Homens e Macacos                              Veja 28/01/1998
Pesquisas mostram que a semelhan�a entre os macacos e os humanos � muito maior do que se imaginava

"Washoe" � uma f�mea de chimpanz� de 33 anos de idade criada desde pequena em laborat�rios de pesquisas. Carinhosa com seus filhotes, esperta e curiosa, ela come com colher, brinca de boneca e, quando fita atentamente os visitantes que a olham do lado de fora da jaula, d� a impress�o de que "s� falta falar". N�o falta, n�o. Washoe fala. Ela � capaz de se comunicar com os pesquisadores usando uma vers�o simplificada da linguagem dos surdos-mudos. A chimpanz� consegue elaborar senten�as com sujeito e predicado usando at� sete palavras, e os pesquisadores estimam que ela tenha a mesma capacidade de comunica��o de uma crian�a pequena. Washoe faz parte de um dos mais instigantes movimentos cient�ficos dos �ltimos anos. Existem hoje, nos laborat�rios americanos, 1.600 chimpanz�s sendo estudados por psic�logos, ling�istas e bi�logos. E os frutos de todo esse trabalho come�aram a surgir nos �ltimos meses, numa s�rie de estudos que v�o do esclarecedor ao altamente pol�mico. Todos eles, por�m, s�o unidos por uma conclus�o comum: os macacos s�o muito, mas muito mais parecidos com os humanos do que se pensa.

Segundo os cientistas, os macacos pong�deos  termo usado para designar os bichos mais pr�ximos do homem, como gorilas, orangotangos, chimpanz�s e bonobos  vivem em sociedades organizadas, em que as rela��es entre os indiv�duos s�o semelhantes �s humanas. Diferentemente dos animais mais primitivos, aos quais se atribuem apenas emo��es simples, como medo e fome, os macacos parecem possuir sentimentos complexos, como compaix�o e solidariedade. Sua capacidade intelectual est� muito acima de todo o restante dos bichos. E, para quem faz quest�o de compara��es traduz�veis em n�meros, a diferen�a entre o c�digo gen�tico dos chimpanz�s e o dos seres humanos � de apenas 1,6%. Outra semelhan�a assombrosa foi discutida num artigo publicado h� um m�s pela revista Science. Sugere-se que a linguagem � uma aptid�o inata entre homens e macacos. O conjunto desses estudos vem causando tamanha como��o que no final de 1997 um grupo de bi�logos, assessorado por advogados ambientalistas, publicou um documento pedindo a extens�o dos direitos humanos aos pong�deos, sob o argumento de que eles tamb�m podem ser considerados "pessoas".

Ecologices � parte, algumas pesquisas v�m trazendo novidades important�ssimas. Muitas delas s�o descritas pelo psic�logo experimental Roger Fouts num livro que acaba de ser lan�ado no Brasil: O Parente Mais Pr�ximo (Objetiva; 420 p�ginas; R$ 29,00), resumo de uma pesquisa sobre chimpanz�s que durou 31 anos para ser conclu�da. A hist�ria do livro come�a em 1966, quando o autor iniciou a pesquisa ensinando � chimpanz� Washoe, ent�o com 2 anos de idade, a l�ngua dos surdos-mudos. Criada "como um morador de classe m�dia de Oklahoma", nas palavras do autor, ela foi ensinada a tomar banho, vestir roupas e comer com talheres. O cientista logo notou que o processo de aprendizado dos macacos era incrivelmente semelhante ao dos humanos. Quando n�o sabia qual era a palavra apropriada para definir um objeto, Washoe juntava dois termos pr�ximos (diante de uma melancia, fruta que n�o conhecia, disse "mel�o de �gua"). Mas foi na adolesc�ncia que Washoe deu a maior prova de sua intelig�ncia. J� era conhecido o fato de que as m�es chimpanz�s ensinam os filhotes a manipular objetos  por exemplo, usar uma pedra para abrir um coco. Superando as expectativas, Washoe logo tratou de ensinar ao filhote a l�ngua dos surdos-mudos.

Nunca, desde o tempo em que a Teoria da Evolu��o de Darwin ainda era posta em d�vida, as publica��es cient�ficas falaram tanto sobre macacos. Essa onda foi despertada por duas novidades da segunda metade deste s�culo. A primeira delas foi o surgimento da etologia como um ramo oficial da ci�ncia que se dedica a comparar o comportamento dos homens com o dos animais. A outra se deve ao estudo mais detalhado dos �cidos nucl�icos, que formam o c�digo gen�tico. Quando os cientistas perceberam que poderiam decifrar a linguagem qu�mica que determina todo o "projeto" dos seres vivos, o interesse se voltou imediatamente para nossos parentes mais pr�ximos. Isso corrigiu uma injusti�a cient�fica de d�cadas. Durante muito tempo, chimpanz�s e gorilas foram estudados apenas superficialmente. A maioria dos trabalhos tratava de animais em cativeiro. Nos �ltimos quarenta anos � que os pesquisadores se deram ao trabalho de se enfiar na selva para descobrir como nossos primos se comportam na natureza.

