Vidas em Suspenso                            Veja 18/02/1998
O dia-a-dia de fam�lias que cuidam, em casa, de parentes em coma vegetativo h� v�rios anos

"Quando vimos que ele iria ficar assim, decidimos lhe dar o conforto de ter uma fam�lia"
Fam�lia Shimabukuro, cujo patriarca � cercado de tudo o que faltou a Leda Collor no hospital

"Meu pai est� a� no quarto ao lado, t�o perto, e ao mesmo tempo sinto essa saudade imensa dele...", constata a bi�loga Yone, 44 anos, uma das seis filhas do patriarca Paulo Seikichi Shimabukuro, enquanto prepara caf� na cozinha. O pai de quem sente saudade est� emoldurado na parede da sala, num retrato a �leo sobre fotografia, em que aparece, triunfante, com um peixe gra�do em cada m�o. � o �ltimo instant�neo de uma vida interrompida por um derrame, aos 67 anos. A foto foi tirada poucos meses antes de ele mergulhar num estado de coma vegetativo, por falta de oxigena��o no c�rebro, treze anos atr�s. N�o treze semanas ou meses. Treze anos. Na �poca, Yone estava em sua primeira gravidez. "Quando fui v�-lo no hospital, o pai ainda conseguiu passar a m�o na minha barriga, bem devagar, mas j� n�o podia mais falar. Foi nosso �ltimo grande di�logo", relembra, como se fosse ontem. Seu Paulo jamais soube da linda neta que brotou daquele barrig�o, nem dos seis outros netos que nasceram depois de 1985. Est� em coma v�gil  isto �, sem consci�ncia, mas com as fun��es org�nicas preservadas pela atividade m�nima do c�rebro. Sua condi��o � um pouco como a de uma pessoa que tenha partido tempor�ria ou permanentemente do corpo que habita. Que pode dormir, acordar, dar provas de alguns reflexos, aparentar sorrir ou contorcer a fisionomia, talvez reagir a est�mulos sonoros ou visuais  mas tudo sem conte�do algum. Do ponto de vista neurol�gico, um quadro considerado irrevers�vel. Estatisticamente falando, ele est� entre os 4% que permanecem em coma vegetativo tr�s meses depois da les�o sofrida. Dos 96% que se recuperam, 8% ficam com seq�elas graves, 22% com seq�elas moderadas e a grande maioria  66%  reassumem o que os m�dicos chamam de "vida normal".

A apar�ncia f�sica de seu Paulo, aos 80 anos, � espantosamente boa  pele lisa, poucos cabelos brancos, o corpo mi�do n�o enrijecido. Nem sequer tem escaras, as temidas feridas que costumam brotar em 78% dos pacientes imobilizados por longo tempo. N�o est� acorrentado a nenhum aparelho de vida artificial, e o ambiente a sua volta n�o tem dureza hospitalar. Est� em casa, cercado de vida familiar. � primeira vista, mal se nota a fin�ssima sonda nasal que o mant�m alimentado, ou o orif�cio da traqueostomia, na garganta, que permite a aspira��o manual de suas secre��es pulmonares. � a inexor�vel atrofia da massa muscular, mais acentuada nas m�os e nos p�s, que trai o seu estado degenerativo. Sem comando de nenhum movimento al�m da abertura ocular espont�nea, resta-lhe o olhar  um olhar ao mesmo tempo fixo e fugidio, que para a fam�lia Shimabukuro � tudo. Faz as vezes de cord�o umbilical afetivo. Sempre que o marido abre os olhos, dona J�lia Tsuru procura alguma migalha de comunica��o  real ou imagin�ria. Assim �, h� 4800 dias. As filhas Yone, Cleide, Elizabeth, Vilma, Rose e Eriete, que se revezam no plant�o di�rio � cabeceira do pai, tamb�m buscam pistas naquele olhar. Assim �, desde o long�nquo ano em que o Brasil ainda vivia a agonia de Tancredo Neves, e a Aids revelava sua primeir�ssima v�tima c�lebre, Rock Hudson. Treze anos de vidas em suspenso.

