A For�a da Mente                            Veja 19/08/1998
O c�rebro bem usado melhora com o tempo, estica a vida �til e previne as doen�as da velhice

Antes de continuar a leitura desta reportagem, pare um instante e olhe a sua volta. O mundo que voc� v� � real ou imagin�rio? A luz que se projeta a seu redor seria observada e sentida da mesma forma se voc� n�o estivesse aqui? As cores fariam algum sentido se algu�m n�o as pudesse observar, catalogar e interpretar? Os sons produziriam o mesmo efeito se n�o existissem ouvidos para capt�-los? O frio ou o calor teriam alguma import�ncia na ordem geral do universo se n�o fosse voc� que os estivesse sentindo? Tudo que voc� v�, ouve e sente reflete o mundo exterior. A forma como algu�m percebe, interpreta ou reage a isso, no entanto, � pura cria��o do c�rebro, a mais maravilhosa e elaborada produ��o da vida na Terra. "O que o c�rebro faz o tempo todo, dormindo ou acordado, � criar imagens", diz o neurocientista Rodolfo Llinas, da Universidade de Nova York. "Luz nada mais � do que radia��o eletromagn�tica. Cores n�o existem fora de nossa mente. Nem os sons. O som � um produto da rela��o entre uma vibra��o externa e o c�rebro. Se n�o existisse c�rebro, n�o haveria som, nem cores, nem luz, nem escurid�o."

Desde que os seres humanos adquiriram a capacidade de pensar sobre sua pr�pria exist�ncia, o c�rebro � um desafio permanente ao entendimento. Arist�teles, o fil�sofo grego que viveu 350 anos antes de Cristo, acreditava que o pensamento vinha de um �rg�o quente e pulsante: o cora��o. Para ele, o c�rebro servia apenas para refrigerar o organismo. Foi mais ou menos assim que a mente humana foi explicada durante mil�nios. No s�culo XVIII, gra�as ao trabalho do cientista italiano Luigi Galvani, provou-se que os m�sculos se moviam por descargas el�tricas � e que o c�rebro podia produzi-las. Desde ent�o, desvendar os segredos da mente tem sido uma das mais extraordin�rias aventuras humanas. Nada se compara, por�m, aos avan�os obtidos nessa �rea nos �ltimos anos. Uma infinidade de novas descobertas, feitas em laborat�rios e centros de estudos ao redor do mundo, tem revelado o c�rebro como um �rg�o mais fascinante, complexo e poderoso do que antes se imaginava. Descobriu-se que, ao contr�rio dos outros �rg�os do corpo humano, ele pode melhorar seu desempenho durante a vida. A �nica exig�ncia � que seja permanentemente treinado e exercitado em atividades intelectuais. "Atualmente, as pessoas vivem obcecadas com gin�stica, dietas e atividades para melhorar a sa�de do corpo, mas pouca gente imagina que o c�rebro tamb�m deve ser exercitado o tempo todo", escreveu o grande mestre em xadrez Raymond Keene num artigo recente para a revista brit�nica The Spectator. "A melhor maneira de viver mais e melhor � botar o c�rebro para trabalhar."

Vida mais longa � O c�rebro bem estimulado em tarefas como leitura, aprendizado de novas l�nguas, resolu��o de problemas matem�ticos ou mesmo em tarefas rotineiras no trabalho pode esticar a longevidade de uma pessoa e evitar que ela sofra de problemas t�picos da velhice, como a senilidade e a perda de mem�ria. Uma pesquisa realizada entre pacientes com mais de 65 anos, todos de um mesmo bairro e mesma classe social, no Hospital Franc�s de Buenos Aires, revelou que 38% deles tinham desenvolvido o mal de Alzheimer, doen�a degenerativa que apaga mecanismos da mem�ria coordenadores de movimentos naturais, como os da locomo��o. Esse �ndice, contudo, ca�a para apenas 7% entre os pacientes com n�vel de instru��o universit�rio. Quanto mais informa��o �til � armazenada no c�rebro, melhor � seu desempenho. Maior tamb�m � o benef�cio que ele leva a todo o resto do organismo ao qual est� ligado. "O c�rebro � uma m�quina para usar e gastar", diz o professor Ivan Izquierdo, especialista no estudo da mem�ria do departamento de bioqu�mica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. "Quem estuda ou tem uma vida intelectualmente ativa vive melhor e geralmente mais." O uso adequado das potencialidades do c�rebro tamb�m pode multiplicar muitas vezes a capacidade de aprendizado de uma crian�a, melhorar o desempenho de uma pessoa no emprego e aprimorar seus v�nculos familiares e sociais.

