A Guerra dos 50 Anos                    Veja 15/04/1998
Meio s�culo depois da funda��o de Israel, os judeus seguem sem paz nem seguran�a

Ao completar cinq�enta anos, o Estado de Israel � um sucesso econ�mico, um modelo social e uma fortaleza militar. Num pa�s menor do que Sergipe, os 6 milh�es de israelenses disp�em de uma renda per capita de 17.000 d�lares, escolas de qualidade e um sistema de sa�de que funciona. "No holocausto ca�mos no ponto mais baixo. Hoje, estamos no mais alto", afirma Dan Meridor, ex-ministro da Fazenda e deputado do Likud, partido do governo. "Israel � uma das maiores realiza��es dos tempos modernos", diz Shlomo Ben Ami, respeitad�ssimo deputado do Partido Trabalhista, de oposi��o. "Poucos povos fizeram tanto em t�o pouco tempo." Apesar do anivers�rio, celebrado com dois dias de feriado no fim deste m�s, o clima n�o � de festa. Em 1993, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, que mandou quebrar as m�os dos meninos palestinos da intifada, e Yasser Arafat, o l�der da OLP, organiza��o com um gordo passivo de atos terroristas, assinaram um in�dito acordo de paz ap�s quase cinco d�cadas de sangue e viol�ncia.

Pelo que ficou acertado, Israel manteve o controle das fronteiras e da moeda nacional, cedendo as oito maiores cidades palestinas � administra��o da OLP, bem como uma fatia ao sul, a Faixa de Gaza. Conforme o andamento das negocia��es, os palestinos at� poderiam proclamar um Estado independente. Deu tudo errado. Assassinado por um terrorista israelense, Rabin � uma l�pide em Tel-Aviv. Combinando a��es assistenciais com explosivos colossais, os terroristas palestinos do Hamas voltaram a agir. Sua mais recente novidade foi o homem-bomba, que aparece em centros comerciais antes de se auto-explodir, matando quem estiver por perto. Em Jerusal�m, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu dedica-se a desmanchar os acordos de paz em lances demag�gicos. Com uma franqueza constrangedora, Ehud Barak, principal lideran�a dos trabalhistas, declarou dias atr�s que "se tivesse nascido palestino tamb�m seria terrorista".

Aprovado pela ONU como uma promessa de paz e seguran�a para os judeus ap�s o holocausto, a hist�ria do Estado de Israel � a hist�ria de uma guerra de cinq�enta anos, no maior cen�rio de viol�ncia cont�nua deste s�culo. Consumindo 11% do or�amento do governo, os gastos militares s�o tr�s vezes maiores do que na maioria dos pa�ses. Seu arsenal nuclear � capaz de produzir v�rias Hiroshimas, e cada cidad�o tem uma preocupa��o especial com a seguran�a. As sacolas das pessoas comuns s�o abertas at� quando se vai ao shopping center comprar uma escova de dentes. As casas dos israelenses j� dispunham de abrigo nuclear subterr�neo. As normas recentes pedem a constru��o de um quarto refor�ado, contra armas qu�micas. Em pa�ses com renda semelhante, o servi�o militar deixou de ser obrigat�rio. Ali, alcan�a rapazes e mo�as e pode durar tr�s anos. Alvos permanentes do terrorismo �rabe, que j� atacou em Paris, Buenos Aires e at� nas Olimp�adas de Munique, mesmo os judeus que vivem fora de Israel se protegem com cuidados especiais em clubes e sinagogas.

�nica democracia do Oriente M�dio, com universidades respeitadas e centros de pesquisas de ponta, popula��o bem-educada e �ndices de criminalidade irris�rios, Israel n�o � um milagre. O novo Estado foi constru�do com investimentos pesados. Ainda hoje a ajuda americana chega aos 3 bilh�es de d�lares anuais, e, na d�cada de 50, como indeniza��o de guerra, a Alemanha montou uma infra-estrutura de estradas, f�bricas e usinas. O dinheiro de fora, contudo, n�o esconde uma epop�ia contempor�nea, suja e bela como as hist�rias de todos os pa�ses. Os primeiros israelenses eram uma gente pobre e radical, que trocou a sombra do gueto europeu pelo sol da Palestina, indo morar em alojamentos constru�dos em p�ntanos onde corriam o risco de pegar mal�ria porque tinham a esperan�a de construir uma nova na��o. A vontade de mudan�a era tanta que se proibiu o uso do i�diche, a l�ngua da di�spora. Idioma das cerim�nias religiosas, o hebraico renasceu como conversa de todos os dias e � falado tanto pelas crian�as que pedem a papinha como pelos �rabes que pedem emprego. Ao desembarcar no novo pa�s, os imigrantes trocavam o nome, que recordava a R�ssia e a Pol�nia dos pogroms, a Alemanha de Auschwitz, por nomes dos tempos b�blicos.

