E o Mar Cobriu a Terra                     Veja 29/07/1998
Ondas gigantescas arrasam aldeias e matam milhares em Papua Nova Guin�, no sul do Pac�fico

Parecia o fim do mundo. Primeiro o ch�o tremeu. Depois se ouviu um estrondo e tr�s ondas gigantescas, a maior delas com 10 metros de altura, encobriram sete aldeias � beira-mar na ilha de Papua Nova Guin�, um pa�s no Pac�fico Sul. Aterrorizada, a popula��o tentou fugir, mas n�o deu tempo. Em segundos, a viol�ncia da �gua arrastou casas, �rvores, animais e pessoas na noite de sexta, 17. Quando a mar� baixou, a devasta��o era total. Como se uma enorme vassoura tivesse varrido a paisagem. Havia cad�veres em meio a troncos e restos de constru��es. Dos 10.000 habitantes da regi�o, 6.000 estavam mortos ou desaparecidos. As tsunamis, como s�o chamadas as ondas gigantescas formadas por terremotos no fundo do mar, s�o um fen�meno conhecido na regi�o, mas raramente os efeitos s�o t�o devastadores.

As ondas que engoliram as aldeias foram formadas por um terremoto que chacoalhou o subsolo do mar, a 30 quil�metros da costa. A energia liberada pelo tremor levantou tsunamis t�o altas quanto as melhores ondas para a pr�tica do surfe, com a diferen�a que, em vez de quebrar na praia, elas avan�aram por terra firme. Ao se formar, em �guas profundas, uma tsunami � apenas uma marola impercept�vel. S� ganha altura e se torna potencialmente destruidora quando atinge �guas rasas (veja desenho). Para os moradores do litoral, o �nico aviso de aproxima��o de uma tsunami � o brusco e acentuado recuo da mar�, minutos antes. Quase sempre � tarde demais para fugir. Nenhuma regi�o litor�nea est� a salvo dessas mar�s gigantes. O risco, contudo, � maior no Oceano Pac�fico devido � grande atividade s�smica. Na trag�dia mais famosa e letal, uma tsunami (onda grande do porto, em japon�s) matou 27.000 pessoas no Jap�o em 1896. Seis anos atr�s, uma onda de 18 metros de altura varreu a Nicar�gua e outra, de 26 metros, cobriu uma aldeia na Indon�sia.

Gera��o desaparecida � O maremoto que desabou h� dez dias sobre as aldeias de Papua Nova Guin� foi especialmente devastador para crian�as e velhos, pois muitos adultos se salvaram nadando ou subindo em palmeiras. O resultado � que h� pouqu�ssimas crian�as entre os sobreviventes. "As escolas v�o fechar por falta de alunos, todos morreram", disse Dickson Dalle, coordenador dos trabalhos de salvamento, em entrevista � ag�ncia de not�cias Reuters. Nos dias seguintes, barcos recolheram centenas de cad�veres que boiavam na praia ou numa lagoa � beira-mar. Em pouco tempo, por�m, tornou-se insuport�vel o mau cheiro dos corpos em decomposi��o expostos ao calor tropical. As equipes de resgate foram for�adas a enterr�-los em valas coletivas e afastar a tiros os porcos e cachorros que tentavam devor�-los. O governo de Papua Nova Guin� acha que n�o ser� f�cil reconstruir as aldeias e aconselhou os sobreviventes a n�o retornar, por enquanto, ao lugar. Um conselho que talvez nem fosse necess�rio, j� que a maioria se recusa a descer das montanhas, com medo supersticioso de novas trag�dias.

A maior parte dos sobreviventes fugiu para as montanhas, escondendo-se da f�ria de Masalai, o esp�rito maligno que habita o mar, segundo a cren�a popular na Papua Nova Guin�. O pa�s, uma grande ilha dividida com a Indon�sia, ao norte da Austr�lia, � um dos pa�ses mais pobres e isolados do mundo. Parte de seus 4,5 milh�es de habitantes sobrevive da ca�a, pesca e coleta, em condi��es de vida semelhantes �s da Idade da Pedra. O isolamento da regi�o arrasada pelo maremoto � t�o grande que n�o h� estradas ligando-a ao resto do pa�s. S�o comuns as lutas tribais entre os cl�s, nos quais predominam os cultos de adora��o aos esp�ritos da natureza. Para essa gente, s� mesmo o dem�nio Masalai seria suficientemente malvado para provocar tantas mortes e destrui��o.
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