Descobriu-se que a viol�ncia "selvagem" atribu�da aos animais, na verdade, est� longe de ser apenas irracional e instintiva. Entre os chimpanz�s, como entre os homens, a viol�ncia se manifesta principalmente nas rela��es sociais. "Um grupo de chimpanz�s pode declarar guerra contra outro para conquistar uma �rea farta em alimentos. Ou apenas para estender o territ�rio", explica Eduardo Ottoni, professor de etologia da Universidade de S�o Paulo. Falar de "guerra" para se referir �s lutas dos chimpanz�s n�o � exagero. Nesse tipo de disputa, os macacos invasores usam t�ticas de guerrilha, cercando a �rea que pretendem conquistar e emboscando, um a um, os machos advers�rios. Depois de fazer uma faxina �tnica nos inimigos, eles se apossam das f�meas e ficam com o butim. Ao vencedor, as bananas.

Mais surpreendente ainda � a descoberta de que os macacos tamb�m exercitam a diplomacia. "Os chimpanz�s s�o mestres em jogos pol�ticos. Eles fazem alian�as e s�o capazes de calcular a rela��o custo-benef�cio que delas adv�m", diz Fouts. Um exemplo de como isso funciona � a aproxima��o entre um chimpanz� galanteador e uma f�mea que j� tem filhotes. Assim como as crian�as humanas, os pequenos chimpanz�s s�o um verdadeiro teste de paci�ncia para os adultos. Eles se esfor�am de todas as maneiras para chamar a aten��o, gritando como desesperados ou saltando sobre as costas dos crescidos. A rea��o normal do grand�o, bombardeado pelas macaquices do baixinho, � aplicar-lhe um corretivo. Mas a situa��o � diferente quando o macho est� interessado numa f�mea com prole. Se os filhotes percebem que a m�e � assediada, redobram sua cota de travessuras, em atitudes que podem ser interpretadas, segundo os pesquisadores, como demonstra��es de ci�me. Os macaquinhos puxam os p�los do rival, cutucam-no e chegam a jogar nele punhados de areia. O macho sabe que ser rude com o macaquinho pode ser uma atitude negativa para seu projeto de conquistar a m�e dele. Por isso, ag�enta toda a chatea��o como se n�o estivesse se incomodando.

A vida sexual dos macacos � um cap�tulo � parte. Comprovou-se que, diferentemente do que se pensava, o homem n�o � o �nico animal que faz sexo apenas pelo prazer, desvinculado da fun��o reprodutiva. Os macacos se entregam alegremente a jogos sexuais, com direito a particularidades que se julgavam exclusivas da esp�cie humana. Os bonobos mant�m rela��es como a esp�cie humana, o macho de frente para a f�mea. Isso, segundo o antrop�logo Claude L�vi-Strauss, era o que diferenciava o homem das bestas. � comum, entre bandos desses macacos, que aconte�am rela��es homossexuais, seja entre machos ou entre f�meas. E, entre os orangotangos, n�o � raro que o macho incapaz de conquistar uma f�mea recorra ao estupro.

Mas h� constata��es mais nobres sobre a evolu��o dos macacos. Durante s�culos, os grandes argumentos te�ricos para justificar a superioridade do homem sobre os animais foram a raz�o e os sentimentos elevados. As pesquisas recentes reduziram drasticamente a dist�ncia te�rica entre os macacos e o homem. "Eles s�o capazes de manifestar simpatia, senso de justi�a e moral", diz Frans de Waal, autor de dois livros sobre os bonobos. Em 1996, um menino de 3 anos de idade caiu em um fosso de 6 metros de profundidade no Zool�gico de Brookfield, em Chicago. "Binti Jua", uma gorila de 8 anos, moradora do lugar, n�o s� resgatou o garoto como ainda o embalou nos bra�os e o entregou cuidadosamente aos bombeiros que chegavam para salv�-lo.

A atitude de Binti n�o � exce��o no planeta dos macacos. Entre os chimpanz�s n�o � incomum que ajudem os companheiros feridos. Trazem-lhes comida e protegem-nos do ataque de rivais e predadores. As f�meas bonobos protegem as companheiras durante o parto e, quando o filhote nasce, comemoram com urros. Os pais brincam com os pequenos, dando cambalhotas e fazendo c�cegas, e os protegem at� a adolesc�ncia  �poca problem�tica tamb�m entre os macacos. Assim como os humanos, os jovens bonobos ficam intrat�veis e t�m dificuldades de conviv�ncia com o resto do grupo, leia-se os mais velhos. A quest�o que se coloca agora � que, depois de p�r em xeque a superioridade do homem, a ci�ncia ainda n�o foi capaz de estabelecer at� onde os macacos podem chegar. "O chimpanz� tem o sistema nervoso equipado para uma vida de cont�nuo aprendizado", diz Fouts. Mas at� que ponto esse animal consegue aprender? Depois da divulga��o dos estudos sobre a linguagem dos macacos, um grupo de ling�istas chegou a admitir que a teoria da linguagem inata pode at� ser v�lida. Mas, pelos seus c�lculos, um macaco jamais poder� atingir um n�vel de linguagem superior ao de uma crian�a de 2 anos.
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