Gente que Dorme                       Veja 26/05/1999
O cochilo depois do almo�o � reabilitado e vira terapia para maior produtividade

O que o presidente Fernando Henrique Cardoso, o padre Marcelo Rossi e a apresentadora Eliana t�m em comum com Napole�o Bonaparte, Albert Einstein, Winston Churchill, Thomas Edison, Salvador Dal�, John Kennedy e Leonardo da Vinci? O saud�vel h�bito de dar um cochilo durante o dia. Saud�vel, sim, senhor. Aquela meia horinha de sono depois do almo�o, que j� foi execrada como s�mbolo de indol�ncia latina, passou nos �ltimos anos por uma not�vel reabilita��o, sobretudo nos Estados Unidos. L�, empresas como IBM e Pizza Hut est�o incentivando seus funcion�rios a almo�ar e, em seguida, tirar uma soneca � terapia que, segundo especialistas, contribui para aumentar a produtividade e diminuir o stress. "Uns dez a quinze minutos s�o suficientes", garante o psic�logo James Maas, professor da Universidade Cornell e autor de uma apologia do cochilo, o livro Power Sleep. "Faz um bem danado", atesta FHC, que tira uma soneca quase toda tarde em um sof� do Pal�cio da Alvorada.

Napole�o tirava uma pestana todo santo dia porque dormia pouqu�ssimo � noite. Churchill tamb�m, com uma agravante: cochilava em ocasi�es impr�prias, inclusive em p�blico. Mas mesmo quem dorme o sono dos justos precisa de uma pausa restauradora. "Ao longo do dia, o poder de concentra��o, o racioc�nio e a criatividade diminuem", explica Eliana Torrezan, psic�loga do Laborat�rio de Stress da Pontif�cia Universidade Cat�lica, PUC, de Campinas. "Uma soneca de quinze minutos j� leva ao sono profundo, est�gio em que o c�rebro se reorganiza e se reestrutura", afirma Maas. Na casa da escritora mineira Ad�lia Prado, 63 anos, dormir depois do almo�o faz parte de uma tradi��o familiar. "Acordo de bom humor", diz. J� o banqueiro Edemar Cid Ferreira, 55 anos, adotou o costume h� dois anos, porque se sentia estressado. "A secret�ria n�o passa nenhuma liga��o por meia hora", conta ele, que fecha as cortinas do escrit�rio, p�e m�scara e se estica no sof�.

Casa de siesta � A apresentadora Eliana, 25 anos de idade, seis de soneca, dorme t�o profundamente durante vinte minutos que p�e algod�o �mido nos olhos para evitar que fiquem inchados. "N�o dispenso nem nos finais de semana", informa. "� o meu segredo para estar sempre bem." No M�xico, at� hoje, com�rcio e escrit�rios fecham toda tarde para a siesta. Na Espanha e na Gr�cia, membros da Uni�o Europ�ia e de seus r�gidos hor�rios comerciais, a popula��o vai cochilando como pode: j� existem casas de siesta no centro de Madri e Barcelona, para quem n�o tem mais tempo de tirar uma pestana depois do almo�o em casa, como deveria ser.

Adi�s � Soneca
Veja 08/03/2000
A tradicional�ssima siesta espanhola perde espa�o com a moderniza��o econ�mica do pa�s

Depois de se integrar � Uni�o Europ�ia, a Espanha recebeu uma inje��o de dinheiro, renovou seu parque industrial e, finalmente, p�s os dois p�s no Primeiro Mundo. A conta est� chegando agora e o pre�o a pagar pela moderniza��o econ�mica inclui o abandono de uma tradi��o quase sagrada: a siesta. A press�o para que o pa�s adote hor�rios de trabalho compat�veis com seus parceiros da Uni�o Europ�ia tem levado cada vez mais empresas a reduzir o intervalo de almo�o de seus empregados, de tr�s para duas horas. Ao contr�rio do que acontecia h� n�o mais de uma d�cada, � cada vez mais comum encontrar o com�rcio aberto entre 14 e 17 horas, o tradicional hor�rio da siesta. Com o crescimento das cidades, fica tamb�m mais dif�cil almo�ar em casa. A cada nova pesquisa cient�fica comprovando os benef�cios para a sa�de de tirar uma pestana ap�s o almo�o, os jornais locais gastam p�ginas e p�ginas com o assunto, enaltecendo a ast�cia dos antepassados que desenvolveram o bendito h�bito. Trata-se, ao que parece, de uma causa perdida.

De acordo com uma pesquisa encomendada pela Pikolin, um dos maiores fabricantes de colch�es da Espanha, somente 23,7% da popula��o adulta do pa�s ainda se pode dar ao luxo de manter o h�bito di�rio da siesta. Essa porcentagem ultrapassa os 30% entre os mais velhos, mais avessos �s mudan�as comportamentais. O h�bito permanece forte nas �reas rurais e tem relativamente mais adeptos nas regi�es mais quentes. "O decl�nio do h�bito da siesta nas grandes cidades come�ou com o processo de moderniza��o do pa�s, ainda nos anos 70", explica o professor Jos� Oliver, do departamento de economia aplicada da Universidade Aut�noma de Barcelona. Os hor�rios comerciais na Espanha ainda s�o muito peculiares. As atividades di�rias come�am tarde e prolongam-se noite adentro. No almo�o, os restaurantes recebem os primeiros clientes ap�s as 14 horas. � comum ver as pessoas trabalhando at� as 20 horas e fam�lias jantando juntas depois das 22 horas. N�o � � toa a fama bo�mia do pa�s. A soneca depois do almo�o tamb�m � comum no sul da It�lia e nas na��es hispano-americanas, que herdaram o h�bito junto com a l�ngua dos conquistadores. Mas em nenhum desses lugares a siesta est� sendo abandonada com a mesma rapidez que na Espanha.

Dormindo tarde, acordando cedo e sem a reparadora siesta, muitos espanh�is acabam se virando como podem. Nos �ltimos anos, est�o ficando cada vez mais comuns as "lojas de siesta", que oferecem cadeiras ergon�micas especiais para uma soneca. Pelo equivalente a pouco mais de 10 reais, o cliente recebe uma massagem de 10 minutos e pode dormir por mais meia hora. O catal�o Federico Busquets, dono de uma cadeia dessas lojas, descobriu o fil�o ao perceber a quantidade de pessoas que davam suas cochiladas em bancos de pra�as ou dentro do pr�prio carro na hora do almo�o. Desde 1997, ele j� abriu mais de duas dezenas de lojas, em Madri e Barcelona. Com a atual tend�ncia espanhola de expurgar a siesta de sua cultura, a possibilidade de expans�o da cadeia parece ser uma barbada.
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