As �ltimas do Imperador
Veja 12/07/2000
Caderno com anota��es sobre a primeira Constitui��o republicana mostra que dom Pedro II estava atento ao Brasil e l�cido no ano em que morreu no ex�lio


Dom Pedro II e a primeira p�gina do caderno de capa dura enviado ao hotel em Cannes, onde o monarca deposto vivia o ex�lio. Nele foi colado o texto constitucional recortado de um jornal: receio de que o Brasil n�o estivesse preparado para ser uma Rep�blica federativa � tema do primeiro coment�rio do imperador, feito com letra tr�mula e l�pis preto, sua marca registrada 












Ele caiu do poder como um fruto mais que passado do ponto � a t�tulo de compara��o atualizada, um pouco como aconteceu com o PRI, no M�xico, na semana passada. Quando deixou o trono e o Brasil, depois de 49 anos como �nico chefe nativo de uma ins�lita monarquia tropical, Pedro II era a imagem do governante enfraquecido quase ao ponto da autodissolu��o. Sonolento, inerme e ridicularizado em charges como "Pedro Banana", representado como um erudito imagin�rio que s� queria saber de fotografia, astronomia e intermin�veis viagens ao exterior, o imperador derrubado pela Rep�blica em 1889 terminou a vida na irrelev�ncia do ex�lio. Persistiu, no entanto, o mito do monarca banido, dominado nos poucos anos que lhe restaram pela imagem do pa�s que o rejeitara e secundado, no esquife, pelo derradeiro punhado da terra natal. Pedro II, de fato, continuou acompanhando, a dist�ncia, os acontecimentos no Brasil sempre sob sua �tica, que misturava interesses particulares a vagas vis�es sobre o futuro da na��o. Um documento in�dito d� algumas pistas de como o imperador deposto via o novo regime. Trata-se de um caderno de capa dura no qual foi colado o texto da primeira Constitui��o republicana, recortado de um jornal, sobre o qual dom Pedro escreveu a l�pis seus coment�rios.


Em Petr�polis, dom Pedro posa para a foto que seria a �ltima imagem da fam�lia imperial no Brasil, antes do ex�lio. A partir da esquerda: o neto Pedro Augusto, a imperatriz Teresa Cristina e a princesa Isabel; � direita do imperador, o pr�ncipe Pedro de Orleans e Bragan�a e o conde d'Eu.
Na escada, os pr�ncipes Ant�nio e Lu�s. Abaixo, as �ltimas notas do imperador sobre a Constitui��o 











O documento mostra que, apesar de doente � como comprova a letra tr�mula �, ele continuava ligado ao que acontecia no Brasil. A data de 13 de abril de 1891 � sugestiva: a Constitui��o havia sido promulgada apenas dois meses antes, um prazo muito curto, considerando-se que para cruzar o Atl�ntico um navio levava na �poca quase trinta dias. Desde a morte do imperador, em Paris, oito meses depois, o caderno ficou em poder da mesma fam�lia, que o acompanhou no ex�lio. S� agora, passados 108 anos, foi oferecido ao colecionador carioca Pedro Corr�a do Lago (veja quadro). Antes disso, s� havia sido exibido uma vez em Petr�polis, na d�cada de 40. As observa��es do imperador s�o poucas, at� frustrantes pela concis�o, mas revelam uma leitura atenta do texto da Carta. Previsivelmente, dom Pedro come�a criticando o regime de Rep�blica Federativa � uma das autojustificativas fundamentais da monarquia era seu papel na preserva��o da unidade da na��o brasileira. Para o imperador, o pa�s n�o estava, digamos, maduro. "N�o chegou ao grau de civiliza��o preciso", escreveu, sem meias palavras.

"Assim seja!" � A reivindica��o ao papel de elemento unificador da gigantesca ex-col�nia portuguesa, que facilmente poderia ter enveredado para a fragmenta��o, n�o deixa de ter legitimidade. "Com seu trabalho, de admir�vel coer�ncia, o governo de dom Pedro II come�ou sob um r�gido sistema legal, unit�rio e centralizador fundamental naquele momento hist�rico", registrou o historiador Francisco Iglesias no livro Trajet�ria Pol�tica do Brasil (1500-1964). Os bons sentimentos do imperador deposto transparecem na observa��o seguinte, quando registra esperar que a federa��o se consolidasse efetivamente como "a uni�o perp�tua e indissol�vel das antigas prov�ncias", segundo prega o artigo primeiro da Constitui��o de 1891. "Assim seja! Assim seja! Prospere sempre moral e fisicamente", escreveu. No final, voltou ao assunto: "Li-a com aten��o e fiz as reflex�es com a maior isen��o de esp�rito. Quereria ter-me enganado quanto � principal porque minha p�tria haveria atingido a altura a que sempre me esforcei para elev�-la".

