Tipo P�s-Moderno                     Veja 15/004/1998
Sem apegos nacionais, Holanda assume com tranq�ilidade a identidade europ�ia

A Holanda � um pa�s pequeno que tem sua economia voltada para o exterior. As exporta��es representam 55% do PIB, mais que o dobro do da Fran�a e da Alemanha
Bandeira, moeda, fronteiras � � duro para a maioria dos europeus, em processo de unifica��o, redefinir quando n�o simplesmente abandonar esses poderosos s�mbolos nacionais. N�o para os holandeses, provavelmente os membros da Uni�o Europ�ia que mais se enquadram nas exig�ncias do Estado p�s-moderno. Faltando menos de um ano para o euro entrar em vigor, o desaparecimento das moedas nacionais causa arrepios em muitos pa�ses europeus � os ingleses j� decidiram n�o trocar a libra esterlina, e os alem�es continuam a acreditar mais no marco do que em Deus, segundo uma brincadeira com certo fundo de verdade. J� os holandeses aguardam entusiasmados a extin��o do florim. Nesta hora, a voca��o mercantil da Holanda, um pa�s onde as exporta��es geram 55% do PIB, confunde-se com a identidade nacional. O sentimento at�vico de prote��o ao territ�rio nacional? Os postos fronteiri�os n�o s� est�o em extin��o como policiais de pa�ses vizinhos podem entrar � vontade na Holanda para perseguir suspeitos. Hino nacional? � dif�cil entusiasmar-se com uma letra que faz refer�ncia ao rei da Espanha, heran�a de long�nquas confus�es din�sticas.

Pa�s pequeno, de 15 milh�es de habitantes, a Holanda de certa forma sempre esteve � frente de seu tempo. H� 300 anos, quando criaram um imp�rio comercial, os holandeses eram precoces � cultivavam o patriotismo e o civismo, sentimentos que s� se desenvolveram em outros pa�ses ocidentais, da forma como os conhecemos atualmente, depois da Revolu��o Francesa. Hoje, est�o na linha de frente da integra��o europ�ia e se orgulham de que a cidade de Maastricht tenha sido a sede da cerim�nia de assinatura do tratado sobre a uni�o monet�ria. A prote��o da identidade nacional � um instinto que n�o existe, pelo menos tal como se v� na Fran�a, que tenta limitar o uso de estrangeirismos no idioma e definir exatamente o que � um queijo camembert. Na Holanda, com uma popula��o poliglota, florescem os letreiros em ingl�s, franc�s e alem�o. "Ficou mais f�cil viajar", resume o jornalista Roel Jansson, autor de um livro sobre os efeitos da unifica��o.

"Terceira via" � O pragmatismo de um pa�s que no s�culo XVII criou a primeira multinacional da Hist�ria � a Companhia das �ndias Orientais � se reflete nas solu��es internas. Sa�das alternativas aliaram a��o do Estado e participa��o coletiva, buscando uma "terceira via", em que posi��es pol�ticas da direita e da esquerda se embaralham. A luta conjunta de governo e sindicatos contra o desemprego, por exemplo, fez uso do mesmo rem�dio que em outros lugares n�o deu certo: flexibiliza��o das leis trabalhistas e redu��o da jornada de trabalho. Na Holanda, essas medidas derrubaram a taxa de desemprego de 10% para os atuais 6,1%. Em vez de cortar benef�cios da seguridade social, o governo liberou a abertura do com�rcio � noite e legalizou o emprego de meio per�odo, estimulando a cria��o de 200.000 novos postos em dois anos. Hoje um holand�s trabalha em m�dia 1.400 horas por ano, o �ndice mais baixo do mundo. O crescimento econ�mico de 2,7% foi o melhor da Uni�o Europ�ia no ano passado, e h� an�lises indicando que at� o fim do s�culo o pa�s ser� o melhor lugar do mundo para fazer neg�cios, superando Hong Kong. Quando o bolso vai bem, a integra��o certamente fica mais f�cil.
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