A Descoberta do Planeta Terra            Veja 12/04/2000
National Geographic exibe as imagens mais impressionantes de seus 112 anos de expedi��es e pesquisas cient�ficas



NATUREZA E F�: na Fl�rida, jacar�s rec�m-nascidos encontram abrigo junto a sua m�e. Na foto � direita, habitantes de Bali envolvidos em um ritual religioso 

















Lugares inacess�veis � maioria das pessoas, hist�rias bem contadas e fotografias de tirar o f�lego. Essa � a f�rmula que garante, h� mais de um s�culo, o sucesso de uma das publica��es mais famosas do mundo: a National Geographic. � a revista mais respeitada por sua qualidade nos Estados Unidos, segundo a Total Research, conceituada empresa de an�lise de mercado. Os n�meros comprovam: a cada m�s, s�o 10 milh�es de exemplares com impress�o primorosa, em onze idiomas e distribu�dos em noventa pa�ses. Para manter um p�blico t�o fiel, a National Geographic, com sede em Washington, investe pesado na produ��o de suas reportagens. Dependendo do assunto, rep�rter e fot�grafo podem passar mais de um ano em campo. A fotografia � o carro-chefe da revista. "Fazemos de tudo para que nossos profissionais consigam a melhor foto", diz o diretor de fotografia Kent Kobersteen. "Eles s�o jornalistas que usam c�maras em vez de papel e caneta." A quantidade de fotos feitas para concluir cada edi��o impressiona. No ano passado, o laborat�rio fotogr�fico da revista revelou 25.000 rolos de filmes. Em m�dia s�o gastos 400 rolos por reportagem, ou 14.000 fotos. Em geral, na primeira avalia��o, s�o selecionadas as oitenta melhores. E, no final, n�o ser�o publicadas mais do que vinte.

MIST�RIOS DO CAMBOJA: em 1968, W.E. Garrett registrou com precis�o o momento em que dois monges budistas aparecem em uma janela do templo Angkor Thom 














Uma sele��o de imagens c�lebres produzidas pela National Geographic pode ser vista de perto na exposi��o Um Olhar Sobre o Mundo, que abre nesta ter�a-feira, 11, no Museu da Imagem e do Som, em S�o Paulo. A mostra re�ne oitenta fotos � das quais selecionamos e publicamos oito � e marca o lan�amento da vers�o em portugu�s da revista. Produzida pela Editora Abril, que tamb�m publica VEJA, ela chega �s bancas em maio. "O descobrimento do mundo encanta tanto os leitores quanto os pr�prios fot�grafos da revista", diz Matthew Shirts, redator-chefe da edi��o brasileira. "Alguns s�o verdadeiros Indiana Jones." Diversas vezes, o departamento de Engenharia Fotogr�fica da revista projetou e construiu c�maras especiais, para atender �s necessidades de uma reportagem. Em 1913, os t�cnicos da National Geographic equiparam uma c�mara com trip� de 4 metros para produzir uma fotografia em close de um inseto no alto de uma �rvore, sem assust�-lo.




PICADA DO MAL: o instante exato em que o mosquito transmissor da mal�ria ataca um p�ssaro no Hava� foi captado pelas lentes de Chris Johns, em 1995 


Muitas fotos publicadas pela National Geographic entraram para a hist�ria pelo pioneirismo. Em 1926, o fot�grafo Charles Martin fez as primeiras imagens subaqu�ticas coloridas, no litoral da Fl�rida. Em 1979, o fot�grafo Bruce Dale e o redator Rick Gore foram os primeiros jornalistas americanos a percorrer o interior da China depois da tomada do poder pelos comunistas, trinta anos antes. H� quinze anos, uma equipe integrou a expedi��o que descobriu os restos do Titanic no leito do Atl�ntico Norte, e fotografou sua proa a 4.000 metros de profundidade. O fot�grafo Thomas J. Abercrombie, que entrou na revista em 1956, tanto cobriu o Oriente M�dio que acabou se convertendo ao islamismo. S� assim conseguiu tirar as primeiras fotos das peregrina��es a Meca, local proibido aos n�o-isl�micos, em 1965. Algumas fotos t�m repercuss�o inesperada. Em 1981, William Albert Allard registrou o choro de uma crian�a peruana ao perder as seis ovelhas atropeladas por um t�xi, o que representou um golpe devastador na economia de subsist�ncia de sua fam�lia. Comovidos com a mat�ria publicada na revista, os leitores doaram 7.000 d�lares ao menino.

 

� ESPERA DA BATALHA: W.E. Garrett flagrou duas irm�s se abra�ando no Laos, momentos antes de sua aldeia ser atacada durante a guerra civil, em 1973 

