Riqueza Escondida                             Veja 16/09/1998
No ranking da qualidade de vida, o interior � melhor

Feliz, a cidade com maior �ndice de desenvolvimento humano do Brasil, fica na serra ga�cha, a 87 quil�metros de Porto Alegre. A maioria da popula��o vive da produ��o de morango e muitos ainda falam o alem�o aprendido com os av�s imigrantes. Feliz tem renda per capita de 5343 reais e todas as crian�as entre 7 e 14 anos sabem ler e escrever. As escolas da regi�o t�m transporte pr�pri[o, mas um ter�o dos alunos mora t�o perto de onde estuda que prefere ir a p�. A viol�ncia n�o existe. "Nem me lembro do �ltimo homic�dio que aconteceu na cidade", diz o prefeito Cl�vis Assmann. Feliz tamb�m n�o tem gente rica. Nem pobre. Apenas seis fam�lias moram em casas prec�rias, constru�das de madeira numa �rea da prefeitura. Mas, ao contr�rio dos barracos das grandes cidades, t�m �gua, luz e antena parab�lica. 

A melhor do Brasil
Feliz, RS
IDH: 0,834 (1�)
Popula��o: 15.556
Esperan�a de vida: 72,59 anos
Mortalidade infantil: 5,9 por 1.000
Analfabetismo: 2,4%
Tempo m�dio de estudo da popula��o: 5 anos
Renda familiar per capita: 1,43 sal�rio m�nimo
Popula��o com renda insuficiente: 23,92%
Popula��o com moradias dur�veis: 99,6%
Acesso a abastecimento adequado de �gua: 73,6%
A melhor cidade do Brasil n�o tem cinema, teatro, bons restaurantes, faculdade nem mesmo um shopping center. Na pra�a principal, onde ficam a igreja e o pr�dio da prefeitura, n�o circula um �nico carro importado. Divers�o � participar de festas t�picas do folclore alem�o ou de churrascos familiares. Nem mesmo a paisagem do vale da serra ga�cha, onde est� localizada Feliz, � muito especial. Ainda assim, ao ser comparada com os outros quase 5.000 munic�pios brasileiros, a cidade ganhou o primeiro lugar no ranking de �ndice de desenvolvimento humano, IDH, feito pela ONU. A vit�ria significa que o munic�pio � cujo nome parece ter sido escolhido especialmente para a ocasi�o � �, entre todas as cidades do pa�s, o que re�ne as condi��es adequadas para um morador m�dio viver com dignidade. Ali, onde tudo se cala �s 10 horas da noite, fica o canto do Brasil que melhor combinou as vari�veis sa�de, educa��o e renda.

Apesar dos n�meros favor�veis, muita gente torceu o nariz para a cidade campe�. Como um lugarejo assim t�o acanhado pode ser melhor que a badalada Curitiba, que a bela Natal ou que a pr�spera Ribeir�o Preto? Que brasileiro acostumado � correria e �s facilidades de uma cidade moderna gostaria de viver naquele fim de mundo? Como avaliar as condi��es de vida de um lugar sem levar em conta as ofertas de lazer e consumo, as oportunidades de emprego, o acesso � tecnologia, �s novidades culturais? Para a ONU, tudo isso � secund�rio. "Essas outras coisas est�o impl�citas no conceito do �ndice de desenvolvimento humano", explica Jos� Carlos Lib�nio, um dos respons�veis pelo estudo. "Quem tem sa�de, educa��o e renda tem oportunidade e capacidade para ser bem-sucedido e conseguir todos esses outros itens que genericamente se consideram qualidade de vida." Ou seja, mesmo que Feliz n�o abrigue uma faculdade de ponta e um shopping center, os felizenses t�m n�vel educacional para concorrer a uma vaga numa faculdade pr�xima e renda suficiente para ir at� Porto Alegre (a 87 quil�metros de dist�ncia) ou at� Caxias do Sul (no meio do caminho) fazer compras. S�o Paulo, ao contr�rio, oferece todas as possibilidades da vida moderna, sem no entanto dar condi��es de acesso a tudo isso para seus moradores, porque s� uma parte deles tem sa�de, educa��o e renda adequadas. Essa � a grande diferen�a entre a maior e a melhor cidade do pa�s.

