Ele S� Pensava Naquilo                      Veja 07/02/2001
Lan�amento de �lbum er�tico-porn� volta a despertar interesse pelo controvertido autor do Relat�rio Kinsey


Alfred Kinsey: de professor de zoologia
a pesquisador dos costumes sexuais nos EUA 














Pouco mais de meio s�culo atr�s, em 1948, o mundo do p�s-guerra tomou conhecimento daquele que � considerado o mais completo invent�rio sobre a sexualidade humana produzido em todos os tempos, sem rival � altura at� os dias de hoje. Publicava-se nos Estados Unidos a primeira parte de um caudaloso estudo que ficou conhecido como Relat�rio Kinsey, de autoria de um professor americano da Universidade de Indiana, Alfred Charles Kinsey, cuja obra voltou a despertar interesse entre os sex�logos nas �ltimas semanas. O motivo agora � o lan�amento de um �lbum fotogr�fico intitulado Peek (algo como "espiadela", em ingl�s). � primeira vista, esse �lbum corre o risco de somar-se � vala comum de tantos outros livros er�tico-pornogr�ficos dispon�veis nas prateleiras do mundo todo. Nesse caso, entretanto, h� algo de especial. As 125 fotos selecionadas s�o as primeiras pe�as a se tornarem p�blicas entre milhares de objetos que comp�em a misteriosa cole��o de imagens e artefatos sexuais de propriedade do Instituto Kinsey, ligado � Universidade de Indiana. Desde a cria��o do instituto, em 1947, o acesso ao acervo esteve restrito a pesquisadores credenciados, rigor que come�a a ser abandonado justamente com a publica��o de Peek. "O livro � o primeiro passo para que o mundo aproveite a riqueza que temos a oferecer", disse a VEJA o diretor do instituto, John Bancroft, na segunda-feira passada.

A iniciativa traz de volta um extravagante personagem, cuja liga��o com a hist�ria da sexualidade se deu absolutamente por acaso. No final dos anos 30, um grupo de jovens alunas daquela provinciana universidade pediu � reitoria a cria��o de um singelo curso de prepara��o para o casamento. Como n�o havia um especialista no assunto, a tarefa coube a Kinsey. Embora respeitado pela comunidade acad�mica local, o mestre das futuras noivas apresentava um curr�culo no m�nimo estranho para a fun��o. Ele era professor de zoologia, com uma queda especial por vespas como objeto de estudo. Ao tentar preparar as aulas, Kinsey percebeu que havia muito poucas informa��es cient�ficas no campo da sexualidade humana. Tratou, ent�o, de colet�-las por conta pr�pria. E n�o parou de pesquisar � entre 1938 e 1956, quando morreu, aos 62 anos de idade, sua equipe reuniu dados de 18.000 entrevistas, quase 8.000 delas realizadas pessoalmente por ele.

Hoje, sabe-se que Kinsey se envolveu com o tema muito al�m do interesse meramente acad�mico. Numa biografia publicada h� tr�s anos, de autoria do professor de hist�ria James Howard Jones, ele � descrito como dono de uma libido insaci�vel e disposto a experimentar os mais diversos comportamentos que estudou. Mantinha rela��es fora do casamento tanto com homens quanto com mulheres, tudo com o consentimento da mulher, Clara, que por sua vez vivia experi�ncias semelhantes, n�o raro testemunhadas pelo marido. H� relatos de sess�es de sexo grupal reunindo o casal e outros componentes da equipe de pesquisadores com as respectivas esposas. J� nos �ltimos anos de vida, famoso e controvertido, o professor tornou-se adepto do sadomasoquismo. Testou o variado e alucinante repert�rio do g�nero, o que inclui n�o apenas m�scaras e chicotes como tamb�m animais e apetrechos diversos, chegando � introdu��o de objetos compridos na uretra, como fonte de est�mulo sexual. � justamente nessa hist�ria pessoal apimentada que reside boa parte da curiosidade atual em torno da figura de Kinsey. Para alguns, a dedica��o obsessiva � pesquisa n�o passaria de pretexto para que ele, criado numa fam�lia religiosa e repressora, exorcizasse os pr�prios dem�nios. Outros consideram que a efervesc�ncia sexual do professor teria distorcido as reais motiva��es do trabalho, uma tentativa de minimizar a frieza num�rica dos resultados e minar sua credibilidade.

Apenas em 1948, depois da primeira d�cada de coleta de dados, ele come�ou a tornar p�blicas suas conclus�es. Foi quando veio � luz o Comportamento Sexual dos Homens, em que destrinchou os h�bitos dos americanos entre quatro paredes (ou em outros ambientes, dependendo da prefer�ncia de cada um). Assuntos que eram tabu na �poca, como masturba��o, sexo antes do casamento e trai��o, foram abordados sob o �ngulo imparcial das estat�sticas. O livro conclu�a, por exemplo, que 50% dos homens casados j� haviam tra�do a esposa e que o �ndice de homossexuais na popula��o alcan�ava 10%. N�meros mais que suficientes para provocar um furac�o na conservadora sociedade americana da �poca. Kinsey enfrentou uma enxurrada de cr�ticas e protestos, que partiam tanto de grupos religiosos como de cientistas tentando desacreditar sua metodologia, mas o livro tornou-se um best-seller. Por negar a divis�o entre "normal" e "anormal" nas rela��es carnais, chegou a ser considerado um precursor da revolu��o sexual que se instalou no mundo inteiro a partir dos anos 60.

A pesquisa prosseguiu at� desaguar na publica��o, cinco anos mais tarde, de Comportamento Sexual das Mulheres. Juntas, as duas obras foram apelidadas de Relat�rio Kinsey e passaram a ser refer�ncia definitiva para pesquisadores da �rea. "Creio que jamais aparecer� estudo mais abrangente e profundo", define a psic�loga Maria do Carmo de Andrade Silva, coordenadora do curso de mestrado em sexologia da Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. "O trabalho comprovou que o sexo que se praticava naquela �poca era bem menos comportado do que se imaginava e isso pegou muita gente de surpresa", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do projeto Sexualidade, do Hospital das Cl�nicas de S�o Paulo. Houve at� seguidores de Kinsey. Nos anos 70, uma obra de envergadura foi o Relat�rio Hite, de autoria da sex�loga Shere Hite, apontada como herdeira da iniciativa pioneira do antigo professor de zoologia.

Com o sucesso do relat�rio, o Instituto Kinsey tornou-se, ao longo de d�cadas, uma esp�cie de p�ra-raio das novidades sexuais, atraindo um volume fabuloso de material vindo de todos os cantos do mundo. Qualquer policial que apreendesse imagens pornogr�ficas nos Estados Unidos sabia para onde poderia mand�-las. O que se v� no �lbum Peek n�o passa mesmo de uma espiadela pelo buraco da fechadura, j� que o acervo re�ne mais de 75.000 fotografias, a maioria produzida por amadores e provavelmente retirada de �lbuns ou di�rios. H� sex�logos que suspiram de desejo s� de pensar em ter acesso �quela parte da cole��o de imagens do instituto mantida com tranca at� mesmo para pesquisadores.
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