O Tesouro Pernambucano              Veja 17/02/1999
Com um passado grandioso e arquivos muito ricos, Pernambuco � uma usina de bons historiadores

                                          A guerra contra os holandeses e a obra de Nassau:
                                              admira��o pela heran�a e orgulho pela vit�ria














Vale a pena conhecer a usina pernambucana de livros de Hist�ria do Brasil. Nascido no Recife, em 1849, falecido em 1910, em Washington, Joaquim Nabuco escreveu Um Estadista do Imp�rio, a obra definitiva sobre o reinado de Pedro II, com lugar permanente na cabeceira de Fernando Henrique Cardoso. A melhor narrativa sobre a vinda da fam�lia real portuguesa ao Brasil, em 1808, encontra-se nas p�ginas de D. Jo�o VI no Brasil, do tamb�m pernambucano Oliveira Lima, dono de uma escrita t�o elegante que foi chamado por Machado de Assis para integrar a Academia Brasileira de Letras. Em se tratando de hist�ria cotidiana, n�o h� s�ntese melhor do que a obra de Gilberto Freyre, o mestre de Apipucos. Visitante incans�vel de arquivos europeus, o professor Jos� Ant�nio Gonsalves de Mello escreveu dois livros fundamentais, Tempo dos Flamengos, painel sobre o Brasil de Maur�cio de Nassau, e Gente da Na��o, em que reconstitui a presen�a de judeus e crist�os-novos na coloniza��o. Mais novo representante da turma, Evaldo Cabral de Mello � considerado o melhor e mais produtivo historiador brasileiro da atualidade.

A quantidade e a qualidade de obras de primeira linha produzidas em Pernambuco s�o at� uma surpresa, quando se recorda que desde o s�culo passado o Estado n�o ocupava um lugar central na economia do pa�s e nem de longe possui um peso determinante no jogo pol�tico. Quando o assunto � hist�ria, contudo, descobre-se um tesouro, at� porque o passado de Pernambuco j� � uma mina de ouro � espera de bons garimpeiros. No s�culo XVI, ali se formava uma capitania rica e bem-sucedida por causa do a��car, mercadoria digna da cobi�a mundial. No s�culo XVII, houve a invas�o holandesa, encerrada com uma vit�ria militar her�ica e uma pesada indeniza��o econ�mica. No s�culo XVIII, ocorreu a Guerra dos Mascates, primeira revolta de brasileiros contra o dom�nio portugu�s. No in�cio do s�culo XIX, explodiram duas revolu��es republicanas. O dado decisivo, por�m, � que n�o havia apenas muito para pesquisar e para saber � mas, tamb�m, vontade de contar. "A preocupa��o com a hist�ria � pr�pria da oligarquia pernambucana", diz Carlos Guilherme Mota, historiador paulista que escreveu tese de doutorado sobre a insurrei��o de 1817, no Recife. "A nobreza da terra, ali, sempre compreendeu a import�ncia de educar seus filhos, valorizar o passado, mostrar sua grandeza."

Casa-grande e engenho de a��car:
riqueza digna de atrair a cobi�a mundial







"S�o tantos feitos, tantas lutas, que desde os tempos de escola as pessoas aprenderam a admirar nosso passado", afirma Jos� Ant�nio Gonsalves de Mello. "Nunca falta motiva��o para querer saber mais." Desde Pero Vaz de Caminha que o Brasil possui seus cronistas, memorialistas e escrevinhadores. Historiadores de verdade, capazes de remontar o passado num trabalho sistem�tico em arquivos, s� apareceram na metade do s�culo XIX, d�cadas ap�s a Independ�ncia. N�o � atraso. Mesmo na Europa, as pessoas come�aram a estudar hist�ria para valer com a constru��o dos Estados Nacionais, quando cada povo queria saber de onde tinha vindo seu pa�s � os autores que escreveram antes disso foram pioneiros isolados. Os modernos historiadores alem�es apareceram em 1820. Um pouco depois surgiram na Fran�a e Inglaterra.

Diversos Estados brasileiros produziram historiadores de calibre. No fim do s�culo XIX, o cearense Capistrano de Abreu revelou um cuidado pioneiro em pesquisas sobre o Descobrimento. Mais tarde, o fluminense Oct�vio Tarqu�nio de Sousa deixou uma obra de mestre em torno de dom Pedro I. Caio Prado J�nior produziu trabalhos obrigat�rios sobre economia, enquanto S�rgio Buarque de Holanda desvendou a cultura � ambos eram paulistas. Os mais influentes trabalhos sobre a proclama��o da Rep�blica vieram do mineiro Jos� Murilo de Carvalho, um monarquista, por sinal.

