Me Deu um Branco!                          Veja 08/09/1999
Os pesquisadores come�am a explicar por que esquecemos e j� falam em produzir uma droga eficiente para melhorar a mem�ria

Mito: anotar os compromissos � o caminho mais curto para enfraquecer a mem�ria
Verdade: o simples fato de anotar � um excelente recurso para refor�ar a memoriza��o

Mito: o c�rebro guarda tudo o que ocorre. A lembran�a sempre pode ser desenterrada com a ajuda da psican�lise ou de hipnose
Verdade: boa parte de nossas percep��es, como um n�mero de telefone, transita rapidamente pela mem�ria e simplesmente evapora-se

Mito: os afortunados com supermem�ria, daqueles capazes de decorar todas as m�sicas dos Beatles, s�o pessoas de intelig�ncia e capacidade de racioc�nio superiores a mem�ria
Verdade: mem�ria nada tem a ver com intelig�ncia ou racioc�nio. Um poder extraordin�rio de memoriza��o � um dom natural ou resultado de treino

A fronteira final na luta da ci�ncia para entender e melhorar o funcionamento do corpo humano fica no c�rebro. Mais exatamente numa regi�o conhecida como hipot�lamo. Por ali circulam os impulsos el�tricos e qu�micos respons�veis por uma das fun��es mais vitais da mente, a mem�ria. Durante s�culos, pesquisadores v�m tentando desvendar seus mecanismos. At� bem pouco tempo atr�s, os progressos nessa �rea eram desprez�veis. Agora, num salto formid�vel, cientistas de diversas equipes v�m relatando descobertas que em seu conjunto pintam um retrato bem mais n�tido. Em resumo, o que se descobriu � que os problemas de perda de mem�ria s�o causados por altera��es mais simples do que se imaginava. O que levaria uma pessoa, de qualquer idade, a ficar com a "mem�ria fraca" seria uma perturba��o na qu�mica cerebral.

Onde est� a boa not�cia? Exatamente a�. J� que na imensa maioria dos casos o que ocorre � uma mudan�a na sopa de elementos qu�micos que banham as c�lulas cerebrais, abre-se a possibilidade de que seja desenvolvido um rem�dio eficaz para corrigir o defeito. Alguns compostos j� dispon�veis nas farm�cias podem mesmo atenuar casos mais brandos de mem�ria fraca (veja quadro ao lado). A outra conseq��ncia das descobertas � que as pessoas podem envelhecer preservando boa parte da agilidade mental e da capacidade de recordar que tiveram no auge de suas vidas. "A perda de neur�nios e os danos f�sicos que a idade e outros fatores provocam no c�rebro n�o t�m efeito t�o adverso quanto se acreditava", diz o neurologista americano Bruce McEwen, da Universidade Rockefeller, em Nova York. As pesquisas mostram que o c�rebro pode facilmente reprogramar-se para suprir a perda de neur�nios provocada pelo envelhecimento ou pelos horm�nios que situa��es extremas de tens�o liberam no organismo.

A mais fascinante descoberta diz respeito ao modo com que a idade e o stress atuam sobre a mem�ria. Acreditou-se durante d�cadas que o esquecimento era provocado pela morte de c�lulas cerebrais e que, portanto, toda pessoa estava condenada � decrepitude. N�o � bem assim. Apesar de o c�rebro perder peso com a idade (entre 5% e 10% por d�cada depois dos 65 anos) e de a mem�ria tornar-se mais lenta, a maioria das pessoas n�o est� programada para se tornar incapaz mentalmente depois de uma certa idade. Os m�dicos sabem agora que, exceto pelo desenvolvimento de algumas enfermidades espec�ficas, como o mal de Alzheimer ou doen�as vasculares, a idade n�o arru�na a mem�ria. Fica mais f�cil explicar por que Giuseppe Verdi tinha mais de 70 anos quando comp�s suas �peras mais complexas. Octogen�rio, o escritor argentino Jorge Luis Borges aprendeu ingl�s arcaico. Muitos dos novos conhecimentos sobre a mem�ria decorrem dos investimentos feitos em pesquisas do mal de Alzheimer. Como as pessoas est�o vivendo mais, a doen�a, que atinge entre 1% e 2% da popula��o, tornou-se caso de sa�de p�blica em certos pa�ses. Mesmo no caso dessa enfermidade grave observaram-se vantagens para o exerc�cio mental. Pesquisa realizada no Hospital Franc�s de Buenos Aires entre pacientes com mais de 65 anos revelou que a incid�ncia do mal de Alzheimer chega a ser cinco vezes maior entre analfabetos se comparada com universit�rios.

