| A Idade Verdadeira Veja 08/09/1999 M�dico americano calcula quantos anos ganha quem adota h�bitos saud�veis A ci�ncia faz descobertas significativas a todo momento, mas a maioria delas est� t�o distante da realidade das pessoas que se acaba tornando desinteressante. A equipe do m�dico americano Michael Roizen, da Universidade de Chicago, conseguiu juntar as duas virtudes. Descobriu algo importante e de aplica��o �bvia na vida de cada um. Depois de compilar estat�sticas sobre taxas de mortalidade de diversas popula��es no mundo durante tr�s anos, Roizen calculou o impacto das doen�as sobre a longevidade humana e mostra, com n�meros, quantos anos uma pessoa pode ganhar ou perder se parar de fumar, come�ar a fazer exerc�cios, evitar o stress e, indiretamente, ficar mais bonita. Uma primeira leitura pode produzir aquela rea��o esperada diante das novidades. "L� vem mais uma daquelas teorias malucas, como a dieta da Lua ou a de Beverly Hills", podem pensar alguns. Mas n�o � isso. O trabalho do doutor Roizen recebeu elogios un�nimes da classe m�dica americana porque, ao contr�rio de outros te�ricos, ele n�o prop�e solu��es milagrosas. Apenas fez c�lculos e atribuiu um n�mero documentado a cada h�bito virtuoso ou vicioso do ser humano. � quase uma tarefa de matem�ticos e estat�sticos. O material se transformou num livro, RealAge: Are You as Young as You Can Be? (Idade Verdadeira: Como Ficar Emocional e Fisicamente Mais Jovem?), que est� na lista dos mais vendidos dos Estados Unidos. Nesta semana, o Idade Verdadeira ser� lan�ado no Brasil. A parte central do livro � um question�rio extenso com 125 perguntas, um verdadeiro check-up. O teste foi elaborado por Roizen e outros quatro cientistas com base em 25.000 pesquisas publicadas em revistas cient�ficas. Por meio dele, fica-se sabendo que um n�o fumante exposto � fuma�a do cigarro por mais de tr�s horas di�rias pode "envelhecer" tr�s anos. Roizen informa tamb�m que a ingest�o de frutas com freq��ncia superior a quatro vezes por dia pode "rejuvenescer" algu�m em um ano. Com a pr�tica de sexo sem o uso de preservativo, "perdem-se" at� oito anos, em virtude dos riscos de doen�a e morte que existem nesse descuido. A cada resposta, adicionam-se ou subtraem-se anos de vida. No final do teste, a pessoa que o faz descobre qual � sua idade verdadeira. Ela pode ser maior, menor ou igual � idade cronol�gica. Na p�gina 118, VEJA publica um teste resumido pelo pr�prio Roizen com 33 quest�es. Lendo-o, descobre-se que um homem solteiro de 50 anos que fuma um ma�o de cigarros por dia, n�o faz exerc�cios f�sicos e belisca um pacote de batata frita entre as refei��es tem uma idade verdadeira de quase 70 anos. Se este mesmo homem praticar exerc�cios com assiduidade, mantiver uma vida sexual animada e ingerir vitaminas E e C em quantidade apropriada na forma de alimentos ou suplementos, ele pode ficar parecido com algu�m de 45 anos. O doutor Roizen estabeleceu um crit�rio cient�fico para essa movimenta��o das pessoas pelas faixas et�rias. "Envelhecer", "rejuvenescer", "ganhar idade" ou "perder" n�o implica transforma��es violentas de ordem f�sica. O fumante de 50 anos jamais ficar� com os tra�os e as rugas de um homem de 70. O que acontece � que ele estar� sujeito aos riscos de infarto e c�ncer a que est�o expostos os homens mais velhos. Isso � "envelhecer" ou "perder anos", para o doutor Roizen. Fazendo a dieta adequada, mantendo a atividade sexual e os exerc�cios em dia, esse homem se livra de alguns perigos comuns na faixa dos 50 anos e passa a conviver com os riscos comuns aos homens de 45 anos. Assim, ele "rejuvenesce" ou "ganha" idade. � como se a vida fosse uma prova com barreiras. Os obst�culos