| Servi�o Secreto no Brasil Veja 01/11/2000 Documentos mostram que a tentativa de criar no Brasil um servi�o secreto nos moldes da CIA acabou descambando para a caricatura Get�lio Vargas: bastou terminar a ditadura chefiada por ele para que os informantes come�assem a segui-lo. Suspeitou-se, a s�rio, que o ex-presidente iria instalar um regime comunista a partir de Lavras, cidadezinha de Minas Assim como os ratinhos Pinky e C�rebro do desenho animado saem todos os dias de um por�o para dominar o mundo, dois personagens da pol�tica brasileira um dia planejaram sair do interior de Minas Gerais para instalar uma ditadura comunista no pa�s. O por�o em quest�o era a cidadezinha de Lavras, um pacato munic�pio que obviamente est� mais para poema de Drummond � "casas entre bananeiras, mulheres entre laranjeiras..." � do que para ninho de cobras barbudas. Os pol�ticos eram o ditador rec�m-deposto Get�lio Vargas (corria o ano de 1946) e o l�der comunista Lu�s Carlos Prestes. Parece piada. E era mesmo. Mas um funcion�rio da DPS, pol�cia pol�tica surgida para dar conta da "subvers�o" no Brasil entre 1946 e 1964, acreditou que tal perigo realmente existia e escreveu um memorando relatando o boato. Pior: seus superiores da capital federal foram mesmo checar se era verdade. P�rolas como essas podem ser encontradas no Arquivo P�blico do Estado do Rio de Janeiro, que acaba de liberar para consulta os documentos sobre a Divis�o de Pol�cia Pol�tica e Social, um �rg�o de espionagem t�o peculiar que a sigla n�o corresponde ao nome por extenso � caiu um "P" e ficou DPS. Carlos Lacerda: a pol�cia pol�tica n�o acreditava que o l�der da conservadora UDN tivesse renegado o socialismo dos tempos de juventude. O fato de ele ter entrado certa vez numa igreja ortodoxa russa foi visto com desconfian�a H� pouqu�ssimos trabalhos acad�micos sobre o per�odo que vai do fim do Estado Novo ao in�cio do regime militar. Um deles � de autoria do professor Lu�s Reznik, do Instituto Universit�rio de Pesquisas do Rio de Janeiro. Debru�ado sobre os documentos guardados no Arquivo P�blico do Rio de Janeiro, elaborou Democracia e Seguran�a Nacional � A Pol�cia Pol�tica no P�s-Segunda Guerra Mundial. O texto, ainda in�dito, leva a uma conclus�o surpreendente. A de que a pol�cia pol�tica brasileira cresceu durante a democracia. Era absolutamente amadora no per�odo de Vargas. Diversificou o organograma e iniciou uma coopera��o internacional na democracia-sandu�che entre 1946 e 1964. A DPS, por fim, acabou servindo de modelo para o servi�o de intelig�ncia da ditadura subseq�ente. � famosa a frase do general Golbery do Couto e Silva, criador do SNI, que disse ter parido um monstro. Sabe-se agora que a criatura come�ou a ser gerada muito tempo antes, filha bastarda de um regime de liberdade. A maior parte dos intelectuais da �poca colaborava com o Partido Comunista. Apesar de proscrita, a agremia��o contava com ve�culos que circulavam livremente. O cartaz de lan�amento do seman�rio Com�cio foi criado pelo pintor paulista Emiliano Di Cavalcanti e anunciava que o jornal tinha entre seus colaboradores o cronista Rubem Braga No entanto, se h� algo realmente monstruoso na hist�ria das pol�cias pol�ticas brasileiras � a incompet�ncia. Os documentos contidos no Arquivo P�blico do Rio de Janeiro, como j� se disse, forneceriam um manancial inesgot�vel para s�ries humor�sticas do tipo de Agente 86. Na �tica dos informantes da DPS, todo mundo � todo mundo mesmo � era comunista. A come�ar por Get�lio Vargas, o ditador que instalou uma esp�cie de fascismo caboclo no Brasil, de 1937 a 1945. Passemos ent�o para seu inimigo figadal, Carlos Lacerda. Ningu�m combatia mais o comunismo que ele, que nos anos 50 vivia instigando os militares a acabar com a democracia. Lacerda, no entanto, havia flertado com as hostes vermelhas na juventude, e por isso era fichado na pol�cia pol�tica de Vargas. Os informantes da DPS, que herdaram os arquivos da ditadura anterior, n�o se conformavam com o fato de Lacerda ter mudado de id�ia. Achavam que dentro do peito engravatado do pol�tico apelidado de "corvo" sambava um cora��o no compasso bin�rio da Internacional. De tanto tentar provar a tese, seguiram Lacerda at� a porta de uma igreja ortodoxa russa � aonde ele fora provavelmente fazer campanha eleitoral � e anotaram esse fato num relat�rio, como se fosse algo importante. At� J�nio Quadros, quem diria, estava fichado. Bastou o homem da vassoura chegar � Presid�ncia da Rep�blica e