Tesouro Colonial                                 Veja 14/04/1999
Bem conservada, Diamantina ser� o mais novo patrim�nio cultural da humanidade no Brasil


A cidade ladeada pela Serra dos Cristais
e o Passadi�o da Gl�ria
(� direita): diamante definiu tudo







Mais uma j�ia da arquitetura colonial brasileira est� prestes a ser declarada patrim�nio cultural da humanidade. Desta vez, a honraria concedida pela Organiza��o das Na��es Unidas para a Educa��o, Ci�ncia e Cultura, Unesco, dever� contemplar a cidade mineira de Diamantina, primeiro centro de extra��o de diamantes do mundo ocidental, que viveu seu auge nos s�culos XVIII e XIX e, desde 1938, � considerada patrim�nio hist�rico nacional. A candidatura de Diamantina foi aprovada h� duas semanas, por unanimidade, pelo Conselho Internacional de Monumentos e S�tios Hist�ricos, Icomos, entidade respons�vel pela an�lise dos dossi�s t�cnicos das cidades candidatas. A decis�o final s� ser� conhecida no final do ano, mas a sagra��o da cidade mineira � dada como certa. "Diamantina manteve intacta a arquitetura barroca de suas igrejas e dos casarios geminados, � emoldurada por uma exuberante paisagem natural e conta ainda com tradicionais festas culturais", justifica a historiadora paulista Suzana Sampaio, presidente do Icomos no Brasil, que participou da reuni�o de avalia��o t�cnica em Paris.

Os diamantes marcaram toda a forma��o urban�stica da cidade. O tra�ado dos becos e das vielas, por exemplo, acompanha os caminhos usados pelos escravos para chegar at� os locais de minera��o. A pr�pria distribui��o dos pr�dios na cidade tem a ver com o fato de a coroa portuguesa ter implantado ali um in�dito regime de explora��o fechada de diamantes. Assim que a boa nova da pedra preciosa chegou a Portugal, em 1729, a coroa passou a controlar com m�o de ferro a extra��o do mineral. At� ent�o, s� se sabia da exist�ncia de diamantes na �ndia. O lugarejo passou a ser regido por leis diferenciadas e n�o se reportava, como os demais, � Capitania de Minas Gerais. Para evitar a autonomia administrativa, a eleva��o do arraial � condi��o de cidade foi postergada por mais de um s�culo. Isso explica, segundo os historiadores, por que na Diamantina colonial n�o existiram cadeia, C�mara Municipal nem pelourinho. "A caracter�stica de cidade fechada, restrita � extra��o de diamantes, propiciou o surgimento de uma paisagem urbana e de um tipo de sociedade peculiares", afirma a arquiteta Cl�udia Freire Lage, superintendente regional do Instituto do Patrim�nio Hist�rico e Art�stico Nacional, Iphan.




Afrescos do portugu�s
Ara�jo na Igreja do Carmo
e a natureza junto � arquitetura:
conjunto reconhecido







Cachoeiras � O poder local era atribu�do aos "contratadores de diamantes", homens de confian�a da metr�pole portuguesa. O �ltimo deles, Jo�o Fernandes de Oliveira, ficou famoso por amancebar-se com a lend�ria escrava Xica da Silva, cuja saga j� foi contada em verso e prosa no cinema e na televis�o. Com o prop�sito de n�o atrair a aten��o de Roma para a riqueza subterr�nea da regi�o, os portugueses n�o permitiam a entrada de ordens religiosas. Grande parte das igrejas foi erguida por encomenda dos "contratadores". Talvez por isso elas tenham fachadas bem menos imponentes que as das outras cidades de minera��o, como Ouro Preto. As igrejas de Diamantina, em geral, t�m uma torre s� e s�o cont�guas �s casas. A sobriedade externa � compensada pela pintura de detalhes em cores vivas. Os interiores revelam qualidades t�cnicas que comprovam a forma��o erudita de artistas, como o portugu�s Jos� Soares de Ara�jo, mestre da pintura barroca em perspectiva, que tamb�m era guarda-mor do Distrito Diamantino.

Formada por donos de grandes riquezas, a sociedade de Diamantina era muito reclusa e pouco afeita �s congrega��es sociais. Uma pe�a caracter�stica da arquitetura da cidade, os muxarabi�s, tem a ver com essa voca��o para a privacidade. De origem �rabe, o balc�o � todo fechado com treli�a e tinha a fun��o de proteger o observador, que podia ver a rua sem ser visto. O Passadi�o da Gl�ria, uma ins�lita passarela de madeira que liga dois casar�es e virou cart�o-postal da cidade, teria fun��o semelhante. Diamantina � privilegiada ainda por possuir toda essa riqueza urban�stica real�ada pela Serra dos Cristais, que, com suas forma��es em quartzito e belas cachoeiras, emoldura o centro hist�rico.


Para que serve

Diamantina ser� o d�cimo patrim�nio cultural da humanidade brasileiro. A honraria j� foi atribu�da a 582 locais de 114 pa�ses. No Brasil foram premiados a cidade de Ouro Preto, os centros hist�ricos de Olinda, Salvador e S�o Lu�s do Maranh�o, as ru�nas de S�o Miguel das Miss�es no Rio Grande do Sul, o Santu�rio de Bom Jesus de Matozinhos, em Minas, o Parque Nacional do Igua�u, no Paran�, o Plano Piloto de Bras�lia e o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piau�. O principal benef�cio � a garantia de empenho do governo na preserva��o do bem. A consagra��o internacional costuma facilitar o acesso a linhas de cr�dito para programas culturais e divulga o local no exterior. "Aqui, o turismo vai revigorar a economia, o que � muito importante agora que a minera��o est� quase exaurida", afirma Am�rico Antunes, coordenador da Comiss�o por Diamantina Patrim�nio da Humanidade.
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