| A Vida na Maquete Veja 13/01/1999 Brasilienses transformam a estranha capital inventada em bom lugar para viver N�o fossem cinco minutos, Bras�lia teria o formato de dois quadrados e um ret�ngulo. Em um dia quente e chuvoso � 12 de mar�o de 1957 �, um carro estacionou desajeitadamente na frente do Minist�rio da Educa��o, no Rio de Janeiro. Desceram duas estudantes, Maria Elisa, de 22 anos, e Helena, de 16. Era o �ltimo dia de inscri��es para o concurso que escolheria o projeto urban�stico para a nova capital do pa�s. Esbaforidas, as duas entraram no pr�dio e correram pelos corredores. Faltavam os tais cinco minutos para o guich� fechar quando elas entregaram um relat�rio de onze p�ginas datilografadas, recheado por um desenho colado com rolinhos de fita adesiva. Miss�o cumprida, Maria Elisa e Helena voltaram para o carro, onde as esperava o pai, o arquiteto e urbanista L�cio Costa, autor do relat�rio. Do outro lado do guich�, alguns dos seis arquitetos que escolheriam o projeto vencedor olharam para o texto como se estivesse escrito em s�nscrito. Parecia mesmo. Era a descri��o de uma cidade maluca. N�o havia centro, esquinas, cal�adas nem cruzamentos. Revisado e corrigido pelo poeta Carlos Drummond de Andrade � o primeiro a ler o relat�rio � o texto pouco lembrava um projeto de urbanismo. Era bel�ssimo. Falava de um lugar desenhado a partir de uma cruz, como "quem assinala um lugar ou dele toma posse". Tr�s dias depois, L�cio Costa ganhou o concurso. Bras�lia levou o formato de um avi�o, ou de uma borboleta, como preferia o autor. Em segundo lugar, ficou o projeto que queria a capital na forma de quadrados e ret�ngulos. Mais uma vez, Bras�lia esteve maci�amente nas telas de TV em todo o pa�s neste in�cio de ano, durante as cerim�nias de posse do presidente Fernando Henrique Cardoso e de todo o minist�rio. Cada brasileiro tem a sensa��o de j� ter visto a cidade umas 15.000 vezes. Acaba-se por ter a impress�o falsa de que se conhece a capital, numa familiaridade semelhante � que as pessoas sentem em rela��o aos astros da novela. Essa cidade que parece ter sido feita para cen�rio de telejornal, no entanto, � bem mais interessante e complexa do que normalmente se imagina. Para todos que falam mal de Bras�lia, associando-a a an�es do Or�amento, caixas de campanha mal explicados, grampos e dossi�s, � uma surpresa descobrir que a cidade fundada h� 38 anos � adorada por seus habitantes. O brasiliense por ado��o est� saindo de cena. Agora, de crian�as a quase quarent�es, pela primeira vez, o brasiliense nato � maioria. Dos 400.000 habitantes do Plano Piloto, 30% nasceram l� mesmo. Onze por cento vieram de Minas Gerais e o restante se divide entre os demais Estados. Dif�cil entender como � poss�vel amar um lugar hostil aos pedestres, sem esquinas e seus bares, sem um centro. Mas em Bras�lia cidade � outra coisa. C�u de azulejo � N�o que seja o �nico lugar planejado do pa�s. Rio de Janeiro, Salvador, S�o Lu�s, Bel�m, Belo Horizonte, Teresina e Goi�nia tamb�m s�o cidades artificiais, constru�das por vontade de governantes. Tampouco � o �nico n�cleo urbano moderno concebido para ser capital. Washington, onde fica a Casa Branca, � outro exemplo. A diferen�a � que todos esses lugares t�m cara de cidade. Bras�lia, n�o. Foi pensada por L�cio Costa em doze horas, enquanto cruzava o Atl�ntico numa viagem de navio. "Parece outro planeta", surpreendeu-se o astronauta russo Yuri Gagarin, quando apresentado � capital. Pode acreditar. Rodovi�ria, onde h� multid�o, e a rea��o de Costa: "Eles tomaram conta daquilo que n�o foi concebido para eles. Foi uma Bastilha. Bras�lia tem ra�zes brasileiras, reais, n�o � flor de estufa como poderia ser. (...) O sonho foi menor do que a realidade. A realidade foi maior, mais bela. Fiquei satisfeito, orgulhoso de ter contribu�do" Andar pelo Plano Piloto � como entrar numa maquete. At� o c�u, de t�o azul, parece artificial, feito de azulejo. Os monumentos projetados pelo arquiteto Oscar Niemeyer s�o menores do que parecem pela televis�o. Mesmo assim, s�o majestosos. Por todos os lados, h� imensid�es de grama. E nada daquela barafunda de ruas, becos, passantes, barulhos e fuma�a que fazem o centro de uma cidade. H� largas estradas e todos se locomovem de carro, at� os