De Gr�o em Gr�o                        Veja 12/08/1998
Dois ter�os da �rea do cerrado j� est�o afetados, mas ainda � poss�vel preservar

Durante muito tempo, o cerrado brasileiro foi desprezado como se n�o passasse de um imenso terreno baldio salpicado de �rvores retorcidas, no centro esquecido do pa�s. N�o despertava aten��o como �rea potencial de desenvolvimento econ�mico, muito menos como um ecossistema digno de preocupa��es preservacionistas. Em apenas tr�s d�cadas, o cen�rio mudou. Na d�cada de 70, cientistas brasileiros criaram t�cnicas de corre��o do solo �cido e introduziram novas esp�cies de gram�neas para alimentar o gado. As duas iniciativas desencadearam uma revolu��o na regi�o. Hoje, 42% da soja e 32% do milho nacionais s�o produzidos no cerrado e 40% do rebanho bovino pasta por l�. Essa expans�o da agropecu�ria provocou degrada��o ambiental e, por tabela, colocou o cerrado na pauta das inquieta��es dos ecologistas. O desenvolvimento econ�mico, afinal, est� matando o cerrado? O primeiro estudo sobre a degrada��o da regi�o, que acaba de ficar pronto, tra�a respostas.

Feito a partir de fotos de sat�lites, o trabalho do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, revela que, da �rea original de cerrado, correspondente a 22% do territ�rio nacional ou � soma de dez pa�ses europeus (veja mapa), apenas um ter�o permanece intacto. Outra ter�a parte foi degradada por pequenos agricultores ou cortada por estradas. "Os restantes 30% est�o irremediavelmente perdidos, cobertos por cidades ou planta��es", diz Jos� Eduardo Mantovani, autor do estudo. As regi�es mais arrasadas est�o no Estado de S�o Paulo, que j� abrigou 10% do cerrado e hoje conserva apenas 1%.

Plantas carn�voras � Al�m do diagn�stico por sat�lite, o foco dos ambientalistas sobre o cerrado originou estudos in�ditos a respeito de sua biodiversidade. "Por ser uma vegeta��o aberta, sempre se acreditou que o cerrado n�o tivesse esp�cies importantes, mas os resultados das pesquisas impressionaram", diz a bi�loga Christiane Furlani, da Funda��o Biodiversitas. Das 1.622 esp�cies de aves brasileiras, mais de um ter�o, 550, vive no cerrado. Grande parte dos maiores, mais bonitos (e tamb�m mais amea�ados) mam�feros da fauna nacional habita seus campos: a on�a-pintada e a parda, o lobo guar�, a lontra, a ariranha, o quati, o cervo pantaneiro. Apenas na regi�o do Distrito Federal, a mais esmiu�ada, foram cadastradas 1.000 esp�cies de borboletas, trinta de morcegos e 550 de abelhas.

O cerrado tamb�m � rico em diversidade vegetal. Al�m de flores exuberantes, como brom�lias, orqu�deas e at� esp�cies carn�voras, a regi�o guarda variedades silvestres de plantas cultivadas comercialmente, como caju, mandioca, abacaxi, caqui, goiaba, amendoim e guaran�. Essas variedades s�o fundamentais para os trabalhos de melhoria gen�tica que permitem desenvolver tipos mais resistentes a pragas. Cerca de oitenta plantas nativas, como o pequi, s�o usadas na alimenta��o. Algumas t�m potencial para a produ��o de ado�antes. Vinte esp�cies de �rvores produzem corti�a e alguns arbustos t�m quantidade suficiente de tanino � usado no curtimento de couro � para ser comercialmente vi�veis. Mais de 100 esp�cies t�m propriedades medicinais conhecidas.

Faltam parques � Embora a totalidade da biodiversidade da regi�o ainda esteja longe de ser conhecida, ningu�m duvida que a destrui��o do cerrado � uma desgra�a que precisa ser evitada. E pode. Nem o conservacionista mais ferrenho, no entanto, imagina que seja necess�rio barrar a expans�o da agricultura e o crescimento das cidades. "A superf�cie do cerrado n�o precisa ser toda ocupada para gerar um excedente agr�cola. Se todas as terras fossem plantadas, al�m de extinguir a fauna e a flora, correr�amos um risco muito grande de degradar o solo e provocar eros�o", explica Jos� Roberto Peres, diretor de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu�ria, Embrapa. Segundo seus c�lculos, usando t�cnicas modernas de manejo do solo, em uma �rea de 50 milh�es de hectares, cinco vezes a atualmente cultivada no cerrado, � poss�vel decuplicar a produ��o, chegando a 300 milh�es de toneladas de gr�os por ano.

O importante para que os bichos e plantas sobrevivam n�o � frear o avan�o econ�mico, mas manter virgens �reas representativas da diversidade vegetal e animal, com a cria��o de parques e reservas. Isso, no entanto, est� longe de acontecer. Apenas 1,5% do cerrado est� protegido. � pouco em rela��o � m�dia do territ�rio nacional, que tem 2,6% da �rea preservada, e menos ainda em compara��o com a Amaz�nia, com 3,8%. Novos parques, aliados ao cumprimento do atual c�digo florestal, preservariam a vida selvagem do cerrado. Pela lei, os fazendeiros s�o obrigados a manter pelo menos 20% das propriedades como reserva e preservar a vegeta��o ao longo dos rios e cursos d'�gua, al�m das encostas com mais de 45 graus de declividade. Ainda h� tempo de salvar o cora��o do Brasil.
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