam a impress�o. Libaneses e s�rios, cerca de 130.000 ao longo de um s�culo, entre 1872 e 1972, ocupam o s�timo lugar na classifica��o geral, muito longe dos italianos, portugueses e espanh�is, os campe�es, e mesmo de japoneses, alem�es e russos (veja quadro). Basta conferir qualquer lista de pol�ticos para verificar que os nomes nip�nicos ou teut�nicos n�o pululam na mesma propor��o que os �rabes. Uma das explica��es dessa representa��o pol�tica desproporcional ao contingente num�rico est� na pr�pria hist�ria da trajet�ria dos imigrantes. O cientista social Oswaldo Truzzi, que analisa a quest�o no livro Patr�cios: S�rios e Libaneses em S�o Paulo, detecta a import�ncia de dois fatores confluentes. Primeiro, a extensa distribui��o geogr�fica da col�nia, fruto da atividade de mascate que nove em cada dez imigrantes abra�aram. Para os vendedores ambulantes, que sa�am das cidades grandes com a malinha de produtos debaixo do bra�o, cada lugarejo representava um mercado em potencial. Se a concorr�ncia era brava, eles se embrenhavam mais adiante. E mais ainda, sempre mais.

Um dos resultados disso: um neto de libaneses governador de Estado (e presidenci�vel em potencial) na ponta norte do pa�s, Tasso Jereissati, no Cear�; um senador pelo Estado mais ao sul, Pedro Simon. A essa distribui��o ramificada como um cedro do L�bano juntou-se a incr�vel mobilidade social da col�nia, o segundo fator apontado por Truzzi. Os libaneses e s�rios que come�aram a desembarcar no Brasil nas �ltimas d�cadas do s�culo XIX, vindos de regi�es sob o dom�nio do Imp�rio Turco-Otomano (da� os passaportes turcos que provocaram a confus�o), traziam na bagagem a �tica do trabalho dos imigrantes, feita de gana, esfor�o, capacidade de enfrentar grandes sacrif�cios. A ela logo acrescentavam a constata��o de que, para alavancar a ascens�o social em meio a uma "elite de doutores", precisavam somar o estudo ao capital. Assim que juntavam um dinheirinho, passavam a investir na educa��o dos filhos. A fam�lia do deputado Michel Temer � um exemplo cl�ssico. Vindos do L�bano na d�cada de 20, seus pais instalaram-se numa ch�cara em Tiet�, interior de S�o Paulo. Na frente, a indefect�vel lojinha. Apenas o irm�o mais velho de Temer n�o estudou, para ajudar o pai. Os outros quatro formaram-se em direito pela Faculdade do Largo S�o Francisco. O roteiro do senador Ramez Tebet foi praticamente id�ntico, � exce��o do cen�rio: criado em Tr�s Lagoas, Mato Grosso do Sul, cursou direito no Rio de Janeiro, custeado pela lojinha paterna. "Tudo o que meu pai ganhou, gastou na educa��o dos filhos", diz o senador.

No levantamento de dados para seu trabalho sobre imigra��o e pol�tica, o soci�logo Truzzi ressalta o grande n�mero de profissionais liberais filhos de imigrantes �rabes, formados nas mais importantes faculdades de direito, engenharia e medicina, que depois se tornaram pol�ticos, e a presen�a maci�a de descendentes que entraram para o cen�rio da pol�tica federal e estadual a partir de carreiras iniciadas em cidades do interior. Fora dos grandes centros (com exce��o de S�o Paulo, de forte presen�a �rabe, onde o primeiro brasileiro da col�nia foi eleito em 1930 para um cargo pol�tico: subprefeito do distrito do Ipiranga), era mais f�cil furar a barreira das elites tradicionais. O av� do governador do Cear�, Aziz Jereissati, chegou a S�o Lu�s do Maranh�o no in�cio do s�culo, vindo de uma fam�lia de ferreiros da cidade de Zahle (jarrass, que resultou no sobrenome do cl�, quer dizer sino em �rabe). Abriu uma loja de tecidos quando se mudou para o Cear�. Seu filho Carlos, pai de Tasso, j� foi senador.

