O Primeiro Contato                             Veja 10/06/1998
Ao sobrevoar a floresta, indigenistas encontram no Acre as malocas de uma tribo ind�gena at� hoje desconhecida

H� poucos dias ocorreu na divisa do Brasil com o Peru uma dessas descobertas que alimentam o fasc�nio e a curiosidade a respeito da Amaz�nia no mundo inteiro. Depois de sobrevoar durante quatro dias uma �rea de floresta densa e inacess�vel por terra, uma equipe da Funai vislumbrou entre a copa das �rvores doze constru��es alongadas, com cerca de 15 metros de comprimento cada. Observadas do alto, pareciam enormes casulos. Eram as malocas de uma tribo ind�gena at� ent�o completamente desconhecida. Por enquanto, toda a informa��o que se tem a respeito desses �ndios s�o as fotos a�reas de suas malocas. Estima-se que ali viva um grupo de 200 pessoas, mas ningu�m sabe que nome d�o � tribo, que l�ngua falam, a que etnia pertencem e quais s�o seus h�bitos e costumes.

Achados dessa natureza s�o quase inacredit�veis numa �poca em que sat�lites em �rbita da Terra conseguem esquadrinhar cada metro quadrado da superf�cie. A Amaz�nia � a �ltima regi�o do planeta onde ainda vivem grupos humanos completamente desconhecidos. At� o come�o do s�culo era comum a descoberta de novas tribos na �frica, na Austr�lia e em ilhas do Pac�fico. Hoje, muitas delas continuam bastante isoladas, mas s�o todas conhecidas e bem estudadas pelos antrop�logos. Na Amaz�nia � diferente. Ali ainda existem comunidades cujo �nico conhecimento da chamada civiliza��o tecnol�gica se limita ao ronco dos motores dos avi�es que, esporadicamente, sobrevoam suas �reas. Vivem em est�gio bastante primitivo, ca�ando, pescando e, em alguns casos, cultivando pequenas ro�as. As estimativas indicam que dos 270 grupos ind�genas existentes no Brasil 55 nunca tiveram um contato formal com indigenistas. Essas tribos recebem da Funai a vaga denomina��o de "�ndios isolados". As poucas informa��es dispon�veis sobre elas s�o relatos feitos por colonos ou caboclos ribeirinhos que vivem em �reas relativamente pr�ximas ou por equipes da Funai que sobrevoam a �rea das tribos para confirmar sua exist�ncia.

Longe de tudo � A mais nova tribo descoberta no Brasil vive num dos locais mais long�nquos e pouco explorados da selva amaz�nica. � uma regi�o pr�xima ao Rio Envira, perto da divisa com o Peru, a 480 quil�metros de Rio Branco, a capital do Acre. Chegar l� de carro � impens�vel. A estrada mais pr�xima fica a 127 quil�metros. De barco � preciso enfrentar uma viagem de semanas por rios pouco navegados at� hoje. O povoado mais pr�ximo � uma comunidade rural do munic�pio de Jord�o, com trinta habitantes, distante 21 quil�metros. O �nico modo de observar a tribo � sobrevo�-la num pequeno bimotor. O avi�o aterrissa e decola numa pista min�scula, com 10 metros de largura e pouco mais de 100 metros de extens�o, coberta de mato e situada a 43 quil�metros do local.

Ao contr�rio de outras tribos, os �ndios da fronteira com o Peru n�o fazem suas casas em clareiras abertas na mata. Em vez disso, habitam ocas que ficam mergulhadas na floresta. Mesmo de avi�o � muito dif�cil identific�-las entre a copa das �rvores. Para encontr�-los, a equipe da Funai, acompanhada por um rep�rter e um fot�grafo de VEJA, teve de sobrevoar a floresta durante vinte horas em v�os intercalados a paradas para descanso e reabastecimento. "� como procurar agulha em palheiro", diz Sydney Possuelo, chefe do Departamento de �ndios Isolados da Funai. "Isso explica por que a tribo levou tanto tempo para ser localizada."

Tr�s mortes � A Funai decidiu ir atr�s da nova tribo ao saber da morte de tr�s moradores da regi�o. Elas ocorreram em diferentes per�odos e foram atribu�das aos �ndios pela popula��o de Jord�o. O caso mais recente foi o assassinato do agricultor Domingos Neves, de 34 anos. No dia 8 de dezembro do ano passado, ele voltava de uma pescaria quando parou para acender um cigarro. "Dois �ndios surgiram como que do nada e o atacaram", conta o irm�o da v�tima, Luiz Carlos Neves, de 24 anos. O corpo foi encontrado perfurado por duas flechas, uma no ombro e outra no abdome, esfaqueado e sem o olho esquerdo. As testemunhas das mortes dizem que nunca tinham visto esses �ndios pelas redondezas.

Ao ouvir os primeiros relatos dos moradores, Possuelo chegou a imaginar que os �ndios envolvidos nessas mortes fossem de uma outra tribo isolada, localizada tamb�m na fronteira com o Peru mas j� identificada pela Funai. Depois dos sobrev�os, ao ver as malocas compridas, distantes da outra aldeia e mais pr�ximas do vilarejo das v�timas, concluiu que eles pertenciam mesmo �quela tribo desconhecida. "A aldeia fica muito perto dos lagos onde as pequenas comunidades buscam o sustento nesta �poca do ano", explica. "Os �ndios v�o pescar ou ca�ar, descobrem que os brancos est�o levando sua comida e resolvem mat�-los." A Funai n�o pretende entrar em contato direto com os �ndios por terra. Em vez disso, quer mant�-los no isolamento em que est�o hoje. Para garantir que isso aconte�a e evitar novas mortes, vai retirar da �rea os trinta moradores do vilarejo. A mudan�a deve acontecer nos pr�ximos dois meses. "� a decis�o mais l�gica", diz Possuelo. "S�o 200 �ndios contra trinta brancos. Ent�o, � mais razo�vel deixar os �ndios, que est�o aqui h� muito mais tempo."

Uma d�vida n�o resolvida
A descoberta de uma nova tribo ind�gena envolve um dilema. Uma alternativa � deix�-la isolada, de modo que possa cultivar seus h�bitos e costumes sem nenhuma interfer�ncia da civiliza��o branca. Nesse caso, ela fica tamb�m desprotegida pelos �rg�os oficiais contra poss�veis conflitos com popula��es ribeirinhas e garimpeiros que, cada vez mais, avan�am floresta adentro. A hist�ria mostra que a outra op��o � t�o ruim quanto essa. O contato formal com os brancos, mesmo que pac�fico, resultou at� agora na extin��o do modo de vida primitivo dos �ndios, quando n�o da pr�pria tribo.

O Brasil teve duas pol�ticas oficiais sobre o assunto neste s�culo. At� 1989, considerava-se melhor incorporar os �ndios ao restante da sociedade brasileira, sob o argumento de que assim estariam mais bem protegidos. Na pr�tica aconteceu o oposto. Os kranhacarore foram contatados no in�cio da d�cada de 70 com a desculpa de que era preciso proteg�-los da constru��o de uma estrada pr�xima � aldeia. Alguns anos depois, 90% da tribo estava morta por doen�as levadas pelos brancos. Isso mudou. Agora, a orienta��o � deixar as tribos isoladas em reservas demarcadas e, ao mesmo tempo, tentar afastar as amea�as.
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