s�o baixos no in�cio e v�o aumentando at� que se chega diante da barreira intranspon�vel. Rejuvenescer � ter o direito de ficar mais tempo na parte da prova que n�o imp�e riscos t�o pesados. Envelhecer � ser obrigado a aproximar-se do �ltimo obst�culo antes do tempo. "Sempre me espantava ver pessoas instru�das e inteligentes mantendo h�bitos ruins mesmo sabendo que estavam erradas", diz Roizen a VEJA. "Agora, talvez as pessoas mudem algumas atitudes depois de conhecer a taxa de estragos que esses h�bitos produzem." Vinte anos a menos � Quem j� n�o se viu diante daquela situa��o, que pode ser agrad�vel ou muito constrangedora, quando algu�m pergunta a sua idade e, diante da resposta, usa a frase enigm�tica: "N�o parece!" O "n�o parece" � uma demonstra��o emp�rica de que cada idade tem contornos mais ou menos definidos. Algu�m que n�o parece a idade que tem pode demonstrar uma idade maior ou menor do que aquela que vem expressa na carteira de identidade. A equipe de Roizen mostra que tanto a apar�ncia quanto a qualidade do organismo podem sofrer altera��es de muitos anos em raz�o de condutas determinadas. De forma que, ap�s o surgimento do conceito Idade Verdadeira, deixou de fazer sentido apenas o que indicam os documentos de uma pessoa. Entra em cena, com uma for�a enorme, o tipo de vida que leva essa pessoa. Roizen sustenta que a diferen�a entre a idade cronol�gica, a da certid�o de nascimento e a idade do corpo, a "verdadeira", pode ser dram�tica. Para calcular o peso de cada h�bito sobre a sa�de dos indiv�duos, Roizen criou uma taxa de risco. Pegou a longevidade m�dia do fumante e comparou com a longevidade m�dia do n�o-fumante. Encontrou uma diferen�a de oito anos. Quem n�o fuma tem, portanto, um organismo oito anos mais jovem do que aqueles que mant�m o v�cio. Isso n�o significa que um fumante v� necessariamente viver oito anos menos que um n�o-fumante. Winston Churchill, o primeiro-ministro brit�nico que comandou o esfor�o ingl�s na II Guerra, fumava e bebia como gente grande. Morreu aos 90 anos. Deng Xiaoping, l�der chin�s, era outro fumante inveterado, assim como Mao Ts�-tung, que n�o apenas gostava de tabaco como tamb�m comia sem regra, a ponto de sua mulher, a atriz canastrona Chiang Ching, ter proibido o cozinheiro do pal�cio de fazer pratos pesados para o amo, que passou a refestelar-se escondido da mulher. Deng morreu aos 92. Mao, aos 82. O que Roizen est� dizendo nada tem a ver com isso. N�o afirma que maus h�bitos condenem todas as pessoas, indiferentemente, a uma morte prematura. O que ele informa � que uma pessoa que fume tem mais riscos estat�sticos de tombar antes. A partir dessa rela��o de causa e efeito, Roizen acrescentou dezenas de outros fatores que podem encurtar uma vida. Chegou a detalhes impressionantes. � inimagin�vel que algu�m n�o escove os dentes hoje em dia. Ainda assim, h� uma pergunta sobre escova��o no teste preparado por ele. Roizen descobriu que a falta de escova��o correta e regular � a causa de doen�as que podem encurtar a vida em at� seis anos. Pode parecer um exagero, mas pesquisas cient�ficas s�rias fortalecem o c�lculo. Depois de definir uma lista de padr�es, desvios de conduta e o preju�zo em cada caso, os m�dicos de Idade Verdadeira precisaram criar uma equa��o para calcular o impacto de cada v�cio ou virtude sobre a longevidade. Afinal, se as contas fossem feitas de forma linear, a elimina��o de todos os maus h�bitos poderia resultar num rejuvenescimento superior a trinta, quarenta ou at� cinq�enta anos, o que n�o faz o menor sentido. Se assim fosse, o governador Itamar Franco poderia rejuvenescer a tal ponto que sua idade f�sica finalmente se equipararia a sua idade mental. De