A Vida como Ela Era                         Veja 16/08/2000
O cotidiano dos escravos no Rio de Janeiro, por uma americana que fez a nossa li��o de casa


Casa de escravos, na vis�o
do pintor Rugendas:
tema pouco explorado 








Em 1890, pouco depois da Aboli��o e da Proclama��o da Rep�blica, Rui Barbosa, que ent�o ocupava o cargo de Ministro da Fazenda, mandou que ateassem fogo nos registros sobre escravid�o do governo brasileiro. A inten��o era das melhores � impedir que os antigos senhores de escravos usassem de truques legais para perseguir os libertos. A partir desse fato, disseminou-se a id�ia de que faltariam bons documentos a respeito da vida dos escravos na capital do Imp�rio. Essa vers�o, que serviu para justificar a pregui�a de nossos historiadores, prosperou por v�rias d�cadas e s� nos �ltimos anos come�ou a ruir. Para que isso acontecesse, foi necess�ria a colabora��o de um time de especialistas em devassar arquivos: os historiadores americanos. Atacando fontes alternativas, como registros m�dicos, policiais e religiosos, eles mostraram que ainda havia muitos lugares onde fazer pesquisa. A produ��o dos brasilianistas sobre escravid�o � respeit�vel. De todos os livros, h� um que se destaca. Ele se chama A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro � 1808/1850, foi escrito por Mary C. Karasch e acaba de chegar �s livrarias (tradu��o de Pedro Maia Soares; Companhia das Letras; 643 p�ginas; 48 reais).

Estilo "p�-no-ch�o" � Produto de vinte anos de estudos no Brasil e no exterior, A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro foi lan�ado em 1987 nos Estados Unidos. Desde ent�o, n�o sai do criado-mudo de muitos professores universit�rios brasileiros. Mas � bom que uma tradu��o para o portugu�s esteja agora dispon�vel: a obra merece um espa�o na estante dos leigos. O intuito de Mary Karasch n�o � propor uma nova teoria sobre o sistema escravista. Fiel ao estilo "p�-no-ch�o" dos melhores historiadores anglo-americanos, ela prefere descrever a realidade a elucubrar. E a realidade que lhe interessa est� no cotidiano dos cerca de 80.000 escravos que viviam no Rio de Janeiro na primeira metade do s�culo XIX � a maior popula��o urbana de cativos das Am�ricas. Em onze cap�tulos, a autora aborda temas que v�o da origem �tnica dos africanos desembarcados no Rio at� seu cotidiano. As doen�as que acometiam os escravos, os castigos a que eram submetidos, suas t�ticas de resist�ncia e revolta, suas ocupa��es, suas roupas, sua dieta � todos esses assuntos s�o tratados com riqueza de detalhes.

Os dados recolhidos pela autora derrubam algumas teses consagradas. Um bom exemplo � a convic��o, propagada por figur�es do pensamento social como Gilberto Freyre, de que os escravos brasileiros recebiam tratamento mais ameno do que os cativos de outros pa�ses. Por meio de fontes jornal�sticas, taxas de mortalidade e boletins policiais, Mary Karasch prova de uma vez por todas que a "benevol�ncia" dos senhores locais n�o passa de uma fantasia. A autora tamb�m apresenta informa��es sobre a exist�ncia de quilombos urbanos, o trabalho de escravos em f�bricas e o sincretismo que resultou numa vertente cultural "afro-carioca". Rigoroso, bem escrito e �s vezes pol�mico, o livro de Mary Karasch traz quase tudo o que voc� queria saber a respeito da escravid�o, mas n�o tinha id�ia de onde procurar.
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