| Capitu de Verdade Veja 11/08/1999 Teria a mulher de Jos� de Alencar tra�do seu marido com Machado de Assis? Capitu, a mulher com "olhos de ressaca", traiu ou n�o seu marido Bentinho? Mote do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, esse � o mais c�lebre enigma da literatura brasileira. P�ginas e p�ginas de cr�tica j� foram gastas na tentativa de esclarec�-lo. Aqueles que ficam com a resposta afirmativa aceitam as raz�es de Bentinho, que � o narrador do livro: seu filho n�o tem nada a ver com ele, mas � a cara de seu amigo Escobar. A semelhan�a seria a prova do adult�rio de Capitu. Em duas cr�nicas escritas na semana passada para um jornal paulista, o escritor Carlos Heitor Cony acrescentou lenha a essa fogueira. E que lenha! Segundo Cony, a trai��o do livro � baseada num epis�dio da vida do pr�prio Machado. Sua tese � de que o autor de Dom Casmurro cobi�ou a mulher de um pr�ximo, assim como o personagem Escobar, e com ela gerou um filho, que Cony identificou com as iniciais M. de A. "Eles tinham a mesma testa, o mesmo cabelo crespo e alguns tiques iguais", escreveu Cony, acrescentando que M. de A. sofria de epilepsia, como Machado. Desse modo, com uma �nica penada, ele n�o apenas teria resolvido o grande mist�rio de nossa literatura, como tamb�m exposto uma passagem escandalosa da vida do maior escritor brasileiro, um homem que primava pela discri��o. Nome aos bois � Para chegar a tais conclus�es, Cony desenterrou fofocas quase esquecidas. Em seu primeiro texto, publicado na quarta-feira, ele disse ter recorrido a "cr�nicas daquele tempo". Citou como testemunhas o m�dico Afonso Mac-Dowell, que atendia v�rios acad�micos, e o escritor Humberto de Campos. Mesmo utilizando o artif�cio das iniciais, ele dava a entender qual seria a identidade do tal filho misterioso: o diplomata Magalh�es de Azeredo, pessoa a quem Machado dedicou uma amizade paternal. Mas num segundo texto, que foi publicado no s�bado, Cony reconhece que sua fonte principal foi uma cr�nica do livro Di�rio Secreto, de Humberto de Campos (veja quadro). Cony diz que as iniciais podem n�o ser do diplomata, mas continua sustentando sua tese pol�mica: o adult�rio de Dom Casmurro tem como fundamento experi�ncias do pr�prio Machado de Assis. O que Cony n�o se atreveu a fazer foi dar o passo seguinte. Ou seja, dar nome aos bois e tornar ainda mais escabrosa toda essa hist�ria. Pois, se M. de A. n�o � Magalh�es de Azeredo, s� pode ser o escritor M�rio de Alencar, filho do romancista Jos� de Alencar e de Georgiana Cochrane. Em sua cr�nica, Humberto de Campos chega a escrever as iniciais do suposto marido tra�do: J. de A. Em outras palavras: dois dos principais literatos do s�culo XIX teriam sido v�rtices de um tri�ngulo amoroso. Se verdadeira a hip�tese, n�o foi s� no campo da literatura que o realismo de Machado deu cabo do romantismo de Alencar. O relacionamento entre M�rio de Alencar, autor de pouca notoriedade, e Machado de Assis realmente era pr�ximo. "M�rio, que n�o se dava bem com Jos� de Alencar, at� se referia a Machado como pai em suas cartas", lembra o escritor Antonio Olinto, conhecedor da vida de ambos. Como ningu�m vai se dispor a fazer um teste de DNA nos restos mortais dos escritores, a insinua��o de Humberto de Campos, cacifada por Cony, dificilmente ser� provada. De qualquer forma, n�o deixa de ser uma ironia que se levante uma suspeita dessas em rela��o a Machado de Assis, um escritor que dizia que jamais escreveriam uma boa biografia sua, "porque ningu�m � mais reservado nessa mat�ria do que eu". Humberto levantou a bola Havia, realmente, nos dois, tra�os fision�micos que corriam paralelos. E aquela afei��o paternal de Machado de Assis, t�o desconfiado nas suas amizades e, no entanto, t�o ligado a M. de A., cuja presen�a na velhice n�o dispensava um s� dia? Meses depois, em uma das minhas visitas ao consult�rio de Afonso Mac-Dowell, meu m�dico e amigo, este me recebe exclamando: � Se voc� chega dois minutos antes, encontraria aqui um colega seu, da Academia. � Qual deles? � O M... M. de A. Sem a menor lembran�a, no momento, das palavras de Goulart de Azevedo, falei-lhe do nervoso do M., o qual n�o sa�a � rua sem companhia de um ou dois filhos. � Nervoso, s�, n�o � atalhou o m�dico. E com ares misteriosos: � Eu lhe digo aqui com a devida reserva: o M. � epil�tico. Essa informa��o p�s um raio de luz em minha d�vida. J. de A. jamais sofreu de epilepsia. Machado de Assis morreu dessa mol�stia. Como explicar, pois, a epilepsia de M. de A.? Mergulhei no oceano desse mist�rio, tateantes as m�os do meu pensamento. Dom Casmurro n�o ser� uma hist�ria verdadeira? Aquele amigo que trai o amigo, aquele filho que fica de uns amores clandestinos, n�o seriam p�ginas de uma autobiografia? Trecho de cr�nica de Humberto de Campos, em que o autor insinua que Machado de Assis teve um caso com a mulher de Jos� de Alencar Jos� de Alencar, Machado de Assis e M�rio de Alencar: ele chamava Machado de Assis de pai e, como o autor de Dom Casmurro, tinha epilepsia |
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