O c�rebro � uma m�quina maravilhosa que desempenha m�ltiplas tarefas biol�gicas. Pesando pouco mais de 1 quilo e representando apenas 2% do peso total de um homem adulto, ele gasta 20% de toda a energia despendida no corpo. Entre uma orelha e outra de uma pessoa, estima-se que existam mais conex�es neurol�gicas do que estrelas na Via L�ctea. Se algu�m tentasse contar essas conex�es, chamadas de neur�nios, gastando um segundo em cada uma delas, levaria 32 milh�es de anos para concluir a tarefa. � o c�rebro que comanda as fun��es que asseguram a reprodu��o e a sobreviv�ncia da esp�cie. Pense na batida inconsciente do cora��o, nas p�lpebras piscando, na respira��o cont�nua dos pulm�es, nos alimentos sendo processados pelos intestinos, numa perna que se move. Tudo isso � organizado e dirigido pelo c�rebro. Pense nas suas emo��es, na atra��o sexual, no amor entre pais e filhos, nos sonhos e pensamentos. Eles tamb�m s�o produtos do c�rebro. Sua miss�o mais elementar � recolher os est�mulos externos, captados pelos sentidos, e transform�-los em impulsos el�tricos que percorrem os neur�nios. Toda essa informa��o � catalogada e arquivada na mem�ria. � a ela que o c�rebro recorre quando precisa tomar decis�es, comandar os movimentos corporais e organizar o pensamento.

Aparato tecnol�gico � O c�rebro humano, no entanto, � mais que isso. � a �nica cria��o conhecida do universo que tem a capacidade e a tarefa de desvendar-se a si mesma. "Penso, logo existo", afirmou o fil�sofo Ren� Descartes, no s�culo XVII, o primeiro a concluir que a consci�ncia, decorrente da atividade cerebral, era a prova primordial da exist�ncia do ser humano. Desde que a vida surgiu na Terra, h� cerca de 3,5 bilh�es de anos, milh�es e milh�es de esp�cies surgiram, evolu�ram ou desapareceram da face do planeta. Nenhuma desenvolveu uma ferramenta biol�gica t�o sofisticada quanto o c�rebro humano. Alguns cientistas acreditam que, estatisticamente, ele � uma ocorr�ncia rar�ssima. T�o rara que tornaria improv�vel a exist�ncia de seres inteligentes em outras regi�es do universo. "O aparecimento de vida inteligente na Terra foi muito mais dif�cil do que os cientistas sempre imaginaram", escreveu Ernst Mayr, veterano professor da universidade americana Harvard, considerado o maior bi�logo vivo, autor de um livro essencial sobre a evolu��o das esp�cies (The Growth of Biological Thought). "S� isso j� deveria desestimular qualquer id�ia a respeito de intelig�ncia extraterrestre", afirma Mayr.

As novas descobertas, que permitem a melhor compreens�o de como funciona o c�rebro e como pode ser melhorado, devem-se ao impressionante aparato tecnol�gico desenvolvido pela ci�ncia nos �ltimos anos. S�o aparelhos que "l�em" o pensamento pela medi��o do fluxo sangu�neo e dos impulsos el�tricos que trafegam pelos neur�nios. Drogas que conseguem congelar determinada atividade cerebral numa cobaia, de modo que os pesquisadores possam dissec�-la para entender como se processou. T�cnicas refinadas de microbiologia, que permitem analisar cada uma das estruturas microsc�picas dos neur�nios. An�lises gen�ticas, usadas para estudar a evolu��o do �rg�o nas diferentes esp�cies vivas. O resultado da soma de tudo isso � espetacular. "Finalmente estamos entrando dentro do c�rebro", diz o professor Gilberto Xavier, do departamento de fisiologia do Instituto de Bioci�ncias da Universidade de S�o Paulo. "Para a ci�ncia, a d�cada de 90 est� sendo a das descobertas sobre o c�rebro. E acredito que o s�culo XXI dever� ser o s�culo cerebral."