Ao contr�rio da de outros grandes grupos, a imigrac�o s�rio-libanesa foi espont�nea e individual. A maioria dos que aqui chegaram preferiu estabelecer-se na cidade e ganhar a vida como comerciante aut�nomo a ir para as lavouras do interior, como tiveram de fazer outros estrangeiros que j� vinham contratados para o trabalho nas fazendas. Segundo um levantamento de 1934, 80% dos �rabes viviam em centros urbanos, contra 20% no campo � exatamente o inverso dos imigrantes japoneses. O objetivo era "fazer a Am�rica": ganhar dinheiro e voltar. Acabavam ficando e trazendo o resto da fam�lia. O patr�cio chegava, pegava umas mercadorias em consigna��o, colocava na maleta e sa�a vendendo de porta em porta ou sobre a lona estendida na pra�a. Aos poucos, abria uma lojinha, um atacado, com sorte uma ind�stria. O com�rcio permitiu juntar dinheiro mais r�pido e deu liberdade para depois aplicar parte dele em boas escolas para os filhos.

Ao colocarem suas quinquilharias na maleta e sair de bicicleta, no lombo do burro ou de barco pelos grot�es do Brasil, os imigrantes ajudaram a povoar o pa�s e fincaram ra�zes nos cantos mais remotos. O presidente americano Theodore Roosevelt conta, em suas mem�rias da viagem que fez pelo interior do Brasil em 1914, em companhia do marechal Rondon, que encontrou um jornal da col�nia, escrito em �rabe, num lugar onde n�o se avistava ningu�m a dias de caminhada. A hist�ria da dispers�o �rabe pelo pa�s coincide com etapas da Hist�ria do Brasil. Houve o ciclo da borracha e l� foram eles oferecer seus produtos aos seringueiros, aos bar�es da borracha. O pai do cardiologista e ex-ministro da Sa�de Adib Jatene abastecia com sal, batata e tecidos os seringueiros de Xapuri, no sert�o do Acre, onde nasceu seu filho depois famoso. Houve o ciclo do caf� e l� foram os mascates para as porteiras das fazendas do interior de S�o Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, enfrentando a febre amarela e o temperamento arredio da gente do interior, vender tecidos, bot�es, roupas aos lavradores e seus patr�es. Com o "com�rcio no sangue" desde gera��es imemoriais, os imigrantes iam atr�s de fregueses, de oportunidades. Ou mercado, como se diria hoje. Operaram uma revolu��o no com�rcio popular, com novidades como vendas a cr�dito, redu��o da margem de lucro compensada pela quantidade, alta rotatividade de estoque e promo��o de liquida��es.

O trabalho duro podia ser recompensado rapidamente. Miguel Estefno, av� materno do ex-governador Paulo Maluf, chegou ao Brasil em 1879. Mascateou durante quatro anos. "Foi a Ribeir�o Preto, Rio de Janeiro, Campinas. Tudo a p�", relembrou sua filha Maria, em depoimento registrado no livro Mem�rias da Imigra��o, Libaneses e S�rios em S�o Paulo. Fez o percurso cl�ssico: loja de armarinhos, atacadista de tecidos, dono de f�brica de fios. Maria j� era uma jovem rica, que morava em mans�o, s� usava vestidos franceses e passava as f�rias na praia (a da Enseada, no Guaruj�, litoral de S�o Paulo, comprada por seu pai) quando se casou com Salim Maluf, imigrante bonit�o. O sogro, bem de vida, s� ajudou como avalista na trajet�ria de sucesso que o levou de aprendiz numa f�brica de camisas a dono da maior serraria do pa�s. A pr�pria Maria Estefno Maluf demonstrou pendor gen�tico para os neg�cios. Vi�va ainda jovem, tomou gosto pelo trabalho, especialmente na �rea de im�veis. Deixou uma frase memor�vel: "Eu gostava de j�ias. Mas achava que melhor do que gastar muito dinheiro em j�ias era comprar propriedades".