Embora os religiosos ultra-ortodoxos tenham um poder de barganha cada vez maior num Parlamento de maiorias de um ou dois votos, a maior parte dos israelenses raramente vai � sinagoga e aproveita os feriados religiosos para viajar. Israel foi fundado por militantes de id�ias socialistas e ateus orgulhosos, execrados pela maioria dos rabinos. O jornalista Theodor Herzl, patrono do sionismo, n�o fazia quest�o de que o Estado fosse fundado na Palestina. Aceitava a Argentina, como segunda op��o. Tamb�m se falou em Uganda, na �frica. Mas foi para Israel que a maioria se deslocou, j� no final do s�culo passado. Quem tinha dinheiro, como o bar�o Rothschild, comprava terras. Quem n�o tinha ia trabalhar, abria empresas, fundava uma fazenda coletiva, o kibutz, formava sindicatos. Ap�s 2.000 anos de di�spora, das fogueiras da Inquisi��o e dos horrores do holocausto, a ida para Israel � vista como um retorno. Muitas pessoas, ali, n�o falam "viemos para Israel", mas "voltamos", como se n�o tivesse sido mais do que uma longa viagem. De certa maneira, est�o certos.

Foi ali, h� quase 4.000 anos, que se estabeleceram os patriarcas do juda�smo, Abra�o, Isaac e Jac�. Tamb�m era l� a terra prometida ap�s a fuga do Egito. Em Jerusal�m, o rei Salom�o construiu o Primeiro Templo, quase 3.000 anos atr�s, seguido pelo Segundo Templo, destru�do pelos romanos. O espetacular, desse lugar do mundo, � que n�o se encontram apenas locais de for�a simb�lica para o juda�smo. No mesmo terreno dos templos judaicos ergue-se, hoje, a bel�ssima Mesquita de Omar, com sua c�pula coberta de ouro e apontada, pelos mu�ulmanos, como o lugar de onde o profeta Maom� subiu aos c�us, h� 1.300 anos. A poucos minutos, a p�, fica a Via Dolorosa, o percurso percorrido por Jesus Cristo a caminho da cruz. Um slogan sionista dizia que a cria��o do novo Estado seria "Dar uma terra sem povo para um povo sem terra", mas na realidade a Palestina era habitada at� demais. Judeus e �rabes tiveram, no passado, uma tradi��o de conv�vio agrad�vel e enriquecedora � ao menos nunca houve, entre eles, os desastres dos encontros entre crist�os e judeus. Com 60% da popula��o no territ�rio, os palestinos foram deserdados, perdendo bens, casas e at� dinheiro no banco, confiscado em 1948. Metade fugiu de Israel depois que os Ex�rcitos de cinco pa�ses �rabes foram derrotados pelos soldados israelenses, numa carnificina m�tua. A outra metade foi expulsa � na ponta do fuzil.

Patrono do Estado de Israel, que moldou com sua fibra e tamb�m com seu temperamento, Ben-Gurion admitiu, certa vez, que "se eu fosse um l�der �rabe jamais assinaria um acordo de paz. N�s tomamos o pa�s deles. Tem havido anti-semitismo, nazistas, Hitler, mas � culpa deles? Eles s� sabem de uma coisa: que viemos e roubamos seu pa�s". As conversas sobre paz, em Israel, sempre voltam ao come�o, a terra. Um bom exemplo s�o as Colinas do Gol�, tomadas da S�ria na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Devolv�-las seria sinal de boa vontade, mas, ap�s tr�s d�cadas de ocupa��o, muitas fam�lias israelenses se mudaram para l�, a agricultura se desenvolveu, plantam-se uvas que produzem um vinho apreciado. Os interesses s�o t�o grandes que j� existe at� um partido pol�tico cuja �nica bandeira � a defesa do Gol� dentro de Israel.