Ao detectar como cidade campe� um munic�pio ga�cho e a pior delas uma alagoana, o estudo da ONU confirma as desigualdades regionais conhecidas no pa�s. Vive-se melhor no Sul do que no Norte, e com mais conforto no Leste do que no Oeste. O munic�pio mais bem colocado fora do Sul e do Sudeste � Bras�lia, que aparece na 51� posi��o. Mais do que isso, o estudo mostra que o pa�s melhorou muito nos �ltimos anos e que a vida dos brasileiros hoje � mais confort�vel em todas as regi�es � mesmo nas mais pobres. A cidade onde os moradores t�m suas casas, onde colocam suas crian�as para estudar, que lhes fornece a �gua que consomem, est� mais digna. Em 1970, 90% dos munic�pios brasileiros se classificavam como de baixo desenvolvimento humano, 10% como m�dio e nenhum se encaixava na categoria mais alta. Vinte anos depois, os no mais baixo n�vel foram reduzidos a 40%. As melhoras mais representativas se concentram nas regi�es Sul e Sudeste, que, junto com o Distrito Federal, abrigam todas as oitenta cidades que alcan�aram o patamar mais alto na classifica��o. O destaque nacional mais positivo � o Rio Grande do Sul, que, al�m de ser o melhor Estado, � o que abriga a maior propor��o de cidades bem posicionadas (10%). Outro fato importante � o desaparecimento de munic�pios na categoria mais baixa em tr�s Estados, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Surpresa � Esse progresso geral dos munic�pios tem implica��es mais amplas na vida das pessoas. "Os outros aspectos da qualidade de vida s� se tornam uma preocupa��o e come�am a ser oferecidos quando as necessidades b�sicas da popula��o s�o atendidas", afirma Roberto Borges Martins, presidente da Funda��o Jo�o Pinheiro, de Belo Horizonte, que foi parceira da ONU na elabora��o da pesquisa. "Por isso consideramos o IDH um par�metro abrangente que pode ser entendido tamb�m como �ndice de qualidade de vida." Considere-se o caso de Santos, cidade do litoral paulista, terceira colocada no ranking. Com uma boa renda gerada em grande parte pelo maior porto mar�timo da Am�rica Latina, Santos atingiu um bom padr�o de sa�de e educa��o. Hoje, a cidade j� pode investir pesado em outras �reas como transporte p�blico, meio ambiente, esporte, lazer e cultura. O mar que beira a cidade em 7 quil�metros de praia foi despolu�do. Hoje, a prefeitura oferece aulas gratuitas de surfe, gin�stica e futebol na praia para a garotada e para o pessoal da terceira idade. O roteiro cultural inclui sete cinemas, que apresentam os lan�amentos na mesma �poca de S�o Paulo, e seis teatros. Em breve ser�o inauguradas mais dezessete salas de exibi��o. Gaspar, cidade catarinense com 40.000 habitantes e sexta colocada no ranking, tem um centro urbano que se resume a poucas ruas, entretanto conta com cinco gin�sios poliesportivos.

Porto Alegre � a �nica cidade com mais de 500.000 habitantes a figurar no ranking das dez melhores do pa�s. A capital ga�cha conta com infra-estrutura e servi�os b�sicos satisfat�rios para uma popula��o superior a 1 milh�o de pessoas. A qualidade de vida � boa � conta com 43 cinemas, 1650 bares e restaurantes, 56 casas noturnas, sete parques, 700 pra�as, al�m de 1 milh�o de �rvores nas cal�adas e canteiros. � uma metr�pole que preserva h�bitos interioranos � em Porto Alegre, ainda se consegue sair do trabalho para almo�ar em casa.

A melhor metr�pole
Porto Alegre, RS
IDH: 0,825 (6�)
Popula��o: 1.263.239
Esperan�a de vida: 66,42 anos
Mortalidade infantil: 21,35 por 1.000
Analfabetismo: 4,9%
Tempo m�dio de estudo da popula��o: 8,1 anos
Renda familiar per capita: 2,98 sal�rios m�nimos
Popula��o com renda insuficiente: 15,03%
Popula��o com moradias dur�veis: 98,4%
Acesso a abastecimento adequado de �gua: 95,4%

