No Papel de Mocinho                           Veja 12/04/2000
Brasileiros acham que os �ndios s�o bons e protegem a natureza. As coisas ruins aprenderam dos brancos


Crian�as no Parque
Nacional do Xingu:
sa�de melhor e
terras regularizadas 












O escriv�o da frota de Cabral, Pero Vaz de Caminha, n�o conteve o entusiasmo e escreveu ao rei de Portugal sobre a gra�a e a boa �ndole dos habitantes da terra rec�m-descoberta. Os colonizadores que desbravaram o territ�rio, contudo, entraram em conflito com os nativos, que acabaram reduzidos a uma porcentagem �nfima da popula��o � apenas 0,2%. Eles foram igualmente desprezados como selvagens e pregui�osos. A novidade � que, 500 anos depois da louva��o de Vaz de Caminha, os �ndios voltaram a usufruir excelente imagem p�blica. Uma pesquisa in�dita conduzida pelo Ibope a pedido de uma ONG ecol�gica, o Instituto Socioambiental (ISA), constatou que a esmagadora maioria dos brasileiros atribui a eles caracter�sticas positivas, como pureza moral e respeito ao meio ambiente. O resultado surpreende pela consist�ncia. Oito em cada dez brasileiros acreditam que os �ndios s�o bons por natureza e aprendem dos brancos as coisas ruins. Nove em dez acham que ajudam a conservar o meio ambiente. O apoio �s reivindica��es por terras e � preserva��o cultural � majorit�rio.

A imagem favor�vel n�o se deixou abalar por evid�ncias desabonadoras recentes � a condena��o do cacique Paulinho Paiakan por estupro, em 1992 � ou pela constata��o de que os caiap�s vendem ilegalmente o mogno da reserva aos madeireiros. Os freq�entes conflitos com posseiros e garimpeiros, por sua vez, s� refor�aram a opini�o de que os �ndios s�o v�timas da cobi�a dos brancos. Embora quase 40% dos entrevistados admitam que os �ndios s�o violentos, 89% pensam que eles s� recorrem � for�a bruta contra aqueles que invadem suas terras. "Pode ser que exista uma vis�o at� rom�ntica das pessoas", admite o antrop�logo Carlos Alberto Ricardo, do ISA. "Mas o capital simb�lico � o que os �ndios t�m de mais valioso." A imagem idealizada do bom selvagem � antiga e qualquer um que j� leu os romances de Jos� de Alencar sabe dos exageros de bom-mocismo atribu�do aos �ndios. A novidade � a aura de hero�smo ecol�gico e pol�tico agregado ao pessoal de cocar. � quase sempre sob esse prisma que os ind�genas aparecem na imprensa e nos programas de televis�o.

Os �ndios s�o, naturalmente, sujeitos �s mesmas tenta��es que qualquer ser humano. Apesar da tanga e das penas coloridas, eles s�o motivados por sentimentos universais, incluindo ambi��o, cobi�a sexual e desejo de poder. O que colocou a maioria dos brasileiros na mesma trincheira com os �ndios parece ter sido o convencimento geral de que se trata de um povo fr�gil, que precisa ser ajudado a preservar uma identidade cultural amea�ada pelos recursos infinitamente superiores da popula��o majorit�ria. Os pr�prios ind�genas j� entenderam que a melhor arma � o apoio da opini�o p�blica. Foi assim com o xavante M�rio Juruna, que se tornou popular gravando as promessas das autoridades em Bras�lia e se elegeu deputado no in�cio da d�cada de 80. Ou com o cacique Raoni, um caiap� que virou amigo de roqueiros internacionais e exibiu seu bei�o de pau no exterior. A pesquisa do Ibope constatou que 60% dos entrevistados acreditam que os �ndios v�o sobreviver e preservar sua identidade, seja nas reservas ou vivendo nas cidades.

Trata-se de uma espantosa virada de expectativa. H� quinze anos, mesmo os defensores dos �ndios eram pessimistas. "A opini�o quase consensual dos antrop�logos, das autoridades e da popula��o em geral era que a causa ind�gena estava perdida, que eles iam acabar absorvidos pela civiliza��o branca", diz o antrop�logo Ricardo. A vis�o mais otimista, se podemos dizer assim, era que os �ndios sobreviveriam, mas misturados na popula��o, e se perderia a atual diversidade de tradi��es e l�nguas. O cen�rio mudou em 1995, quando os primeiros levantamentos confi�veis mostraram que o contingente populacional ind�gena estava se recuperando. Sabe-se agora que n�o apenas se preservou a pluralidade cultural como ela est� aumentando � medida que novas tribos s�o contactadas pela Funai. Estima-se que possam existir at� duas dezenas de tribos ainda sem contacto com a civiliza��o.

