| Favel�es Urbanos Veja 28/07/1999 O mundo est� diante da perspectiva de ter mais da metade de sua popula��o vivendo em cidades grandes, pobres, sujas e doentes S�o Paulo, Brasil Com mais de 17 milh�es de habitantes, a regi�o metropolitana est� infestada de ratos � s�o dez, em m�dia, por pessoa. Em dias normais, cerca de 100 quil�metros de ruas ficam congestionados. Quando chove, a cidade entra em colapso. "S�o Paulo est� se tornando invi�vel", diz C�ndido Malta Campos Filho, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S�o Paulo. Seis horas da tarde. Vista de cima, a cidade parece uma �rvore de Natal. Para quem est� no ch�o � um inferno. Segundo o departamento de tr�nsito, h� pelo menos 100 quil�metros de congestionamentos. A velocidade m�dia dos carros � de 20 quil�metros por hora. O ar � irrespir�vel e o barulho, ensurdecedor. O tr�nsito dos pedestres � atrapalhado por centenas de camel�s que atravancam as cal�adas. Nos pontos de �nibus e nas esta��es de metr�, as pessoas se acotovelam por uma posi��o melhor a fim de conseguir condu��o para casa. Entre o ponto de �nibus e o prato com o jantar, pode levar duas, tr�s horas. Quem atravessa a rua tem de prestar muita aten��o. Al�m dos carros e caminh�es parados no tr�fego congestionado, h� motociclistas que passam entre as faixas e atropelam o que estiver no caminho. H� tamb�m os carroceiros e os ciclistas que andam na contram�o. Onde? O leitor pode escolher: Cidade do M�xico, Bangcoc, Xangai, S�o Paulo. Os problemas que atormentam as pessoas que vivem nas grandes cidades de todo o mundo s�o muito semelhantes: tr�nsito, polui��o, sujeira, viol�ncia. S�o transtornos constantes, e acaba-se convivendo com eles sem perceb�-los, a n�o ser quando explodem no meio da rua. Na semana passada, os paulistanos viram uma dessas explos�es. A prefeitura e as empresas de �nibus discutem sobre uma d�vida e, por n�o chegarem a um acordo, as empresas cortaram os vales-refei��o e os adiantamentos salariais dos funcion�rios. Na ter�a-feira, os motoristas cercaram o pr�dio da prefeitura com 2.000 �nibus vazios enquanto 700.000 paulistanos ficavam sem condu��o. S� neste ano j� aconteceram 71 manifesta��es de motoristas e cobradores de �nibus em S�o Paulo. Em cada uma delas, os que dependem de transporte p�blico maldizem sua sina de viver no caos de uma metr�pole gigante. Hoje, h� quase 3 bilh�es de pessoas vivendo em cidades. Dentro de 25 anos ser�o 5 bilh�es � mais da metade da humanidade. A popula��o urbana est� crescendo muito e criando problemas de dif�cil administra��o. Pior: est� crescendo mais, e mais rapidamente, em pa�ses pobres, sem dinheiro para investir em melhoramentos essenciais. Se as coisas continuarem como est�o, o pr�ximo s�culo ter� uma hist�ria de gente infeliz, pobre e doente. Ge�grafos, arquitetos e economistas andam se debru�ando sobre as cidades para descobrir como reverter o estado de fal�ncia generalizada em que elas mergulharam. Segundo proje��es da Organiza��o das Na��es Unidas, ONU, em 2015 haver� no planeta 27 megal�poles com mais de 10 milh�es de habitantes. Elas s�o, na maioria, cidades que n�o t�m tratamento de esgoto, coleta de lixo, hospitais, escolas e transporte p�blico suficientes para atender sua popula��o atual. Jacarta, na Indon�sia, j� conta com 14 milh�es de habitantes � e o esgoto corre a c�u aberto na cidade. As proje��es do Banco Mundial indicam que dentro de quinze anos Bombaim, na �ndia, ter� 27 milh�es de habitantes, a maior parte deles miser�vel, e dever� sofrer epidemias de tifo e esquistossomose. Xangai, China Dentro de cinco anos a China ter� quatro megacidades, com mais de 10 milh�es de habitantes cada uma. Para evitar que a explos�o populacional seja ainda maior, e barrar a migra��o, est�o sendo constru�das 200 novas cidades pelo interior do pa�s. Nova Delhi, �ndia Tem 11 milh�es de habitantes e cresce a uma taxa de 3% ao ano. H� 2 milh�es de ve�culos na cidade, que � uma das dez mais polu�das do mundo: desde carros e �nibus velhos at� scooters, bicicletas, riquix�s de tr�s rodas, camelos e elefantes. Nos hor�rios de pico, o tr�nsito anda a uma velocidade m�dia de 10 quil�metros