| Aqui se Vive Melhor Veja 07/04/1999 Florian�polis, a capital com jeito de cidade pequena, atrai cada vez mais migrantes ________________________________________ O que Florian�polis tem A Praia da Joaquina tem as melhores ondas para a pr�tica do surfe no pa�s Cem praias. Apenas uma impr�pria para banho no �ltimo ver�o A Lagoa da Concei��o � ideal para a pr�tica de esportes n�uticos Tr�nsito bom. Pequenos congestionamentos n�o roubam mais de quinze minutos do motorista Comprar � lei. A cidade fica em segundo lugar em consumo por habitante no pa�s Servi�os p�blicos exemplares Alfabetiza��o mais alta entre as capitais �ndices de criminalidade compar�veis aos da Europa Boas escolas, aluguel e alimenta��o pela metade do pre�o de S�o Paulo _________________________________________ Um fen�meno migrat�rio extraordin�rio vem ocorrendo na Regi�o Sul. Florian�polis, uma das capitais menos populosas e industriais do pa�s, est� recebendo um n�mero recorde de moradores de outras cidades atra�dos por uma aspira��o que se explica pela difusa id�ia da "qualidade de vida". Ao contr�rio de outras migra��es deste s�culo, como a dos nordestinos para a cidade de S�o Paulo nos anos 50 e a de funcion�rios p�blicos para Bras�lia nos anos 60, as fam�lias que est�o mudando para Florian�polis n�o correm atr�s de emprego ou de uma chance de prosperidade r�pida. Querem uma vida tranq�ila, sem o medo de assalto, o stress das horas de engarrafamento e a preocupa��o com o ambiente em que os filhos est�o crescendo. N�o s�o indicadores f�ceis de medir, mas Florian�polis � um o�sis para quem vem de uma metr�pole conturbada. Com exatas 100 praias, algumas semi-selvagens, a capital de Santa Catarina apresenta padr�o de vida de dar inveja. S�o menos de 300.000 habitantes, criminalidade t�o baixa quanto a das cidades europ�ias, o menor �ndice de analfabetismo entre as capitais, boas escolas, uma universidade federal destacada e dias de sol de padr�o nordestino. Essa profus�o de atributos tem atra�do um tipo especial de migrante: gente de classe m�dia e classe m�dia alta que corre atr�s de um emprego como todo mundo, mas muitas vezes d� mais import�ncia � tal "qualidade de vida" do que a um sal�rio alto. A fonoaudi�loga Maria Regina Cabral Vilela, 38 anos, conheceu Florian�polis nos anos 80. Em 1991, depois de tr�s anos na Inglaterra, ela passava f�rias na cidade quando encontrou uma cl�nica para trabalhar. Desistiu de um est�gio na Fran�a e de um emprego para ganhar bem em S�o Paulo. Hoje, ela mora em uma casa na Lagoa da Concei��o, bairro pacato a 12 quil�metros do centro, e reserva seus fins de tarde para pescar com o filho Thales, que aos 5 anos maneja bem uma vara de pesca. Os frutos da pescaria s�o limpos pelo garoto e v�o para a mesa do jantar. "Como ele poderia ter uma vida assim em S�o Paulo?", pergunta. No �nico �ndice que tenta aferir a qualidade de vida nas cidades brasileiras, Florian�polis est� a l�guas de dist�ncia da m�dia nacional. A tabela � chamada de �ndice de desenvolvimento humano, IDH, e foi preparada com crit�rios da Organiza��o das Na��es Unidas levando em conta dados de educa��o, renda e expectativa de vida. A capital catarinense foi considerada a segunda melhor cidade para viver. A sua nota foi 0,833, numa escala com m�ximo de 1. Perdeu por pouco para a pequena Feliz, um munic�pio pacato de 15.000 habitantes na Serra Ga�cha. H� outros levantamentos que comprovam a boa vida catarinense. Uma pesquisa recente da ag�ncia Target mostra que o p�blico de l� � o segundo maior mercado consumidor per capita do pa�s. Cada morador de Florian�polis gasta em m�dia 5.310 d�lares por ano em compras em supermercados e lojas � 900 d�lares a mais que os paulistanos em seus trinta shoppings. Padr�o europeu � O alto poder de consumo � indicativo de uma cidade onde as pessoas ganham bem. Dois de cada tr�s moradores est�o na classe A, B ou C. Florian�polis