Rose: "Nossa maior ang�stia est� em n�o saber o quanto ele sofre"

Nenhuma das irm�s Shimabukuro  com idade entre 37 e 55 anos, empregos a manter e casas pr�prias para cuidar  se lamuria ou se declara estressada. Sabem que est�o dando ao pai  um imigrado, que chegou de Okinawa em 1918 e levou uma vida de trabalho bra�al  o que nenhum hospital do mundo, ou plano de sa�de milion�rio, pode oferecer: o manuseio respeitoso do seu corpo passivo, e a determina��o de suprir os limites da ci�ncia m�dica com a pr�tica da observa��o. Instalado numa cama hospitalar em sua pr�pria casa, perto do Aeroporto de Congonhas, em S�o Paulo, o patriarca Shimabukuro n�o � um paciente ocupando uma cama. Ele � ponto de refer�ncia e fonte de uni�o de uma fam�lia dedicada e alegre  o que, mesmo para quem est� inconsciente, parece fazer diferen�a. "A sobrevida de pacientes em coma vegetativo permanente depende muito de cuidados gerais, e a dedica��o da fam�lia � o melhor tratamento. Quando o quadro � estacion�rio, vale mais do que a aten��o do neurologista", pondera o neurocirurgi�o Jorge Roberto Pagura, do Hospital Israelita Albert Einstein, de S�o Paulo.

Vilma: "M�dicos n�o gostam de vir ver o pai. Devem pensar que � perda de tempo" 

Quanto o organismo humano pode funcionar sem a pessoa estar consciente ficou provado de forma dram�tica dois anos e meio atr�s, quando uma americana de 29 anos, v�tima de traumatismo craniano e em estado vegetativo h� uma d�cada, foi estuprada e engravidou. O beb� nasceu sem nenhuma a��o, rea��o ou participa��o da m�e, levantando quest�es quase metaf�sicas que costumam atormentar as fam�lias de pacientes em coma v�gil: o que � o esp�rito humano? e a alma? onde come�a a fronteira do estado de inconsci�ncia? "Nossa ang�stia toda � n�o saber se ele sofre, e quanto", pondera a ca�ula Rose, que tinha 24 anos e estava-se formando em enfermagem pela Universidade de S�o Paulo quando o pai entrou em coma. Ainda sente uma fisgada de culpa por n�o ter podido fazer nada. At� a d�cada de 80, a Academia Americana de Neurologia mantinha posi��o inequ�voca a esse respeito: no coma, n�o h� dor. Tr�s anos atr�s, por�m, ap�s registrar amplo desacordo entre seus membros, a entidade matizou sua posi��o, passando a admitir que uma pessoa em estado de coma ou estado vegetativo pode sentir o corte de um bisturi.

Mesmo entre as filhas de seu Paulo, n�o h� unanimidade. "N�o acho que ele sinta dor, mesmo quando franze a testa", diz Beth, a filha comerci�ria, de 55 anos, para quem o pai costumava cantar Maria Bonita. Alguns anos atr�s, Beth ainda se despencava at� o Museu do Disco, no centro de S�o Paulo, para achar a vers�o da can��o que o pai mais gostava. Dado que apenas 10% do funcionamento do c�rebro est� mapeado pela ci�ncia, por que n�o tentar usar Maria Bonita como igni��o da consci�ncia perdida do pai? N�o adiantou. J� a auditora da Receita Federal Eriete, de 40 anos, est� convencida de que o pai sente dor sim. E Vilma, a esteticista da fam�lia, convive com a d�vida. "At� alguns anos atr�s, ele estancava uma express�o no rosto, como que querendo gritar. Era como um choro convulsivo, sem voz. Fico agoniada em querer saber. At� hoje me sinto incomodada em usar a palavra coma perto do pai  tenho o sentimento que ele capta as coisas." Yone, a bi�loga, tamb�m procura respostas. "Experimento dormir na mesma posi��o desconfort�vel que ele. Na minha casa, acordo � noite imaginando quanto o forro pl�stico de sua cama deve incomodar neste calor. Ainda assim, quando penso que vai acontecer o pior, me d� desespero", admite. Fica arrasada quando encontra um amigo ou conhecido que pergunta, na melhor das inten��es, "O seu pai ainda est� vivo? Coitada da sua m�e". Apesar dos treze anos de vig�lia, ningu�m do cl� Shimabukuro est� preparado para a despedida final. E ainda menos para abordar a quest�o da doa��o de �rg�os para transplante, em caso de morte encef�lica. Embora aceitem com naturalidade doar seus pr�prios �rg�os, as seis filhas deixam claro que naquele pai que luta h� tanto tempo para se manter vivo ningu�m haver� de tocar. Jamais falaram disso. Nem � preciso.

