A Raiz da Diferen�a                        Veja 28/04/1999
Estudo dos g�meos tenta explicar o papel da gen�tica na forma��o da personalidade


Jim Lewis e Jim Springer s�o irm�os g�meos id�nticos. O que os distingue � o fato de terem crescido separados um do outro, criados por fam�lias diferentes, em casas distintas, situadas em cidades distantes no Estado americano de Ohio. Jim e Jim se conheceram quando j� estavam com 39 anos. O reencontro revelou uma s�rie de inacredit�veis coincid�ncias. Os dois haviam casado duas vezes. As primeiras mulheres de ambos chamavam-se Linda. As segundas esposas tamb�m tinham o mesmo nome, Betty. O primeiro filho de Jim Lewis foi batizado de James Alan. O de Jim Springer chamou-se James Allen. "Toy" foi o nome que ambos deram a seus c�es de estima��o na inf�ncia. Adultos, os irm�os desenvolveram prefer�ncia pela cerveja Miller Light e pelos cigarros Salem. Ambos dirigiam Chevrolet. Quando se encontraram pela primeira vez, em 1979, os dois mediam 1,83 e pesavam 81 quilos, tinham o mesmo tom de voz, os gestos id�nticos e os mesmos tiques nervosos. Ambos tinham o h�bito de roer as unhas.

Jim Lewis e Jim Springer s�o um caso cl�ssico de g�meos id�nticos separados ainda no ber�o e criados por fam�lias diferentes. Foi a partir dele que o psic�logo Thomas Bouchard teve a id�ia de montar um ambicioso projeto de pesquisa a respeito das influ�ncias relativas da gen�tica e das circunst�ncias ambientais na forma��o da personalidade. Agora, duas d�cadas depois, com 8.000 pares de g�meos estudados no Centro de Pesquisas de G�meos e Adotados da Universidade de Minnesota, Bouchard e seus colegas est�o colhendo uma batelada de respostas esclarecedoras sobre como se forma a personalidade humana. Para os cientistas, os g�meos s�o o laborat�rio ideal para realizar as experi�ncias que tentam responder � pergunta que h� mil�nios acompanha cada pai e m�e e que poderia ser formulada assim: a heran�a biol�gica vai determinar que tipo de pessoa se tornar�o nossos filhos ou a educa��o que dermos a eles e suas experi�ncias de vida ser�o decisivas?

Como se sabe, os g�meos id�nticos s�o clones, seres geneticamente iguais. O fato de terem sido criados por fam�lias diferentes pode ser esclarecedor (veja quadro). Os pesquisadores partem do pressuposto de que nesses casos as semelhan�as que os g�meos apresentam nos estudos s�o herdadas, enquanto as diferen�as s�o fruto da cria��o que receberam dos pais somada �s experi�ncias de vida. Caso fechado, portanto? Em termos te�ricos, sim. Mas permanecem as d�vidas. "A gen�tica nunca conta mais do que 50% da hist�ria da pessoa. Desprezar a outra metade � um erro", diz o psic�logo Roberto Plomin, da Universidade da Pensilv�nia. "As novas estrat�gias de pesquisa, que reconhecem a influ�ncia de m�ltiplos genes e de fatores n�o gen�ticos, s�o mais promissoras."

Mist�rios do amor
Nem os cientistas nem os amantes sabem explicar por que uma pessoa se apaixona por um g�meo e n�o por seu par id�ntico

Submetendo os g�meos id�nticos a testes psicol�gicos, os pesquisadores de Minnesota conseguiram chegar ao que chamaram de �ndice de "hereditariedade dos tra�os comportamentais". Como todo �ndice, esse fornece um valor num�rico. Pelo que sustentam Bouchard e seus colegas, pode-se medir e comparar em que grau certos componentes da personalidade das pessoas s�o determinados pela heran�a gen�tica dos pais. Os resultados s�o surpreendentemente exatos. Eles descobriram, por exemplo, que a suscetibilidade, a propens�o a ser influenciado pelos outros, � um tra�o 60% heredit�rio. Como se chegou a tal valor? Simples. Seis em cada dez pares de g�meos id�nticos pesquisados compartilhavam essa caracter�stica � independentemente do tipo de educa��o que receberam em suas diferentes fam�lias. A capacidade de obter prazer est�tico observando uma tela num museu seria 55% produto dos genes com que a pessoa vem ao mundo. As doen�as mentais mostraram ter uma carga gen�tica muito mais forte do que as doen�as f�sicas. O autismo, a esquizofrenia, as neuroses e a depress�o s�o em grande parte heredit�rias. Em 90% dos casos em que um g�meo � autista, o outro tamb�m apresenta a mesma defici�ncia. No caso da esquizofrenia esse valor chega a 50%.