Instalado numa regi�o estrat�gica em fun��o do petr�leo, Israel tornou-se um novo foco de tens�o numa fatia do mundo com agendas carregadas at� hoje, como o Ir� dos x�s e aiatol�s, o Egito de Nasser e Anuar Sadat, morto pelos pr�prios oficiais, Saddam Hussein e sua turma no Iraque. No dia-a-dia, as pessoas tentam levar a vida como em qualquer outro lugar. Trabalham, namoram, passeiam. Quem mora em Tel-Aviv tem uma bela praia � disposi��o e uma vida cultural riqu�ssima. Centro de monumentos religiosos, abrigo favorito dos ultra-ortodoxos, Jerusal�m � mais austera, carregada. O que h� de especial, em Israel, � isso: de repente, numa explos�o, v�m a morte e o medo. No assentamento de Qyriat Arba, a duas horas de Tel-Aviv, � poss�vel ouvir hist�rias como a de Samuel Katz, 90 anos, nascido na Litu�nia, que emigrou para os Estados Unidos ainda menino. Katz conta que, ap�s a aposentadoria e um segundo casamento, resolveu acompanhar a mulher na mudan�a para Israel. "O que mais eu poderia querer?", pergunta. "O ar � puro, n�o h� tr�nsito, as crian�as est�o perto. Em Chicago, fui assaltado a faca." O assentamento � um condom�nio fechado, com cerca de arame, prote��o militar e aluguel subsidiado pelo governo. Em Qyriat Arba fica o t�mulo do m�dico Baruch Goldstein, que, em 1994, vestiu farda militar, pegou a metralhadora e avan�ou at� uma mesquita, onde matou 29 mu�ulmanos que oravam agachados. Da mesma forma que os palestinos enterram seus terroristas como se fossem her�is, Goldstein � chorado como salvador da p�tria. "Aqui foi enterrado um santo", l�-se em seu t�mulo. "Deus vingar� sua morte."

Esse culto messi�nico � viol�ncia faz parte do ritual da for�a pol�tica mais agressiva de Israel, os colonos. Com roupas velhas, como estudantes dos anos 60, barbas enormes e solid�u na cabe�a, eles s�o bem diferentes dos judeus ortodoxos, aqueles que andam de preto e esperam pela vinda do Messias. Nacionalistas radicais, t�m uma ret�rica religiosa, mas sua especialidade � invadir �reas sob administra��o palestina. Seus assentamentos cercam a regi�o �rabe de Jerusal�m, que, em breve, n�o ter� espa�o para crescer. Bel�m j� se transformou numa ilha. A disputa n�o � s� pela terra. Existem lugares onde, com menos de um d�cimo da popula��o, os israelenses controlam 40% da �gua. Os colonos n�o s�o imigrantes, desses que um dia resolveram fazer a trouxa para tentar a sorte em outro pa�s. S�o cidad�os israelenses, protegidos pelo Ex�rcito de seu pa�s, que mant�m bases militares constru�das especialmente para defend�-los. Em Hebron, cidade �rabe de 120000 habitantes, os israelenses mant�m um enclave onde vivem 500 pessoas, inclusive mulheres e crian�as. Os soldados vigiam as casas, sinagogas, parques de divers�es e ainda levam a crian�ada � escola. Um dos edif�cios dos israelenses fica ao lado da principal feira da cidade. Nos andares de cima, as crian�as jogam lixo pela janela, acertando as barracas dos comerciantes �rabes, que se cobrem com lonas e arames. A poucas quadras, meninos de solid�u brincam num escorregador e funciona um centro dedicado a Vladimir Jabotinsky, sionista amigo do fascismo a quem Ben-Gurion chamava de Vladimir Hitler. Perguntada se n�o teme criar seus quatro filhos nesse lugar, uma professora de 30 anos explica: "� nosso papel. O pa�s inteiro olha para n�s".

"Os �rabes chegaram aqui h� 300 anos, mas n�s chegamos h� mais de 3.000. Eles t�m de ir embora", diz Baruch Merzel, 37 anos, oito filhos, acusado de invadir bairros �rabes, � noite, para pichar casas com a estrela de Davi � na base militar, perto de sua casa, um soldado reclama que suas crian�as jogam pedras em meninos �rabes. Os trabalhistas adoram acusar o governo de Netanyahu de cultivar um sil�ncio amigo diante desse comportamento. Eles t�m raz�o, mas a verdade � que se tivessem vencido a elei��o teriam de fazer concess�es na mesma dire��o, e � f�cil entender por qu�. Num pa�s onde muita gente tem carro na porta e celular no bolso, e os mais necessitados contam com uma assist�ncia social que n�o deixa ningu�m de barriga vazia, o israelense � um cidad�o cujo pai veio de um pa�s miser�vel da �frica do Norte ou de uma aldeia perdida da Europa Central enquanto filhos e netos usufruem um padr�o de vida europeu. A viol�ncia incomoda, os atentados assustam, mas tudo � relativo: em cinq�enta anos, os acidentes de tr�nsito mataram mais do que todas as guerras e atos de terrorismo somados.