O esp�rito de cl�, trazido por imigrantes que tinham na aldeia o horizonte m�ximo, beneficiou a comunidade. A rede de favorecimentos come�ava na acolhida aos rec�m-chegados e se estendia depois at� as rela��es entre industriais e grandes comerciantes, com facilidades de cr�dito e de fornecimento. Os mascates, em geral, abasteciam-se com patr�cios, comerciantes que j� haviam passado pela fase da maleta debaixo do bra�o e conseguiram abrir uma lojinha. A regra era dar uma for�a. Com limites, por�m. Pois, como diz um prov�rbio da col�nia: "Todo liban�s � brimo at� a brimeira fal�ncia". Essa rede perdurou tamb�m para facilitar a entrada em massa da segunda gera��o no mercado das profiss�es liberais e, em certo grau, para o ingresso na pol�tica. "Na atividade pol�tica, muitos cidad�os de origem s�ria ou libanesa encontraram um canal de mobilidade social", escreveu o americano Clark Knowlton, autor de um importante estudo sobre a imigra��o �rabe no Brasil. "Outros foram for�ados a entrar na pol�tica para proteger e promover seus interesses comerciais e industriais. Algumas fam�lias ricas adquiriram o direito de incluir seus filhos e sobrinhos em listas de candidatos pelo prest�gio que um posto na pol�tica d� na col�nia." Jamil Murad, deputado estadual paulista pelo Partido Comunista do Brasil h� tr�s mandatos, acredita que a preponder�ncia de pol�ticos �rabes nos partidos de direita, ainda hoje, se explica por raz�o semelhante aos motivos hist�ricos levantados por Knowlton. "Entre os descendentes pol�ticos, h� muitos profissionais liberais e empres�rios, o que gera uma tend�ncia a apoiar programas que representam seus interesses", analisa.

Os primeiros a prospectar cargos pol�ticos buscavam de certa forma dar continuidade a trajet�rias familiares de ascens�o social. Embora nem todos os imigrantes tenham ficado ricos, a maioria no m�nimo abriu um pequeno neg�cio. De maneira geral, os que aportaram primeiro foram os que amealharam maior capital. As grandes fortunas das d�cadas de 40 e 50 eram justamente das fam�lias que trilharam pioneiramente o trajeto mascate-comerciante-industrial. Em 1907, das 315 firmas de donos s�rios ou libaneses em S�o Paulo, cerca de 80% eram lojas de tecidos ou armarinhos. Em 1930, eram propriet�rios de 468 dos 800 estabelecimentos de tecidos e confec��es, de seis das dez f�bricas de camisas, de catorze das 48 f�bricas de roupas brancas. Entre as d�cadas de 40 e 50, o n�mero de comerciantes varejistas diminuiu, enquanto o de atacadistas dobrou e o de industriais, quintuplicou. A escritora Rose Marie Muraro conta que sua fam�lia, os Gerbara, donos de uma f�brica de seda, faturava por m�s, no fim da d�cada de 40, o equivalente em valores atualizados a 20 milh�es de d�lares. "Eu vivia como uma princesa, primeiro num palacete na Brigadeiro Lu�s Ant�nio, em S�o Paulo, depois em Copacabana", rememora.