Eriete: "�s vezes ele me d� a impress�o de estar gritando, mas sem voz"

"Durante um estado vegetativo prolongado", sustenta Annette Hoffmann, assistente social da Unidade de Recupera��o do Coma do Hospital Southside, em Nova York, "tudo o que j� existia, no �mbito de uma fam�lia, � ampliado, multiplicado. Uma fam�lia que j� era disfuncional o ser� mais ainda. E vice-versa". Tome-se o exemplo do cl� Collor de Mello. Durante dois anos e meio dona Leda, m�e do ent�o presidente da Rep�blica, Fernando Collor de Mello, permaneceu em coma vegetativo num quarto de hospital em S�o Paulo, aos cuidados de uma superequipe de uns dez m�dicos, duas enfermeiras 24 horas por dia, e um custo estimado em mais de 800.000 reais. "Ela teve todos os recursos materiais. S� n�o teve todo o resto", diz Rose Shimabukuro, a filha-enfermeira, enquanto coloca a m�scara de aspirar oxig�nio no rosto do pai, com cuidados de seda. De fato, na noite de Natal dona Leda teve a companhia de apenas uma de seus cinco filhos. Atravessou sozinha a quase totalidade de seus 900 dias de coma, enquanto a fam�lia deslizava para a desagrega��o final. No entender do americano Norman Cousins, autor de Anatomia de uma Doen�a, Vista por um Paciente, de 1979, "hospital n�o � lugar adequado para algu�m que esteja seriamente doente". Nenhuma alternativa � f�cil. Segundo estudo da revista americana Social Science Medicine, as fam�lias de pacientes em coma se v�em numa situa��o socialmente amb�gua e isolada, quase lim�trofe. Precisam tomar decis�es cruciais em meio a constrangimentos socioecon�micos, e morais, de grande envergadura. Tudo praticamente sem aconselhamento cl�nico e sem par�metros culturais claros. A pr�pria sociedade ainda n�o se decidiu como encaminhar situa��es dessa natureza. No caso dos Shimabukuro, jamais houve d�vida: o lugar do patriarca era em casa. Enquanto ele esteve internado na UTI (trinta dias, seguidos de mais quarenta, num quarto) a fam�lia acampou em peso no sagu�o do hospital. "Mas eles n�o tem o que fazer?", chegou a se espantar um dos m�dicos de plant�o.

Yone: "Ele est� a� e ao mesmo tempo tenho saudade dele. Acho que ele cansou" 

Tinha. E fez. Inicialmente quase com raiva de o pai ter-se esfolado pela fam�lia e desligar da vida justamente quando podia come�ar a aproveit�-la. Como chacareiro, seu Paulo vendeu verdura na rua e ovos na feira at� conseguir comprar o primeiro sobrado. Abriu uma venda que funcionava sete dias por semana e quase n�o dormia. "Ele levantava t�o cansado para ir ao mercado municipal, de carro�a, que o cavalo aprendeu a parar nos cruzamentos, enquanto o pai cochilava", relembram Vilma e Cleide. Sua educa��o formal parou no 2� ginasial, mas viu as filhas entrarem nas melhores universidades. Por sorte, ainda conseguiu levar a mulher, J�lia Tsuru, a uma ins�lita volta ao mundo em setenta dias: S�o PauloDisneyHava�a Okinawa natalo resto do Jap�oChinaS�o Paulo.

A diminuta dona J�lia, de 76 anos, tamb�m � descendente de japoneses da prov�ncia de Okinawa, celeiro da primeira leva de imigrantes que chegaram em 1908, e ainda hoje um grupo de peso na col�nia japonesa do Brasil  representam 12% do total e se orgulham de seus quatro deputados federais no Congresso Nacional. "Somos o pessoal da m�sica mais cadenciada, da pele mais escura, dos olhos mais redondos, da alma mais tropical e do bolso mais pobre do Jap�o", define uma de suas filhas. Socialmente discriminados  um pouco como os judeus sefarditas s�o olhados pelos judeus de origem europ�ia em Israel, ou como os nordestinos s�o vistos pelos paulistas no Brasil v, os "okinawa" t�m dialeto, m�sica e cultura pr�prios e uma �ndole mais comunicativa. As mulheres, sobretudo, costumam ser menos dependentes do que as japonesas do norte. Pelo menos no caso da mulher e das seis filhas de Paulo Shimabukuro, a regra vale.