A revista sempre esteve intimamente ligada ao avan�o cient�fico. Ela foi criada em 1888 pela National Geographic Society, funda��o cujo objetivo era financiar e divulgar as pesquisas geogr�ficas. As primeiras edi��es, coordenadas pelo rico advogado americano Gardiner Greene Hubbard, eram indigestas, com uma capa sisuda e pesada linguagem cient�fica. Tinha poucos leitores e quase levou a sociedade � fal�ncia. A mar� virou em 1898, quando a dire��o da revista passou �s m�os do genro de Hubbard, o pesquisador Alexander Graham Bell, aquele mesmo que inventou o telefone. Hoje, a publica��o gera uma receita de 350 milh�es de d�lares por ano. O dinheiro, junto com polpudas doa��es, ajuda a sustentar a funda��o, a maior institui��o cient�fica e educacional sem fins lucrativos do mundo. Recursos como esses j� financiaram mais de 6.500 bolsas de estudo, projetos que v�o de pesquisas submarinas a escaladas in�ditas e explora��o de cavernas subterr�neas. Gra�as ao patroc�nio da National Geographic, Robert E. Peary foi um dos primeiros exploradores do P�lo Norte, em 1909, depois de perder oito dedos dos p�s congelados. De 1912 a 1915, a sociedade financiou as expedi��es do historiador Hiram Bingham que revelaram Machu Picchu, a fabulosa cidade do imp�rio inca que escapou inc�lume � conquista espanhola do Peru. Com o apoio da funda��o, o ocean�grafo Jacques Cousteau foi pioneiro na explora��o dos oceanos. Em 1963, a sociedade bancou a primeira equipe de americanos a alcan�ar o cume da montanha mais alta do mundo.


RETRATO DA TRAG�DIA: essa mulher foi fotografada em 1983 na mesma posi��o em que morreu quando, no ano de 79, o vulc�o Ves�vio soterrou a cidade de Herculano, na It�lia 

Quando a National Geographic Society foi fundada, h� mais de um s�culo, boa parte do planeta nunca havia sido pisada pelo homem ou simplesmente estava fora dos mapas. Hoje, h� poucos lugares intocados e, a rigor, nada resta para ser mapeado. "Mas existem novas fronteiras para explorar", diz o americano Bernard Ohanian, diretor da entidade. "N�o conhecemos nada do nosso sistema solar e dos vastos oceanos que cobrem o planeta." H� tamb�m pesquisas cient�ficas que precisam de financiamento para que possam revelar novos aspectos do mundo que j� conhecemos. O trabalho de Dian Fossey, que conduziu pesquisas com gorilas em Ruanda, na �frica, foi essencial para ajudar a preservar a esp�cie, amea�ada de extin��o. O filme Na Montanha dos Gorilas, estrelado por Sigourney Weaver, conta essa hist�ria. Na semana passada, arque�logos financiados pela National Geographic descobriram nos Estados Unidos ind�cios de que seres humanos j� habitavam a regi�o 17.000 anos atr�s. � uma descoberta importante, pois indica que os primeiros humanos atravessaram o Estreito de Bering pelo menos 2.000 anos antes do que se pensava. A National Geographic est� financiando atualmente sete projetos brasileiros. A equipe do Instituto de Pesquisas Ecol�gicas que est� salvando da extin��o os micos-le�es-pretos, no Pontal do Paranapanema, em S�o Paulo, recebe 15.000 d�lares por ano. Os micos-le�es-pretos brasileiros j� apareceram em um document�rio da National Geographic, o que ajudou a atrair mais doa��es internacionais. "Ter o nome ligado � National Geographic abre portas em todo o mundo", afirma o bi�logo Cl�udio Valladares P�dua, coordenador do projeto.

NA HORA E NO LUGAR CERTO: Robert W. Madden registrou o inusitado choque de um avi�o, desviado da rota por uma corrente de ar, com um caminh�o no solo. O fot�grafo cobria a devasta��o causada por um terremoto na Guatemala em 1976














A participa��o da National Geographic Society n�o se restringe � pesquisa. A constata��o do baixo grau de conhecimento em geografia por parte dos alunos nos Estados Unidos levou a funda��o a investir 110 milh�es de d�lares nos �ltimos onze anos em um programa nacional de educa��o. Grupos de professores e ge�grafos re�nem-se em v�rias partes do pa�s para desenvolver e trocar m�todos educacionais. A funda��o promove at� concursos entre estudantes, com 50.000 d�lares em pr�mios. "Estamos investindo no futuro", diz Dale Petroskey, vice-presidente s�nior para programas de miss�es na National Geographic Society. � disposi��o desses professores, est�o os mapas da sociedade, quase t�o conhecidos quanto a revista. O setor de cartografia da publica��o nasceu na I Guerra, quando o editor da revista constatou que n�o havia mapas confi�veis da Europa e contratou cart�grafos para a tarefa.

 

Numa terra distante: os tr�s presos, acusados de assassinato, foram retirados do calabou�o, onde estavam havia meses, s� para ser fotografados por Joseph F. Rock na China, em 1928 















Os mapas deram origem a uma s�rie de produtos, hoje agregados � revista. S�o livros, CD-ROM, as revistas Traveler, World (infantil), Adventure e uma s�rie de document�rios em v�deo. O National Geographic Channel, especializado em programas educativos, tem 51 milh�es de assinantes em sessenta pa�ses, com transmiss�o em nove l�nguas. A �ltima novidade � a aposta no turismo. Os f�s da National podem visitar lugares inusitados, ciceroneados por cientistas da sociedade. N�o s�o passeios convencionais. Um grupo pode se aventurar numa caminhada pelo Himalaia, no Nepal, ou descer o Rio Yangtz�, na China. No dia 19 de dezembro, parte uma expedi��o rumo � Ant�rtica. Passar o Natal e a virada do ano ao lado de ping�ins e focas custa 7.000 d�lares por pessoa. Um privil�gio s� para os poucos que podem dar-se ao luxo de fazer parte de uma equipe da National Geographic.
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