Antes de tentar entender seu real significado � interessante conhecer alguns outros resultados obtidos nos estudos de Minnesota. Segundo os pesquisadores, existe uma vasta categoria de tra�os de personalidade que deve sua exist�ncia tanto � gen�tica quanto �s influ�ncias externas. Nessa categoria se incluem a aliena��o pol�tica, a extrovers�o, o tradicionalismo, a capacidade de lideran�a, a escolha da carreira, a avers�o a correr riscos e a vulnerabilidade ao stress. Um dos estudos concluiu que a felicidade � 50% gen�tica. Ou seja, a riqueza, a sa�de e a estabilidade dos casamentos contam tanto quanto os genes quando se trata de determinar se uma pessoa � feliz. Continuando com as conclus�es dos estudos: tanto o pessimismo quanto o otimismo s�o fortemente influenciados pelos genes que trazemos ao mundo no cora��o de nossas c�lulas. Fatores externos, infelizmente, podem afetar mais o otimismo do que o pessimismo. Num toque de suprema ousadia, os pesquisadores chegaram a definir at� que o h�bito de consumir caf� � mais facilmente herdado do que o de beber ch�.

O que haveria de realmente significativo em tudo isso? Muita coisa. A principal � a medi��o cient�fica de algo de que j� se desconfiava abstratamente h� muito tempo: os pais passam aos filhos n�o apenas a cor dos olhos e dos cabelos mas caracter�sticas mais sutis, como a tend�ncia � ins�nia, a disposi��o para o riso ou a vontade de filiar-se a um partido pol�tico. Genes n�o s�o sin�nimo de destino, mas ajudam a moldar o caminho das pessoas no mundo. A genialidade de Ayrton Senna ao volante deve-se a sua gen�tica, que fez dele uma pessoa biologicamente capaz de ser um tricampe�o mundial de automobilismo. Caso ele nunca tivesse entrado num aut�dromo, por�m, esse prod�gio n�o se teria manifestado da mesma maneira. � luz dos estudos dos g�meos de Minnesota, o fen�meno Ayrton Senna parece um caso simples. Se tivesse tido filhos, quase certamente, alguns deles seriam tamb�m grandes pilotos de competi��o. Eles teriam juntado mais facilmente a heran�a gen�tica prop�cia com o ambiente favor�vel. De fato, atualmente tanto na F�rmula 1 quanto na Indy o n�mero de pilotos filhos de pilotos � enorme. Para citar alguns: Christian Fittipaldi, Jacques Villeneuve, Michael Andretti e Damon Hill.

O psiquiatra americano Stanley Greenspan parece ter encontrado a exata medida entre a influ�ncia dos genes e a do ambiente. "N�o existe uma corrida de cavalos entre os genes e a cria��o para ver quem vai definir um tra�o da personalidade", disse ele � revista Life. "O que existe � uma dan�a, uma intera��o dos diversos fatores." Greenspan tem raz�o. H� consenso de que a gen�tica � decisiva para produzir indiv�duos agressivos e ousados. Entretanto, n�o se pode automaticamente concluir que, por serem os criminosos agressivos, a criminalidade � heredit�ria. A heran�a gen�tica agressiva em uma pessoa criada numa fam�lia equilibrada e num ambiente saud�vel pode muito bem resultar em um adulto honesto. "Os agressivos podem tanto ser marginais de rua como lutadores de boxe, policiais, aventureiros. N�o existe o gene da criminalidade", explica Greenspan.

A favor do estudo dos g�meos diga-se que seus resultados t�m ajudado outro ramo da ci�ncia, a biologia molecular, a procurar as ra�zes f�sicas da personalidade. Dean Horner, bi�logo molecular do Instituto Nacional do C�ncer, tem em seu laborat�rio tubos de ensaio lacrados onde armazena material gen�tico retirado de c�lulas humanas. Seu banco de dados gen�tico j� possui 2.000 amostras marcadas com etiquetas descrevendo o conte�do: "estudantes universit�rios", "homossexuais masculinos", "fumantes" e "crian�as t�midas". Horner espera um dia localizar nos tubos de ensaio os genes que determinaram as caracter�sticas marcadas nas etiquetas. � uma tarefa quase imposs�vel no atual est�gio da ci�ncia. Por enquanto, ele tem conseguido resultados parciais mas muito instigantes. Estudando obsessivamente as amostras de DNA de pessoas que compartilham caracter�sticas semelhantes, o bi�logo isolou h� seis anos um grupo de genes que podem estar ligados � homossexualidade.