por hora. Detroit, Estados Unidos Nas duas �ltimas d�cadas perdeu 32% de sua popula��o. A ind�stria automobil�stica encolheu tanto, em sua �rea, que a prefeitura ficou sem arrecada��o de impostos suficiente para administrar os problemas que restaram. O n�mero de assassinatos cresceu de 33 por 100 000 habitantes em 1970 para 59 por 100 000 em 1991. Detroit n�o conseguiu atrair novas empresas. Cairo, Egito Exporta petr�leo, tem uma importante ind�stria t�xtil, mas seus mais de 10 milh�es de habitantes respiram um ar intrag�vel e vivem na pobreza. A renda per capita � de menos de 1000 d�lares anuais. Cidade do M�xico, M�xico Cresceu demais, de forma desorganizada. Tem carros velhos, ind�strias antigas, sistema de fornecimento de �gua caduco e n�o trata o esgoto. Desde 1994 o n�mero de assaltos dobrou. No ano passado, foram roubados 157 carros por dia. A quest�o � que as grandes cidades se tornaram caras e insalubres, e para consert�-las � preciso um investimento enorme, que a maior parte delas n�o vai receber. Uma das principais indaga��es dos economistas, soci�logos e arquitetos neste final de s�culo � o que fazer com sses favel�es. Trata-se de um problema demogr�fico que ningu�m previu. A ONU, o Banco Mundial e outras institui��es internacionais est�o investigando a quest�o. Em universidades de todo o mundo h� gente dedicada a estudar o assunto. Segundo o economista americano Paul Krugman, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, o velho entendimento sobre as raz�es da exist�ncia das cidades, sua import�ncia e a l�gica de seu crescimento est� ultrapassado. "A concentra��o espacial j� n�o cria necessariamente condi��es favor�veis para um crescimento econ�mico que sustente uma concentra��o ainda maior de pessoas", diz ele, na introdu��o de um livro que acaba de lan�ar nos Estados Unidos, escrito em conjunto com dois outros economistas, Masahisa Fujita e Anthony Venables, sobre a nova geografia, The Spatial Economy: Cities, Regions and International Trade. Sua preocupa��o � entender por que cidades grandes e ricas entram em decad�ncia e por que h� crescimento populacional, em algumas �reas, sem o correspondente crescimento econ�mico. "Est� claro que as concentra��es urbanas se formam e sobrevivem porque facilitam o crescimento econ�mico. Mercado consumidor atrai empresas que criam empregos. Assalariados tornam-se novos consumidores, e assim o lucro delas aumenta. O que precisamos entender � como e quando esse mecanismo muda", observa Krugman. H� um consenso entre as pessoas que se preocupam com a geografia econ�mica. Todos concordam que a cidade � a estrutura mais importante no mundo de economia globalizada. Em breve, os controles da economia internacional estar�o centralizados em algumas cidades ricas, modernas, bem resolvidas. Nas outras, se o crescimento desordenado continuar, a vida ser� um caos. Por isso, � preciso reverter o processo de urbaniza��o descontrolada, sob pena de a bolha urbana explodir. "N�o sabemos como ser� o futuro, mas sabemos que no pr�ximo s�culo estaremos vivendo num globo fortemente urbanizado com enormes focos de pobreza", afirma Jorge Wilheim, arquiteto paulista que organizou a confer�ncia da ONU sobre assentamentos humanos (Habitat), em 1996. As cidades est�o passando por um per�odo de transi��o especialmente dif�cil. T�m cada vez mais gente e menos emprego, menos sa�de, menos qualidade de vida. Elas eram centros que viviam da ind�stria. Surgiram com essa fun��o no final do s�culo XVIII. Agora, o fen�meno acabou. As ind�strias querem dist�ncia das cidades, dos sindicatos, do tr�nsito, dos terrenos de pre�o alto. Est�o abandonando os grandes centros urbanos e deixando muita gente sem trabalho. De outro lado, no campo, houve um enorme desenvolvimento tecnol�gico, que expulsou muita gente do mercado de trabalho. A migra��o do campo para a cidade tem sido mais intensa nos �ltimos anos. Na China o problema � t�o terr�vel que o governo est� construindo 200 novas cidades, pelo interior do pa�s, com estrutura econ�mica para absorver os trabalhadores agr�colas desempregados no campo e barrar a migra��o. "Os sistemas urbanos est�o passando