O estudo da ONU � uma das mais completas radiografias feitas at� hoje das cidades brasileiras. Ele s� tem um problema: foi feito com base em dados do censo de 1991, o �ltimo dispon�vel no Brasil. � um atraso de sete anos, justamente um per�odo em que o pa�s passou por muitas transforma��es, entre elas a estabiliza��o e a abertura da economia, que mudaram drasticamente os n�veis de renda da popula��o. Em munic�pios pequenos e agr�colas como Feliz, o melhor, e S�o Jos� da Tapera, o pior, as altera��es talvez tenham sido pequenas, mas em regi�es como o ABC paulista o retrato de 1991 � bem diferente do atual. No in�cio da d�cada, a regi�o do ABC ainda era essencialmente industrial, sede das montadoras de ve�culos e de centenas de outras f�bricas. Nos �ltimos anos, muitas dessas ind�strias se mudaram para o interior paulista ou para Estados vizinhos. Al�m de bastante afetadas pelo desemprego, as cidades do ABC mudaram de voca��o nesse per�odo, passando a abrigar um setor de servi�o mais pr�spero do que o industrial. Hoje, no lugar das antigas f�bricas h� shopping centers, hipermercados, lojas de franquias, postos de servi�os e muitas outras atividades ligadas ao com�rcio e � presta��o de servi�os. H� sete anos, metade dos empregos de S�o Caetano do Sul estava na ind�stria. Hoje, apenas uma de cada quatro pessoas empregadas continua no setor. As outras tr�s est�o concentradas em servi�os e com�rcio. A renda per capita continua alta: 7.300 d�lares.

O relat�rio da ONU comprova que hoje as melhores condi��es de vida no Brasil est�o nas cidades pequenas e m�dias. Das treze mais bem posicionadas, nove t�m menos de 50.000 habitantes. Apenas uma, Porto Alegre, mais de 1 milh�o. Das 27 capitais de Estado, apenas duas se encontram entre as dez melhores. "Houve uma migra��o da qualidade de vida para as pequenas cidades", diz Martins, da Funda��o Jo�o Pinheiro. "Foram elas que, tendo bons �ndices de renda, conseguiram resolver de maneira mais adequada os problemas de sa�de e educa��o." �guas de S�o Pedro, uma est�ncia tur�stica do interior paulista que, segundo o levantamento, tem o melhor �ndice de renda do Brasil, re�ne mais condi��es de cuidar do saneamento b�sico, do atendimento m�dico, da moradia e do ensino b�sico do que Tarrafas, no sert�o cearense, onde a renda familiar per capita � de pouco mais de um d�cimo de sal�rio m�nimo, a mais baixa do pa�s. Al�m de ter dinheiro, �guas de S�o Pedro � pequena � tem apenas 3,7 quil�metros quadrados, o que lhe confere tamb�m o t�tulo de menor munic�pio brasileiro. Com essa conjun��o favor�vel, consegue dar bom atendimento m�dico � popula��o e tem bairros totalmente urbanizados, com �gua tratada e saneamento b�sico. "N�o temos favela nem barracos aqui", resume S�rgio Fanelli, procurador-geral do munic�pio.

Iniciativa privada � Ribeir�o Preto, no interior paulista, � um caso bem diferente da pequena �guas de S�o Pedro. Sexta colocada no ranking da ONU, a cidade ainda mant�m um certo ar interiorano, mas a for�a de sua economia faz dela quase uma metr�pole. Ribeir�o Preto � a capital informal de uma regi�o de oitenta munic�pios no norte paulista que engloba 3 milh�es de pessoas e forma a sexta pra�a financeira do pa�s. A cidade experimentou o crescimento durante o auge do caf�, em seguida beneficiou-se da cultura da laranja e hoje � basicamente comercial. Tem um pr�spero setor de servi�os em meio a munic�pios fortemente agr�colas. O investimento em infra-estrutura lhe garantiu o bom resultado no ranking. Em 1991, quando foram coletados os dados utilizados para calcular o IDH, menos de 2% das resid�ncias n�o tinham �gua encanada. Um curioso problema ali � que a fama de boa qualidade de vida acaba atraindo migrantes de cidades mais pobres, o que exige cada vez mais investimento para que o munic�pio mantenha o padr�o. Ribeir�o Preto tem hoje vinte favelas, embora apenas 6.000 pessoas vivam nelas.

Ribeir�o Preto, no interior de S�o Paulo, tem catorze hospitais de primeira linha, cinco universidades e renda per capita de 5500 d�lares. Agora est� se tornando tamb�m uma meca de consumo. At� o ano passado, a cidade tinha sete salas de cinema. Em novembro de 1997, o maior shopping center da regi�o, o Ribeir�o Shopping (foto), foi ampliado. Hoje, ele recebe 1,8 milh�o de consumidores por m�s. De olho nesse mercado, mais dois shoppings est�o sendo erguidos na cidade. Na virada do mil�nio, Ribeir�o Preto ter� quarenta salas de cinema, e o n�mero de lojas dobrar�.

