Pa�s Inventado Veja 16/08/2000 ONU tenta criar numa ilha sem economia ou idioma uma na��o chamada Timor Leste
Timorenses voltam da Indon�sia com produtos b�sicos: um pa�s onde faltam cadeiras e mesas
Dezenas de pa�ses foram criados nos �ltimos cinq�enta anos � mas nunca se tentou fundar uma na��o sobre uma casca vazia, como est� ocorrendo atualmente numa meia ilha entre o Pac�fico e o �ndico. O Timor Leste carece da maioria das necessidades b�sicas: al�m de n�o ter m�dicos, dentistas, enfermeiros, contadores, advogados, professores e policiais, tamb�m n�o disp�e de mesas, cadeiras, panelas, linhas telef�nicas e, � bom que se diga, uma l�ngua comum para que os habitantes entendam uns aos outros. Tamb�m n�o conta com as institui��es fundamentais sobre as quais tantas na��es fincaram ra�zes (escolas, museus, tribunais coloniais, um c�digo legal, funcionalismo p�blico, pris�es, sinais de tr�nsito). Esse lugar an�rquico � o cen�rio de uma inusitada experi�ncia que a Organiza��o das Na��es Unidas apelidou de "constru��o de na��o". A ONU, na verdade, � o �nico governo que h� por l�. Na condi��o de chefe da administra��o transit�ria das Na��es Unidas em Timor, a Untaet, o brasileiro S�rgio Vieira de Mello �, pode-se chamar assim, o presidente em exerc�cio do Timor Leste. Quem desembarca no aeroporto de D�li, a capital, recebe o carimbo "Untaet" no passaporte.
Por que, afinal, se quer construir uma na��o em condi��es t�o adversas? A resposta: Timor Leste foi v�tima de uma ocupa��o brutal por tropas da vizinha Indon�sia, que exterminou metade da popula��o. Condo�dos, os pa�ses ricos sentiram-se na obriga��o de ajud�-lo. O Pr�mio Nobel at� foi concedido a duas figuras preeminentes da resist�ncia timorense. Num plebiscito no ano passado, 80% dos habitantes votaram pela independ�ncia e a ONU assumiu a tarefa de lhes dar um Estado, coisa que nunca existiu na ilha. Os portugueses, que l� chegaram em 1512, sa�ram �s pressas em 1975. Os integrantes dos v�rios movimentos de liberta��o nacional timorense passaram ent�o a se matar uns aos outros. A Indon�sia aproveitou para ocupar e anexar o lugar. Timor Leste � uma meia ilha do tamanho do munic�pio de Manaus, com popula��o equivalente � de Campinas e dividida em 36 etnias. A l�ngua dominante � o teto, que n�o tem gram�tica nem dicion�rio. A religi�o praticada pela maioria, o catolicismo, � um dos poucos tra�os fortes que une o pa�s a seu passado portugu�s. A fr�gil infra-estrutura existente foi destru�da nas duas semanas entre o plebiscito e a chegada das tropas de paz da ONU. A viol�ncia desatada pelo Ex�rcito da Indon�sia e por mil�cias contr�rias � autonomia n�o deixou pedra sobre pedra. Em vez de bombas e granadas, os v�ndalos usaram gasolina e f�sforo para incendiar o territ�rio. Nem os documentos de identidade das pessoas ou os t�tulos de propriedade de terras ou bens foram preservados. � sobre essa massa amorfa de popula��o, territ�rio e ru�nas que a ONU se prop�e, com a colabora��o de alguns timorenses retornados do ex�lio, a construir um pa�s.
Para n�o correr riscos, a ONU convocou um time de tecnocratas com experi�ncia em miss�es similares para integrar a linha de frente. � o caso do carioca S�rgio Vieira de Mello, que fez coisa parecida em Kosovo, a prov�ncia rebelde da Iugosl�via. "Encontramos um pa�s arrasado, sem institui��es ou gente capaz de assumir os cargos de comando", diz Vieira de Mello. Uma das primeiras medidas da miss�o da ONU foi a organiza��o do poder p�blico. Ele criou oito minist�rios e nomeou seus titulares � mas s� conseguiu quatro timorenses em condi��es de ser ministros. Na realidade, eles s� est�o l� porque � necess�rio treinar quadros para a administra��o do pa�s. O embri�o de um Parlamento surgiu com a cria��o do Conselho Consultivo, composto de representantes de v�rios setores da sociedade. O sistema judici�rio come�ou a ser colocado de p� com o recrutamento de ju�zes e advogados e a restaura��o das pris�es. Enquanto se redige um novo C�digo Penal, vigoram as leis indon�sias do tempo da ocupa��o. O Banco Mundial, a Austr�lia, o Jap�o e outros doadores entraram com cerca de 45 milh�es de d�lares para construir a infra-estrutura b�sica. Atualmente, � poss�vel fazer uma liga��o telef�nica para l� atrav�s de celulares habilitados somente na Austr�lia ou nos Estados Unidos.
A previs�o � de que a ONU permane�a por mais tr�s anos. Nesse meio tempo, os timorenses precisam aprender a viver em democracia. Um plebiscito j� est� previsto para a escolha da l�ngua oficial do pa�s. Al�m do teto, os mais jovens aprenderam o bahasa, falado na Indon�sia, e os mais velhos, o portugu�s. Os nacionalistas hist�ricos preferem o idioma do colonizador luso. "A l�ngua portuguesa se transformou no tra�o que nos distingue e nos deu o direito de reivindicar a independ�ncia", disse o l�der timorense Xanana Gusm�o ao jornalista Paulo Markun, que esteve em Timor Leste produzindo um document�rio para a STV, Rede Sesc de TV e TV Cultura de S�o Paulo. Xanana, que Vieira de Mello chama de "o pequeno Mandela", passou sete anos na cadeia e � agora candidato a presidente do futuro pa�s. Ele liderou uma resist�ncia mambembe, cujos remanescentes formam hoje o que h� de mais perto de um movimento pol�tico.
O d�lar americano foi adotado como moeda oficial, embora o povar�u s� tenha rupias indon�sias. O com�rcio � praticamente inexistente. Para a maioria, bastam os produtos de subsist�ncia oferecidos em feiras livres e por camel�s espalhados pelas cidades. Os mais sofisticados cruzam a p� a fronteira para fazer suas compras em Timor Oeste, uma prov�ncia da Indon�sia. Pequenas lojas abastecidas com produtos importados da Indon�sia ou da Austr�lia atendem �s necessidades de consumo dos 12.000 estrangeiros a servi�o da ONU. O Brasil participa com uma pequena for�a militar. A economia criada para atender os estrangeiros constitui a base de arrecada��o de impostos. A renda prevista para este ano � de 17 milh�es de d�lares, o valor do passe de um jogador de futebol m�dio no Brasil. |