O que os m�dicos recomendam com �nfase � a busca de um estilo de vida saud�vel. H� v�rios fatores que impedem o c�rebro de trabalhar a pleno vapor. Press�o alta pode ser devastadora, mesmo quando n�o leva ao ataque card�aco ou ao derrame. Excesso de bebida alco�lica, car�ncia de sono e abuso de p�lulas para dormir s�o igualmente arrasadoras para a mem�ria. Nada � mais perverso que o stress, o mal da vida moderna. "Mesmo que n�o sejam intensos, esses fatores diminuem muito o grau de aten��o da pessoa", afirma o m�dico baiano Aroldo Bacellar, presidente da Academia Brasileira de Neurologia. "Quem n�o est� atento n�o tem nem o que lembrar depois." Al�m de nos tirar o sono, tornar mais distra�dos e mais propensos a beber, o stress cr�nico age na qu�mica cerebral. Isso porque a press�o emocional leva � libera��o de cortisol, subst�ncia que interfere com as mol�culas que levam glicose ao hipocampo. Em outras palavras, deixam o c�rebro sem energia. Apesar de a maioria desses fatores perversos parecer estar al�m do controle de cada um, h� muito que se pode fazer. Uma boa provid�ncia inicial � manter dieta saud�vel e praticar alguma atividade f�sica. Al�m de diminuir o stress, os exerc�cios ajudam a circula��o, oxigenando o c�rebro, e isso � um elemento decisivo para o bom funcionamento da cabe�a. "O c�rebro tem apenas 2% do peso do corpo, mas consome 20% de toda a energia gerada", observa o neurofisiologista Gilberto Xavier, da Universidade de S�o Paulo, USP.

Como se sabe que o c�rebro depende da sa�de do sistema circulat�rio para funcionar direito, a vida saud�vel produz resultados magn�ficos. Uma pesquisa espanhola feita durante dois anos com idosos estabeleceu uma conex�o entre agilidade mental e alimenta��o farta em frutas, vegetais e fibras. Um estudo da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, publicado recentemente na revista Nature demonstrou que a caminhada di�ria retarda o envelhecimento do c�rebro. Por fim, uma simples organiza��o de h�bitos n�o faz mal a ningu�m e tem resultados sensacionais. O tempo e a energia investidos na procura pela chave do carro podem ser facilmente poupados deixando-a sempre no mesmo lugar. "� uma equa��o simples", diz Barry Gordon, neurologista da universidade americana Johns Hopkins e autor de um celebrado livro sobre mem�ria. "Vale mais a pena comprar � e usar � uma agenda do que esperar que a cabe�a cuide de tudo sem falhar. Como diz um ditado ingl�s, o pior l�pis � mais eficiente que a melhor mem�ria."