Cleide: "Conversamos no sofazinho, ao lado da cama do pai, para ele ficar a par das fofocas" 

De in�cio, Vilma n�o queria sequer alugar uma cadeira de rodas para o pai  "Pensei que ele fosse andar logo", relembra  e Cleide se recusava a ouvir casos de pessoas em coma h� dois ou tr�s anos. Achava um absurdo, por insuport�vel. Eram os tempos em que a porta do quarto do patriarca permanecia fechada  j� que ele acordaria de uma hora para outra, n�o ficava bem mostr�-lo a amigos e parentes enquanto permanecesse inconsciente. Toda a mobiliza��o inicial se destinava a preparar o "dia da volta". Com a ajuda de um enfermeiro, dona J�lia mantinha o marido de p�, durante uma hora por dia, para exercitar suas pernas e articula��es. Quando o deitava, imobilizava-lhe os p�s com tijolos, para prevenir atrofias. Era a �poca em que Yone ainda receava deixar o pai sozinho, na cama, temendo que acordasse e ca�sse. "Ouvimos tantas hist�rias de gente que acordou de repente...", recorda. � a fase da recusa, e da esperan�a mais intensa. "A gente tenta de tudo", explica a cat�lica dona J�lia, que chegou a recorrer � pajelan�a de curandeiros. O primeiro se chamava Ant�nio, era de Goi�nia, e foi contratado com a poupan�a familiar. Ant�nio exigiu v�rias passagens. Quando veio, montou barraca na pr�pria casa dos Shimabukuro e passou a atender dezenas de pessoas, com um de seus asseclas na porta, fazendo as vezes de "caixa". N�o curou ningu�m, nem uma menina deficiente que chegou de ambul�ncia. O segundo foi o m�dium Edson Queiroz, assassinado seis anos atr�s, cujas exig�ncias inclu�am hotel cinco estrelas. Tamb�m teve o japon�s esot�rico, que cobrava em d�lar para tentar um "contato em outro plano". "Eram todos charlat�es", constatou dona J�lia.

A fam�lia tamb�m n�o demorou a perceber que as enfermeiras contratadas tinham a t�cnica mas n�o a dedica��o no toque. "Foi ent�o que entendemos a premoni��o do pai", brinca a roli�a Beth. "Ele teve uma filha para cada dia de plant�o da semana. E para os domingos montamos uma tabela de revezamento." A tabela atual vai at� agosto de 1998 e est� afixada na porta da geladeira. Jamais falhou, ao longo desses anos todos. Dispensar a enfermagem profissional at� que foi f�cil. O duro foi aprender a s� poder contar com m�dicos amigos ou da pr�pria fam�lia. "Quantas vezes chamamos um m�dico que, ao ouvir o quadro do pai, acabava n�o vindo", indigna-se Vilma. "Devem pensar que � perda de tempo, e isso d�i. � um descaso." Em contrapartida, o primo nefrologista, Jo�o Carlos Arakaki, a amiga cardiologista, a colega nutricionista est�o sempre dispon�veis e torcem junto com a fam�lia. "No fundo, tamb�m estou aprendendo coisas importantes", diz Arakaki. "Jamais pensei que o organismo humano fosse capaz de se adaptar a condi��es t�o adversas. No fundo, a parte bioqu�mica do meu tio est� excelente." Dois meses atr�s, o batimento card�aco do patriarca chegou a despencar para o patamar fatal de 25 pulsa��es por minuto, quando a m�dia normal se situa entre oitenta e 100. A interna��o precisa ser imediata, talvez j� n�o houvesse tempo para a coloca��o de um marcapasso. Hospital, cirurgia de emerg�ncia, depois de t�o dura aceita��o do coma? "O pai n�o gosta de hospital. Vai sofrer", decidiram. "Seu Paulo continua em seu quarto arejado, com m�sica oriental na vitrola e um arranjo de ikebana sempre fresco no vaso. A pulsa��o subiu para 45 batidas por minuto e seu organismo inerte n�o exige muito mais. Quando o peso corporal � est�vel e o estado nutricional bom, o risco maior s�o as convuls�es e a temida infec��o pulmonar. A literatura m�dica americana, em estudo publicado em 1996, registra o caso de um paciente em coma vegetativo h� 27 anos. Outro estudo, de 1985, situa a m�dia de sobrevida em 7,8 anos. Existem dados em profus�o, e util�ssimos  mais da metade dos 15000 casos de coma permanente registrados nos EUA, em 1996, foram causados por acidentes de carro ou moto  mas ningu�m olha para um pai ou um filho inconsciente como um dado estat�stico.

