A F�nix Alem� Veja 03/05/2000 Arrasada na II Guerra, Dresden est� sendo reconstru�da tal como era. O projeto � pol�mico Dresden ap�s o ataque dos aliados: uma j�ia barroca some do mapa
Durante s�culos, Dresden, no leste da Alemanha, foi conhecida como uma das mais belas cidades da Europa. Fundada no s�culo XIII, ganhou o apelido de "Floren�a do Elba", numa refer�ncia � riqueza de sua arquitetura e ao rio que a cruza. Dresden teve moradores ilustres como Goethe e Bach. O pintor veneziano Canaletto, um dos maiores de seu tempo, retratou seus pr�dios barrocos e ruas largas. Hoje, no entanto, a cidade � mais lembrada como palco de um dos mais devastadores ataques das for�as aliadas contra os alem�es na II Guerra. Em fevereiro de 1945, pouco antes do fim do conflito, 1.400 avi�es americanos e brit�nicos despejaram 3 500 toneladas de bombas sobre Dresden. Cerca de 35.000 civis foram mortos. A cidade ardeu por v�rios dias e, quando as chamas se apagaram, ela n�o passava de um monte de ru�nas. O bombardeio de Dresden passou � Hist�ria como um selvagem ato de vingan�a dos aliados, que �quela altura do conflito j� n�o precisavam recorrer a tal expediente para minar o moral alem�o. Foi uma inf�mia cometida em nome da democracia.
Nas d�cadas que se seguiram ao final da guerra, muitas cidades europ�ias trataram de reconstruir pr�dios, igrejas e monumentos de grande valor hist�rico e arquitet�nico. Os italianos, em particular, realizaram um trabalho magistral de reconstitui��o. Quem visita a Floren�a de verdade, por exemplo, custa a acreditar que algumas de suas mais belas constru��es foram duramente atingidas por bombas. Para os habitantes de Dresden, por�m, a tarefa de reconstru��o mostrou-se dific�lima. Com a divis�o da Alemanha, a cidade ficou no empobrecido lado oriental do Muro de Berlim. Os comunistas ressuscitaram alguns edif�cios importantes, como a Semper Opera, casa de espet�culos em que Wagner estreou v�rias de suas �peras. Mas foi muito pouco para que Dresden recuperasse seu brilho. Para piorar, na reconstru��o das �reas residenciais da cidade os comunistas optaram por levantar horrendos pr�dios populares que lembram caixas de charutos gigantes.
Desde a reunifica��o da Alemanha, no entanto, a recupera��o de Dresden entrou em outro ritmo. A cidade hoje � um grande canteiro de obras, bancadas tanto pelo governo quanto por doa��es da iniciativa privada. O objetivo � reerguer uma s�rie de constru��es e, paralelamente, criar uma nova Dresden, moderna e em sintonia com o lugar que a Alemanha ocupa entre as pot�ncias mundiais. Esse esfor�o, por�m, tem causado pol�mica. At� que ponto se pode reconstituir uma cidade antiga sem que o resultado pare�a falso e kitsch? Reconstruir quarteir�es inteiros em estilo barroco e rococ� n�o ir� criar um parque tem�tico em lugar de um s�tio hist�rico? Como combinar o antigo e o novo de maneira harmoniosa?
"Um crime" � Essa discuss�o tem sido particularmente acalorada no caso das ru�nas mais cultuadas pelos cidad�os de Dresden: as da Igreja de Nossa Senhora. Erguida em 1743, esta obra-prima da arquitetura de seu tempo sobrevive apenas em fotografias e nas pinturas de Canaletto. O bombardeio aliado a transformou em escombros � sobraram n�o mais do que duas paredes. Todos os anos, no dia 13 de fevereiro, uma multid�o de fi�is acorre ao local para lembrar o fat�dico dia do ataque. Pois bem, apesar da grita dos opositores do projeto, a Igreja de Nossa Senhora est� sendo reconstru�da tal como era antes do bombardeio, a um pre�o de 250 milh�es de d�lares. Ela deve ficar pronta em 2006, quando ser�o comemorados os 800 anos de Dresden. H� tr�s meses, a Inglaterra presenteou a cidade com uma r�plica da cruz que enfeitava a torre da igreja. O adere�o, que ocupar� o lugar do original, foi esculpido pelo filho de um dos pilotos que participaram do bombardeio de Dresden em 1945. "As lembran�as do ataque assombraram meu pai at� a morte", discursou o artista na ocasi�o. "Ele achava que os aliados cometeram um crime."
Diversas organiza��es n�o governamentais amealham fundos para a reconstru��o dos bairros hist�ricos da cidade. A mais conhecida delas, Friends of Dresden, � presidida h� seis anos pelo cientista G�nter Blobel, pr�mio Nobel de Medicina em 1999. Blobel, que vivia nos arredores de Dresden e assistiu a sua destrui��o quando tinha 8 anos, destinou integralmente o dinheiro do pr�mio � 1 milh�o de d�lares � �s obras de recupera��o. At� mesmo os 7 milh�es de turistas que visitam Dresden anualmente s�o convidados a dar alguma contribui��o. Pr�dios do s�culo XVIII j� foram reinaugurados, entre eles o imponente Taschenbergpalais. Resta saber se, ao fim da reconstru��o, Dresden voltar� a exibir seu antigo esplendor ou se converter� apenas numa Disneyl�ndia barroca. |