reatar rela��es com Cuba � uma picuinha com os americanos � para que esse "deslize" fosse brandido em relat�rios policiais como prova irrefut�vel de uma rela��o ad�ltera com Karl Marx. Jorge Amado (� dir., ao lado de Lu�s Carlos Prestes): o escritor baiano fez, em O Mundo da Paz, uma ode ao sanguin�rio ditador Josef Stalin. Um funcion�rio da DPS escreveu um longo relat�rio para provar o �bvio: que a obra fazia apologia do regime sovi�tico Havia os comunistas de verdade, � claro, mas estes n�o precisavam de pol�cia pol�tica para investig�-los. Afinal, embora o "Partid�o" estivesse na ilegalidade, a imprensa de esquerda era livre para circular. Era poss�vel lan�ar livros tamb�m. Nos arquivos da DPS, h� um c�mico relat�rio de um informante tentando provar que a obra O Mundo da Paz, do escritor Jorge Amado, era propaganda comunista e por isso deveria ser apreendida. Como ser� que ele percebeu? Ser� que � porque o romancista baiano, que acabava de voltar de uma viagem pelo Leste Europeu, escreveu que o amor pela Uni�o Sovi�tica � o sentimento mais sublime que um ser humano poderia experimentar? Ser� que � porque o sanguin�rio ditador Josef Stalin � citado o tempo todo como um her�i pacifista? Como o pa�s era realmente democr�tico, muito do trabalho dos agentes da DPS consistia em recortar jornais. Um deles, o encarregado de seguir Jo�o Goulart quando este era ministro do Trabalho de Get�lio Vargas em 1953, era particularmente chegado numa tesoura e numa cola de farinha. Tudo o que sa�a no jornal sobre Jango ele anexava a seus relat�rios. At� uma viagem tur�stica a Buenos Aires poderia virar pretexto para um enorme memorando com as mais incr�veis teorias conspirat�rias. Ironia � Qual a raz�o de a pol�cia pol�tica brasileira ter crescido num per�odo democr�tico? "Como a Guerra Fria estava em curso, os americanos adotaram o discurso de que a democracia tinha de engendrar mecanismos de autopreserva��o. Por isso, criou-se a CIA, em 1947, para intensificar o combate � subvers�o que o FBI j� fazia. Os brasileiros seguiram o mesmo caminho", explica o professor Reznik. Traduzindo: a DPS era uma caricatura tapuia da CIA, assim como os comunistas nacionais n�o passavam de arremedo dos revolucion�rios europeus. Nos pa�ses vizinhos, o panorama era semelhante. Os chilenos achavam que era necess�ria uma a��o conjunta dos pa�ses do Cone Sul, a fim de combater o "perigo vermelho", numa a��o precursora da Opera��o Condor, levada a cabo pelas ditaduras militares dos anos 70 e 80. No arquivo carioca h� um memorando datado de 1948, escrito pelo "arapong�n" Lu�s Brun D'Avoglio, chefe da pol�cia pol�tica chilena, propondo uma colabora��o entre os �rg�os similares da Am�rica Latina. A partir da�, instaurou-se uma prof�cua correspond�ncia entre informantes dos dois pa�ses, em que uns avisavam os outros sobre os militantes esquerdistas de passagem em cada pa�s � e tudo ficava por isso mesmo. Documentos vindos do Chile em 1948: foi nessa �poca que come�aram as opera��es interligadas de pol�cias pol�ticas sul-americanas. Essas a��es foram precursoras da Opera��o Condor, levada a cabo pelas ditaduras dos anos 70 e 80 O que n�o tem nenhuma gra�a nesse enredo � que a hist�ria da Guerra Fria acabou se repetindo como farsa tr�gica do lado de baixo do Equador, com a onda de quarteladas bananeiras que varreu as incipientes democracias. Mesmo nessa parte h� um lado ir�nico. Em sua tese, o professor Lu�s Reznik cita o debate que se travou no Congresso brasileiro no in�cio dos anos 50, em que senadores e deputados discutiam qual era a melhor maneira de criar uma Lei de Seguran�a Nacional para vigiar a democracia. V�rios pol�ticos, sem distin��o entre esquerda e direita, enxergaram o �bvio: que se tratava de um absurdo. Um deles era o general Euclydes Figueiredo, deputado pela Uni�o Democr�tica Nacional, a UDN de Carlos Lacerda. Ele achava que o instrumento jur�dico, se mal usado, poderia servir para o fechamento do regime, conspirando contra a pr�pria liberdade que queria manter. "O argumento era poderoso, e v�rios parlamentares o repetiram: a lei de exce��o seria a ante-sala de um per�odo de exce��o", escreveu Reznik em sua tese. O regime autorit�rio veio realmente mais tarde, na forma da ditadura militar de 1964. E o deputado Euclydes, quem diria, teve um filho presidente da Rep�blica na ordem pol�tica que combatera: Jo�o Baptista Figueiredo, o �ltimo dos ditadores de quepe e coturno. |
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