H� avan�os tamb�m fora dos laborat�rios que estudam as c�lulas cerebrais. � sabido que quanto maior a quantidade de fun��es cerebrais envolvidas no armazenamento de informa��es mais �gil ser� a mem�ria. Estudos recentes mostram que recordamos 10% do que lemos, 20% do que escutamos, 30% do que vemos, 50% do que vemos e escutamos, 70% do que ouvimos e discutimos � e 90% do que ouvimos e fazemos. Essa simples constata��o abriu uma nova frente na luta contra as falhas da mem�ria. Ela orienta hoje as t�cnicas que ensinam pessoas saud�veis a reter melhor os conhecimentos de que necessitam no trabalho e na vida em geral � ensinando-as a descartar os blocos de informa��es sup�rfluas que simplesmente sobrecarregam a mem�ria (veja quadro). Pode-se depreender da� que o segredo para melhorar a mem�ria n�o � lembrar-se de tudo, como j� se viu, mas evitar que a mente descarte o imprescind�vel. Bons resultados s�o obtidos com t�cnicas bem simples, quase intuitivas. Aten��o e concentra��o s�o essenciais para fixar as lembran�as. "Se voc� costuma esquecer a luz da garagem ligada, da pr�xima vez em que for deslig�-la descreva a a��o em voz alta. A vocaliza��o forte refor�a a mem�ria", ensina o m�dico Robert Goldman no livro A Sa�de do C�rebro.

As pesquisas confirmam tamb�m a velha cren�a de que quanto mais se usa a mem�ria mais afiada ela fica. "� como um rio: quanto mais �gua passar por ele, mais fundo ser� o leito", descreve o neurologista Paulo Henrique Bertolucci, da Universidade Federal de S�o Paulo. "O mesmo acontece com a mem�ria. Quanto mais as conex�es entre neur�nios forem ativadas, maiores as chances de perpetuar as lembran�as." Exercitar o intelecto � um santo rem�dio para quem anda meio esquecido. Sob esse ponto de vista, resolver palavras cruzadas, assistir ao novo epis�dio de Guerra nas Estrelas e ler um livro de auto-ajuda � t�o bom para a mem�ria quanto dedicar-se a um ensaio sobre o fil�sofo alem�o Nietzsche e na seq��ncia ouvir uma �pera em italiano. Parece uma obviedade, mas at� recentemente se acreditou que a massa cinzenta se desgastava com o excesso de uso. Ocorre exatamente o contr�rio. "O c�rebro � como um m�sculo", define o neurofisiologista Gilberto Xavier, da USP. "Ambos precisam de exerc�cio. Se n�o houver est�mulo, tanto um como outro atrofiam."

Ainda est� por descobrir exatamente como se d� a transi��o entre a mem�ria tempor�ria e a de longo prazo. Ou seja, de que maneira o c�rebro decide o que deve ser arquivado de modo organizado e resgat�vel e o que se perder� para sempre nos labirintos da mente. "A simples leitura destas palavras na revista exige que se lembre o que significa cada letra, cada s�laba e cada palavra", disse a VEJA o americano Barry Gordon. J� se sabe que o arquivista do corpo humano � o hipocampo, um �rg�o de tamanho reduzido acomodado entre os dois hemisf�rios cerebrais. As informa��es chegam ao c�rebro por interm�dio de um dos cinco sentidos, s�o processadas no c�rtex e, depois, enviadas ao hipocampo, que toma as decis�es. A comprova��o definitiva da import�ncia do hipocampo n�o � totalmente nova. Foi feita em 1953, com o estudo do caso de um oper�rio americano (ali�s, uma das pessoas mais estudadas pelos neurocientistas nos �ltimos quarenta anos) cujo hipocampo foi extra�do por causa da epilepsia. Ele era capaz de aprender novas habilidades motoras, mas nunca mais formou novas lembran�as e se tornou incapaz de recordar o que tinha comido no caf� da manh�.

