O Rival do Aur�lio Veja 29/04/1998 Chega �s livrarias o Michaelis, novo grande dicion�rio da l�ngua portuguesa
Publicado originalmente em 1975, o Aur�lio reinou ao longo de 22 anos como �nico dicion�rio moderno da l�ngua portuguesa organizado por brasileiros e voltado para o Brasil. Incontest�vel pai-dos-burros, ele vendeu 13 milh�es de exemplares de duas edi��es. Agora chegou o momento de enfrentar a concorr�ncia. Lan�ado na semana passada em S�o Paulo, um novo dicion�rio aparece para brigar pelo trono, o Michaelis. Ele tem 201.174 verbetes, cerca de 76.000 a mais que o velho Aur�lio, cuja �ltima atualiza��o ocorreu em 1986. D� uma aten��o toda especial �s ci�ncias e t�cnicas surgidas nas �ltimas d�cadas, sobretudo a inform�tica. E pretende refletir uma realidade ling��stica mais "urbana", mais uniforme, menos marcada por regionalismos, arca�smos e pelas palavras pitorescas que o Aur�lio sempre teve prazer em registrar, recorrendo freq�entemente a exemplos tirados de escritores consagrados.
Assim como o Aur�lio foi batizado para homenagear seu organizador, o ling�ista Aur�lio Buarque de Holanda Ferreira, o Michaelis ganhou seu nome das irm�s Henriette e Carolina Michaelis de Vasconcelos, esta uma lexic�grafa de origem alem� que viveu em Portugal no final do s�culo passado. Nas primeiras d�cadas do s�culo XX, Michaelis deixou de designar uma autoria para se transformar numa marca em Portugal. No Brasil, a griffe pertence � Editora Melhoramentos h� quarenta anos, numa linha que inclui dezoito dicion�rios bil�ng�es e outros produtos, como dicion�rios ilustrados e em CD-ROM. O Michaelis, ali�s, sai tamb�m em CD-ROM, mercado que cresce no Brasil, embora ainda n�o chegue perto do dos dicion�rios em forma de livro.
O Michaelis � Moderno Dicion�rio da L�ngua Portuguesa come�ou a ser escrito dez anos atr�s. Ao todo, 84 pessoas chegaram a estar envolvidas no projeto, entre lexic�grafos, etimologistas, revisores e colaboradores externos de diversas �reas do conhecimento. Segundo Walter Weiszflog, editor do Michaelis, o crit�rio para a inclus�o de um termo no novo dicion�rio foi seu emprego comprovado em pelo menos tr�s ve�culos id�neos de m�dia impressa � jornais e revistas de boa circula��o, livros, publica��es acad�micas e t�cnicas etc. Por isso palavras como "deletar" e "inicializar", repetidas por qualquer pessoa que j� tenha estado diante de um computador e que normalmente causam convuls�es nos gram�ticos, por ser empr�stimos desnecess�rios do ingl�s (afinal, os equivalentes em portugu�s s�o bem simples: "apagar" e "iniciar"), est�o rigorosamente listadas no dicion�rio. Outra novidade � que todos os verbetes t�m a indica��o da divis�o sil�bica, o que facilita a vida dos estudantes.
Apesar de seus mais de 200.000 verbetes, o Michaelis continua sendo um dicion�rio m�dio para os padr�es internacionais. Nos Estados Unidos, uma obra como o Webster re�ne mais de 450.000 palavras e express�es. Como o portugu�s tem menos palavras que o ingl�s, um dicion�rio brasileiro que fosse completo teria, calcula-se, cerca de 300.000 verbetes. Semelhantes no modelo � um dicion�rio em apenas um volume, pr�tico, manuse�vel e acess�vel ao bolso do brasileiro �, h� boas diferen�as de estilo entre o Aur�lio e o Michaelis. Alagoano, o professor Aur�lio sempre foi bastante cuidadoso ao registrar os regionalismos. Ele tinha correspondentes espalhados pelo Brasil que se encarregavam de mant�-lo informado a respeito de express�es e neologismos. Outra caracter�stica que salta aos olhos � o m�todo de exemplifica��o: no Aur�lio, sempre que poss�vel, trechos de escritores cl�ssicos s�o transcritos para clarificar e confirmar a acep��o de um termo.