"Para os palestinos, a paz n�o � uma op��o: � uma necessidade", afirma o deputado Salah Ta'mri, o mais votado do Parlamento palestino. O territ�rio de Gaza, onde fica a sede do governo de Arafat, � uma das regi�es mais pobres do mundo. No campo de refugiados de Jabalia existem ruas com 30 cent�metros de largura e o meio de transporte mais comum � o jumento. Na cidade de Gaza, avistam-se palacetes de mandachuvas da OLP com um mau gosto pr�prio da Rep�blica de Alagoas. Yasser Arafat tenta colocar um rascunho de Estado de p�, mas falta dinheiro at� para comprar uniforme para os soldados que guardam a sede do governo. Um deles usa cintur�o com griffe Harley-Davidson e outro, na sala de sentinelas, descansa o p� num chinel�o.

Com o prest�gio minguando toda vez que o governo israelense deixa de cumprir uma etapa de um acordo de paz, Arafat sente-se no dever de repetir amea�as. "Sinto que pode haver mais guerra no caminho da paz", murmura um de seus assessores. Entre os pol�ticos mais l�cidos de Israel, sabe-se que Arafat necessita jogar para a plat�ia, at� porque est� longe de manter a m�o dura sobre o bra�o armado palestino. "A paralisia dos acordos de paz obriga os palestinos a reagir", afirma Shlomo Ben Ami. "Pelo visto, os israelenses v�o aprender pelo caminho mais duro." Cinq�enta anos depois da funda��o do Estado n�o h� paz nem seguran�a em Israel � o que � uma nova trag�dia. As ditaduras sul-americanas ca�ram, a Uni�o Sovi�tica se espatifou, o apartheid sul-africano foi para o museu, mas ali a guerra prossegue.

F�, lazer e muito subs�dio
Um dos mais conhecidos roqueiros de Israel, Ariv Gefen acaba de lan�ar um �lbum com o t�tulo Bom Dia, Ir�. Ali, ele compara a for�a dos rabinos de Jerusal�m com o poderio dos aiatol�s de Teer�. A compara��o � exagerada, mas a influ�ncia dos judeus ultra-ortodoxos no cotidiano do pa�s � um dado real. Mesmo fundado por sionistas anti-religiosos, o Estado de Israel sempre misturou pol�tica e religi�o em doses especiais. Ali, n�o existe casamento civil, mas apenas religioso. Conseguir se naturalizar � um sofrimento � para quem � judeu, o processo � autom�tico. O descanso semanal � no s�bado, quando se comemora o Shabat, e n�o aos domingos. N�o � s� uma mudan�a de calend�rio. No Shabat os transportes coletivos s�o proibidos de funcionar � deixando a p� uma pessoa que n�o tenha carro nem queira tomar t�xi. Em determinadas ruas de Jerusal�m, j� n�o � poss�vel nem andar com o pr�prio autom�vel aos s�bados. Seus moradores, ultra-ortodoxos, colocam barreiras de ferro sobre o asfalto. O Knesset, Parlamento de Israel, acaba de aprovar uma lei que pro�be a importa��o de carne que n�o seja kasher, isto �, que n�o tenha sido preparada de acordo com as recomenda��es rab�nicas.