O ritmo de crescimento da popula��o ind�gena � vigoroso. Segundo o levantamento do ISA, cerca de 300.000 pessoas habitam terras ind�genas. Somando-se aos que vivem em �reas urbanas, chega-se a 350.000. Significa um crescimento de 17% em cinco anos, muito acima da m�dia da popula��o em geral. A recupera��o n�o � homog�nea. Alguns grupos est�o em situa��o delicada. Cerca de 70% das etnias t�m menos de 1.000 pessoas. A tribo juma, da bacia do Rio Purus, no Amazonas, est� com os anos contados. As tr�s �ltimas mulheres jumas casaram-se com �ndios uru-eu-wau-wau e a etnia vai desaparecer. De qualquer forma, a situa��o j� foi pior. Estima-se que 900 etnias desapareceram nos �ltimos cinco s�culos. Hoje, entre as 227 etnias no pa�s, os principais grupos est�o crescendo.

A explica��o fundamental para o crescimento acelerado da popula��o ind�gena � a melhoria nas condi��es de sa�de. Nos �ltimos cinco anos, a Funda��o Nacional de Sa�de (Funasa), �rg�o do Minist�rio da Sa�de, est� fazendo um esfor�o para aumentar a quantidade de postos e pessoas treinadas nas tribos. J� h� 1 600 agentes de sa�de ind�gena no pa�s e a Funasa espera chegar a 2.600 at� o final de 2001, o que daria um para cada aldeia. A primeira turma de 110 �ndios vai receber o diploma de enfermagem em junho. "Esse pessoal tem mais acesso �s popula��es do que os enfermeiros brancos, o que lhes d� melhores condi��es de disseminar informa��es sobre higiene e cuidados pessoais", diz o m�dico Ubiratan Pedrosa, diretor de opera��es da Funasa. Nos �ltimos quatro anos, a cobertura de vacina��o entre crian�as nas aldeias aumentou de 33% para 50%. No ano passado, pela primeira vez, 59% dos �ndios foram vacinados contra o v�rus da gripe. Fora da Amaz�nia, a maioria das reservas s�o pequenas e pr�ximas aos centros urbanos, com graves problemas de saneamento. A principal causa de mortalidade infantil � a diarr�ia provocada por infec��es intestinais. S�o comuns as gripes que evoluem para pneumonia e, em algumas regi�es, a tuberculose � end�mica. Outras �reas s�o de dif�cil acesso, dificultando o trabalho dos agentes de sa�de. Apenas um ter�o das aldeias tem comunica��o por r�dio.

Outro fator decisivo na melhoria das condi��es de vida nas tribos � a situa��o fundi�ria bem mais confort�vel. No in�cio da d�cada de 90, apenas 27 milh�es de hectares estavam regularizados, o equivalente a menos de 28% do territ�rio ind�gena. Agora, j� est�o garantidos 96% das terras. Nos �ltimos cinco anos, eles ganharam uma �rea equivalente ao Estado de Goi�s. Em 1991, os guaranis kaiow�s de Mato Grosso do Sul se espremiam em oito reservas. Cada fam�lia dispunha do equivalente a 1,5 hectare, perto de vinte vezes menos que um m�dulo-padr�o do Incra. Os �ndios sobreviviam como trabalhadores nas fazendas pr�ximas e as oito aldeias se transformaram em vilas-dormit�rios. Agora o n�mero de reservas cresceu para 22. Os exemplos de recupera��o est�o por toda parte. Na d�cada de 70, a popula��o panar�, na divisa de Mato Grosso com o Par�, reduziu-se a 79 sobreviventes, todos velhos e crian�as. Hoje, donos de reserva pr�pria, j� s�o 200. "N�s estamos voltando", comemora o �ndio Marcos Terena, coordenador dos Direitos Ind�genas na Funai.
  Acontece
Passagens do Cotidiano
Fatos, contos e cr�nicas da rotina di�ria
.
.
A pousada na reserva florestal de Campos do Jord�o
N�o existe oferta melhor na est�ncia mais alta do Brasil! Conforto e sossego a apenas 4,5 km do centro!
Venha desfrutar de um ver�o refrescante, onde as temperaturas jamais excedem a 23 graus!
Fa�a um tour fotogr�fico pela pousada clicando aqui
P�gina Inicial
Hosted by www.Geocities.ws

1