O desenvolvimento natural do c�rebro se d� na mais tenra inf�ncia. At� os 8 anos, a crian�a j� possui conectados 90% dos neur�nios que carregar� ao longo da vida. Aos 17 anos de idade, o c�rebro humano atinge os 100% do seu est�gio de crescimento. No entanto, estima-se que apenas 30% da capacidade intelectual das pessoas seja inata, determinada pela heran�a gen�tica. Os outros 70% v�m do uso e do aprendizado. Isso significa que, assim como existem seres humanos mais altos ou mais velozes, existem pessoas com maior capacidade org�nica cerebral. � isso que faz a diferen�a entre uma pessoa mais inteligente e outra menos. O c�rebro tem milh�es e milh�es de c�lulas conectadas, entre si, por neur�nios � os microsc�picos filamentos nervosos que conduzem os sinais el�tricos. Cada neur�nio pode ligar-se a outras 100000 termina��es como ele. O n�mero de combina��es poss�veis pode chegar quase ao infinito. As conex�es entre os neur�nios, por onde passa a informa��o cerebral, s�o chamadas de sinapses. Quanto maior for seu n�mero, mais inteligente a pessoa ser�. "� a capacidade humana de produzir essas combina��es, a partir de dados registrados no c�rebro, que podemos chamar de intelig�ncia", diz o fisiologista Gilberto Xavier, da Universidade de S�o Paulo.

At� algum tempo atr�s, imaginava-se que um c�rebro jovem, em sua plena vitalidade biol�gica, fosse muito mais poderoso e criativo do que um outro j� maduro e desgastado pela idade. A matem�tica fornecia o maior dos argumentos para os defensores dessa teoria: quase todas as grandes equa��es matem�ticas foram propostas ou decifradas por gente com menos de 30 anos. Albert Einstein tinha apenas 26 anos quando apresentou sua teoria geral da relatividade � a mais revolucion�ria de todas as elabora��es matem�ticas, que lhe valeu o Pr�mio Nobel de F�sica, quinze anos depois. O argumento � forte, mas ele se baseia numa id�ia ultrapassada a respeito da mente humana. As novas descobertas est�o mostrando que a intelig�ncia n�o se limita � capacidade de racioc�nio l�gico, necess�ria para propor ou resolver uma complicada equa��o matem�tica. Os testes de QI, um dos antigos par�metros usados para medir a intelig�ncia, j� n�o servem mais para avaliar a capacidade cerebral de uma pessoa.

Intelig�ncia emocional � A intelig�ncia � muito mais que isso. � uma soma inacredit�vel de fatores, que inclui at� os emocionais. Uma pessoa excessivamente t�mida ou muito agressiva ter� sempre problemas para conseguir um bom emprego, ascender na profiss�o ou ter bom relacionamento familiar, por maior que seja seu QI. O que os novos estudos est�o mostrando � que um c�rebro jovem tende, sim, a ser mais inovador e revolucion�rio. Mas, como um bom vinho ou uma boa id�ia, ele tamb�m pode amadurecer e melhorar com o tempo. Basta ser estimulado e exercitado. A ci�ncia, a arte e a literatura est�o repletas de exemplos. Charles Darwin viajou para as ilhas do Pac�fico em busca de uma explica��o para a evolu��o dos seres vivos quando tinha apenas 22 anos. Mas s� muito mais tarde, aos 55 anos, publicou A Origem das Esp�cies, obra que revolucionou o estudo da biologia e a compreens�o da vida na Terra. Karl Marx tinha 26 anos quando publicou suas primeiras id�ias num estudo chamado Manuscritos Econ�micos e Filos�ficos. S� duas d�cadas mais tarde, por�m, com 49 anos, concluiu sua obra-prima, O Capital. Da mesma forma, Leonardo da Vinci come�ou a desenvolver sua genialidade ainda jovem, em Floren�a. S� aos 54 anos, contudo, criou a Mona Lisa, sua mais c�lebre pintura, mesma �poca em que fez v�rios de seus inventos e estudos sobre a anatomia humana. "Isso explica por que muitos escritores atingem o auge de sua carreira justamente no fim da vida", afirma Gilberto Xavier, da USP. "� o caso do argentino Jorge Luis Borges, que alguns anos antes de morrer estava no auge da sua capacidade criadora."