A capitania e sua
hist�ria: uma mina
de ouro � espera de
bons garimpeiros 

Num esfor�o coletivo, de v�rias gera��es, Pernambuco construiu um mundo � parte, com um acervo riqu�ssimo de documentos sobre seu passado. Obsess�o permanente de um povo que admira a heran�a deixada pelos holandeses e ao mesmo tempo se orgulha de t�-los vencido, a invas�o dos Pa�ses Baixos � examinada com aplica��o h� mais de um s�culo. Em 1862, o governo da Prov�ncia teve a boa id�ia de patrocinar uma viagem de pesquisas at� a Holanda. Como ningu�m falava holand�s, o jurista Jos� Hygino Duarte Pereira � mais tarde integrante do Supremo Tribunal Federal � conseguiu a vaga porque se sa�a bem no alem�o, o que j� era de muita serventia. Ao fim de dois anos, a miss�o retornava ao Recife com 50.000 folhas de documentos na bagagem � copiados a m�o. Embora ali se tivesse o ABC do Brasil holand�s, o trabalho n�o parou a�. Oitenta anos depois, em nova viagem, o professor Jos� Ant�nio Gonsalves de Mello n�o s� fez uma nova raspagem nos arquivos visitados no s�culo anterior como ainda foi � luta na Espanha, Portugal, Fran�a e Inglaterra. Descobriu cartas em tupi de Felipe Camar�o, l�der ind�gena da guerra de restaura��o. Encontrou relat�rios de espi�es infiltrados na administra��o holandesa em Pernambuco, tamb�m p�s a m�o em documentos pat�ticos de reis que davam ordens para a forma��o de armadas grandiosas � ignorando a pen�ria de seus cofres. "Com essa pesquisa permanente, cada �poca construiu sua pr�pria vis�o dos acontecimentos", explica o estudioso Leonardo Dantas Silva, da Funda��o Joaquim Nabuco.

No Recife, o trabalho de pesquisa � at� caso de fam�lia e de amizade. Filho de um comerciante portugu�s, riqu�ssimo, Oliveira Lima era amigo de Gilberto Freyre, que por sua vez era primo de Jos� Ant�nio Gonsalves de Mello, a quem auxiliou abrindo portas no Brasil e no exterior, al�m de colocar seu prest�gio no pref�cio de Tempo dos Flamengos. Primo de Gilberto Freyre e tamb�m de Jos� Ant�nio, Evaldo Cabral de Mello freq�entou a casa de ambos, na juventude, como disc�pulo. A maioria desses historiadores vem de fam�lias em que a grandeza dos antepassados, senhores de fortuna e poder, impressiona mais que a banalidade dos contempor�neos. N�o s�o poucos os que possuem um propriet�rio de engenho de a��car na �rvore geneal�gica � �s vezes, dois. Alguns habitaram casar�es enormes, que hoje s�o atra��o tur�stica no Recife. Apenas Jos� Ant�nio Gonsalves de Mello, 82 anos, fez hist�ria como profiss�o. Seguiu carreira universit�ria, mas mesmo aposentado continuou produzindo com gosto e compet�ncia. Gilberto Freyre nunca pagou as despesas da fam�lia com seus livros, mas fazendo pesquisas para grandes empresas privadas. Oliveira Lima e Evaldo Cabral tiveram a prud�ncia de garantir uma renda mensal na diplomacia, decis�o acertada para quem gosta de hist�ria, esse ramo do conhecimento que at� permite gl�ria eterna para quem tem a felicidade de produzir um bom livro, mas n�o enriquece ningu�m.

Patrono dos historiadores do Estado, em 1840 o oficial do Ex�rcito Jos� Bernardo Fernandes Gama conseguiu imprimir e colocar � venda os quatro tomos de suas Mem�rias Hist�ricas da Prov�ncia de Pernambuco. O encalhe foi t�o grande que parte dos livros acabou vendida como papel velho. Outro pioneiro, Francisco Augusto Pereira da Costa, levou trinta anos em pesquisas para os Anais Pernambucanos, uma reconstitui��o detalhada da hist�ria do Estado, que come�a com a chegada dos portugueses para se encerrar em 1850. Foram dez volumes, com altura de exemplar da Britannica e 500 p�ginas de espessura cada um. Pereira da Costa morreu em 1923 e somente trinta anos depois apareceu a verba para a primeira edi��o.

Jos� Ant�nio Gonsalves de Mello escreveu aquelas biografias que todo mundo gostaria de ler, sobre a vida de Henrique Dias, Felipe Camar�o, Jo�o Fernandes Vieira e outros her�is da restaura��o pernambucana. Esgotadas h� anos, essas obras n�o encontram quem queira lan��-las novamente. Hoje Evaldo Cabral de Mello � um autor consagrado � isto �, fica feliz quando seus livros vendem 2.000 exemplares ap�s o lan�amento, como aconteceu com o mais recente, O Neg�cio do Brasil. Nem sempre foi assim. Mesmo elogiada por Fernand Braudel, um dos grandes historiadores do planeta, sua Olinda Restaurada vendeu t�o pouco, na primeira edi��o, que podia ser arrematada desses livreiros que exp�em mercadoria encalhada no ch�o de cimento das universidades.

Linhagem de bom calibre
As Mem�rias Hist�ricas da Prov�ncia de Pernambuco, de 1840, de Fernandes Gama, traziam uma vis�o t�pica de sua �poca: lusofobia radical 

Joaquim Nabuco publicou Um Estadista do Imp�rio, em 1897, pensando em resgatar a biografia do pai, mas acabou fazendo uma obra-prima  

Com uma prosa admirada por Machado de Assis, Oliveira Lima fez 37 livros e, em 1908, uma obra obrigat�ria: D. Jo�o VI no Brasil 
Pereira da Costa escreveu sobre folclore, vocabul�rio regional e personalidades do Estado. Em 1923, terminou os dez volumes dos Anais Pernambucanos 

Com Casa-Grande & Senzala, de 1933, Gilberto Freyre fez uma obra de hist�ria do cotidiano e a melhor s�ntese da epop�ia do Brasil

Em Tempo dos Flamengos, de 1947, Jos� Ant�nio Gonsalves de Mello fez a obra b�sica para entender o Brasil holand�s  
Com Olinda Restaurada, de 1975, e O Neg�cio do Brasil, de 1998, Evaldo Cabral de Mello passou a guerra contra os holandeses a limpo
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