por uma profunda mudan�a, t�o importante quanto a que aconteceu quando da forma��o das cidades industriais", diz Guido Marinotti, professor de sociologia urbana na Universidade de Mil�o, na It�lia. A equa��o � horrorosa, especialmente em pa�ses mais pobres. Muitas cidades j� est�o no fundo do po�o. Em Lucknow, na �ndia, com quase 2 milh�es de habitantes, s� h� fornecimento de �gua durante dez horas por dia. Em Santiago do Chile, apenas 4% do esgoto � tratado. O restante � jogado nos rios cuja �gua � utilizada para regar planta��es de frutas e legumes que s�o consumidos pela popula��o. Todos os anos morrem, por doen�as relacionadas � polui��o do ar, 6.400 moradores da Cidade do M�xico. Em Bangcoc, na Tail�ndia, as pessoas perdem o equivalente a 44 dias por ano presas em congestionamentos de tr�nsito. Para cidades com problemas dessa dimens�o o futuro ser� terr�vel. Apenas vinte megal�poles, em todo o planeta, t�m boas perspectivas. Para os brasileiros o assunto � interessante. S�o Paulo, o maior problema urbano do pa�s, tem sido apontada pelos economistas e soci�logos como a principal candidata a cidade global da Am�rica do Sul. Em outras palavras: enquanto muitas grandes cidades estiverem falindo, S�o Paulo tem chance de prosperar como centro econ�mico mundial. Na competi��o pelo posto de centro latino-americano est�o Buenos Aires e Cidade do M�xico. "S�o Paulo � mais rica, tem mais m�o-de-obra qualificada e boas universidades, mas est� no limite. Est� se tornando uma cidade invi�vel, cara demais, dif�cil demais, violenta demais e por isso pode ser abandonada", diz C�ndido Malta Campos Filho, urbanista e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S�o Paulo. A capital paulista perde import�ncia econ�mica a cada dia porque as ind�strias n�o podem mais ficar numa cidade t�o cara e t�o pouco pr�tica. O n�mero de carros s� aumenta, o transporte p�blico � p�ssimo, o ar e os rios s�o polu�dos. Se quisesse exterminar os ratos, que j� correm pelas ruas durante o dia, um sinal de que a praga saiu de controle, seria preciso gastar praticamente todo o or�amento do munic�pio. Resolver o problema das enchentes que paralisam as ruas a qualquer chuva s� ser� poss�vel no futuro distante, porque n�o h� dinheiro para obra t�o monumental. S�o Paulo � a terceira maior aglomera��o do planeta e a renda m�dia da popula��o � o dobro da nacional. A regi�o metropolitana abriga as sedes brasileiras dos mais importantes complexos industriais, comerciais e financeiros � 300 das maiores empresas nacionais e internacionais instaladas no pa�s. Tem uma frota de 310 helic�pteros que, em algumas regi�es e em determinados hor�rios do dia, congestionam o espa�o a�reo. Tem tamb�m 6 milh�es de ve�culos cadastrados. Num dia comum, a companhia de tr�nsito retira das ruas 700 carros por falta de combust�vel, pneu furado, motor quebrado ou acidente. Tudo � dif�cil em S�o Paulo. Para o florista, chegar da Ceagesp � sua loja com as flores inteiras � uma proeza. Para o estudante, tomar o �nibus e chegar � escola antes do in�cio da aula � quase um milagre. As dificuldades de transporte e comunica��o encarecem os produtos. As pessoas t�m medo de sair �s ruas por causa da viol�ncia. A cidade tem mais de 900 empresas especializadas em seguran�a eletr�nica, as casas possuem grades nas janelas, cada vez mais carros s�o blindados e mesmo assim a criminalidade � crescente. A ind�stria est� indo embora e n�o h� novos neg�cios ocupando seu lugar. Outras regi�es j� experimentaram este inferno astral. Em 1915, a primeira linha de produ��o do Ford T revolucionou a ind�stria e produziu um enorme crescimento econ�mico na cidade de Detroit, nos Estados Unidos. A popula��o de Detroit quadruplicou em vinte anos e, depois da II Guerra Mundial, seus planejadores urbanos fizeram projetos para abrigar uma popula��o de 8 milh�es de pessoas. Era apenas um del�rio. A popula��o nunca chegou a crescer tanto. Ao contr�rio, Detroit perdeu um ter�o dos seus habitantes desde que a ind�stria automobil�stica automatizou a produ��o, reduziu o volume de empregados e mudou para regi�es onde o terreno era mais barato. O �xodo de empresas, empregos