Elizabeth: "Ainda hoje, dependendo com quem falo, digo que ele est� dormindo"  

N�o foi por meio da literatura que a fam�lia Shimabukuro aprendeu a combater escaras aquecendo os pontos mais vulner�veis do corpo com uma l�mpada dom�stica, para secar a pele. Prevalece a ci�ncia da observa��o, dia ap�s dia. Deixaram de utilizar fraldas descart�veis, por muito quentes, e papel higi�nico, por muito �spero. Somente panos macios, de malha umedecida, podem tocar no corpo de seu Paulo. H� tarefas espec�ficas para as habilidades de cada um. Cleide, que se orgulha de ter herdado a tosse seca do pai, corta o seu cabelo. Vilma lhe d� o primeiro banho da semana e patenteou uma t�cnica de acomod�-lo no banheiro, numa cadeira de rodas improvisada, para uma faxina geral com mangueira. Yone � um furac�o  j� chega lavando e desinfetando tudo, al�m de cortar as unhas e fazer a barba melhor do que ningu�m. No dia de Eriete, cujo sorriso oce�nico desemboca em duas covinhas, a rotina � mais informal. "Acho que sou a mais pregui�osa, e vivo me atrasando", admite. Beth e o marido, que moram colados aos pais, est�o a postos cedinho de manh� e tarde da noite, para os primeiros e �ltimos cuidados do dia. E Rose convive com a ansiedade de um dia errar a m�o na troca da sonda. "Fico neur�tica", reconhece, "e brigo com todo mundo que deixa o tubo entupir". Freq�entemente, a infratora � a pr�pria m�e, que contrabandeia peda�os de carne nos nutrientes passados no liquidificador. A comida l�quida precisa ser colhida por uma seringa, e s� ent�o � aplicada na sonda nasal. Quando a sonda entope, � o caos. E, embora pare�a claro que seu Paulo n�o tenha nenhum sentido de paladar, dona J�lia continua provando o tempero de cada dose de alimento que o marido ingere pela sonda.

Mas nada, na hist�ria da fam�lia, supera a naturalidade com que todos decidiram tirar f�rias juntos, em Ubatuba, litoral norte de S�o Paulo, cinco anos atr�s. Seu Paulo foi acomodado num dos carros da caravana e seus equipamentos lotaram uma Quantum � parte. Acabou dando tudo errado, a come�ar pela falta de �gua no litoral, mas todos guardam uma lembran�a alegre da expedi��o. Mesmo que de forma imperfeita, sentiram-se uma fam�lia como tantas outras, que viaja e tira f�rias na praia. Uma fam�lia que domou a inseguran�a inicial e hoje mant�m escancarada a porta do quarto do patriarca, para que os netos, os amigos e as v�rias festas da casa possam entrar no que lhe resta de vida. "S� raramente ainda digo que o pai est� 'dormindo'  fa�o isso quando sinto que a outra pessoa n�o vai entender, vai ter pena e pensar 'coitado, est� nesse estado'.", explica Beth.

Dona J�lia
"A gente tenta tudo. Cheguei a fazer tr�s tentativas com esp�ritas. Eram charlat�es" 

