Adeus � Mis�ria Veja 10/05/2000 Pa�s que j� foi um dos mais pobres da Europa vira high tech, prospera e j� importa oper�rios Pr�dios novos de Dublin em contraste com a tradi��o rural: o Tigre Celta
Sabe a Irlanda, a �nica rep�blica das ilhas brit�nicas que de t�o atrasada e pobre nem seus habitantes ag�entavam e tinham como �nica solu��o para seus problemas o aeroporto? Esque�a essa imagem. Depois de cinco anos de milagre econ�mico, com uma taxa de crescimento de 9% ao ano (�ndice t�o espetacular que s� � compar�vel ao da China), o pa�s mudou. O salto para a frente � decorr�ncia da instala��o de uma formid�vel ind�stria de alta tecnologia e da explos�o do turismo. A Irlanda � hoje o segundo maior exportador de software, atr�s apenas dos Estados Unidos. O desenvolvimento, que substituiu a imagem de buc�lica pasmaceira rural por uma paisagem urbana repleta de modernas constru��es, inverteu tamb�m a m�o do tr�fego dos migrantes. O melhor de tudo � que a economia vai bem e o povo tamb�m. Pesquisa feita nos quinze pa�ses da Uni�o Europ�ia apurou que 78% dos irlandeses est�o satisfeitos de viver na Irlanda. Foi a taxa mais alta de aprova��o. O mesmo term�metro atribuiu aos ingleses um �ndice de 60% de contentamento, aos franceses, 43%, e aos alem�es, 16%.
A Irlanda, que tem popula��o de 3,7 milh�es de habitantes, abriu 200.000 postos de trabalho desde 1997, e agora o que falta s�o trabalhadores. Exportador de m�o-de-obra por s�culos, o pa�s passou a arrebanhar gente no exterior. Est� acolhendo tamb�m uma grande quantidade de irlandeses que retornam. Dos 47.500 imigrantes que chegaram ao pa�s em 1999, mais da metade eram descendentes de irlandeses ou irlandeses que haviam deixado a terra por falta de oportunidades. A despeito dos filhos ilustres e com repercuss�o internacional, como o escritor James Joyce e, mais recentemente, a banda pop U2 e a cantora Sin�ad O'Connor, os irlandeses cultivavam um penoso complexo de inferioridade. Hoje t�m fartos motivos para se orgulhar do pa�s. O Tigre Celta, como est� sendo chamado em analogia ao surto econ�mico dos Tigres Asi�ticos, j� ocupa o quinto lugar no ranking dos pa�ses mais competitivos, de acordo com o International Institute for Management Development. O Brasil est� em 16� lugar na mesma lista. Entre os requisitos que tornam um pa�s competitivo est�o a estabilidade pol�tica, a efici�ncia e a transpar�ncia da administra��o p�blica e o investimento em educa��o e na forma��o de m�o-de-obra.
Como Portugal e Espanha, a Rep�blica da Irlanda contou com o empurr�o amigo e o investimento maci�o de recursos da Uni�o Europ�ia para transpor o fosso que a separava da maioria dos pa�ses europeus. Saiu-se bem porque ofereceu aos investidores impostos dois ter�os mais baixos que os da vizinha Inglaterra, financiamentos camaradas e uma m�o-de-obra jovem (40% dos irlandeses t�m menos de 25 anos), com boa escolaridade e que fala ingl�s. O pa�s � o campe�o europeu de investimentos estrangeiros, com mais de 1.000 multinacionais instaladas, boa parte delas atuando no efervescente setor de alta tecnologia. At� virar tigre, a Irlanda era conhecida sobretudo por suas encrencas. No s�culo XIX, meia d�cada de fome brutal expulsou mais de um ter�o da popula��o, sobretudo para os Estados Unidos. No come�o do s�culo seguinte, ensang�entou-se numa revolta contra o jugo ingl�s. Independente, tornou-se um pa�s rural, dominado por latif�ndios e por um catolicismo profundamente conservador (a lei que autoriza o div�rcio s� foi aprovada em 1995). Para piorar, divide a ilha com a Irlanda do Norte, sob o dom�nio da Inglaterra. � um lugar convulsionado pelo terrorismo e pelas rixas entre cat�licos e protestantes. Nos anos 80, a Irlanda mergulhou na recess�o, e o desemprego brutal causou nova onda de emigra��o. S� em 1987, 80.000 pessoas pediram visto de resid�ncia nos Estados Unidos.
Tudo vai bem? Bom, a infla��o de 5% � o dobro da m�dia dos demais pa�ses da Uni�o Europ�ia. O Banco Central Europeu j� pediu provid�ncias ao governo irland�s. "O que querem que eu fa�a? Que aumente os impostos e reduza as despesas p�blicas, agora que as coisas v�o t�o bem?", pergunta o ministro das Finan�as, Charlie McCreevy. Qualquer irland�s com mais de 30 anos, que ficou marcado pelos tempos dif�ceis em que a procura por emprego era sin�mino de emigra��o, com certeza concorda com o ministro: n�o se mexe em time que est� ganhando. |