e trabalhadores jogou Detroit numa espiral de decad�ncia. O governo j� n�o arrecada o bastante para administrar a cidade. O n�mero de assassinatos praticamente dobrou nos �ltimos vinte anos. Detroit hoje � a vers�o moderna da cidade fantasma do faroeste. H� lixo nas ruas e muitos pr�dios abandonados. Embora praticamente tudo o que h� em Detroit esteja em liquida��o, novas empresas n�o t�m interesse em instalar-se na cidade. A prefeitura est� empenhada em treinar trabalhadores em velhos galp�es abandonados, mas a perspectiva n�o � das melhores: at� o ano 2005 est� prevista a cria��o de apenas 5.800 novos empregos. Historicamente, as cidades sempre foram geradoras de desenvolvimento econ�mico, social e cultural. Como centros industriais e comerciais, elas concentraram a prosperidade e o poder pol�tico. No momento, dois problemas desequilibram esse quadro. O primeiro � a enorme transforma��o tecnol�gica que revolucionou a economia mundial, derrubando fronteiras, encurtando dist�ncias e simplificando a produ��o de bens. O segundo � o crescimento exagerado da popula��o urbana. As cidades j� est�o atingindo tamanho sem precedentes. T�quio tem 27 milh�es de habitantes, a Grande S�o Paulo j� passou de 17 milh�es e Bombaim, na �ndia, chega quase a 18 milh�es. Tanta gente aglomerada produz um quadro de cores medievais. Segundo pesquisas feitas pela ONU, pelo menos 220 milh�es de pessoas que vivem em cidades n�o t�m acesso a �gua pot�vel, mais de 420 milh�es n�o disp�em de uma simples latrina, dois ter�os do lixo s�lido gerado nos centros urbanos n�o s�o coletados e mais de 1 bilh�o de pessoas respiram ar de m� qualidade. A adequa��o das cidades � nova realidade econ�mica tornou-se uma necessidade urgente. A cidade estrangulada que n�o anda Entra governante, sai governante, e S�o Paulo n�o consegue livrar-se de sua infernal marca registrada: o tr�nsito permanentemente congestionado. Nos �ltimos sete anos, as filas de lentid�o espicharam de 40 para 120 quil�metros no pico da tarde. Nesse hor�rio, se faz sol, os 3,8 milh�es de ve�culos da frota circulante andam em ritmo de tartaruga manca. Se chove, param. � um drama que vem de longe, atormenta 11 milh�es de paulistanos e causa um preju�zo anual estimado em 224 milh�es de d�lares. J� dura quatro d�cadas. Desde ent�o, S�o Paulo teve doze governadores e doze prefeitos. Muitos deles rasgaram avenidas, ergueram viadutos e constru�ram t�neis maravilhosos para os carros de passeio. Nenhum resolveu o ponto central do problema: o transporte p�blico. Vinte anos atr�s, quando contava com 16,7 quil�metros de metr� e uma frota de 6 800 �nibus, o sistema era um horror. O n�mero de �nibus quase dobrou. A extens�o do metr� triplicou. Mas tudo continua uma calamidade. A cidade precisaria de pelo menos 200 quil�metros de metr�. Tem 50. A Cidade do M�xico disp�e de 178 quil�metros. Londres, 392. Nova York, 393. Aos atuais 10 800 �nibus de S�o Paulo juntaram-se 13 000 peruas, 80% das quais s�o clandestinas. H� ainda 35 000 t�xis. A maioria roda vazia. Para tormento de seus 4 milh�es de passageiros di�rios, os coletivos baixaram a velocidade m�dia de 20 para 14 quil�metros por hora. A quest�o justamente � que eles � os usu�rios � n�o s�o a preocupa��o central das 52 empresas concession�rias de �nibus. At� 1991, as operadoras ganhavam por passageiro. Quanto mais gente levassem, melhor para elas. A prefeita Luiza Erundina mudou essa l�gica ao determinar que passassem a receber por quil�metro rodado, n�o mais por passageiro. Aumentaram a quantidade de �nibus e as despesas p�blicas. Seus sucessores, Paulo Maluf e Celso Pitta, estabeleceram tetos para a remunera��o das empresas, mas n�o adiantou. S�o Paulo permanece estrangulada. |
| Acontece |
| Passagens do Cotidiano Fatos, contos e cr�nicas da rotina di�ria |
| . |
| . |
![]() |
![]() |
| A pousada na reserva florestal de Campos do Jord�o |
| N�o existe oferta melhor na est�ncia mais alta do Brasil! Conforto e sossego a apenas 4,5 km do centro! |
| Venha desfrutar de um ver�o refrescante, onde as temperaturas jamais excedem a 23 graus! |
| Fa�a um tour fotogr�fico pela pousada clicando aqui |