acordo com a f�rmula montada por Roizen, o c�lculo da taxa de ganho e perda � m�vel. Para pessoas na faixa dos 30 anos, adotar uma combina��o de cuidados pode lev�-las a ganhar dez anos, no m�ximo. No limite, uma mulher de 35 anos que malha diariamente na academia e mant�m uma alimenta��o de baixo teor cal�rico pode ficar com organismo e apar�ncia de uma garota de 25. Para idades mais avan�adas, a taxa de ganho � muito maior. Um homem de 70 anos que seja muito cuidadoso pode ter a sa�de de um homem vinte anos mais mo�o. Rotina de exerc�cios � Com base em dezenas de estudos cient�ficos, Roizen frisa que o organismo n�o est� preparado para sofrer mudan�as radicais nessa viagem et�ria. Alguns anos a mais ou alguns anos a menos s�o razo�veis e perfeitamente explic�veis. Ningu�m se surpreende. Diferen�as exageradas n�o devem ser toleradas. Uma pessoa de 30 anos que, ao responder ao question�rio, descobre que tem idade verdadeira de 40 ou 45 anos precisa marcar uma consulta m�dica o mais r�pido poss�vel. Certamente, ela est� cometendo uma s�rie de erros que podem encurtar sua vida. A pedido de VEJA, diversas personalidades responderam ao question�rio do doutor Roizen. Em alguns casos, os resultados foram impressionantes. Campe�o na F�rmula 1 e na Indy, Emerson Fittipaldi, 52 anos, mant�m uma rotina di�ria de exerc�cios e alimenta��o invej�veis. Como conseq��ncia dessas pr�ticas, segundo a equa��o de Michael Roizen, ele tem a idade de um homem de 39 anos. � evidente que os cuidados adotados por Emerson n�o deram a ele a apar�ncia de algu�m de 39 anos, mas tem muita gente de 39 ou 40 que aparenta mais idade do que ele. A triatleta Fernanda Keller tem 35 anos, segundo a certid�o de nascimento. N�o bebe, dorme religiosas oito horas todas as noites e ingere vitaminas � al�m da dose cavalar de exerc�cios f�sicos. Na tabela de Roizen, sua idade verdadeira � 29 anos. Deve-se dizer que parece at� menos. Outras pessoas sem o hist�rico atl�tico e esportivo de Emerson e Fernanda tamb�m descobriram ter rejuvenescido ao optar por uma vida mais saud�vel. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Velloso, tem 63 anos de idade cronol�gica. No teste que fez com base no question�rio de Roizen, Velloso ficou com 52 anos de idade verdadeira. O ex-ministro da Fazenda Mailson da N�brega tem 57 anos, mas baixou sua idade verdadeira para 50. Ele recuperou esse tempo porque largou o v�cio do cigarro h� mais de cinco anos e passou a controlar o peso. A apresentadora Ana Maria Braga, de 50 anos cronol�gicos, viu sua idade org�nica recuar para 43 gra�as a um tratamento hormonal depois da menopausa, uma precau��o que reduz o risco de doen�as cardiovasculares. O livro de Roizen n�o dedica uma s� linha a uma das grandes preocupa��es do ser humano: a beleza. Ele n�o fala em diminuir a incid�ncia de rugas, p�s-de-galinha ou celulite, preocupa��es que tiram o sono de boa parte das pessoas. Nem estabelece rela��o direta entre vaidade e idade verdadeira. "Estar jovem � ter um organismo saud�vel, � ter um bom recheio", diz o autor. "Mas as pessoas n�o fazem essa associa��o." A rela��o entre beleza e idade verdadeira ocorre no livro apenas de forma indireta. Quando o autor cita que parar de fumar pode produzir um benef�cio de at� oito anos, a conta refere-se �s doen�as de que fica livre o ex-fumante. Mas o efeito disso sobre a pele e o cabelo � quase imediato. Quem n�o fuma, em geral, tem a apar�ncia menos envelhecida do que quem fuma. A maior parte das pessoas que trocam a torta de chocolate pela r�cula tem ganhos mais consistentes no cora��o, mas o corpo tamb�m tende a ficar mais atraente. O combate ao stress melhora a apar�ncia, como qualquer um pode