idosos, que exibem mais autonomia ao volante do que costuma ocorrer em outros lugares. Os t�xis esperam por chamadas nos pontos. S� pode ser assim, j� que n�o h� poss�veis passageiros andando nas ruas. Os forasteiros estranham. "Isto aqui � um autorama", diz a turista mineira Arlinda Costa, 46 anos. Bras�lia tamb�m parece a capital de um pa�s sem hist�ria. N�o h� ruas ou avenidas com nome de personalidades ou datas importantes. Todas foram batizadas com letras e n�meros, sempre divididas entre as asas Norte e Sul. H� setores para tudo, como se fossem guich�s. Encontram-se pela cidade placas esquisitas, como "Setor de Divers�es Sul" � seria uma filial do para�so? � e at� um enigm�tico "Setor de Garagens". � primeira vista, a cidade � uma cole��o de monumentos, uma brincadeira arquitet�nica, uma obra de bienal. Nunca um lugar para viver. � primeira vista. "Recebemos um lugar inventado e inventamos mecanismos para criar outro tipo de vida nele", diz o historiador brasiliense Juliano de Almeida Piraj�, 27 anos. A vida nas superquadras � um exemplo de como o brasiliense vive � e bem � dentro de uma maquete. Superquadras s�o grandes quadrados com 300 metros de lado, onde h� edif�cios projetados pelo arquiteto Niemeyer. A altura dos blocos (de seis andares cada um), o formato dos pr�dios (constru�dos sobre pilotis, soltos do ch�o) e as cercas de �rvores foram determinados pela caneta de L�cio Costa. Para pessoas versadas em cidades normais, � um amontoado de pr�dios muito parecidos, arrumados numa monotonia de matar. Mas neles leva-se a rotina brasiliense. Todos os dias, as crian�as brincam em parquinhos e campos de futebol encravados entre os pr�dios. Nos finais de semana, h� campeonatos de v�lei e futebol. � uma vida setorizada por blocos. Burocr�tico? N�o. O brasiliense reinventou a vizinhan�a, todos se conhecem no interior das superquadras. A casa dos outros � uma institui��o brasiliense. Um costume tamb�m creditado ao projeto de L�cio Costa. Nesse caso, por um erro de c�lculo. A cidade foi criada com grandes espa�os p�blicos � at� os pilotis dos pr�dios s�o considerados �reas de circula��o. A id�ia era levar as pessoas para a rua. Aconteceu o inverso. As largas avenidas, por onde passam carros voando, desencorajam o h�bito de perambular. As pessoas, ent�o, fazem sua cidade entre quatro paredes. Arrumam churrascos, festas ou encontros nas casas ou apartamentos. O doming�o do advogado da Volkswagen Ronaldo Vieira Teles, 41 anos, e da m�dica In�s Castelli Teles, 43, � um retrato de como vivem os herdeiros do projeto de L�cio Costa. O casal costuma acordar cedo e levar os filhos Ivo, 15 anos, e �sis, 11, at� um clube. Depois, h� sempre um churrasco no Lago Sul ou um almo�o oferecido por um colega do clube. Num �nico domingo, o casal faz at� tr�s visitas. Cada uma tendo como moldura um janel�o, detalhe arquitet�nico t�pico da capital. O o�sis � Assim como os visitantes em Bras�lia, os brasilienses se surpreendem em outros lugares. Quando saem da cidade, costumam ficar atordoados. Estranham as ruas com nomes de pessoas, as multid�es, os grandes engarrafamentos, as ladeiras e as diferen�as arquitet�nicas. H� quatro anos, o estudante Andr� Bezerra, 19, foi para o Rio de Janeiro e, antes mesmo de ver o mar, parou num boteco de esquina em Ipanema. "Falavam tanto que Bras�lia n�o tem esquina que eu queria ver como � uma. Achei muito louco todo aquele movimento. Mas � exagero, a gente fez nossas esquinas", diz. Trata-se da ponta dos blocos comerciais colocados em cada superquadra. Em alguns deles, h� bares com cadeiras do lado de fora, onde se toma chope nos finais de semana. A paisagem � sempre a mesma: os pr�dios iguais. Bras�lia come�ou a ser inventada em 1823. Jos� Bonif�cio de Andrada e Silva, o mais importante pol�tico da �poca do Imp�rio, prop�s a transfer�ncia da capital para um lugar eq�idistante, no centro do pa�s, e sapecou-lhe um nome de cozinheira: Bras�lia. A sugest�o foi inclu�da na primeira Constitui��o brasileira, redigida pelo irm�o de Bonif�cio, Ant�nio Carlos. Quando soube disso, durante um com�cio em Goi�s, Juscelino Kubitschek ficou animad�ssimo e decidiu ser o criador dessa cidade. Se fizesse algo do g�nero, o presidente Fernando Henrique Cardoso poderia at� ser internado, por