tem a segunda maior concentra��o de ve�culos do pa�s, com um carro para cada dois habitantes, a mesma rela��o encontrada nos Estados Unidos. Proporcionalmente, h� cinco vezes mais telefones celulares na ilha que a m�dia nacional. E, para dar inveja � classe m�dia de outras capitais, a cidade � tranq�ila. No ano passado, ocorreram 29 homic�dios em toda a regi�o metropolitana. � metade do que acontece em um fim de semana em S�o Paulo. Isso d� uma m�dia de cinco assassinatos para cada grupo de 100.000 habitantes � padr�o europeu. Despreocupados, os moradores dirigem com os vidros abertos e os pedestres caminham sossegadamente durante a noite na Avenida Beira-Mar. O engenheiro Jos� Ari Sundfeld, casado e pai de tr�s filhos, deixou S�o Paulo em 1995 em dire��o � ilha depois que a esposa, Cec�lia, foi assaltada quatro vezes em um ano. Cansado da viol�ncia e de perder tr�s horas por dia para ir de casa at� o trabalho, ele vendeu sua empresa de com�rcio exterior e montou uma franquia da rede de lanchonetes McDonald's. O casal trabalha dez horas por dia, mas, pela facilidade de tr�nsito, tem tempo para caminhar todas as manh�s e fazer gin�stica. Os tr�s filhos praticam equita��o e fazem passeios de barco nos fins de semana. "Custa muito morar em S�o Paulo", explica Sundfeld. "Aqui eu n�o gasto uma fortuna em alarmes, carro blindado e seguran�as." � um pensamento comum em quem decide abandonar a metr�pole. "As pessoas est�o buscando cidades que aliem os recursos das metr�poles a rela��es sociais mais pr�ximas, t�picas de lugares menores", explica o professor Jos� Guilherme Magnani, especialista em antropologia urbana da Universidade de S�o Paulo. Turistas argentinos � Qualquer pessoa que muda de uma cidade para outra passa por um per�odo normal de adapta��o. � dif�cil escolher o bairro para morar e leva tempo at� se sentir em casa. Os filhos precisam acostumar-se com a nova escola e os novos colegas. E o novo emprego vai exigir maior dedica��o, diminuindo inicialmente o tempo dispon�vel para a fam�lia. No caso de Florian�polis, a troca ganha dois ingredientes adicionais. O primeiro: em geral, os migrantes s�o oriundos de cidades maiores e podem, no princ�pio, sentir falta da agita��o das metr�poles. Afinal, a cidade tem apenas sete cinemas, um teatro e dois shopping centers. A divers�o noturna se resume ao fim de semana. H� centenas de restaurantes, mas nenhum � sofisticado. O segundo ingrediente: sua popula��o triplica nos feriados e durante o ver�o, muito em fun��o da vinda de uruguaios e argentinos. Para a maior parte das pessoas que n�o moram em cidades tur�sticas � estranho ver Florian�polis ficar lotada em vez de esvaziar-se nos fins de semana. De quebra, quando a cidade enche, os pre�os sobem. O dinheiro em Florian�polis tem um valor diferente do das grandes capitais. Embora os sal�rios sejam menores, o custo de vida tamb�m � menor. Pode-se encontrar um apartamento de tr�s quartos por 700 reais por m�s de aluguel, metade do pre�o praticado em S�o Paulo. A mensalidade escolar tamb�m � bem menor da que se paga nas grandes cidades. E um bom jantar para dois sai por 20 reais, com direito a bebida. Esse foi um dos motivos que pesaram na decis�o do coronel da reserva carioca Walter F�lix, de 46 anos. Ele morou em seis capitais nos �ltimos trinta anos e seus quatro filhos adolescentes nasceram em tr�s cidades diferentes. Quando foi para a reserva, no ano passado, F�lix decidiu morar em Florian�polis. Construiu uma casa sem muros a cinco minutos da praia. Tr�s vezes por semana, ele pega a bicicleta e vai jogar t�nis. "N�o decidi sozinho. Minha fam�lia toda se apaixonou pela cidade", diz F�lix, que trabalha como consultor de seguran�a e intelig�ncia para empresas. "Eu poderia ganhar mais em S�o Paulo ou no Rio, mas aqui tenho � disposi��o coisas que o dinheiro n�o compra." |
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