Numa pessoa intelectualmente ativa, o c�rebro pode melhorar cada vez mais. Numa outra, que n�o l�, n�o estuda, n�o trabalha nem se envolve em atividade desafiadora para a mente, ocorre o oposto. O c�rebro decai e envelhece, como qualquer outra parte do corpo n�o utilizada. "Uma mente sem uso se deteriora tanto quanto uma perna que n�o se exercita", diz o chefe do Departamento de Gerontologia da Universidade George Washington, Gene Cohen. H� pesquisas curiosas a esse respeito. Pessoas que trabalham e saem de f�rias por uma semana ao retornar mant�m praticamente intacto o n�mero de sinapses cerebrais associadas �s atividades no trabalho. Quando as f�rias s�o mais longas que um m�s, no entanto, a queda � expressiva. Isso explica aquela sensa��o de pregui�a que toma conta das pessoas ao final de f�rias mais prolongadas. Ao retornar ao trabalho, o c�rebro precisa ser reeducado e exercitado novamente para recuperar o desempenho perdido. Isso tamb�m explica por que pessoas que se aposentam e n�o se dedicam a nenhuma outra atividade estimulante muitas vezes envelhecem e at� morrem precocemente.

Atividades complexas ou inovadoras s�o a melhor forma de exercitar o c�rebro. Jogar xadrez sempre foi considerado um bom exerc�cio cerebral, porque exige concentra��o e capacidade de inventar sa�das para novas situa��es. Outra maneira apontada pelos especialistas � a leitura. "Quando algu�m l�, est� criando novas imagens, aprendendo novos conceitos e at� exercitando a fala", diz Ivan Izquierdo, da UFRGS. "Enquanto as pessoas l�em, m�sculos da l�ngua quase imperceptivelmente se mexem." Para expandir as liga��es cerebrais, o ideal � n�o desistir da leitura de textos um pouco mais complicados. Outra maneira � viajar para lugares desconhecidos e surpreendentes. At� mesmo arrumar os m�veis da casa de outra forma � uma tarefa estimulante para a atividade cerebral. Poucas experi�ncias s�o t�o desafiadoras para o intelecto quando aprender uma nova l�ngua. Ela provoca uma rea��o em cadeia no c�rebro, que se v� convidado a criar novas combina��es para decifrar e armazenar palavras at� ent�o desconhecidas. S�o essas novas conex�es, geradas pelo desafio diante da novidade, que aumentam a capacidade do intelecto de trocar informa��es consigo mesmo.

Alargar fronteiras � Numa pesquisa recente feita nos Estados Unidos, o neurocirurgi�o George Ojemann, da Universidade de Washington, mediu com eletrodos rea��es cerebrais em pessoas bil�ng�es. Primeiro, pediu que elas pensassem determinadas palavras em diferentes idiomas sem pronunci�-las. Depois, prop�s que repetissem a experi�ncia lendo essas mesmas palavras em sil�ncio e repetindo-as em voz alta. Em cada etapa da experi�ncia, os neur�nios ativados pelo c�rebro eram diferentes. A mesma palavra pensada, lida e repetida em voz alta em ingl�s e espanhol, por exemplo, gera seis diferentes respostas no c�rebro. "O mesmo neur�nio que � ativado quando se ouve uma palavra n�o reage quando ela � pronunciada em voz alta", explicou Ojemann. A conclus�o � �bvia: uma pessoa alfabetizada e poliglota, que consiga ler e falar em diferentes idiomas, tem uma capacidade cerebral multiplicada v�rias vezes em rela��o a outra, analfabeta, que mal consiga expressar-se verbalmente num �nico idioma. Estudar, portanto, � a forma mais eficiente de alargar as fronteiras da mente humana.

