Cora��o Remendado Veja 11/03/1998 Cirurgi�o utiliza cola para fechar orif�cio em �rg�o infartado e salva vida de paciente
A funcion�ria p�blica aposentada Joana Messas Woitas, de 69 anos, se prepara para comemorar, na pr�xima semana, mais um ano de vida. Embora n�o seja o dia de seu anivers�rio, Joana faz quest�o de celebrar o 21 de mar�o porque foi nesse dia que ela nasceu de novo. No ano passado, poucos dias depois de ser submetida a uma revasculariza��o do mioc�rdio, Joana precisou voltar � mesa de cirurgia. V�tima de um infarto durante o p�s-operat�rio, ela sofreu uma ruptura no cora��o e esteve � beira da morte. Foi salva por um gesto de ousadia do cirurgi�o card�aco Francisco Gregori Jr., do Hospital Evang�lico de Londrina, no interior do Paran�. Sem conseguir suturar um orif�cio de cerca de 1 cent�metro de di�metro, antes de desligar os aparelhos que a mantinham viva artificialmente, ele decidiu usar Super Bonder, essa cola de alta pot�ncia que as pessoas utilizam em casa para rejuntar pe�as de cer�mica quebradas, consertar bijuterias, brinquedos ou qualquer coisa que precise ser colada. Com a Super Bonder, o m�dico de Londrina n�o s� estancou a hemorragia como garantiu a sobrevida da paciente.
A id�ia de usar o adesivo instant�neo surgiu em meio ao desespero daquele 21 de mar�o. Gregori Jr. � autor de t�cnicas in�ditas em cirurgias de v�lvulas card�acas, mas ele e sua equipe n�o conseguiam fechar a ruptura, localizada no meio de uma �rea necrosada, com os m�todos convencionais de sutura, que incluem o uso de fios cir�rgicos e cola biol�gica. Esgar�ado, o tecido muscular se rompia a cada novo ponto, obrigando o cirurgi�o a repetir o procedimento in�meras vezes. Depois de ordenar a compra do produto em um posto de gasolina pr�ximo ao hospital, Gregori Jr. decidiu usar a cola como um �ltimo recurso. Deu certo. "Aproximei as bordas do orif�cio e, utilizando tr�s pequenas placas de celulose com Super Bonder, consegui fech�-lo", recorda o m�dico, que ainda esperou dez minutos para encher novamente de sangue o cora��o. "Foi sorte. N�o posso explicar de outra maneira", diz.
Medida salvadora � Sorte ou n�o, o fato � que cada vez com mais freq��ncia essa cola vem sendo usada � ainda que extra-oficialmente � na �rea de sa�de. Na Guerra do Vietn� e na das Malvinas, o adesivo instant�neo teria sido adotado para facilitar a cicatriza��o de ferimentos superficiais. No Brasil, existem relatos de outras cirurgias em que se usou Super Bonder. Ao contr�rio da Europa, por aqui ainda n�o est� � venda o Indermil, uma esp�cie de vers�o esterilizada da cola, destinada � �rea m�dica. De qualquer forma, os fabricantes s�o categ�ricos ao alertar: embora n�o seja t�xico, o produto n�o deve ser usado no corpo humano. "Seu uso n�o � indicado porque Super Bonder n�o � est�ril", explica o engenheiro qu�mico Guilherme Andrade, gerente t�cnico da Loctite, fabricante do produto. "Dessa forma, h� risco de contrair doen�as."
Visto com cautela por alguns, o procedimento de Gregori Jr. recebeu o apoio do Conselho Regional de Medicina do Paran�. Jos� Wanderley Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, tamb�m aprovou a alternativa improvisada pelo cirurgi�o. "Foi uma medida salvadora", diz o m�dico, que conserva em seu centro cir�rgico em Macei� uma bisnaga da cola. "Embora n�o recomende o uso rotineiro de Super Bonder, em uma situa��o emergencial, em que os m�todos convencionais n�o funcionam, eu faria o mesmo." Atenta ao debate que seu caso gerou, a aposentada Joana segue levando uma vida normal na pacata Bela Vista do Para�so, distante cerca de 40 quil�metros de Londrina. "Estou muito bem. Estou viva, n�?", diz. Sa�de, Joana! |