A for�a do interior
Ribeir�o Preto, SP
IDH: 0,825 (6�)
Popula��o: 436.122
Esperan�a de vida: 69,04 anos
Mortalidade infantil: 17,95 por 1.000
Analfabetismo: 6,5%
Tempo m�dio de estudo da popula��o: 6,7 anos
Renda familiar per capita: 2,62 sal�rios m�nimos
Popula��o com renda insuficiente: 8,93%
Popula��o com moradias dur�veis: 99%
Acesso a abastecimento adequado de �gua: 98,4% 
Um milh�o de �rvores � Renda pode ser o primeiro passo para atingir um bom �ndice de desenvolvimento humano, mas n�o � tudo. O fraco desempenho de algumas grandes cidades, das quais se esperava mais, � significativo. S�o Paulo, por exemplo, tem uma renda maior do que a do Rio de Janeiro e, no entanto, est� catorze posi��es abaixo da capital fluminense na lista da ONU. O motivo � um s�: educa��o. A renda familiar per capita dos paulistanos � um pouco superior � dos cariocas; em compensa��o, h� menos cariocas analfabetos do que paulistas. Uma outra compara��o entre as capitais nacionais que provocou estranhamento foi a feita com Curitiba e Florian�polis. Propagandeada como a capital brasileira da qualidade de vida, Curitiba ficou bem atr�s de Florian�polis, que ostenta um honroso segundo lugar entre todos os munic�pios. Tamb�m nesse caso, o item decisivo foi a educa��o. Mais conhecida por suas belas praias e lagoas, a capital de Santa Catarina � a segunda cidade brasileira com maior propor��o de habitantes com 2� grau completo, perdendo apenas para Niter�i. Curitiba vem em oitavo lugar. Em Curitiba, quase 9% das crian�as entre 7 e 14 anos ainda est�o fora da escola. Florian�polis ganha da capital paranaense por 2 pontos porcentuais.

S�o Jos� da Tapera, no sert�o alagoano, tenta esconder sua pobreza. O centro da cidade tem ag�ncia banc�ria, quatro farm�cias, dois postos de gasolina, parque infantil, quadra comunit�ria de esportes e uma pequena feira livre. Boa parte dos 28.000 habitantes do munic�pio, no entanto, vive longe desse cen�rio. Mais de 70% deles est�o espalhados por sessenta povoados miser�veis sem nenhuma infra-estrutura. Na �rea rural n�o h� energia el�trica, muito menos �gua encanada. Apenas 20% dos povoados t�m po�os. Quase metade das crian�as apresenta sinais de subnutri��o. H� dias, os treze filhos e o casal da fam�lia Melo s� comem canjica. "A salva��o das crian�as � o leite da prefeitura", diz Matilde de Melo. Sua fam�lia � uma das 3.000 que t�m direito ao benef�cio.

A mais pobre
S�o Jos� da Tapera, AL
IDH: 0,265 (4491�)
Popula��o: 27.396
Esperan�a de vida: 53,38 anos
Mortalidade infantil: 147,94 por 1.000
Analfabetismo: 70,5%
Tempo m�dio de estudo da popula��o: 0,9 ano
Renda familiar per capita: 0,19 sal�rio m�nimo
Popula��o com renda insuficiente: 92,11%
Popula��o com moradias dur�veis: 63%
Acesso a abastecimento adequado de �gua: 39,7%
Entre as metr�poles nacionais, a �nica que mereceu destaque no estudo foi Porto Alegre, sexta colocada. O resultado foi obtido porque a capital ga�cha tem renda familiar per capita bem acima da m�dia nacional, o analfabetismo � insignificante e a expectativa de vida supera os 66 anos (enquanto em Belo Horizonte, por exemplo, � de 63 anos). Porto Alegre, al�m das condi��es b�sicas para a vida de seus habitantes, tamb�m oferece 1650 bares e restaurantes, 43 cinemas, 56 casas noturnas, 1 milh�o de �rvores nas cal�adas e canteiros, sete parques e centenas de pra�as arborizadas. Porto Alegre tem o que todo cidad�o procura: qualidade de vida. Isso j� havia sido apontado h� dois anos numa pesquisa encomendada pela revista Exame em 150 munic�pios com mais de 20.000 habitantes para descobrir qual a cidade com melhor qualidade de vida para executivos. Ao contr�rio da ONU, que utilizou apenas os tr�s crit�rios b�sicos para seu ranking, a revista investigou dezesseis itens. Al�m de qualidade de ensino e atendimento de sa�de, foram levadas em conta quest�es como infra-estrutura urbana, seguran�a, op��es de lazer, perspectivas de carreira, polui��o e �rea verde. A campe� foi Porto Alegre.
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