Para�so Organizado                         Veja 27/05/1998
Bonito, em Mato Grosso do Sul, � um exemplo de como explorar o ecoturismo no Brasil

Quando o carro sai da estrada de terra e entra na parte asfaltada de Bonito, munic�pio a 260 quil�metros de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, uma placa anuncia: "Com a sua chegada, Bonito ficou lindo". O mimo faz parte do neg�cio, que � agradar ao m�ximo ao visitante. A regi�o de Bonito, onde h� grutas com lagos em tons azul-turquesa, enormes cachoeiras e rios cristalinos, est� cada vez mais voltada aos turistas. Num lugar onde predominavam a cria��o de gado e a minera��o de calc�rio, os fazendeiros descobriram que as muitas belezas de suas terras podiam gerar lucro mais r�pido. Em vez de abrir as portas ao turismo desenfreado, contudo, fizeram de Bonito um caso exemplar de preserva��o da natureza. O mais surpreendente � que muito pouco disso se deve ao governo. Foram os pr�prios donos das terras onde est�o as atra��es, as ag�ncias locais e as lideran�as da cidade que montaram um sistema para organizar os passeios e controlar a visita��o de uma forma que n�o prejudicasse o meio ambiente.

A primeira provid�ncia dos moradores de Bonito foi criar um conselho de representantes, o Comtur, do qual participam guias credenciados pela Embratur. O passo seguinte foi estabelecer um conjunto de regras para o turismo. Para conhecer os encantos da regi�o, compra-se um vaucher (esp�cie de ingresso de entrada) numa ag�ncia local. � obrigat�rio ir acompanhado de um guia e em um grupo organizado, cujo n�mero-limite fica entre oito e quinze pessoas, dependendo do local visitado. O pre�o que o visitante paga pelo vaucher, que varia de passeio a passeio, � depois repartido entre o dono da fazenda visitada, a ag�ncia que o vendeu, o guia que levou o grupo e a prefeitura, que fica com o imposto sobre servi�os, o ISS. Gra�as a essa f�rmula, o acesso a Bonito � limitado, a natureza � conservada, dificulta-se a a��o de visitantes predat�rios e, com a arrecada��o, o servi�o melhora. "O turismo deve ser explorado de forma consciente, para que possamos preservar o ambiente e atender todos os visitantes", diz o prefeito da cidade, Nercy Soares dos Santos.

A explora��o organizada do turismo j� deu a Bonito uma boa infra-estrutura para receber turistas. A cidade, com 16.000 habitantes, tem 43 hot�is e pousadas (de um quatro estrelas ao Albergue da Juventude), catorze campings, 23 ag�ncias e quarenta guias. No ano passado, a regi�o recebeu 60.000 turistas. Tudo � t�o bem-feito que em muitos lugares se tem a sensa��o de estar num parque ecol�gico da Disney. Os guias s�o atenciosos. As aventuras, como descer o Rio Formoso em bote de borracha, n�o oferecem perigo. E o cen�rio, em especial o Rio Sucuri, com �guas prateadas pelo reflexo do calc�rio, repleto de peixes e vegeta��o colorida, parece de fantasia. S�o as rochas de calc�rio que tornam as �guas l�mpidas nessa regi�o. Elas funcionam como um catalisador natural que ret�m o material org�nico em suspens�o. Por isso, da superf�cie � poss�vel observar cardumes de peixes coloridos nadando no fundo.

Para chegar � maior atra��o e cart�o-postal de Bonito, a Gruta do Lago Azul, recoberta por estalactites brancas de calc�rio e com �guas de profundidade ainda desconhecida mesmo com medi��es feitas por computador, � preciso descer uma escadaria de 90 metros. "Nunca pensei que pudesse fazer essas coisas", diz Guiomar dos Santos Cunha, 50 anos, fascinada ap�s vencer os degraus. "L� embaixo, parece que a gente est� com Deus." Apenas quinze pessoas podem entrar na gruta por vez, em fila indiana. S�o, no m�ximo, 225 visitantes por dia. "Tocar na �gua � proibido", explica o guia S�rgio Ferreira Gonzalez. Visitar o lugar sem guia nem pensar: a gruta fica trancada com cadeado para evitar depreda��es. No Aqu�rio Natural da Ba�a Bonita, a 7 quil�metros do centro da cidade, h� um espa�o com bar e piscina para que os pequenos grupos de turistas possam aprender a usar o snorkel, acostumar-se com a �gua, que se mant�m � temperatura m�dia de 20 graus, e aguardar sua vez de mergulhar na nascente cristalina, povoada de peixes. Um bote acompanha o mergulho para resgatar turistas sem f�lego.

Emo��es fortes � No Recanto Ecol�gico Rio da Prata, em Jardim, munic�pio vizinho de Bonito, pode-se mergulhar numa nascente repleta de peixes, entre eles enormes dourados, que nadam ao lado do turista, e ainda almo�ar a comida t�pica da fazenda. O programa custa 34 reais. Quem gosta de emo��es mais fortes tamb�m tem o que fazer em Bonito. O Abismo Anhumas, a 30 quil�metros da cidade, � uma gruta por onde s� se entra pendurado por cordas numa cadeirinha. S�o mais de 70 metros de altura, at� chegar a um lago de �guas azuis, cercado de estalagmites gigantes, formadas pela sedimenta��o do calc�rio. Feita a descida, � hora do mergulho, com snorkel ou cilindro. A visita, que custa 90 reais, inclui a ajuda do guia e de um instrutor, al�m do aluguel do equipamento.

� primeira vista, os pre�os de muitos passeios parecem salgados. A maioria dos programas sai entre 20 e 40 reais, n�o existe transporte barato para quem est� sozinho (� preciso pegar t�xi, que sai caro porque tudo � distante, ou tentar carona nas vans organizadas pelas ag�ncias). Contudo, est�o embutidos no pre�o um almo�o (sempre farto e delicioso) ou o aluguel dos acess�rios para a pr�tica de esportes. "Alguns reclamam que Bonito � caro, mas oferecemos aqui uma estrutura completa", justifica Laurent Beaudet, franc�s radicado no Brasil que cuida do Aqu�rio Natural (45 reais por pessoa). As taxas mant�m longe o turismo de massa e fazem o sistema ser invejado por outras cidades.

Bonito tornou-se o tema de interesse tamb�m de prefeitos e t�cnicos que querem ver como as coisas foram feitas ali para criar centros de ecoturismo em outros lugares. N�o h� unanimidade em Bonito quanto ao que fazer no futuro. A oposi��o acusa o prefeito de querer abrir a cidade para multid�es, porque em sua gest�o ele pretende construir um aeroporto (existe uma pista de pouso que s� permite dois v�os semanais em jatinhos) e asfaltar o peda�o restante da estrada at� Campo Grande (das quatro horas de viagem, uma � em estrada de terra). O prefeito garante que maior quantidade de turistas n�o vai implicar menor qualidade de atendimento. "J� existem ag�ncias demais para o porte de Bonito; vai ficar dif�cil controlar a visita��o de mais gente", fala Danielle Braga, dona da primeira ag�ncia de l�, a Hapakany. Enquanto Bonito for mantido como est�, contudo, o para�so ecol�gico dever� permanecer intato.

Snorkel na nascente do Rio Sucuri e descida de bote
nas corredeiras do Formoso: �guas claras,
vegeta��o colorida e aventuras organizadas com
guias, equipamento e seguran�a numa esp�cie
de parque de divers�es ecol�gico
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