Entre todas as grandes fortunas, a maior provavelmente era dos Jafet. Eles praticamente fundaram o bairro do Ipiranga, em S�o Paulo, onde ergueram f�bricas, pr�dios de apartamentos para seus cerca de 2 000 oper�rios e uma dezena de palacetes para toda a fam�lia. O primeiro deles, de Benjamin Jafet, tinha 1 500 metros quadrados de �rea constru�da. Violeta Jafet, neta de um dos pioneiros, lembra que recebeu toda a sua forma��o escolar sem sair de casa porque a m�e tinha medo de doen�as infecto-contagiosas � ela s� foi ter sarampo aos 30 anos de idade. Sua irm� �ngela cursou at� o 2� ano de engenharia sem conhecer uma sala de aula. Quando casou, mudou para um dos palacetes do Ipiranga e montou num dos ambientes uma sala igual � de um castelo que viu na Europa, "com cortinas de veludo verde e forro todo em estuque prateado". Outra sala era c�pia de uma do Pal�cio de Versalhes. Os Jafet, por�m, n�o eram os �nicos ricos da col�nia. Em 1930, a Avenida Paulista, o endere�o mais chique de S�o Paulo, tinha 22 casas cujos donos eram de origem �rabe.

A hist�ria recente do L�bano � marcada por guerras e conflitos, fatores que pesaram na imigra��o de volume excepcional. O L�bano tem uma popula��o de 3,2 milh�es de habitantes e o n�mero de libaneses e seus descendentes fora do pa�s � de 14 milh�es. Quase a metade destes no Brasil. H� presen�a significativa tamb�m nos Estados Unidos, Austr�lia, Canad� e outros pa�ses latino-americanos, onde se repete o fen�meno da marcante representa��o pol�tica. Num encontro internacional de parlamentares de origem libanesa que aconteceu h� dois anos em Bras�lia, apareceram deputados e senadores de doze pa�ses, al�m dos anfitri�es. Os Estados Unidos t�m um senador e tr�s deputados filhos de libaneses. O Equador alinha dois presidentes sa�dos da col�nia: Abdal� Bucaram (deposto e exilado) e Jamil Mahuad. A Argentina, um filho de s�rios, Carlos Menem.

De f� mu�ulmana, Menem converteu-se ainda jovem ao catolicismo, revelando not�vel capacidade de antever os fatos � quando foi eleito, a Constitui��o argentina ainda exigia que o presidente fosse cat�lico. A grande maioria dos imigrantes, por�m, era de crist�os: cat�licos maronitas ou ortodoxos. Minorit�rios num mar de mu�ulmanos, perseguidos por motivos religiosos, viram a religi�o funcionar a seu favor do outro lado do oceano. "Como n�o havia o empecilho da religi�o, a integra��o foi maior, diferente por exemplo da dos judeus", afirma Vera Cattini Mattar, uma das autoras do livro Mem�rias da Imigra��o. O fato de serem crist�os num pa�s de cat�licos � citado por muitos estudiosos como uma das causas da boa aceita��o que s�rios e libaneses tiveram no Brasil e um dos motivos da r�pida integra��o.

Mesmo com dificuldade em distinguir masculino e feminino e em pronunciar algumas letras, como o P e o V, que n�o existem no alfabeto �rabe, os "brimos" logo se integraram � vida no Brasil. Para facilitar o neg�cio mudavam at� de nome. Eram comuns as tradu��es, ou melhor, as livres tradu��es. Youssef Dau virou Jos� da Luz; Butros Harb, Pedro Guerra; Hanna Dib, Jo�o Lobo. O sobrenome Jabarra tornou-se Gabeira. O pai do ex-ministro Adib Jatene saiu do L�bano como Abdalla, mas conquistou os seringueiros como Domingos. Quibe e esfiha viraram comida brasileira, um fast food pioneiro. O sobrenome do pol�tico mais conhecido da col�nia deu origem ao brasileir�ssimo verbo malufar. O fato de que, exceto numa reportagem como esta, ningu�m pensaria em juntar sob o mesmo guarda-chuva personagens t�o variados como os vistos nestas p�ginas � talvez o sinal mais ilustrativo da total integra��o. At� o pendor pol�tico pode ser visto sob um �ngulo nacional. Jo�o Sayad, ex-ministro do Planejamento, professor de economia na Universidade de S�o Paulo e banqueiro, arrisca uma compara��o: "Liban�s tem mania de falar em p�blico e de escrever. � uma esp�cie de baiano do Oriente M�dio".
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