Sabedoria oriental e t�pica venera��o para com os idosos? Nem sempre. A 445 quil�metros de S�o Paulo, na cidade de Lins, interior oeste do Estado, um jovem brasileir�ssimo, de fei��es doces e pele dourada de sol, est� sendo tratado em casa com intensidade semelhante. Est� em coma v�gil h� quase cinco anos. Desde a manh� em que embarcou num Santana de duas colegas de faculdade, e pegou a BR153 para Mar�lia, onde cursava o 2� ano de veterin�ria. Estava no banco de tr�s, sem cinto de seguran�a, quando o carro se chocou com um caminh�o  a poucas centenas de metros do local em que o locutor esportivo Osmar Santos teria seu acidente, um ano depois. As duas colegas, que estavam afiveladas no banco da frente, sa�ram quase ilesas. M�rcio Leandro de Carvalho Lopes, ent�o com 19 anos, sofreu traumatismo craniano. Transportado para S�o Paulo no avi�o de amigos da fam�lia, permaneceu 21 dias na UTI do Albert Einstein, ao lado de Leda Collor. Ao final de um m�s e meio, estava pronto para sair do hospital. "Foi um baque v�-lo sair de maca", recorda o pai, veterin�rio de um grande frigor�fico, que levara t�nis e agasalhos achando que o filho sairia andando. A m�e, M�rcia, relembra ter mirado no essencial. "Eu s� pedia para a equipe devolver meu filho vivo, n�o importasse em que condi��es". Embora os avan�os da ci�ncia tenham permitido manter vivo um paciente com les�es cerebrais pesadas, pouco esclarecem sobre a forma de faz�-lo emergir do coma. Os americanos chegaram a dissecar o c�rebro da jovem Karen Ann Quinlan, que viveu inconsciente durante dez anos, nove dos quais sem a ajuda de aparelhos, mas nada conclu�ram. Examinaram-lhe o t�lamo, os dois hemisf�rios, o cerebelo, tudo o que pode provocar o colapso do sistema neurol�gico. Ainda assim, a travessia da inconsci�ncia para a consci�ncia continua sendo um dos buracos negros da medicina.


"Qual � o pai que pode pegar o filh�o de 23 anos nos bra�os, e cobri-lo de beijos? Aprendemos a n�o fazer grandes planos"
Casal Paulo e M�rcia Lopes, com o filho 

M�rcia ainda indagou se existia algum centro m�dico, no mundo, capaz de trazer o filho de volta � consci�ncia. N�o? "Ent�o decidimos que o melhor lugar para ele era com a fam�lia." Compraram uma cama hospitalar em Lins e a colocaram ao lado da cama de casal. Desde ent�o, a vig�lia tem sido ininterrupta. E os recursos, todos. Audi��o, vis�o e parte motora s�o medidos periodicamente. A hipertonia dos membros, tamb�m. Duas vezes ao dia, um fisioterapeuta trabalha todas as articula��es de M�rcio, uma a uma. Alguns exerc�cios s�o feitos no jardim, ao ar livre, ou no ch�o da sala, com intera��o da fam�lia. S�o aulas de reorganiza��o neurol�gica, que visam resgatar alguns movimentos prim�rios, como o da suc��o e o engatinhar. M�rcio n�o se move. Num outro hor�rio, uma fonoaudi�loga vem estimular a mand�bula do garoto, para que emita algum som. � poss�vel que a fam�lia superdimensione o sorriso que aflora no rosto do filho. E que ningu�m mais consiga reconhecer nenhuma palavra nos sons guturais gravados em fita. Mas, gr�o por gr�o, Paulo e M�rcia Lopes sabem que, nos �ltimos cinco anos, o filho jamais regrediu. Nem estacionou: gra�as ao bom funcionamento dos pulm�es, o orif�cio da traqueostomia p�de ser fechado e a sonda alimentar, retirada. "Tremi o fim de semana inteiro, depois de puxar a sonda toda", conta a m�e, coberta de felicidade. O pai, quando entra na piscina com M�rcio no colo, revela todos os sentimentos estocados na alma. "Procuro me contentar com o que tenho  qual � o pai que pode pegar o filh�o de 23 anos nos bra�os, cobri-lo de beijos e saber que ele est� gostando?", pergunta. "Aprendemos a n�o fazer grandes planos e aprendemos a chorar juntos  n�o importa se ele vai ficar fanho, manco ou gago. O que importa � que ele volte." M�rcia, �s vezes, se desespera e implora ao filho que fale, que ande. "Tenho dias de baixo-astral, sim, mas jamais chorei na sua frente." Prefere contar-lhe, pela en�sima vez, como foi o acidente, por que ele est� naquela cama, o quanto ele j� melhorou  mesmo que o filho n�o a ou�a. Tamb�m reprisa a fita de v�deo em que o ator Fl�vio Silvino, de 26 anos, ressurge para a vida, ap�s passar dezesseis dias em coma profundo. "Meu medo � ser esquecida, n�o ser avisada de alguma novidade no campo da neurologia", aflige-se. E confessa o que lhe arde no peito, h� cinco anos: a esperan�a de entrar no quarto do filho, um dia, e ouvir uma �nica frase: "Oi, m�e."
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