As anota��es, um tanto gen�ricas, diferem pouco das que costumava fazer � margem de quase todos os livros que leu ao longo da vida. Dom Pedro mostra algo mais de emo��o quando comenta a pens�o a ele destinada. O assunto era espinhoso. No decreto que estabeleceu seu banimento, as autoridades da nova Rep�blica estabeleceram uma ajuda de 5.000 contos para que o imperador se fixasse no ex�lio. Dom Pedro rejeitou-a, dizendo que "n�o aceitaria ou agradeceria o favor das m�os do general que tudo lhe levava" � concordava, no entanto, com as verbas estabelecidas em leis da �poca da monarquia. A rea��o do governo republicano, em decreto redigido por Rui Barbosa, foi dura: al�m de revogar a ajuda de custo, decretou a extin��o de todas "as dota��es ao senhor Pedro de Alc�ntara e sua fam�lia". A Constitui��o de 1891 veio acalmar os �nimos, concedendo a pens�o vital�cia para garantir uma "subsist�ncia decente" ao imperador deposto. N�o estabelece, por�m, valores. Entra a� o coment�rio de dom Pedro. "Talvez fixem-na maior do que preciso para viver sem luxo e eu destine o excesso para os servi�os de instru��o e melhoramento da vida do povo", escreveu ele. H�, talvez, na observa��o, alguma coisa do homem que sabe estar escrevendo para a posteridade. Mas o fato � que dom Pedro, enquanto esteve no poder, destinava efetivamente parte de seus estip�ndios a obras de caridade � a ponto de negligenciar os sinais exteriores da simbologia do cargo e ser criticado pela falta de pompa, um dos apan�gios da monarquia.

Essa foi uma das contradi��es, t�o tipicamente brasileiras, de dom Pedro II. Homem civilizado e culto, apaixonado pelas artes e pela ci�ncia e preocupado com a educa��o, comandou um imp�rio em que o analfabetismo atingia 83% da popula��o. Antiescravagista de cora��o, viu o Brasil se arrastar num debate intermin�vel. Foi sob a reg�ncia de sua filha, Isabel, que o pa�s finalmente aboliu a escravid�o � o �ltimo na Am�rica a faz�-lo. Definido pelo historiador Evaldo Cabral de Mello como "um burgu�s europeu do s�culo XIX, pouco afeito � liturgia do poder", e ao mesmo tempo como a "figura fundamental da pol�tica brasileira no s�culo XIX", dom Pedro II portou a coroa durante quase meio s�culo � em longevidade no poder, perdeu apenas para a rainha Vit�ria, da Inglaterra. Nesse per�odo, vigorou no pa�s uma esp�cie de parlamentarismo n�o formalizado, tendo no topo um imperador contemplado com um dispositivo constitucional extremamente autorit�rio. Poderia t�-lo colocado a servi�o de interesses totalit�rios. Apesar de criticado por abusar desse dispositivo, que lhe permitia dissolver o Congresso e convocar novas elei��es, dom Pedro II, no entanto, o utilizou principalmente para garantir a altern�ncia de liberais e conservadores no poder.

Dinheiro curto � Quando recebeu o caderno com o texto da Constitui��o, dois meses depois de sua promulga��o, dom Pedro estava instalado no Hotel Beau S�jour, em Cannes. Tinha 66 anos, mas aparentava muito mais. As perdas se sobrepunham. Tr�s semanas depois de chegar a Portugal, para a primeira etapa do ex�lio, morria a imperatriz Teresa Cristina. No in�cio de 1891, foi-se a condessa de Barral, amante, companheira de viagem e mais �ntima confidente de dom Pedro por muitos anos. Como se n�o bastasse, o dinheiro era escasso para as necessidades de um homem doente, com fam�lia grande e acostumado �s honras da realeza, por mais que se empenhasse na mod�stia de h�bitos.

