No Ber�o da Vida                               Veja 05/08/1998
Pelas lentes do fot�grafo Araqu�m Alc�ntara, as imagens exuberantes dos 36 parques de preserva��o ambiental do pa�s

Na foto abaixo, a biguatinga-azul, de Superag�i, na costa do Paran�: rel�quia da Mata Atl�ntica 

Agachado dentro d'�gua e j� torturado por um formigamento nas m�os, o fot�grafo Araqu�m Alc�ntara dava o dia por perdido, quando finalmente sua ca�a apareceu. De asas abertas, � moda de um pav�o, a biguatinga pousou, insolente, num galho perto dali. Como bom ca�ador, Araqu�m n�o vacilou. Camuflado no meio da mata, antes que a presa o notasse, ele disparou o gatilho de sua Nikon F-5. O resultado desse e de outros "tiros" visuais desse santista franzino de 47 anos acaba de sair do forno. � o projeto Terra Brasil, um registro fotogr�fico in�dito e exaustivo da paisagem, flora, fauna e da gente que habita os 36 parques nacionais do pa�s, ou seja, daquelas regi�es designadas pelo governo como santu�rios de prote��o ambiental. Somados, esses peda�os de terra, alguns dos quais amea�ados por madeireiros, ca�adores e fazendeiros, ultrapassam duas Su��as, por exemplo. Nos �ltimos dez anos, Araqu�m perdeu a conta de quantas viagens fez. De avi�o, carro, canoa, ultraleve e tamb�m a p�, palmilhou mais de 60.000 quil�metros. De suas andan�as, al�m de hist�rias do arco-da-velha, como o ataque que sofreu no ano passado de um grupo de antas no cio, no Parque Nacional da Amaz�nia, o fot�grafo trouxe 100.000 imagens, das quais selecionou cerca de 120 para ilustrar o livro e a exposi��o a ser lan�ados na semana que vem, em S�o Paulo.

Lagarta de
mariposa na
Serra do Cip�









Recortado pelas lentes de Araqu�m, esse Brasil � um Jardim do �den ecl�tico, povoado em sua por��o norte e central por on�as-pintadas, tamandu�s-bandeira, emas, macacos e araras, n�o raro esp�cies amea�adas de extin��o. J� na regi�o costeira despontam aves como a biguatinga, no Paran�, ou mais ao norte, mam�feros como a enorme baleia jubarte, que todo ano chega da Ant�rtica para procriar nas �guas mornas do Parque de Abrolhos, na costa da Bahia. Em suas viagens, Araqu�m p�de fazer um balan�o pessoal do estado de preserva��o dos parques que visitou. De maneira geral, segundo o fot�grafo, o Brasil de hoje preserva melhor seus ecossistemas do que fazia h� dez anos. J� h� por aqui parques com algumas caracter�sticas encontradas nos que existem na Europa e nos Estados Unidos, como � o caso do Parque do Igua�u, na fronteira do Paran� com a Argentina e o Paraguai, ou o da Serra da Canastra, no centro de Minas Gerais. Neles, h� fiscais, pesquisadores e uma infra-estrutura adequada ao ecoturismo. Araqu�m constatou tamb�m que n�o basta o parque estar demarcado no mapa para que as vidas que abriga estejam a salvo de madeireiros, do garimpo e da especula��o imobili�ria.


                                                       Vista a�rea do Rio Negro, no Parque do Ja�, Amazonas













Ao contr�rio do que possa parecer, os parques mais amea�ados n�o est�o na Amaz�nia, mas sim na Mata Atl�ntica, da faixa que vai do litoral da Bahia ao Paran�. "Parques como o da Jur�ia s�o alvo constante de loteamentos clandestinos, de ca�adores e at� de coletadores de plantas", diz o fot�grafo. Na regi�o da Mata Atl�ntica, al�m da biguatinga vivem esp�cies raras de papagaios e gar�as. Fincados em regi�es remotas e de dif�cil acesso, h� parques nacionais que mal sa�ram do papel, mas que est�o em �reas com pouca interfer�ncia humana, como � o caso do Parque de Paca�s Novos, em Rond�nia. Demarcado em 1985, s� agora o Paca�s come�a a merecer de fato a aten��o do governo federal. Com mais de cinq�enta cachoeiras, abriga uma variada fauna de pregui�as, antas e jacar�s, como o de papo-amarelo, amea�ado de extin��o. S� acess�vel por avi�o, o Paca�s � tamb�m a moradia da tribo uru-eu-wau-wau, �ndios que vivem da ca�a e da pesca abundantes. A vis�o de um lugar como esse levou o sertanista Cl�udio Villas-Boas a observar que "na Amaz�nia tudo se confunde numa �nica fertiliza��o, numa digest�o imensa, numa excre��o imensa".

Viajante inveterado, Araqu�m Alc�ntara embrenhou-se pela primeira vez no mato h� mais de trinta anos. Desde ent�o, perdeu o medo de enfrentar as feras de perto. "Fa�o com os bichos aquilo que o fot�grafo franc�s Henri Cartier-Bresson fazia com as pessoas, se misturando com a multid�o." Em seu vasto curr�culo de perip�cias silvestres, Araqu�m desenvolveu teorias ins�litas, como a que diz que as on�as detestam o cheiro dos humanos. "S� faminta, ou muito acuada, uma on�a ataca. Geralmente ela odeia o cheiro de gente, principalmente de fot�grafo sem banho", diz ele. De agora em diante, suas on�as, biguatingas e araras estar�o � disposi��o de fregueses de todo o planeta. O fot�grafo acaba de vender 3.000 reprodu��es para o banco de imagens Corbis, pertencente a Bill Gates, o bilion�rio dono da Microsoft.
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