Na Casa do Bar�o Veja 03/06/1998 Recuperadas, as antigas fazendas de caf� do Rio de Janeiro abrem as portas a visitantes
Prov�ncia do Rio de Janeiro, 18 de setembro de 1884. As mucamas prepararam durante dias o jantar que o bar�o de Vassouras, dono da Fazenda Cachoeira, ofereceu nessa noite. Os homenageados foram o conde D'Eu e sua mulher, a princesa Isabel, filha do imperador dom Pedro II, ent�o de passagem pela regi�o do Vale do Para�ba. As lou�as de porcelana francesa foram lustradas, a rouparia branca passada e todos os cuidados tomados a fim de tornar o encontro memor�vel. Para acompanhar o repasto, foram servidos oito tipos de bebida, entre elas garrafas de vinho franc�s Ch�teau Yquem (como era ainda chamado o atual Ch�teau d' Yquem). Havia 27 pratos, alguns batizados com nomes de santos e dos convidados: o ponche era "au conde D'Eu" e o palmito fazia as honras ao pr�prio anfitri�o. O menu era manuscrito em franc�s, mas as iguarias de europeu s� tinham o sotaque. Traduzindo o card�pio, ali se encontravam ingredientes brasileir�ssimos como lombinho e feij�o-preto. O epis�dio foi exemplar quanto ao requinte t�pico das grandes fazendas de caf� no Rio de Janeiro em sua �poca de ouro. Pena para o bar�o que os convidados tenham ajudado a selar a ru�na de sua fazenda. Pois foi a Lei �urea, com a qual a princesa Isabel aboliu a escravid�o quatro anos depois, que come�ou a decad�ncia econ�mica dos grandes propriet�rios em terras fluminenses.
Quase 114 anos mais tarde, a casa de 22 c�modos da Fazenda Cachoeira est� abrindo de novo os seus seis sal�es. Em vez do conde D'Eu e da princesa, os convidados s�o os turistas. Restaurada e pintada de rosa, a Cachoeira � uma das 25 antigas fazendas de caf� abertas ao p�blico no Vale do Para�ba. A partir desta semana, roteiros organizados por ag�ncias de turismo permitem viagens monitoradas por guias que mostram seus quartos e sal�es com mobili�rio, arte e decora��o de �poca. Tr�s das fazendas foram transformadas em pousadas. Comprada em 1900 pelo conde Jo�o Modesto Leal, a Ponte Alta, em Barra do Pira�, hospedou cinco vezes o ex-presidente Get�lio Vargas, que era amigo da fam�lia. Na d�cada de 60, foi vendida para a executiva Nellie Pascoli, do grupo Caemi, que morreu em 1982, passando a propriedade para seus sobrinhos. Hoje, os h�spedes pernoitam no lugar onde ficava a antiga senzala. As refei��es s�o feitas na antiga casa do engenho e a principal atividade s�o os passeios a cavalo. Na Fazenda do Arvoredo, pode-se ficar em um quarto com mobili�rio franc�s do s�culo passado e saborear uma t�pica comida mineira feita no fog�o a lenha original. A Fazenda S�o Policarpo, que possui objetos antigos como uma cole��o de porcelana portuguesa do s�culo passado, s� recebe seis casais por vez nos quartos dentro da casa-grande.
Mesmo as fazendas onde n�o existe hospedagem valem a visita. A S�o Fernando, do deputado federal Ronaldo Cezar Coelho, est� h� dez anos sob os cuidados de arque�logos, arquitetos e historiadores e possui 300 m�veis e outros objetos do s�culo XIX. A Casa da Hera, antiga ch�cara no munic�pio de Vassouras, foi transformada em museu, com roupas e objetos do s�culo passado. Nas fazendas do Arvoredo e Campo Alegre, as funcion�rias s�o paramentadas como as antigas mucamas. Ao chegar, os visitantes s�o recebidos por negros que cantam e dan�am como os antigos escravos. A exemplo dos castelos do Vale do Loire, no sul da Fran�a, elas procuram transportar os visitantes para a �poca de seu apogeu. Como os engenhos de a��car no Nordeste e as cidades mineiras do ciclo do ouro, as fazendas fluminenses ajudam a contar a maneira como as pessoas viviam no passado. A corte portuguesa, instalada no Rio desde 1808, estimulou a transfer�ncia da nobreza rural para a regi�o dos munic�pios de Barra do Pira�, Vassouras, Valen�a e Rio das Flores. "Os fazendeiros traziam para o Brasil tudo o que havia de melhor da Europa, dos tecidos de parede e m�veis aos arquitetos e marceneiros", conta a arquiteta Isabel Rocha, diretora do Museu Casa da Hera. Algumas fazendas chegaram a ter 5.000 hectares, mas foram divididas entre herdeiros ou vendidas aos peda�os. "Ao contr�rio do s�culo XVIII, quando os bar�es mediam sua riqueza pelo tamanho da terra, hoje s�o as casas que valorizam a propriedade", diz o corretor Artur M�rio Viana, que intermediou a venda de vinte fazendas a empres�rios. Nas m�os dessa nova classe, elas foram restauradas, resgataram o seu ar aristocr�tico e hoje custam at� 5 milh�es de reais.
Fazenda Cachoeira: m�veis do s�culo XIX e lustre com cristais bisotados do s�culo XVIII, iguais aos de Versalhes Piano feito pelo austr�aco Henri Herz em 1862, na Casa da Hera: s� existe um outro igual em Estrasburgo Fazenda S�o Policarpo: uma cole��o de x�caras de porcelana portuguesa do s�culo XIX, entre outras raridades Quarto do Arvoredo: mobili�rio franc�s do s�culo XIX e cama usada no clip She�s the Boss pelo roqueiro Mick Jagger |