Em 1997 ele descobriu que pessoas com esp�rito de aventura costumam ter determinados genes ausentes em indiv�duos sem essa propens�o. Ele foi tamb�m o primeiro cientista a descobrir genes que regulam a produ��o de serotonina, subst�ncia qu�mica cerebral cuja aus�ncia pode desencadear a depress�o ps�quica. Horner encontrou esses genes em todas as amostras de DNA de pessoas marcadas em seus tubos de ensaio como "ansiosas". � um avan�o gigantesco. Mas muitos anos se passar�o ainda at� que surja uma terapia gen�tica para a ansiedade. "Pelo estudo dos g�meos id�nticos aprendemos que a ansiedade tem 50% de raiz gen�tica", diz Horner. "Com meu trabalho descobri alguns poucos genes ligados a essa condi��o psicol�gica, mas eles devem ser centenas, se n�o milhares."

Os cientistas tentaram medir outras caracter�sticas pessoais ainda mais abstratas. Niels Waller e Phillip Shaver, da Universidade da Calif�rnia em Davis, quiseram saber at� que ponto s�o os cromossomos que determinam que duas pessoas se apaixonem. Tiveram uma decep��o. Religiosidade, timidez e posicionamento ideol�gico, acredita-se, s�o sentimentos e atitudes passados de pai para filho. O romantismo n�o. "Cada vari�vel psicol�gica que estudamos tinha sempre um componente heredit�rio forte", conta Waller. "Ficamos surpresos ao constatar que no amor esse fator praticamente n�o tem influ�ncia." O principal campo de observa��o dos pesquisadores californianos foram 445 pares de g�meos. Eles consideraram seis tipos de temperamentos rom�nticos que combinam em maior ou menor propor��o o erotismo, a divers�o, o pragmatismo, a amizade, o altru�smo ou a obsess�o. O amor obsessivo, do g�nero atra��o fatal, seria aquele tipo mais influenciado pela carga de hereditariedade com um �ndice de 17%. O amor pragm�tico, aquele que leva uma pessoa a se interessar pela outra para dar o golpe do ba�, apareceu apenas em 8% dos casos. O amor er�tico, o impulso que faz uma pessoa se apaixonar � primeira vista apenas pela apar�ncia do parceiro, ficou com 5%. Tanto o sentimento que leva as pessoas a namorar com vista a um compromisso at� que a morte os separe quanto o que termina antes do pr�ximo Carnaval n�o t�m conota��o gen�tica alguma. N�o acredite, portanto, quando um conquistador barato disser que age assim por instinto. � pura malandragem.

Cici e Carmem: �culos iguais em cidades diferentes

As mineiras Carmem e Concei��o Resende, 70 anos, fazem parte do exclusivo clube de g�meos id�nticos criados separados. Assim que as meninas nasceram na cidade mineira de Ibituruna, 180 quil�metros ao sul de Belo Horizonte, Concei��o foi entregue pelos pais para ser criada por outra fam�lia. S� voltaram a se encontrar aos 4 anos, mas at� se tornarem adultas continuaram se vendo pouco e morando em casas diferentes, com estilos de vida distintos. Os pais adotivos de Cici, o apelido de Concei��o, tinham melhor condi��o econ�mica e puderam dar-lhe uma vida folgada. Filha �nica, era mimada, tinha boas roupas e ganhava presentes. Morava numa casa espa�osa no centro de Ibituruna. Carmem tinha outros cinco irm�os e uma vida austera. Quando n�o estava na escola, ajudava a m�e nas tarefas dom�sticas e a tomar conta dos irm�os menores. A casa apertada para a fam�lia numerosa ficava a 20 quil�metros do centro da cidade.

Carmem casou primeiro, mas se separou do marido 36 anos depois. Cici continua casada at� hoje. As coincid�ncias na vida das irm�s, que na cidade s�o conhecidas como as "g�meas separadas", s�o impressionantes, e n�o s� pela apar�ncia f�sica. Usam o mesmo estilo de roupa e o mesmo penteado, t�m o mesmo timbre de voz e fazem gestos semelhantes, como o de cruzar as m�os sobre o colo. Ambas gostam da cor vermelha, do programa de Hebe Camargo, das m�sicas de Roberto Carlos e dos filmes de Mazzaropi. Ambas s�o conservadoras, centradas na fam�lia e reprovam a liberalidade sexual. Ambas engravidaram nove vezes, ambas s�o diab�ticas e sempre que uma fica resfriada a outra tamb�m fica. Recentemente Cici viajou para S�o Paulo e aproveitou para comprar �culos novos para corrigir a miopia. Na mesma �poca, Carmem foi a Lavras e tamb�m comprou �culos novos para a vista cansada. Quando se encontraram, dias depois, perceberam com surpresa que haviam comprado o mesmo modelo de �culos.



Natureza e cria��o
Clones perfeitos, os g�meos, com suas m�ltiplas semelhan�as f�sicas e ps�quicas, ajudam a
explicar por que somos o que somos
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