louco. Mas, no otimismo que imperava nos anos 50, era uma id�ia perfeitamente normal. O pa�s andava bem-humorado. Tempo da ind�stria automobil�stica, das grandes barragens, da constru��o naval, da siderurgia, do petr�leo e das auto-estradas. Os 71 milh�es de brasileiros vibravam com as pernas tortas de Garrincha e a genialidade de Pel� e Didi, que trouxeram a primeira Copa do Mundo. Nos meios culturais, falava-se de bossa nova e cinema novo. Na arquitetura, o tema da vez eram as "concep��es modernistas". Bacana era falar de linhas retas, defendidas pelo papa do ramo, o arquiteto franco-su��o Le Corbusier, mentor de L�cio Costa e Niemeyer. Bras�lia nasceu nesse ambiente, transplantado para o meio do cerrado, no tal Paralelo 15 dos m�sticos. Constru�da em tr�s anos, a 1.100 metros de altitude, era para ser a cidade do s�culo. Recrutados a pre�o de banana, vieram oper�rios de todo o pa�s, os candangos. O resultado � que Bras�lia � hoje um o�sis formado por uma grande classe m�dia, acostumada a viver longe da normalidade brasileira das dezoito cidades-sat�lites, que � como se chama periferia por l�. O n�vel m�dio de instru��o da capital � o maior do pa�s. No Plano Piloto, 24% da popula��o tem curso superior completo. A taxa de analfabetismo � de 0,9%. A renda per capita tamb�m � uma das maiores do Brasil. Pelo menos 30% dos moradores ganham entre 10 e 25 sal�rios m�nimos. Os brasilienses carregam a pecha de maraj�s, por causa da proximidade com o poder. Mas os funcion�rios p�blicos s�o apenas 22% da popula��o economicamente ativa. O que h� na cidade � um efervescente setor de microempres�rios, gente que deixou o servi�o p�blico para abrir empresas em setores ligados � �rea em que trabalhavam. No geral, d�o-se bem, porque conhecem o caminho das pedras. Sem grandes parques industriais, os brasilienses investem em setores invis�veis. A capital �, por exemplo, a terceira maior produtora e a segunda maior consumidora de softwares no pa�s. Tamb�m come pelas bordas em biotecnologia e alta tecnologia. Por causa desses mercados, cerca de 70% dos empregos do Distrito Federal est�o no Plano Piloto. "Bastilha na rodovi�ria" � A capital hoje quer crescer, mas vive � sombra de seus criadores. Declarada patrim�nio hist�rico da humanidade, Bras�lia tem um tra�ado r�gido e qualquer mudan�a em sua planta exige um esfor�o africano. Em 1987, L�cio Costa desenhou seis pontos para onde a cidade poderia crescer sem ferir o projeto original. Mesmo assim, os governantes convivem com o desafio de administrar sem mexer na cidade. No final do ano passado, pouco antes de assumir, o governador eleito Joaquim Roriz foi at� o Rio de Janeiro fazer um beija-m�o no arquiteto Oscar Niemeyer. Tamb�m fez uma visita a Maria Elisa, a mo�a do guich�, hoje uma arquiteta de 63 anos. � um ato de respeito, mas tamb�m de boa conviv�ncia, �til para o caso de ter de abrir um buraco em pleno Plano Piloto. Todos os governadores do Distrito Federal fizeram o mesmo. Por estar em forma��o, em meio � rigidez urban�stica, a cidade ati�a curiosidades. Na Universidade de Bras�lia, pipocam pesquisas para entender o comportamento dos jovens, tra�ar a genealogia do misticismo do Planalto Central, identificar o sotaque brasiliense, discutir se a imensid�o do cerrado alimenta a introspec��o ou comparar o tra�ado urbano com o de cidades astecas. Fora do pa�s, h� pesquisadores, como o soci�logo americano James Holston, da Universidade da Calif�rnia, que se dedicaram a provar que a utopia urban�stica da capital fracassou porque mandou os pobres para as cidades-sat�lites. Uma besteira t�o grande quanto acreditar que o bom urbanismo tenha alguma coisa a ver com boa distribui��o de renda. L�cio Costa morreu h� sete meses, aos 96 anos. Nos �ltimos tempos, tamb�m andava curioso com a cidade. Ficou estarrecido depois de uma visita � plataforma da rodovi�ria, o �nico lugar da cidade onde se encontra multid�o. Havia imaginado um lugar requintado, cosmopolita. Encontrou moradores das cidades-sat�lites � oper�rios e porteiros. "Eles tomaram conta daquilo que n�o foi concebido para eles. Foi uma Bastilha. Bras�lia est� funcionando e vai funcionar cada vez mais", concluiu, em mais um de seus bel�ssimos textos. |
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