O mist�rio � o que o hipocampo leva em conta para tomar essa decis�o de enviar as lembran�as para a mem�ria permanente. J� se encontraram alguns fatores que exercem grande influ�ncia. O primeiro deles � a emo��o. Em uma experi�ncia realizada h� cinco anos nos Estados Unidos, duas vers�es diferentes de uma hist�ria foram contadas a dois grupos de pessoas. Em uma delas, um garoto vai visitar o pai e, no caminho, passa por um ferro-velho. Na outra, o garoto � atropelado. N�o � preciso ser um especialista em neurologia para prever que a segunda hist�ria foi lembrada com muito mais detalhes. O segundo fator de influ�ncia � a capacidade de estabelecer rela��es com informa��es que j� temos guardadas. � mais uma constata��o cient�fica de algo que o senso comum j� demonstrou. Obviamente � mais eficiente tentar lembrar-se de algo que diz respeito � maneira como se ganha a vida do que de abstra��es totalmente alheias ao trabalho ou � profiss�o que se escolheu. Nesse particular, o que os cientistas t�m a declarar � que hoje eles sabem exatamente em que regi�o do c�rebro ficam gravadas as experi�ncias e os conhecimentos adquiridos no passado � numa regi�o conhecida como c�rtex cerebral. Camada externa da massa encef�lica, o c�rtex abriga cerca de 10 bilh�es de c�lulas cerebrais, os neur�nios, que se comunicam por impulsos el�tricos e qu�micos. Cada informa��o que chega ao c�rebro (uma imagem, um som, uma id�ia) � guardada num ponto determinado. A imagem fica no mesmo lugar onde � processada ao chegar pelo nervo �ptico. O som � guardado no mesmo espa�o onde � decodificado, e assim por diante. Quando voc� � apresentado a uma pessoa, acontece o que o psic�logo americano Daniel Schacter, da Universidade Harvard, chama de "constela��o tempor�ria". Cada uma das informa��es sobre a pessoa (o rosto, o nome, a voz, a profiss�o, e assim por diante) � processada em uma regi�o diferente do c�rebro. Os dados s�o ligados entre si pelos neur�nios � e � essa pequena rede que forma o que chamamos de mem�ria. Esse processo antes misterioso e inacess�vel vem aos poucos entregando seus segredos aos pesquisadores. Vive-se, sem d�vida, uma �poca memor�vel para o estudo do c�rebro.

 
Surra no c�rebro
Afinal, quais os segredos dos cursos que ensinam t�cnicas de memoriza��o? A maioria dos m�todos tem como base uma pr�tica conhecida h� mais de 2 500 anos. O princ�pio b�sico � o da associa��o. A mem�ria come�a a funcionar quando associamos o que queremos lembrar a lugares, pessoas, hist�rias e situa��es. � muito mais f�cil recordar-se de uma situa��o do que de um n�mero. Os n�meros s�o excessivamente abstratos e � natural que as pessoas se esque�am deles com freq��ncia. Para a mem�ria, as imagens s�o muito mais concretas. Nas aulas dos cursos de leitura din�mica, um dos exerc�cios adotados � o da exibi��o de um trecho de texto num tel�o por alguns segundos. Nas proje��es seguintes, aumenta-se o n�mero de palavras e diminui-se o tempo de exposi��o. Outro exerc�cio consiste em pedir ao aluno que resuma em algumas palavras um cap�tulo de um livro. Dessa forma, quando ele precisar relembrar o que leu, as palavras lhe servir�o de guias, como placas de sinaliza��o numa estrada.

Alguns cursos de memoriza��o no Brasil ensinam uma t�cnica que procura tornar mais concretas as abstra��es. � um trabalh�o. Um estudante de direito que precisava decorar o C�digo Penal foi instru�do a associar o n�mero 1 com a palavra "tio", o 2 com "navio" e o 9 com "surra". Depois, bastava lembrar da frase "Meu tio entrou no navio e levou uma surra". Com isso, o futuro advogado jamais se esqueceria de que o artigo 129 trata das les�es corporais. Funciona, mas imagine-se a complexidade de utilizar o m�todo para decorar todos os 361 artigos do C�digo Penal. O melhor conselho � o mais simples: estimular a mem�ria. Para n�o correr o risco de arquivar informa��o desnecess�ria, a dica dos especialistas � fazer checagens peri�dicas. A primeira, um dia depois de aprender o t�pico que se deseja decorar. A segunda, tr�s dias depois. Se uma semana depois o assunto ainda estiver fresco, � sinal de que a informa��o ficar� gravada na mem�ria por muito mais tempo.
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