Depois de recusar a pens�o oferecida pelo governo republicano, dom Pedro passou a viver da ajuda de amigos. Apesar do ar de m�rtir exilado, contudo, ele tinha uma rotina muito similar � mantida durante suas longas viagens ainda como imperador, ou seja, a de um monarca em f�rias permanentes. Recebia regularmente visitas da nobreza europ�ia e continuava cercado de uma esp�cie de corte, formada por fam�lias que o acompanharam solidariamente ao ex�lio. Quando morreu, em 5 de dezembro de 1891, dom Pedro II recebeu, na Fran�a, honras de chefe de Estado. Trinta anos depois, seus restos mortais retornaram ao Brasil.

 
O catador de pap�is


Pedro Corr�a do Lago: caderno do imperador incorporado a um acervo precioso 
Charles Darwin, pai da teoria da evolu��o, instrui seu filho a verificar como um porco-espinho reage diante de uma cobra. Sigmund Freud d� os parab�ns � m�e pelo anivers�rio e manda-lhe de presente 6 d�lares. O l�der anarquista russo Mikhail Bakunin deixa de lado a ideologia e, quase como um alpinista social, se oferece para apresentar a um amigo "a melhor sociedade de Boston". Esses peda�os da vida cotidiana de celebridades formam hoje a parte mais valiosa � e saborosa � dos arquivos de Pedro Corr�a do Lago, 42 anos, neto do chanceler Oswaldo Aranha, filho de embaixador e viciado em colecionar pap�is desde os 12 anos de idade. S�o mais de 10 000 documentos adquiridos ao longo de quase trinta anos, que fazem dele o maior colecionador do g�nero em atividade atualmente no Brasil.

A obsess�o de colecionar come�ou com um pedido de aut�grafo a Heron Domingues, o locutor do Rep�rter Esso. Em seguida, Corr�a do Lago adotou outra t�tica: escrevia para celebridades pedindo uma foto autografada. Depois passou ao garimpo expl�cito, no que foi muito ajudado pelo fato de ter vivido em v�rios pa�ses. Hoje, criou uma estrutura em que tudo incentiva as cole��es. E, freq�entemente, n�o precisa ca�ar raridades: elas v�o at� ele, como no caso dos coment�rios de dom Pedro II sobre a primeira Constitui��o republicana. Corr�a do Lago vive cercado de seus objetos de desejo. Os principais est�o guardados na casa do Jardim Europa, em S�o Paulo, onde se espalham sobre mesas e paredes como se fossem simples objetos de decora��o � caso da cole��o de fotos autografadas por Charles Chaplin, Pablo Picasso, Albert Einstein, Jacqueline Kennedy e assim vai. Tesouros como o manuscrito de Marcel Proust de um trecho de Em Busca do Tempo Perdido ficam escondidos numa pequena sala repleta de arquivos de a�o � prova de fogo. Sua livraria cumpre a tripla fun��o de com�rcio, dep�sito de preciosidades e chamariz para atrair novas obras.

H� colecionadores que adoram gastar o que t�m, e at� o que n�o t�m, com os alvos de sua devo��o e preferem a morte a se separar deles. Coisa de amador. Corr�a do Lago � profissional. Em 1997, vendeu por 1,8 milh�o de reais para a Souza Cruz sua cole��o de 16 000 documentos nacionais, doados h� duas semanas ao Memorial do Rio Grande do Sul. O melhor da cole��o est� em Aut�grafos Brasileiros, um dos tr�s livros que publicou nos �ltimos dois anos. Para quem ainda acha que colecionadores de documentos s�o cavalheiros parados no tempo, acrescente-se que Corr�a do Lago foi um dos curadores da mostra Brasil 500 Anos, na qual organizou o m�dulo O Olhar Distante, que re�ne obras de artistas estrangeiros sobre o pa�s. Na esteira desse projeto, ele planeja o cat�logo completo da obra do pintor holand�s Frans Post. Para que essas atividades caibam no dia, inventou um truque: adiantar o rel�gio em quarenta minutos, para que o falso atraso o fa�a acelerar o ritmo.
  Acontece
Passagens do Cotidiano
Fatos, contos e cr�nicas da rotina di�ria
.
.
A pousada na reserva florestal de Campos do Jord�o
N�o existe oferta melhor na est�ncia mais alta do Brasil! Conforto e sossego a apenas 4,5 km do centro!
Venha desfrutar de um ver�o refrescante, onde as temperaturas jamais excedem a 23 graus!
Fa�a um tour fotogr�fico pela pousada clicando aqui
P�gina Inicial
Hosted by www.Geocities.ws

1