O avan�o nos estudos sobre o c�rebro j� permite � medicina grandes vit�rias no tratamento de v�rios problemas e doen�as. Antigamente, acreditava-se que cada tipo de informa��o ou fun��o cerebral era concentrado em uma regi�o particular do c�rebro. Hoje, sabe-se que cada c�lula pode desempenhar m�ltiplas fun��es, embora haja alguma especializa��o. Dados ligados � emo��o s�o mais armazenados no hemisf�rio direito do c�rebro, enquanto os ligados � raz�o e � linguagem ficam do lado esquerdo. Mas sua maleabilidade permite a adapta��o a situa��es imprevistas, como uma les�o decorrente de um acidente. Um caso exemplar � o do locutor Osmar Santos, que perdeu parte da massa encef�lica numa trombada de autom�vel, em 1994. Hoje, gra�as a exerc�cios espec�ficos para recuperar a atividade cerebral, ele j� se comunica por gestos e at� recobrou um vocabul�rio incipiente. "O c�rebro � adapt�vel e capaz de se reorganizar", diz o neurocirurgi�o Jorge Pagura, atual secret�rio de Sa�de do munic�pio de S�o Paulo, que participou do tratamento de Osmar. "Quando parte dele sofre algum tipo de les�o, outras �reas passam a compensar a falha."

O maior salto cient�fico, no entanto, est� no terreno da mem�ria, a ferramenta mais essencial do c�rebro. Antes tamb�m se acreditava que a mem�ria de longo prazo e a recente eram formadas em lugares distintos do c�rebro. Uma outra teoria sustentava que a mem�ria de longo prazo seria um resqu�cio da mem�ria recente. Estudos realizados pela equipe do professor Ivan Izquierdo, no Rio Grande do Sul, que est�o sendo publicados numa s�rie de artigos na revista cient�fica brit�nica Nature, chegaram a uma conclus�o diferente. Eles mostram que ambos os tipos de mem�ria se formam nas mesmas c�lulas, mas de forma independente. O c�rebro cria uma mem�ria que dura apenas seis horas, para o caso de precisar da informa��o logo em seguida. E cria outra que pode perdurar a vida inteira. S�o registros vivos, impressos nas prote�nas que formam o conte�do das c�lulas. Eles v�o se modificando com o tempo. "O c�rebro � essencialmente din�mico e funciona como uma biblioteca onde sempre cabem mais livros", explica Cl�udio Guimar�es, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl�nicas, em S�o Paulo. A mem�ria � capaz de descartar dados considerados irrelevantes, ou resgatar dados praticamente perdidos quando eles se tornam cruciais. "Quanto mais informa��es s�o ali armazenadas, mais �gil o c�rebro se torna para localizar o estoque antigo", diz Guimar�es. O melhor conselho para quem quer turbinar o pr�prio c�rebro, portanto, �: use e abuse.

Quanto mais, melhor
Executar tarefas complexas � a melhor forma de exercitar o c�rebro. O psiquiatra brasileiro Cl�udio Guimar�es fez na Fran�a um experimento nessa �rea. Colocou eletrodos na cabe�a de uma mulher de 52 anos e mediu a intensidade do fluxo sangu�neo em seu c�rebro. Depois, pediu que ela memorizasse tr�s tipos de texto durante quatro minutos. Veja qual foi o resultado:
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Voc� sabia que...
Apenas 30% da capacidade intelectual de uma pessoa se deve a atributos inatos do c�rebro. Os outros 70% s�o desenvolvidos gra�as ao aprendizado

A tarefa de contar cada termina��o nervosa do c�rebro � velocidade de uma por segundo levaria 32 milh�es de anos

No in�cio da gravidez, os neur�nios do feto crescem � raz�o de 250.000 por minuto. Metade deles morre antes de o beb� nascer. � uma forma seletiva de apurar a qualidade das c�lulas cerebrais

Vincent Van Gogh provavelmente sofria de epilepsia no lobo temporal, que fica na regi�o logo acima da orelha. Esse tipo de problema provoca descargas el�tricas que causam hiperatividade no c�rebro

Com o peso aproximado de um pacote de a��car e 2% do peso de um homem, o c�rebro consome sozinho mais de 20% da energia requerida pelo corpo

O compositor franc�s Maurice Ravel sofreu uma les�o cerebral no hemisf�rio esquerdo do c�rebro que o deixou incapaz de ler partituras, nomear notas musicais, tocar piano e escrever m�sica. Outras atividades, como reconhecer melodias e conferir a afina��o exata dos instrumentos, ficaram intatas

