Oper�rias da Beleza Veja 04/11/1998 Cada vez mais numerosas, e mais jovens, brasileiras disputam passarelas internacionais
Na foto abaixo, candidatas do concurso da Mega: um sonho que, em dois anos, mobilizou 85.000 lindas cabecinhas
Karmel Bortoleti veio do Recife, Fernanda Kober embarcou no outro extremo do mapa, em Campinas do Sul, no cora��o do territ�rio ga�cho. O objetivo das duas era o mesmo: disputar o concurso de modelos promovido pela ag�ncia Mega, que, ao lado de competi��es semelhantes das ag�ncias Elite e Ford, funciona como uma esp�cie de passaporte para a realiza��o dos sonhos que enchem as lindas cabecinhas de meninas de todos os cantos do Brasil. Haja sonhos: s� nos �ltimos dois anos, nada menos que 85.000 garotas participaram dos tr�s concursos. � competi��o para dar arrepios em qualquer um. Com 16 anos, 50 reais na carteira e a m�e a tiracolo, a gauchinha Fernanda chegou nervosa. "Estou sentindo uma dor de barriga terr�vel", dizia horas antes da disputa final. "Se der certo, minha vida vai mudar completamente. Ser de classe m�dia baixa como eu, que moro numa casa pequena, sem carro e sem telefone, � muito chato. Quando as riquinhas come�am a contar vantagem, voc� se sente diminu�da, sabe?" Mais nova � 14 aninhos � , Karmel aparentava mais seguran�a. "Cada vez que voc� leva um tombo tem de levantar e continuar em frente", filosofou. Os deuses sorriram para as duas iniciantes. Karmel pegou o primeiro lugar, Fernanda foi escolhida para representar a empresa de cosm�ticos que co-promoveu o concurso. Est� dado o primeiro passo para se somarem ao pequeno ex�rcito de brasileiras que tentam brilhar nas passarelas internacionais.
O paradigma dessa legi�o de garotas bonitas, alt�ssimas e muito, muito jovens tem nome, sobrenome e 1,80 metro de altura: a ga�cha Shirley Mallmann, que em 1995 saiu do pequeno s�tio da fam�lia no Rio Grande do Sul e conquistou o mundo com sua beleza n�rdica. O sucesso de Shirley refor�ou o cacife do produto nacional. Atualmente, pelo menos 100 meninas brasileiras entram todos os anos no competitivo mercado da moda de Paris, Mil�o, Nova York e Jap�o. Junto com a R�ssia e os pa�ses do Leste Europeu, o Brasil � um dos tr�s grandes exportadores de beldades para disputar com 10.000 modelos de todo o mundo o espa�o nas campanhas publicit�rias, nas passarelas e nas capas de revistas. Um exemplo da invas�o nacional: no desfile da griffe italiana Swish em Mil�o, no come�o do m�s, das dezoito modelos escaladas, seis eram brasileiras (Gianne Albertoni, Alessandra Ambr�sio, Cyntia Moura, Katarina Scola, Carolina Bittencourt e Lillian Pieroni). "As brasileiras s�o consideradas ex�ticas", diz John Casablancas, dono da ag�ncia americana Elite, ele pr�prio casado com uma beldade nativa.
Rostos globalizados � Dois motivos impulsionam essa revoada internacional. O primeiro � que as adolescentes brasileiras est�o mais altas. Antes, era dif�cil encontrar meninas que tivessem mais de 1,70 metro de altura no Brasil. Hoje, n�o � imposs�vel ter at� 10 cent�metros acima disso. O segundo motivo � a mudan�a no padr�o de beleza. Atualmente, est� na moda a miscel�nea. Fot�grafos e estilistas querem rostos "globalizados", com menos estere�tipos �tnicos e mais ind�cios de mistura racial. "O m�ximo � olhar uma modelo na passarela e n�o saber de onde ela �", diz a consultora de moda paulista Costanza Pascolato. Quem v� as fotos de Gisele Caroline B�ndchen, 18 anos, poderia dizer que ela � americana, escandinava, croata ou at� brasileira. Nem o nome de origem alem� denunciaria que ela nasceu na min�scula Horizontina, cidade do interior ga�cho. Com carreira iniciada, a duras penas, aos 14 anos, Gisele � uma das tr�s modelos mais cobi�adas da atualidade, de acordo com o especialista Casablancas. Na temporada de desfiles da Europa, que terminou na semana passada, ela esteve nas passarelas das griffes mais prestigiadas em Mil�o e Paris. Sua conta banc�ria j� come�a a ser pensada em termos de milh�o.
Gisele � a exce��o que todas as novatas adorariam imitar, embora poucas consigam. L� fora, existem tr�s categorias de cach�. "H� espa�o para centenas de top models, mas os cach�s milion�rios de Linda Evangelista n�o existem mais", diz John Casablancas, evocando a veterana canadense que certa vez disse n�o se animar a sair de casa por menos de 10.000 d�lares. Na faixa mais baixa, est�o as iniciantes que aceitam trabalhar por nada ou quase nada. Quando chegou a Paris, em fevereiro, a potiguar Fernanda Tavares desfilou at� por 60 d�lares. A id�ia � ganhar notoriedade. Deu certo. Seu rosto marcante j� cobriu seis capas de revistas estrangeiras. Hoje, ela cobra no m�nimo 5.000 d�lares por desfile. Est� no segundo n�vel de cach�, aquele das modelos que competem por campanhas publicit�rias de cacife mais alto. "Se a modelo n�o consegue fazer 100.000 d�lares no primeiro ano, volta para casa", conta Liliana Gomes, respons�vel pelo departamento de novos rostos da ag�ncia Elite.
Precocidade � Outro diferencial, digamos, das brasileiras � que come�am extremamente cedo. Pisar a passarela aos 13 anos, como aconteceu com a precursora Gianne Albertoni, j� est� deixando de ser exce��o para virar regra. Foi com essa idade que a catarinense Sabrina Orthmann, que nem sequer se enquadra nas medidas j� esqu�lidas das modelos (tem 77 cent�metros de busto), ganhou o concurso da ag�ncia Elite, em setembro. Comparada a Je�sa Chiminazzo, mesma idade, ga�cha de Mu�um, pode ser considerada inexperiente. Je�sa j� desfilou para v�rias griffes nas passarelas do Morumbi Fashion, em S�o Paulo, e de Mil�o � embora na Europa a pouca idade tenha pesado negativamente. "Os grandes costureiros me acharam muito nova", diz ela. Nos Estados Unidos e na Europa, a idade m�dia das iniciantes � 16 ou 17 anos. Aqui, com a desvantagem da l�ngua e o apoio da fam�lia ao sonho precoce de sucesso das meninas, a faixa et�ria encolheu tanto que pode ser enquadrada na categoria trabalho infantil. "Quanto mais nova, melhor. D� tempo de a menina aprender um pouco de ingl�s e acumular experi�ncia", afirma Denise C�spedes, representante no Brasil da ag�ncia Ford. Quem n�o consegue faz as malas e volta para casa. |