Em Nome da Honra                             Veja 03/06/1998
Peso da tradi��o leva ga�chos ao suic�dio

O sol ainda n�o havia espantado a friagem da madrugada, mas o c�u azul prometia um domingo de inverno especial na fronteira do Brasil com o Uruguai. Pouco depois de acordar, o agricultor Darci Nunes de Macedo, de 36 anos, cal�ou suas lustrosas botas de couro preto, vestiu cal�as largas � moda ga�cha e uma camisa branca. Para completar, amarrou um len�o branco no pesco�o. Naquele dia n�o iria trabalhar na colheita de arroz nem matar um dos bois do seu rebanho para faturar um dinheiro extra. Montou seu cavalo preferido e cavalgou 10 quil�metros at� o Centro de Tradi��es Ga�chas Oswaldo Aranha, em Alegrete, a 464 quil�metros de Porto Alegre. Encontrou-se com os amigos para tomar chimarr�o. Tamb�m bebeu um pouco de cacha�a e, mais tarde, resolveu disputar uma corrida a cavalo. Perdeu. Voltou para casa no come�o da noite e se fechou em um galp�o anexo � casa dos pais, onde costumava dormir. Foi ent�o que come�ou o ritual. O agricultor pegou a sela de seu cavalo, prendeu o cabresto de couro em uma viga de madeira no telhado e fez um la�o com uma circunfer�ncia do tamanho de sua cabe�a. N�o houve gritos. Nem bilhetes chorosos ou cartas rancorosas. Darci enforcou-se em sil�ncio.

A morte tr�gica e premeditada de Darci integra uma estat�stica peculiar que se avoluma no interior do Rio Grande do Sul. A taxa estadual de doze suic�dios para cada grupo de 100.000 habitantes (veja quadro) � mais do que o dobro da registrada em S�o Paulo, historicamente um dos campe�es de incid�ncia desse tipo de morte no pa�s. A lideran�a ga�cha ocorre porque � cada vez maior o n�mero de homens acima dos 30 anos, de origem rural, em geral solteiros, que se suicidam por enforcamento. Al�m da tipologia peculiar, o suic�dio ga�cho obedece a uma circunscri��o geogr�fica. Ele predomina nos pampas, uma faixa de 100 quil�metros quadrados que acompanha a fronteira do Brasil com a Argentina e o Uruguai. Na regi�o, os �ndices de suic�dio se equiparam �s maiores m�dias mundiais, de quarenta casos para cada grupo de 90.000 pessoas � uma estat�stica semelhante � observada nos Estados Unidos e na Su�cia. O assunto tem despertado a aten��o de autoridades e pesquisadores. "� a s�ndrome do suic�dio campeiro", diz a antrop�loga ga�cha Ondina Fachel Leal, autora de uma tese de doutorado sobre o tema.

O fen�meno tem uma motiva��o cultural e j� foi incorporado pela literatura ga�cha (leia trecho do poema "Relato do Enforcado"). Nos pampas, a morte est� presente no cotidiano. Os animais consumidos nas fazendas s�o abatidos l� mesmo. As geadas no inverno reduzem as pastagens, matando o gado. Um animal doente deve ser sacrificado. "Como o ambiente ao redor � violento, os homens adquirem uma t�mpera especial. Aprendem desde cedo que para sobreviver devem cultivar sua masculinidade", diz o m�dico e escritor ga�cho Moacyr Scliar. Os homens se acham viris, imbat�veis. Em uma palavra, ga�chos. "Mas essa hist�ria muda quando os sinais da velhice, as doen�as e os desvios morais colocam a ess�ncia masculina em xeque", diz Ondina. Abre-se a trilha para o suic�dio, como ocorreu com Darci. "Nos �ltimos tempos, quando ia aos bailes, as mulheres j� n�o queriam dan�ar com o Darci", conta o cunhado Ari Oliveira de Souza. "Vai ver, j� estava fraquejando com as mo�as."

Mulherengo � Quando a honra � amea�ada, vale o mesmo racioc�nio. Depois de engravidar uma menor, o motorista Vilson Marzulo, de 40 anos, deparou com o medo. Temia uma vingan�a que poderia colocar a esposa, Aristotelina Marzulo, e as duas filhas em perigo. O not�rio mulherengo de Alegrete pensava em fugir porque se sentia fraco, acuado. Tentou descobrir o endere�o de um primo no Tocantins, mas n�o conseguiu. Quis sair do emprego, mas o chefe recusou-se a demiti-lo. Sem conseguir desvencilhar-se do que considerava um atentado a sua dignidade, Vilson acabou seguindo a tradi��o. Suicidou-se � sombra de uma paineira, enforcado com uma corda de n�ilon branca usada para imobilizar as vacas leiteiras durante a ordenha. "Foi uma maneira de ele salvar sua honra", diz o pai, Darci Marzulo, ga�cho t�pico que ainda assim admite ficar com os olhos cheios d'�gua.

Fora dos pampas, o suic�dio tem outras formas e motiva��es. Em Ven�ncio Aires, tradicional regi�o ga�cha produtora de fumo, por exemplo, o alto n�mero de mortes, suspeitam os especialistas, deve-se � intoxica��o por organofosforados, qu�micos presentes nos agrot�xicos. Segundo os m�dicos, essas subst�ncias desencadeiam problemas neurol�gicos que resultariam nos �bitos. A trag�dia dos pampas tamb�m � diferente dos suic�dios comuns entre adolescentes, que em geral ocorrem nas grandes cidades e s�o fruto da imaturidade para lidar com os dilemas da idade adulta que se aproxima. Nada a ver, tamb�m, com a morte s�bita de drogados, desempregados e falidos. O caso que mais se assemelha ao fen�meno ga�cho � o do haraquiri japon�s. Os homens s�o impelidos a rasgar o pr�prio abdome a faca. O ato supremo � visto como a �nica sa�da honrosa diante de um fracasso pessoal ou profissional e se perpetua desde os tempos dos samurais do Jap�o feudal.


Vilson a car�ter em uma festa
ga�cha:
enforcamento foi a sa�da
para a vergonha de ter
engravidado uma menor
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