Estima-se que existam mais conex�es neurol�gicas num �nico c�rebro do que estrelas na Via L�ctea
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A constru��o do superbeb�

No passado, acreditava-se que a crian�a s� podia entrar na escola aos 5 anos. Hoje, sabe-se que quanto mais cedo melhor. Os tr�s primeiros anos de vida s�o os mais importantes para o desenvolvimento cerebral. � nessa fase que se desenvolve mais da metade dos neur�nios humanos, de acordo com os estudos cient�ficos. � tamb�m a melhor fase de aprendizado. "Os arquivos do c�rebro nessa idade s�o como fitas virgens e o acesso � informa��o � direto", explica a pedagoga Julia Manglano, que criou h� um ano em S�o Paulo o Centro de Aprendizado e Desenvolvimento, AeD. O centro importou um m�todo espanhol, com a miss�o de ajudar os pais a desenvolver o potencial m�ximo dos filhos desde o nascimento.

No AeD trinta crian�as est�o inscritas num projeto chamado Superbeb�s. A maior parte � de rec�m-nascidos. Nesses cursos, os beb�s ouvem m�sica cl�ssica para desenvolver a intelig�ncia auditiva. O m�todo � aconselhado tamb�m para estimular crian�as durante o aprendizado de l�ngua estrangeira. Gra�as � organiza��o dos sons, com come�o, meio e fim, ele ajuda a oferecer no��es elementares de matem�tica. Os beb�s s�o estimulados a engatinhar, equilibrar-se, subir e descer rampas como forma de desenvolver a capacidade motora. Tamb�m observam obras de arte, para aprimorar a percep��o de cores, e t�m � sua disposi��o brinquedos para desenvolver o senso t�til, como uma minhoca de pano com v�rias texturas. Com 1 ano, os beb�s j� come�am a aprender uma segunda l�ngua. Como est�o aprendendo os fonemas, poder�o fal�-la no futuro sem sotaque.

A mem�ria tem cura
O mal de Parkinson e o mal de Alzheimer s�o as principais doen�as degenerativas da mem�ria. Ambas progressivas e incur�veis, agora est�o mais pr�ximas de ser tratadas. Em janeiro passado, a fisioterapeuta Maria Elisa Piemonte, que fez sua tese de mestrado na Universidade de S�o Paulo sobre o tratamento do mal de Parkinson, realizou um experimento com dezessete idosos que sofrem da doen�a. Sabe-se que o doente de Parkinson (como o papa Jo�o Paulo II) perde peda�os da mem�ria que comanda os movimentos instintivos. Por isso, pode fazer movimentos quando lhe � pedido, mas nem sempre consegue levantar-se sozinho da cama. Com o uso de uma lista de instru��es, um guia para determinar qual movimento sucede o outro, ela fez com que os pacientes utilizassem a mem�ria declarativa � os movimentos coordenados pela raz�o � para executar outra vez opera��es como a de levantar a m�o ou abotoar a camisa. Hoje, os dezessete pacientes ainda tomam medicamentos contra a doen�a, mas caminham e reaprenderam a fazer uma s�rie de movimentos de maneira natural, que foram reincorporados pelo c�rebro. Nenhum deles precisa mais executar a lista decorada.

J� o mal de Alzheimer, que atinge milh�es de pessoas no mundo, entre eles o ex-presidente americano Ronald Reagan, vai destruindo as c�lulas do c�rebro que produzem acetilcolina, um neurotransmissor. O doente esquece quem foi, o que fez e perde a capacidade de aprender. Existem dezessete drogas no mercado sendo testadas e dois medicamentos mais comumente usados, mas de efici�ncia discut�vel e fortes efeitos colaterais. Em novembro ser� inaugurado um laborat�rio de neuroci�ncias no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl�nicas, que vai trabalhar com pesquisas de ponta em gen�tica molecular para tentar a cura do Alzheimer e da esquizofrenia. Com or�amento de 2 milh�es de d�lares, o psiquiatra Wagner Gattaz pretende fazer transplantes com c�lulas geneticamente modificadas em laborat�rio, que substituem as c�lulas com os genes de Alzheimer.
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