"A nova lei da pol�tica israelense � simples: o partido que tem o apoio dos ultra-ortodoxos n�o sai do poder", explica o jornalista David Landau, autor do livro Piedade e Poder, dedicado ao assunto. Foi uma alian�a de Menahem Begin com os ultra-ortodoxos, em 1977, que permitiu ao Likud fazer maioria no Parlamento e encerrar d�cadas de oposicionismo permanente. De l� para c�, a legenda s� ficou fora do pal�cio por um curto per�odo, em fun��o de um acordo especial com os trabalhistas. O maior partido religioso, o Shas, re�ne judeus de origem �rabe, os sefardim. Havia seis deputados na legislatura passada, agora j� existem dez. "O povo quer juda�smo", diz o rabino Shlomo Benizri, vice- ministro da Sa�de, um ex-modelo de modas de 37 anos, fala macia e um discurso que, trocando o nome da religi�o, tamb�m pode ser ouvido em S�o Paulo e Nova York. Perguntado sobre os projetos de seu partido caso reunisse votos suficientes para governar o pa�s, o rabino responde: "A primeira medida seria mudar a Corte Suprema. Hoje, ali temos treze ju�zes laicos e s� um religioso. Por que n�o o inverso?" A segunda medida, explica, seria abolir as leis de Direito Romano. "Ir�amos aplicar as leis rab�nicas, que s�o melhores."

Os ultra-ortodoxos cultivam uma rela��o especial com os cofres do Estado. Alegando convic��o religiosa, s�o dispensados do servi�o militar e constroem fam�lias imensas. Em m�dia, com sete filhos, o triplo da israelense comum. Com tanta crian�a em casa, os ultra-ortodoxos acabam embolsando uma ajuda polpuda, destinada �s fam�lias numerosas. Debru�ado sobre o assunto, o rep�rter Shahar Ilan, do jornal Ha'Aretz, descobriu que 65% dos ultra-ortodoxos n�o trabalham para viver. Al�m da ajuda para criar os muitos filhos, recebem bolsas para estudos religiosos que podem sustent�-los at� os 42 anos de idade. Somando as v�rias rubricas, de v�rios minist�rios, todos os anos os ultra-ortodoxos recebem 200 milh�es de novos shekels, ou 55 milh�es de d�lares, para meditar, crescer e se multiplicar.

O passado no presente
Gra�as a uma lei que autoriza a leitura dos documentos oficiais depois de trinta anos, os israelenses est�o tomando contato com um grupo de pesquisadores ocupados em passar sua Hist�ria a limpo. Eles questionam vers�es de livros did�ticos, confrontam opini�es, conferem relatos de mem�rias. O pioneiro nesse trabalho � Tom Segev, p�s-graduado em Boston, primeiro a mergulhar nos pap�is de Ben-Gurion. Em 1986 ele publicou um best-seller, 1949: the First Israelis, ainda sem tradu��o para o portugu�s. No livro, Segev mostra os primeiros anos como uma opera��o de conquista de territ�rios, expuls�o da popula��o �rabe e partilha de butim. Ele descreve cenas chocantes, em que homens, mulheres e crian�as s�o for�ados a fazer a trouxa, subir num caminh�o e ir embora sem destino certo. O pr�prio Ben-Gurion est� sendo questionado, em Israel, em fun��o do holocausto. Ele sempre encarou o massacre nazista com uma esp�cie de fatalismo. Os historiadores discutem se, em determinadas situa��es, ele n�o poderia ter mostrado mais empenho para salvar judeus perseguidos. "Nada � t�o saud�vel para um povo quanto aprender a criticar a si mesmo", lembra Segev. Com tanta mat�ria-prima, uma s�rie de document�rios da TV estatal sobre os cinq�enta anos tornou-se conversa obrigat�ria toda vez que um novo cap�tulo � exibido.

O presente no passado
Criados no in�cio do s�culo, antes da funda��o do Estado de Israel, os kibutzim eram fazendas coletivas onde imperava um comunismo radical. Ningu�m era dono de nada, todos dividiam tudo � at� os filhos, que, separados das m�es, iam residir com outras crian�as, numa casa s� para elas. At� a faculdade que cada pessoa iria cursar era debatida coletivamente. Hoje, n�o � mais assim. Os 225 kibutzim movimentam milh�es de d�lares, todos os anos, mas s�o empresas comuns, que t�m at� f�bricas em seu interior. Existem os pr�speros, os remediados e os quebrados, que precisam de subs�dios para n�o fechar. "Os tempos s�o outros", explica Dov Gan, 58 anos, que bate recordes de produtividade criando frangos no kibutz Ma�arik, ao norte de Tel-Aviv. "As novas gera��es n�o quiseram mais saber desse tipo de vida e foram embora para a cidade." Na fase atual, os antigos membros de um kibutz se portam como s�cios de um neg�cio como outro qualquer e contratam trabalhadores para fazer o servi�o especializado. O servi�o dom�stico � feito por estudantes, que trabalham por casa, comida e uns trocados � o que d� a esse lugar um clima de col�nia de f�rias.
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