intuir. Mas uma apar�ncia melhor tamb�m combate o stress de estar feio. "A felicidade com uma boa forma f�sica e um rosto com apar�ncia melhor ajuda a diminuir o stress", diz o cl�nico geral carioca Luiz Alfredo Lamy. "Por isso, a boa apar�ncia faz com que as pessoas rejuvenes�am biologicamente." Ou seja, alimenta��o correta e exerc�cios f�sicos p�em em a��o um c�rculo virtuoso da melhor qualidade. Postura cautelosa � H� v�rios livros que prometem �s pessoas uma maneira mais r�pida de chegar � plenitude. Idade Verdadeira n�o pode ser confundido com um deles. Michael Roizen � um profissional que chefia 110 m�dicos na Universidade de Chicago. Seu nome aparece nas �ltimas nove edi��es anuais de um guia respeitado nos Estados Unidos chamado Os Melhores M�dicos da Am�rica. Um dos motivos da boa imagem que a obra de Roizen deixa entre os especialistas � o extremo cuidado no trabalho da coleta de informa��es. S� entrou no livro estat�stica confirmada em pelo menos quatro artigos cient�ficos. Um dos casos t�picos da postura cautelosa s�o os dois anos de envelhecimento dados no teste a casais heterossexuais que vivem juntos h� menos de dez anos. Por que os casamentos de sete ou oito anos n�o s�o beneficiados? Porque s� h� pesquisas conclusivas sobre os efeitos ben�ficos do tempo em rela��o aos acima de dez anos. Roizen abre seu livro com uma compara��o monet�ria. "A sa�de tem um valor de troca, como o dinheiro", diz. "Voc� pode gastar o que tem ou economizar para dias mais dif�ceis. O que fizer hoje vai ter conseq��ncia no futuro." H� um apelo did�tico no m�todo Roizen de assustar as pessoas. Ao traduzir o sedentarismo em determinado n�mero de anos a mais na vida, isso facilita a compreens�o dos riscos. Qualquer pessoa sabe que a falta de exerc�cios � prejudicial, mas para muitos essa � uma amea�a te�rica. Quando a decis�o de n�o fazer exerc�cios � traduzida em dois ou tr�s anos a menos de vida, n�o h� como n�o entender a gravidade da situa��o. "Eu n�o quero que os leitores passem a correr a maratona, mas que entendam como � importante manter algum tipo de exerc�cio di�rio", afirma Roizen. Ele diz que basta uma caminhada di�ria de vinte minutos para reduzir em apenas vinte semanas de 15% a 30% os riscos de infarto ou derrame. Com uma atividade f�sica leve, recuperam-se at� tr�s anos em rela��o � idade ditada pela carteira de identidade. O m�dico criou ainda um truque em seu question�rio contra a vida sedent�ria. No gabarito, ganha meio ano aquele que tem cachorro em casa. Os donos de gatos ou papagaios n�o ganham nada. O motivo � que ter um c�o praticamente obriga a caminhadas di�rias, o que n�o ocorre com quem tem outro bicho. Livros como o de Roizen est�o explodindo no mercado editorial no mundo todo porque v�m ao encontro de uma obsess�o da humanidade na virada do mil�nio: retardar a velhice. H� dois s�culos, as pessoas morriam em m�dia com 30 anos. No s�culo passado, a expectativa de vida passaria a ser de 48 anos. Hoje, vive-se em m�dia 68 anos. Quantidade de vida � bom, desde que haja tamb�m qualidade. Atualmente, o consenso entre os cientistas � de que a sa�de est� muito mais ligada aos h�bitos de cada um do que � carga gen�tica. Acredita-se que a heran�a do pai e da m�e contribua com 30% no modo como cada um chega � velhice. Os outros 70% dependem do estilo de vida e de fatores ambientais. Isso quer dizer que envelhecer bem ou mal � em grande parte resultado de um conjunto de decis�es pessoais. Com o passar dos anos, o corpo come�a a cobrar tributos. Cansa-se, d�i, falha. O cen�rio parece terr�vel, mas o envelhecimento pode ser muito melhor para quem cuida de si pr�prio. |
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