No Michaelis, os regionalismos est�o presentes, mas n�o chamam tanto a aten��o. Quanto aos exemplos, saem menos da literatura do que das express�es do dia-a-dia. "Acreditamos que os fluxos de migra��o no Brasil, assim como a grande influ�ncia da m�dia, diminu�ram o impacto dos regionalismos", diz Weiszflog. "Al�m disso, o universo de publica��es aumentou tanto nos �ltimos anos que a grande literatura n�o pode mais ser considerada a fonte privilegiada de novas palavras." Outra caracter�stica do Michaelis � n�o registrar acep��es pejorativas de determinadas palavras (veja quadro). Essa decis�o pode ser politicamente correta, mas � empobrecedora do ponto vista ling��stico.
At� o ano 2000, o brasileiro deve ser brindado com outros dois dicion�rios ambiciosos e bem diferentes, tanto do Aur�lio como do Michaelis. O primeiro, cujo lan�amento est� programado para o fim de 1999, ainda sem nome definitivo, poder� ter o t�tulo de Dicion�rio �tica-Borba da L�ngua Portuguesa. Seu organizador � Francisco da Silva Borba, lexic�grafo da Universidade Estadual Paulista, em Araraquara, que comanda uma equipe de oito pessoas. Ser� o primeiro dicion�rio brasileiro organizado segundo o modelo ingl�s, que trabalha com o conceito de "ocorr�ncia". Nesse modelo, o dicion�rio se preocupa em esmiu�ar os v�rios sentidos de uma mesma palavra a partir das diferentes situa��es em que ela aparece. � um dicion�rio necessariamente rico em exemplos, que s�o a base para a explica��o das diversas acep��es de um termo. Pelo modelo franc�s, seguido pelos dicion�rios existentes no Brasil, a obra de Francisco Borba pareceria pequena, por conter apenas 65.000 verbetes. Mas, se fosse diagramada exatamente como o Aur�lio, teria 700 p�ginas a mais do que ele.
Portugal � O outro grande projeto em andamento vem do Instituto Ant�nio Houaiss de Lexicografia. Ele est� sendo desenvolvido h� mais de dez anos. Depois de uma interrup��o, os trabalhos foram retomados no ano passado e devem ser conclu�dos no ano 2000. Contando com o patroc�nio da Petrobr�s, da Embratel e da Telerj no total de 6 milh�es de d�lares, o projeto foi considerado de alta relev�ncia pelo Minist�rio da Cultura e est� inclu�do nas celebra��es dos 500 anos do Descobrimento. O grande diferencial desse dicion�rio � o prop�sito de registrar as modifica��es da l�ngua portuguesa de 1580 � ano da morte de Lu�s de Cam�es � at� hoje. Pela primeira vez um dicion�rio vai fazer a data��o das palavras, tanto do in�cio do uso quanto das acep��es. As etimologias ser�o caprichad�ssimas, bem como as informa��es gramaticais. "Ao contr�rio dos outros dicion�rios existentes no Brasil, o nosso tamb�m trar� as palavras e acep��es utilizadas em Portugal e nos pa�ses africanos e asi�ticos que falam o portugu�s", conta Mauro de Salles Villar, s�cio e diretor t�cnico do instituto.
Todos esses dicion�rios podem parecer um exagero, mas n�o s�o. A maioria dos pa�ses europeus tem sete ou oito grandes dicion�rios de uso corrente, que dialogam uns com os outros e cobrem diferentes lacunas. Numa l�ngua que est� em constante mudan�a, recebendo novas palavras a cada dia, os dicion�rios s� podem ser "obras abertas", em constante altera��o. "Passamos tantos anos tendo apenas o Aur�lio porque os estudos ling��sticos no Brasil evolu�ram devagar demais", afirma Mauro Villar. "O surgimento de novos dicion�rios n�o significa que os antigos perderam validade. Pelo contr�rio. A tend�ncia � que todos passem a crescer mais rapidamente e de maneira complementar." |